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A velhice chegou, e agora?

A cultura gay em transformaçãoCaro leitor, estou aqui novamente para falar um pouco mais sobre a velhice.

O assunto é recorrente por conta dos meus cinquenta e oito anos de idade e das pessoas que fazem parte do meu círculo pessoal e social, além de leitores que sempre escrevem relatando as dificuldades de assimilar esta nova etapa da vida.

Nem sempre percebemos as mudanças porque elas são lentas e as transformações físicas e psicológicas variam de pessoa para pessoa.

No meio gay é comum perceber a senilidade prematura, principalmente nos homens e isso não tem explicação acadêmica, porque o envelhecimento precoce é decorrente de uma série de fatores.

A velhice prematura ocorre por conta do isolamento social, pois a maioria mora sozinha, não tem muitos amigos, não tem companheiro fixo ou relação estável, não tem parentes ou vive distante. Isso vale para ricos e pobres. Outros fatores estão relacionados a problemas de saúde e mobilidade.

O mundo moderno dá aos seres humanos a individualidade e o livre arbítrio, em contrapartida causa efeitos colaterais irreversíveis nos relacionamentos sociais. Viver no armário tanto faz, porque não será o armário aberto que vai mudar o cenário – Isso chama-se Isolamento Social.

Sou homossexual, moro sozinho, tenho poucos amigos, tenho companheiro há mais de nove anos, meus parentes não estão presentes no meu dia-a-dia. Não tenho problemas crônicos de saúde, ainda tenho mobilidade e a minha renda é suficiente para os meus gastos e para ter uma velhice digna.

Eu imagino que numa condição igual ou melhor que a minha, não existem nem vinte por cento dos coletivos LGBT.

É o que eu sempre digo: Quando somos jovens não pensamos na velhice, porque ela está bem distante e poucos plantam para colher no futuro. Isso é comum, principalmente, no Brasil.

Os gays têm dificuldades em aceitar e compreender a velhice, salvo os casos daqueles que gostam de pessoas maduras para relacionamento, pois a convivência de alguma forma ajuda a ter uma visão mais realista da vida dos idosos, mas ainda assim, não é a mesma coisa, porque a velhice é individual e intransferível!

O isolamento social é próprio dos idosos, gays ou não, porque a sociedade nos vê como improdutivos, além da incapacidade funcional porque com o passar do tempo perdemos as habilidades de realizar tarefas que fazem parte do nosso cotidiano.

Ainda assim, não é o fim do mundo. É importante perceber todas as mudanças que acontecem na nossa vida, sejam elas físicas, emocionais e psicológicas.

Alguns sofrem mais, outros menos, mas é necessário colocar em prática tudo o que aprendemos durante a vida e ter objetivos de curto prazo.

A velhice chegou e com ela uma série de questionamentos pessoais, principalmente, quanto à finitude da vida. Com certeza isso vai martelar sua cabeça e se você não dá conta de resolver sozinho e tem condições financeiras, procure um especialista. Na falta do profissional, os poucos amigos podem ser uma solução. Conversar e abrir o jogo sobre o que está acontecendo, para não somatizar em problemas físicos.

Não faça planos de longo prazo, isso já deveria ter sido resolvido no passado. Na velhice cinco anos é muito tempo, é necessário viver HOJE de uma forma simples.

Quer queira ou não você já está vivendo na velhice, mesmo que o seu cérebro seja de um adolescente, o corpo está em transformação e em decadência. Aí é aceitar e aceitar.

1º passo – Cuidar da saúde

Se você não tem doenças crônicas já é meio caminho para um bom envelhecimento, porque ficar com restrições de locomoção é um grande problema.

É preciso criar o hábito de fazer exames anualmente para coleta de sangue e outros exames específicos, com geriatra, dentista, infectologista, proctologista, urologista, ortopedista, pneumologista e cardiovascular. Essa rotina ajuda a prevenir doenças invisíveis e sem sintomas.

O câncer de próstata está entre as doenças que mais dizimam os gays na velhice.

Se você frequentou ou frequenta saunas, fique atento às doenças sexualmente transmissíveis, as DSTs. Os gays têm propensão em adquirir sífilis, herpes, HPV e AIDS.

Se você frequentou bares e boates, fique atento à dependência de álcool e drogas lícitas ou ilícitas, pois tem que ser tratada, senão é problema na certa. Fígado, pâncreas, pulmões e intestino corroído são os problemas mais comuns.

Outro problema comum são as hemorroidas. Não tenha medo, não sofra e faça uma cirurgia.

2º passo – Cuidar da mente

Com o envelhecimento ficamos vulneráveis a situações diversas. Cada indivíduo tem vivencias diferentes e quer queira você ou não, ser gay ou bissexual é um problema porque a sociedade é o inquisidor de plantão.

