Publicado em cotidiano

Observando o cotidiano dos gays

museu clara nunesCaro leitor, desde o começo de outubro eu estou definitivamente aposentado e já iniciei uma nova etapa da minha vida sem os compromissos, principalmente com o relógio. Nada de correria ou preocupações demasiadas com as responsabilidades do trabalho, pois desde os meus quinze anos eu não sabia o que era ficar mais de dois ou três meses sem trabalho e no último deles passei quase trinta anos.

Nesta nova fase eu ouvi do meu companheiro o seguinte:

Agora é a hora de aproveitar a vida sem pressa, observar os detalhes do cotidiano e cuidar da saúde porque sem ela nada é possível.

Confesso que a situação é nova, mesmo eu esperando há mais de dez anos por este momento. Agora sou um gay aposentado e diferentemente de outras gerações eu percebo que a minha está mais preparada para viver a velhice com dignidade.

A homossexualidade não é empecilho para realizar outros sonhos pessoais. Eu sei que daqui para frente o tempo passará lento, mas quando eu perceber decorrerá uma década.

Outro dia numa conversa com um vizinho, eu pude observar como a vida do gay idoso não é fácil. Imagine então sendo gay, judeu e com idade beirando os 65 anos?

Ao ouvir atentamente o que o meu interlocutor dizia, o que ficou evidente foi a solidão, não física, mas emocional, porque ele tem um bom padrão de vida, mas não tem relacionamento estável, é de poucos amigos e passa os seus dias entre os afazeres do prédio e algumas saídas para um café nas tardes solitárias de São Paulo.

Não é isso o que eu quero para mim e aos poucos vou me enturmar e fazer trabalho voluntário com pessoas LGBT porque é necessário retribuir à sociedade as minhas conquistas.

Existem gays que se isolam porque durante a vida sofreram repressão da família e da sociedade e este isolamento é uma forma de vingança que não leva a nada.

Hoje mais do que nunca eu sou um observador do cotidiano das pessoas e particularmente dos gays. Quando eu tinha 21 anos a AIDS assombrou o mundo e toda a comunidade homossexual. Passados quase quarenta anos eu me pego a pensar sobre os sobreviventes dessa doença terrível e vez ou outra eu encontro gays da minha geração vivos e saudáveis.

Ontem caminhando numa Rua de São Paulo encontrei um deles e fiquei feliz, primeiro por reencontrá-lo e segundo porque ele me disse que após o advento do HIV a sua vida mudou completamente a começar pelo comportamento na busca por parceiros. A promiscuidade tão falada no nosso meio deu lugar a escolhas pontuais e relacionamentos saudáveis e verdadeiros, o que o fez sumir dos guetos para viver a sua vida e hoje com sessenta anos ele nem pensa mais naquilo e eu disse ser importante jamais esquecer os acontecimentos do passado porque aquilo foi uma verdadeira tragédia não anunciada.

É preciso refletir com cautela sobre a finitude da vida e o nosso papel neste mundo, seja para não fazer nada na velhice ou preenche-la com coisas boas e saudáveis. Eu gosto de viajar e desde outubro ainda não parei uma semana em casa. Já rodei por Londrina e Maringá e recém cheguei de Belo Horizonte e cidades históricas mineiras, além de uma visita especial à cidade de Caetanópolis e Cordisburgo terra de Guimarães Rosa.

Fica a dica:

Ao pessoal da minha geração que curtiu a cantora Clara Nunes eu recomendo uma visita ao seu Instituto e Memorial na cidade de Caetanópolis em Minas.

clara-nunes1

 

Publicado em Comportamento, cotidiano, Saúde

Grisalhos: balanço 2016

O mês de dezembro chegou com o Dia Mundial de Luta Contra a AIDS. Eu sempre gosto de registrar esta efeméride porque quem viveu os anos 80 sabe que não foi nada fácil.

Dezembro é um mês dos mais esperados por todos, por marcar o fim de um ciclo regido pelo calendário gregoriano. É especial por conta das festas natalinas e apesar de ser uma festa cristã, associamos ao início do período de férias e de festas pagãs.

Eu, particularmente, gosto porque há mais de trinta anos eu não trabalho entre o Natal e Ano Novo e sempre é possível programar alguma viagem mais longa.

Para a maioria dos gays, principalmente, os jovens este é um período de muita ferveção por conta do início do verão nos trópicos. As praias ficam lotadas e nas areias escaldantes corpos seminus desfilam ao som dos sucessos do momento. Do calçadão das praias aos bares e boates, tudo é motivo para diversão e paqueras.

