Publicado em Sexo, Sexualidade

Os gays que não são gays

hsh

Pois é, o título do artigo parece contraditório ou uma bricadeira, mas é isso mesmo!

No universo da sexualidade tudo é possível, inclusive homens que tem relações sexuais com homens, mas não se consideram gays, neste caso o máximo que admitem é a bissexualidade.

A ideia de negação da verdadeira orientação sexual sempre surge quando alguém coloca em prática uma fantasia que não corresponde à sexualidade assumida porque o contato erótico entre homens não leva necessariamente a uma identidade.

Caro leitor, possivelmente você já teve contato com esse tipo de homem porque é mais comum do que se imagina.

Sabe aquela história de sexo sem envolvimento emocional? Os homossexuais que não se consideram como tal dizem que ser gay é ter sentimento por outro homem, apenas o sexo e o prazer com outro não se enquadra nos padrões da homossexualidade.

É sexo e tesão, uma fantasia e o prazer.

Outro dia eu conversei com um conhecido e ele disse que hoje as variáveis da sexualidade incluem o HSH, homens que fazem sexo com homens e eu nem sabia existir este termo e prefiro mesmo dizer que são gays que não se acham gays.

Os gays dessa categoria se posso assim dizer, não gostam de demonstrações de carinho e afeto, muito menos relações estáveis e mesmo solteiros vivem uma vida nômade e buscam parceiros apenas para sexo onde a relação emocional não dura mais do que uma noite. Nem todos esses ditos, HSH gostam de sexo anal e curtem masturbação e boquetes. Aqueles que experimentam penetração se sentem desconfortáveis.

Eu me recordo de um vizinho português, casado e pai de uma filha. Ele não era gay e nem bissexual, gostava de “brincadeiras” com outros homens mais novos. Os encontros ocorriam dentro do carro e em passeios curtos longe dos olhos da comunidade.

Também, ele gostava da companhia de outros homens para tomar uma cerveja no bar, sair para jantar e obviamente se masturbar ou masturbar o parceiro. Sexo anal com ele nem pensar e ele gostava de trocar de parceiro regularmente porque tinha a necessidade de conhecer e sentir outros cacetes de formas e tamanhos diferentes. Era isso que lhe dava prazer.

Ele chegou a se questionar se era gay, contudo, percebeu que seu desejo não estava relacionado à sua orientação. Quando entrei na vida dele as coisas mudaram, primeiro porque houve a perda da mulher, falecida alguns meses antes, segundo porque ele pensava em se casar novamente, pois a filha já era emancipada e não queria ficar sozinho.

Num dos nossos encontros eu questionei porque ele não se permitia ao sexo anal e ele disse ter medo de virar viado.

Moral da história: Deu o rabo e virou viado, pois alguns anos mais tarde eu descobri que ele estava morando com outro homem e que ele era o passivo na relação. Também, não quer dizer que deu o rabo assumiu a homossexualidade. O que ocorreu foi se permitir aflorar os sentimentos por outro homem.

Isso demonstra que não se sentir gay pode ser transitório porque os cenários mudam constantemente e dependem de inúmeras situações e circunstâncias.

Hoje os relacionamentos estão abertos e com amplitude além do convencional. Apesar dos tabus, preconceitos e machismo cada vez mais homens estão dispostos a viver os relacionamentos e a sexualidade de outras formas, além dos modelos tradicionais.

Minhas vivências homossexuais me permitem dizer com segurança: Transou, brincou, masturbou outro homem, mesmo sem anal, é gay ou bissexual e fim de papo.

Publicado em Memória, Sexo, Sexualidade

Um garoto gay vindo do interior

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A vida dos gays sempre foi difícil, principalmente, para aqueles que residem em cidades do interior do país.

Movidos por um desejo de liberdade e para fugir da família e da homofobia, a maioria migra aos grandes centros, principalmente, Rio de Janeiro e São Paulo,

Isso não é um fenômeno recente e ocorre desde os primeiros anos do século XX. Pesquisando observei que quase não existem registros do século XIX no Brasil, principalmente relatados pelos homossexuais.

Lendo o livro: Frescos Trópicos, encontrei um registro interessante que compartilho com os leitores.

Resumo rápido do meu passado:

Foi em 1927 que eu fugi de uma cidade linda do interior chamada São Carlos, cidade onde eu, garoto ainda, cheio de ideias tolas, pensando em um mundo de belezas e de gozos, já via que era possível satisfazer os meus desejos. Fugi, então, para a capital que eu julgava ser um pedaço de Nova York, que costumava ver em filmes e que eu via sempre em fotografia, com a sua beleza artificial.

De fato, achei-a linda, movimentada, buliçosa, quando a vi de perto.

Cheguei e tratei logo de colocar-me, sem a ajuda de parente nenhum, tendo conseguido o lugar de ajudante de limpeza em escritórios e apartamentos.

Nesse emprego eu notava, porém, a delicadeza e a bondade interesseira dos requintados donos dos apartamentos e dos escritórios, sendo que diversos desses senhores tinham o cinismo de dizerem a mim: “Você, garoto tão bonitinho, querendo morar por minha conta, não precisa mais trabalhar. Garoto bonito em São Paulo não precisa sacrificar-se tanto assim”. E eu timidamente esquivava-me, sem lhes responder sequer uma palavra.