Se você não tem problemas psicológicos é um sortudo, porque cuidar da mente requer coragem para enfrentar horas intermináveis com um analista, um psicólogo e até psiquiatra. Isso passa necessariamente por sua condição de homossexual.

É possível ter uma velhice digna aceitando-se a si mesmo! Já escrevi que você não precisa dizer para todo mundo sobre suas preferências sexuais e o século XXI permite a você viver sua individualidade sem precisar dar satisfações a ninguém.

Os problemas mais comuns são: ansiedade e depressão e junto com ela vem a melancolia, a tristeza e a sensação de vazio.

3º passo – Cuidar da vida

Você trabalhou a vida inteira para um dia parar de trabalhar, pois bem, chegou a hora de aproveitar e colher tudo o que você plantou.

Depois de cuidar da saúde e da mente, é chegada a hora de cuidar de você. Socialize com os seus pares, busque parceiros para sexo eventual, casual ou quem sabe uma relação estável.

As tecnologias afastam as pessoas do diálogo, mas por incrível que pareça para os gays elas são ferramentas de aproximação, para encontros, flertes e paqueras. Tomando os cuidados necessários para não cair em armadilhas.

Observe o mundo à sua volta e perceba que a vida pulsa freneticamente, seres humanos vão e vem de todos os cantos da sua cidade.

Agora é o tempo de você fazer o que você quiser. Se quer ficar na cama até tarde, tudo bem, mas é preciso estar em movimento, fazer caminhadas, planejar viagens curtas ou longas e criar rotinas mais flexíveis e principalmente fazer coisas prazerosas, como leitura, cinema, teatro e porque não festas, bares, boates, saunas. Vá procurar alguém para compartilhar a vida e o pouco tempo que lhe resta, afinal você já viveu mais de 2/3 do seu tempo neste planeta. 

Os gays levam tantas porradas durante a vida que ficam insensíveis às causas sociais, fecham-se ainda mais no armário, é cada um cuidando da sua vida e não estão nem aí para o seu semelhante, seja ele homo ou não. Eu conheço homossexuais maduros e idosos que vivem uma vidinha insignificante e se acham os maiorais, intocáveis numa redoma de vidro.

Se cada um de nós procurar ajudar o próximo, a começar por nossos iguais LGBT o mundo será melhor no futuro.

O caleidoscópio da homossexualidade masculina 

Caro leitor, a partir do dia 10 de marco estarei em férias retornando apenas após a páscoa. Deixo para você mais um artigo para reflexão.

Circulou nas redes sociais e jornais online a notícia do homem casado por sessenta anos, bisavô que assumiu a homossexualidade para a família aos 95 anos. A história é semelhante ao enredo de filme Toda Forma de Amor com Christopher Plummer, aliás, ganhador do Oscar de ator coadjuvante por esse filme.

Eu já escrevi sobre uma experiência pessoal com o Gumercindo no artigo O taxista bissexual. Guga como era chamado passou quase setenta anos da vida desejando secretamente ter relações com outro homem e mesmo casado, depois viúvo, avô de três netos, consumou seus desejos com este que vos escreve.

Eu, particularmente, tenho convicções bem claras sobre a homossexualidade e penso que é oito ou oitenta. Não é possível passar a vida se escondendo de si mesmo e não experimentar ou porque não, se apaixonar por alguém do mesmo sexo.

No caso do sr. Roman (foto), assumir-se gay há sessenta ou setenta anos atrás era algo impensável e mesmo nos dias atuais ainda não é fácil.

A homossexualidade não se caracteriza por fazer sexo, mas por sentir desejo, atração, querer estar junto, dar um beijo, ser acariciado ou acariciar outro corpo semelhante.

Nos últimos quarenta anos, eu conheci histórias sobre as relações entre homens e sei de incontáveis tipos de relacionamentos, como um caleidoscópio que apresenta, a cada movimento, combinações variadas e agradáveis de efeito visual.

Uma vez um coroa cruzou o meu caminho e queria pagar a minha faculdade e não desejava nada em troca. Ele era um gay idoso, sem família, sem companheiro, enfim, sem ninguém. O homem tinha prazer em fazer o bem e sempre o fazia a gays mais jovens. Não que com essa atitude ele tivesse gozo, nada disso! Perguntei o motivo daquela ação e a resposta foi simples: Me dá prazer e felicidade poder ajudar e quero apenas a sua amizade.

Obviamente, conclui os meus estudos com os meus próprios recursos, mas essa experiência me fez crescer como ser humano

As variantes das relações entre iguais vão além do nosso discernimento. Outro homem gostava apenas de jovens e se contentava em leva-los à sua casa para conversar e servir-lhes água ou refrigerante. Assim, algumas horas se passavam e isso bastava ao coroa para estar feliz. Jurou de pés juntos nunca ter tocado qualquer daqueles jovens, todos menores de idade.Essas ações nem eram fetiches. 