Os cenários se transformam, com mais luz, beleza e muito colorido. É tempo de roupas e alimentação leves e muita descontração, pois há dezenas de opções de lazer com novos points que nascem e morrem ao fim do verão.

Este também é um período propício para os gays maduros e idosos saírem dos seus casulos e irem para as ruas. Aqueles que estão solteiros tentam socializar e interagir com o mundo. Já os casados aproveitam para fazer em pouco tempo tudo o que não fizeram o ano inteiro.

Por incrível que pareça é neste mês que as saunas ficam lotadas, quando deveria ser justamente o contrário. Os adeptos das saunas não estão nem aí com o calor quase insuportável e a maioria vai mesmo para caçar e encontrar um parceiro para sexo. Dizem que sauna boa é aquela que tem o maior número de homens por metro quadrado.

Dezembro é o cenário perfeito para encontrar um grande amor. É mês das paixões avassaladoras, dos romances fortuitos e dos flertes escancarados. Do outro lado da janela os beijos quentes e molhados unem casais entrelaçando corpos e fulminando corações.

Este é um período de otimismo por dias melhores, menos preconceito, mais tolerância e aceitação da sociedade por nossos desejos homossexuais. Dentro ou fora o armário, os gays vivem um processo de auto reconhecimento e procuram vivenciar com os seus iguais suas angústias e suas identidades.

Balanço

Quando o ano iniciou fiz planos, mudei velhos hábitos e descortinei sonhos e desejos. A cartomante previu maravilhas, pois viado que se preze consulta os magos para garantir ano bom.

Para mim o ano começou depois do carnaval, pois os velhos já não faziam parte do meu presente e na ausência gélida dos sons das marchas, aguardei o fim da folia para sair de férias.

Este ano a melhor parte ocorreu em março, viajando de carro entre São Paulo e Diamantina nas Minas Gerais. Eu queria conhecer o Parque Estadual do Biribiri e lá me senti no céu. Lugar simples típico do serrado de comidas caseiras lá para as bandas da terrinha da Chica da Silva.

Durante dez dias não me deparei com nenhum gay, jovem, maduro ou idoso e olha que passei por Belo Horizonte, mas não fui aos points da cidade porque queria me descolar dos vícios antigos de observar homens bonitos de outras paradas, aliás, vi um grisalho sim, no mercado municipal de BH, estava sozinho tomando um café expresso e com a cara enfiada num jornal. Belo visual, mas ficou só nisso.

Depois de abril a vida seguiu rotineira. Trabalho, casa, chácara e raras visitas a amigos e familiares. O primeiro semestre foi quase sabático e quando setembro chegou eu já estava aposentado.

A sensação da velhice é estranha, mas não é o fim, pois a partir de certo momento a vida desacelera e passa lenta. Felizes os amantes que nessa idade tem um companheiro, um amigo ou amante. Hoje sei como é importante ter alguém para compartilhar os momentos tão aguardados durante toda a vida.

Das coisas banais, comprei meu primeiro brinquedo e olha que não é sexual. Lá na chácara estou aprendendo a pilotar um drone. Outro dia alguém falou: Isso não é coisa de viado!

Também, foi no meio do ano que decidi vender todo o meu acervo de filmes temáticos. Reativei o grisalhos.com.br e montei uma loja virtual.

Ao longo do ano foram centenas de filmes vistos e revistos. Do desconhecido, uma luz entre Oceanos ao último poema do Rinoceronte. Dos polêmicos Spotlight e o Clube. Pedofilia de padres católicos nos Estados Unidos e no Chile. Corra lá na loja que ainda tem algum exemplar à venda.

Este ano eu e o meu companheiro passamos ilesos de doenças, mas para não passar em branco resolvi fazer implante dentário e se soubesse que não era complicado e doloroso já havia feito antes.

Enfim, vida de gay é igual à vida de todo mundo. Me surpreendi com alguns exemplos de superação e olha que superar homofobia é uma vitória. Um amigo perdeu um amigo que perdeu outro amigo. Na roda viva da vida ficamos entre a cruz e a espada.

Eu vivo tempos de rever velhos conceitos e adaptá-los aos novos tempos. A homossexualidade no envelhecimento constitui um assunto contaminado por preconceitos sociais, culturais, familiares e até mesmo pessoais.

O meu ano foi assim, observando o cotidiano e buscando entender o quanto somos ignorados, além de marginalizados e sempre esperando por dias melhores.

Notas: Este foi meu primeiro post escrito 100% via smartphone .

A imagem que ilustra esse artigo é de Raphael Perez, artista israelense