Mas aquelas palavras ficavam em minha memória; palavras aquelas que seriam, mais tarde, a minha desgraça e que me tornariam um defeituoso físico e um defeituoso moral.

O tempo ia passando e eu com o tempo fui compreendendo todos aqueles senhores interesseiros. Um deles, o mais incansável, um senhor já dos seus 40 anos, queria, por toda força, deturpar-me, comprando-me presentes lindos, dando-me dinheiro que eu nem sabia em que gastar.

Mas, se eu os aceitava, era porque já estava cedendo a ele o que ele desejava.

Foi então, isto já era principio de 1928, que numa noite ele agarrou-me e beijando-me com frenesi e minha boca virgem, fez com que eu tivesse a impressão de que se desmoronava tudo em mim. Ao seu calor, ao sentir os seus lábios quentes que colaram aos meus, entreguei-me de corpo e alma e ele fez de minhas carnes ainda jovens o que entendeu que devia fazer.

Eu poderia resistir por mais tempo, sem fazer esta loucura…Mas o beijo em minha boca… Senti que era incapaz de defender-me de suas garras.

No fim desse ano de 1928 voltei para a minha cidade, sendo que lá não pratiquei nada dessa maneira de gozar com homem, devido estar perto da minha família. Não esqueci porem, aquele gozo emocionante, o gozo de um homem saciar-se de minhas carnes e eu saciar-me daquele membro que já tinha manchado a minha mocidade de rapazinho.

Chegou 1930. De novo volto à Paulicéia e já bastante saudoso, comecei a prostituir-me com todos os homens que me faziam a corte. Tornei-me vaidoso, chegando ao ponto de julgar-me mulher. Já depilava as sobrancelhas, empoava-me, passava batom nos lábios e saia para a rua à cata de homens, que logo me seguiam. E não era um, eram muitos.

Escolhia, então, aquele que mais me agradava e continuava eu a fazer de minhas carnes o mesmo que fazem as mulheres que vendem o seu corpo. E fazendo os meus castelos de ilusões, ia, eu mesmo, atirando-me cada vez mais no lodo, este lodo mais do que podre, imundo.

Em 1931, embarquei para o Rio de Janeiro. Lá chegando, todos admiravam a minha juventude e todos queriam gozar nela.

Fui morar numa hospedaria, onde eu recebia os pederastas ativos. Nessa mesma hospedaria moravam dezenas de passivos. Alguns já velhos; outros doentes, quase podres em vida; outros gozando do bom e do melhor, enquanto alguns, sem roupa para vestir, eram obrigados a pedi-las emprestadas.

Havia dias que eu recebia tantos homens, que o meu ânus ficava tão dolorido, a ponto de precisar banhar-me em água quente e sal grosso, a fim de poder estar bom à noite para recomeçar a vida que eu gostava tanto e a minha cabecinha oca achava que aquilo era uma coisa do outro mundo!

Chegou o ano de 1932 e fiquei doente, mal de vida, tendo, porém, a sorte de restabelecer-me logo.

E cai, de novo, na farra, com mais sede ainda, porque tinha ficado dois meses longe do mundo, longe dos membros que me davam tanto prazer, tanto gozo. Começou, então, para mim, aquilo que eu tinha deixado por estar doente.

Passava o tempo, passava, também, a minha juventude.

Uma ou duas vezes por mês eu tomava de dois a três dias de prisão. Nesta eu ficava quase sem comer, só me alimentando de água e pão, por não querer me alimentar com comida de preso.

As tristezas e as desilusões já estavam aparecendo em minha vida. Porem, eu sempre firme, resistia a tudo. Nada me desacoroçoava e nada fazia com que eu abandonasse esta vida.

Volto para São Paulo em 1933. De novo a mesma vida, agora mais sossegada, por não ter aqui tantos pederastas ativos como no Rio.

Procurei, então, o meu homem, que tinha feito em minha carne a vacina da pederastia, da desgraça e da desonra.

Ele cinicamente pegou no meu membro, fez com que ele se endurecesse e exigiu, depois, que eu colocasse no seu ânus. Eu, então, gozei nele e fiquei boquiaberto ao perceber que havia me entregado a um homem que não era completamente macho e que era, sim, um passivo como eu. Compreendam-se esses homens, pensei eu.

Sai da cidade, fui para Santos e voltei de novo para esta Paulicéia querida, onde vivi o ano de 1937 e estou vivendo agora o de 1938.

Não tenho mais amado a mais ninguém. Nem quero amar; estou farto. Quero a liberdade.

Prisão, só quando o delegado de costumes quiser me ver e, então, fico lá alguns dias, guardando, sofrendo, pagando os meus pecados e ainda alguns pecados de meus antepassados, que foram barões e baronesas, ao passo que eu sou simplesmente um passivo sem remédio e sem esperanças de deixar de ser repudiado; eu sou Zazá das noites quentes ou frias desta Paulicéia querida!

Estou com 24 anos e acho que estou envelhecendo antes do tempo, devido às muitas prisões injustas, amores loucos e desenfreados que eu tive para poder cumprir o meu destino e sentir o que as mulheres sentem, isto é, o prazer de gozar com o membro do homem, o membro que ainda adoro como adoro a minha liberdade.

Nota: Este relato é um dos raros registros escrito por um homossexual daquelas décadas para um psicanalista.