Gay idoso precisa sair do armário?

gay_idosoNa semana passa um conhecido me disse que está passando por mudanças radicais na sua vida e uma delas está relacionada à sexualidade. Assim como a maioria dos gays que chega à terceira idade ele sempre se reprimiu e nunca vivenciou plenamente a homossexualidade e está num dilema para assumir e sair do armário.

Será que realmente é necessário sair do armário na velhice?

A maioria dos gays são cidadãos comuns, não podemos nos deixar influenciar por tudo que vemos nos meios de comunicação. Um gay idoso e famoso saindo do armário é sinônimo de status, mas um idoso desconhecido, morador da periferia é sinônimo de preconceito e bullying.

O gay idoso vive uma realidade completamente diferente daquilo que os psicólogos e especialistas afirmam como sendo um bem maior, porque sair do armário nem sempre é a melhor solução.

O bem maior é estar com a consciência tranquila, ter saúde e viver com dignidade. O gay idoso não precisa sair do armário para ser feliz ou viver uma vida melhor – Para alguns funciona, mas para a maioria não.

Como é que um homem de meia idade pode sair do armário e começar a transição para viver como um homem gay?

Quem viveu mais de 2/3 da vida no armário já se acostumou com essa condição. Na velhice é muito difícil mudar alguma coisa porque estamos assimilados nessa forma de ser e de viver. Sair do armário nesta fase da vida não vai diminuir a sua solidão.

Quando eu vejo os gays idosos entrando no ABC bailão numa quinta-feira à noite, eu vejo homens comuns, bem comportados e solitários procurando diversão. Quem vê percebe que eles não são diferentes do seu pai ou do seu avô e poucos dão pinta porque mascararam a sua sexualidade a vida inteira – pode ter certeza que a maioria desses coroas não saiu do armário.

Sair do armário para quem? Os familiares estão distantes ou não existem mais, os amigos sumiram todos, os colegas de trabalho estão nas lembranças dos gays aposentados. Quem deve saber sobre sua sexualidade? Interessa contar para os vizinhos? Os poucos amigos ou colegas que fazem parte do seu dia-a-dia já sabem quem você é, portanto, pense bem antes de tomar uma atitude definitiva, porque não tem volta.

A saída do armário depende da cultura de cada um, portanto é você quem decide e responde por seus atos. Sair do armário implica numa mudança radical de vida. Existem vantagens e desvantagens. As vantagens estão diretamente ligadas à parte psicológica e as desvantagens estão ligadas à sociedade e suas fobias.

Observe o mundo à sua volta e perceberá uma sociedade composta por cidadãos agindo pela vontade própria, são os autômatos, ou máquinas que não precisam de comandos, portanto, estão vivendo e agindo de acordo com suas vontades.

Hoje, há uma pressão bem menor para que os gays mantenham um padrão heteronormativo de comportamento.

Eu acredito que sair do armário ou se manter fora dele depois dos 50 é simplesmente um ato político, como definiu Teresa, personagem de Fernanda Montenegro, em uma das cenas da novela Babilônia.

Leia também:

Velhice gay: falsas percepções de identidade

Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 23/04/2015, em Comportamento, Sexualidade e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. Afinal se diz algo que os militantes gay detestam: sair do armário. Para muitos homossexuais esconder sua condição é torturante. A identidade sexual é algo muito presente na vida de todos. Há quem diga que os heteros não precisam disto. Falso. As mulheres gastam horas se arrumando, maquiando, para mostrarem sua sexualidade. Homens também exibem sua masculinidade todo o tempo. Por que um homossexual não pode exibir a sua sexualidade então?

    Bem, se lhe incomoda esconder o que você é, o correto é exibir o que você é. E ter o direito de exigir que ninguém, mas ninguém mesmo, o incomode da forma que for por isto. Mas se lhe incomoda que outros percebam? No mundo real o “viado”, com trejeitos é ridicularizado, apontado como anormal. E o que não tem trejeitos? Nem todo homossexual tem voz em falsete e pode ser identificado facilmente. Nunca entendi porque uns mostram sua condição gay e não conseguem, mesmo querendo, esconde-la. E outras se o fizerem ficam ridículos, porque a coisa fica meio forçada. Mas é assim.

    Muita gente, portanto, não quer ser identificado. Notem que os solteirões são muitas vezes vistos como enrustidos, mesmo que não sejam homossexuais, apenas não casaram. Mas se cobra deles que mostrem todo tempo que andam com mulheres. Mas nem todo mundo gosta tanto assim de sexo. E também tem o direito de não serem incomodados.

    E os que não tem “jeito” e, ao mesmo tempo não querem se mostrar, “sair do armário”? Não importa os motivos, ele também tem o mesmo direito de não expor sua sexualidade, como qualquer outro. Irrita-me, e muito, os que exigem que todos os homens que fazem sexo com homem, “saiam do armário”. É tão preconceituoso e intolerante que o faz como são os homofóbicos.