Conheci casais de idosos ou de idosos com maduros que nunca tiveram relação com penetração, alguns satisfaziam-se com masturbação, deitar lado a lado e roçar um corpo no outro, cacete com cacete, um sessenta e nove talvez, e outras formas de prazer.

O que nos define como homossexuais é sentir-se atraído e gostar de outro igual, se apaixonar e amar. Doamos ao semelhante qualquer momento que nos tire o vazio da vida, porque isso já basta para sermos pessoas realizadas.

Em janeiro último relatei aqui no blog sobre os desejos homossexuais reprimidos e o meu encontro com um senhor viúvo desejoso por encontrar um amigo para compartilhar a vida.

Os desejos reprimidos vêm desde a adolescência, alguns jovens gostam de homens mais velhos e o sexo passa longe do objetivo principal.

Muitos querem um grisalho para chamar de seu e nesta frase de conotação possessiva está algo ingênuo e singular, pois no contexto geral esses jovens querem alguém com experiência para ser o professor na arte e no aprendizado do sexo e da vida.

Os sexólogos dizem que só gostar ou amar alguém não basta, isso é doença platônica, porque na essência há a submissão e isso condiciona para o sexo de fato e com facetas de passividade, será?

As nuances da homossexualidade são infinitas e a cada giro do caleidoscópio novas formas visuais se formam, então porque não usar a perspicácia e observar o mundo homossexual com outros olhos, ou melhor, outras lentes, preferencialmente, coloridas?

Há duas situações comuns: Gays que não se aceitam e gays atirados

Se o jovem não buscou parceiros por questões sociais ou familiares, invariavelmente, se casa e constitui família, tornando difícil a vivencia homossexual e quando se dá conta envelheceu e a válvula de escape para tentar recomeçar a vida é a separação ou viuvez. Nunca é tarde para satisfazer os mais íntimos desejos ou aceitar-se como gay, mas o melhor da vida passou.

Se o jovem busca parceiros desde cedo, inicialmente ele é inexperiente na arte do amor e se entrega aos seus homens de forma até ingênua e isso molda sua vida;

Jovens que se jogam no mundo gay são fodidos por seus pares, mamam cacetes de todas as formas e fodem freneticamente seus parceiros, deparam-se com voyers, masturbadores e chupadores. Vez ou outra caem em ciladas de sadomasoquistas e aproveitadores de plantão. Permitem-se usar e serem usados para o prazer, pelo simples fato de que tudo é aprendizado.

A maioria dos gays maduros que tiveram uma juventude plena, com o tempo ficam seletivos, buscam relações mais estáveis e com menos adrenalina. Muitos se apaixonam e sofrem desilusões novelescas e isso muda a forma de ver o mundo e as relações.

Na maturidade já conhece todos os macetes e truques da paquera e experiente não se entrega a qualquer um. Busca pacientemente um parceiro com afinidades, desaparece das baladas e assume a postura de um homem de meia idade com o controle sobre a sua vida.

Prefere ficar sozinho do que ter problemas de relacionamentos e acredita que ninguém muda ninguém e quando se dá conta envelheceu, o tempo passou e a juventude não volta mais. Mas, olha para trás e sorri porque viveu plenamente.

Nessa fase da vida, valoriza os sentimentos sem segundas intenções e prefere a companhia de outro homem para não ficar sozinho, porque na velhice a sensação de vazio é mais frequente. Também, a decadência física gera um misto de impotência e finitude da vida.

Caro leitor, imagine um gay na velhice sem nunca ter tocado outro corpo masculino?

Nós somos carentes e as carências são preenchidas com atenção, calor humano, diálogo, toques e afagos e no fim da vida deseja-se algo simples e não tão complexo como o sexo de fato.

Entregar-se de corpo e alma a um parceiro não é o fim do mundo, entendo ser importante para alguns e desnecessário para outros, bem como, na velhice cada oportunidade deve ser aproveitada com sabedoria.

Se você tem desejos de estar com outro homem, o importante é não passar por essa vida sem experimentar o amor homossexual, seja você casado ou não, com filhos ou netos, não importa!

Também, não dá para passar a vida apenas com desejos e sonhos e não os concretizar, porque fica a sensação de frustração e mais lá na frente arrependimento não resolverá seus anseios, portanto, se você sente alguma atração por homem, não perca tempo, saia do seu quadrado, do conforto da sua casa e arrisque-se numa aventura, afinal o que é a vida senão uma grande aventura!

Como disse o senhor Roman:

Gostaria de alguém com quem pudesse contar. Eu realmente não preciso de qualquer conexão física ou mental. Eu quero ir dormir e ter alguém ao meu lado, não por qualquer outra razão além da certeza de que alguém se importa.

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