    E os que, como eu, podem ser denominados bissexuais? Bem, este tem uma situação ainda mais delicada. Eu convivi boa parte de minha vida não aceitando bem minha “homobissexualidade”. Quando faço sexo com homem a relação é homossexual e com mulher heterossexual. Quer dizer é de minha natureza ser as duas coisas. Tenho notado com o tempo que os que, como eu, são bissexuais neste sentido, não estão querendo andar nos ambientes onde todos são gays. Não por preconceito ou hipocrisia. Apenas não se sente como parte daquela sociedade. Demorei a perceber isto. Não há ambientes como bares ou praias ou sei lá, onde se reúnam bissexuais. Até porque nós não pedimos ao parceiro eventual que se defina assim. O que nos interessa é que o outro queira fazer sexo conosco.

    Temos a internet hoje, onde podemos encontrar pessoas que nos queiram. As vezes nos arriscamos, pode ser um maluco, pode ser alguém que queira porque queira uma relação mais firme, e pode nos incomodar e ameaçar, enfim há sempre o risco de sermos expulsos de um armário onde não estamos. Pois é, nos não estamos no “armário gay”. E um outro armário, o de uma espécie de sociedade secreta, dos que gostam de homem e mulher.

    Frequento esta pagina porque a parte de mim que é homossexual me faz procurar entender o que se passa. Tenho bastante identidade com aqueles que são apenas homo. E sentimos falta de um lugar para discutir e refletir sobre o que somos.

    Depois de velho resolvi fazer terapia para, entre outras coisas, ver que lugar sexual eu tinha no mundo. Sinto, como todos, falta de lugares onde não me perguntem e cobrem o que sou, como tem os gays. Mas meu processo de auto conhecimento me fez ver que gosto de estar com vários homens e me sentir viado. É, isto mesmo, um homem que curte muitíssimo fazer sexo com outros homens. Não consigo ter o tal “gaydar”, ver um homem na rua e me interessar, de alguma forma saber que ele pode querer-me. Acho que boa parte dos bi são assim. Mas quando encontro com alguém que conheci na internet, não preciso de nada disto. Sei que ele é ativo, que quer ir para a cama comigo e que posso me sentir viado sem ter que sair de nenhum armário.

    Um outro lugar onde podemos ser o que somos é nas saunas. Me parece que a maioria dos frequentadores é homossexual apenas. Há muitos casados com mulheres que escondem delas sua condição, mantém o casamento porque querem ser aceitos socialmente, não querem sair de armário nenhum. É direito deles. Apenas acho complicado porque se arriscam a contrair uma DST e contaminar a esposa, que não sabe o risco que corre. Quem vai a sauna não está a procura de namorado em geral, quer algo masculino, a variedade de parceiros. Então um risco sanitário existe. Daí minha restrição aos homo ou bissexuais que escondem das esposas sua condição.

    Como dizia, na sauna todos que lá estão sabem que você é viado. Que quer sexo. Claramente podem ver se você é ativo ou passivo. E podem ou não fazer sexo com você. Não é necessário mais nada, apenas estar lá. Por isto muitas saunas são de frequência predominantemente de homens casados com mulheres. É o lugar social onde podemos ser o que somos.

    Depois de velhos o que precisamos é ter uma sociedade, seja ela diminuta como uma sauna, onde possamos exercer nossa sexualidade sem ter que dar satisfações ou sair de um armário onde, percebo agora, nunca estivemos

    • Sérgio

      Seu comentário e depoimento enriquecem o conteúdo do nosso blog.
      Obrigado por participar dessa discussão, afinal hoje pelo menos temos um espaço virtual para compartilhar ideias e buscar respostas às nossas inquietantes dúvidas.
      abraço, Regis

  2. abas brasil

    Regis, todos sabem aqui, que tenho por você uma paixão platônica – não o conheço -, mas acalento o sonho de um dia tê-lo bem próximo a mim, um toque, um cheiro, um carinho… Agora venho aqui, elogiá-lo pelo excelente artigo, muito bom!!!… Não acho que uma pessoa precise dizer para ninguém, que é homossexual, que viva a sua vida, sem hastear bandeira, sem jogar confete ou tocar fogos. O sexo é entre quatro paredes, sem alardes.

    • Abas
      Você não é o único que tem admiração por mim, portanto, não se sinta constrangido. Talvez isso ocorra porque ao acompanhar o que escrevo no blog você criou uma imagem do ideal. Tenho mil defeitos e a maturidade molda a minha vida para um me tornar um ser humano melhor.
      sobre o artigo: realmente não precisamos dizer a ninguém o que somos, principalmente na velhice.
      abraço
      Regis

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