Publicado em Curiosidade, História

Grisalhos, oito anos de labuta e diversão 

 

Num final de tarde ensolarado do dia 22 de janeiro de 2009, eu formatei o primeiro texto para publicá-lo neste blog. Era um artigo do teólogo canadense Gregory Baum.

Desde aquele dia até os atuais foram mais de setecentos e cinquenta textos e um trabalho que completou oito anos. Há registro de quase três milhões de leituras.

Eu sempre gostei de escrever, é uma forma de externar os meus pensamentos e não imaginava a repercussão e a abrangência dos meus escritos.

Dos confins de Angico dos Dias, na borda do Parque Nacional da Serra das Confusões, entre o sertão baiano e o Piauí, até terras de além-mar, como Portugal e Espanha e com muro ou sem muro, Canadá e Estados Unidos.

Sou crítico de mim mesmo e fico plugado nas notícias ou tudo o que envolve a homossexualidade. Aproveito cada momento com pessoas conhecidas, amigos e até parentes para observar pontos de vista, comentários e principalmente, como as pessoas veem a questão. As neuroses e medos dos próprios gays, suas frustrações, tristezas e alegrias.

O blog é um repositório de ideias sobre o universo dos gays maduros e idosos, mas como eu não faço distinção, muitos temas atraem também os jovens. Isso é ótimo! Renovação constante!

Os textos já foram utilizados como fonte de pesquisa para trabalhos acadêmicos, cinema experimental, jornalismo, sociologia, temas de revistas e televisão.

Recentemente fui procurado por uma pessoa da TV Globo, mas esse não é o objetivo deste trabalho e também porque não almejo visibilidade.

São as paixões e não os interesses que conduzem o mundo

Alain Guzman (1868-1951), compositor e músico português.

Eu quero continuar escrevendo coisas do cotidiano e sobre experiências pessoais, para contribuir e auxiliar outros gays, fomentando a discussão. Também, os textos ficarão registrados no ciberespaço para as futuras gerações.

Incontáveis fatos e historias dos últimos oito anos me motivam pesquisar, conversar com pessoas, ouvir histórias e mesmo com erros e acertos, trazer ao leitor a minha visão simples sobre a realidade dos gays.

Através deste cantinho eu colecionei algumas amizades, de longe e de perto, porque de alguma forma, todos os leitores mais assíduos são  meus amigos.

Quem diria que um dia as ciências psicológicas e antropológicas descobririam que a orientação homossexual não é nem uma doença, nem uma perversão da natureza?

Pois é! Labuta e diversão

Vida que segue…

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Publicado em História, Memória

Cinzas do Paraíso gay

blog_grisalhos_paulistanos_gayCaro leitor, enquanto reviso e finalizo a terceira parte do artigo intitulado “não sou homossexual”, vou preenchendo este espaço com outros escritos, para trazer minhas ideias aos leitores e não dar a impressão de que estou abandonando o blog.

O mundo está completamente diferente daqueles tempos da minha juventude e a liberdade individual é o único diferencial positivo para os homossexuais. As tecnologias chegaram com perspectiva revolucionária. Entretanto, as utopias sociais do passado não mudaram. Basta observar a constante luta pela igualdade, união estável entre pessoas do mesmo sexo, preconceito, religião, novos conceitos de família, etc.

Os jovens gays do presente serão os idosos de amanhã e talvez em 2055 a sociedade brasileira esteja noutro patamar, mas a vida desses jovens não será diferente da minha ou da sua.

Chegar às portas da terceira idade é um processo que muitas vezes passa despercebido por todos, porque como dizia um falecido amigo: Quem vive intensamente a juventude e a maturidade não têm tempo de pensar no futuro e quando se der conta o tempo passou e virá o tempo das memórias e das histórias para contar.

Hoje aos 57 anos eu posso afirmar: Vivi a juventude e a maturidade plena. Desde os idos de 1975, lá se vão mais de quarenta anos. Puxa vida! Quando eu penso nisso é que me dou conta da dimensão desses quarenta anos. As transformações da sociedade são impressionantes!

Quando jovem eu imaginava o futuro como as ficções vistas nos cinemas dos anos 70 e até tive devaneios com robôs gays saciando o meu desejo homossexual. Mas cá estou, sem robô viado e com os pés fincados no chão de terra da chácara no interior.

Naqueles tempos os jovens tinham dezenas de opções de lazer no circuito do entretenimento. Os gays sempre foram atraídos principalmente para as baladas noturnas porque foi assim que a sociedade os confinou nos guetos.

Dos males o menor, porque nos guetos surgiram as boates e a oportunidade de vivenciar a homossexualidade, aprender os truques da paquera e ter contato com um mundo repleto de pessoas iguais a você.

As boates fervilhavam na cidade de São Paulo e a diversão era marca registrada da juventude. Dançar, beber, paquerar e procurar o seu par no meio da multidão é o que todos buscavam e ainda buscam nos dias atuais.

Pouca gente sabe, mas até o Freddie Mercury foi ferver na boate Homo Sapiens em São Paulo, quando esteve pela primeira vez no Brasil em 1980.

Com o surgimento da AIDS houve um retrocesso na cena gay, mas simultaneamente os primeiros movimentos sociais LGBT tomavam forma e se organizavam para abrir as portas para as novas gerações e aqueles personagens pioneiros hoje ainda vivem e estão na mesma faixa de idade ou mais velhos do que eu.

Que fim levou Zezinho? Estudante de filosofia da Faculdade São Bento, sumiu depois de 1980. Januário era companheiro das baladas dos finais de semana e sonhava ter um marido maduro e grisalho. Foi para a Itália em 1982 e nunca mais tive notícias. Pedro e Luís Alberto eram carne e unha, até a maconha era dividida. Pedrinho morreu de overdose de cocaína e Luís sumiu no mundo.

Foi assim com Odair, Ricardo, Lauro, Joãozinho, Carlinhos e tantos outros. Às vezes tenho a impressão de que sou o único sobrevivente gay de um holocausto nuclear.

Eu tento ser ativo no meu contexto social, mas raras vezes encontro um conhecido daqueles tempos de ferveção, mesmo sabendo que dezenas deles morreram doentes e esquecidos no tempo.

Os sobreviventes que como eu conseguiram navegar naqueles mares tempestuosos estão isolados num admirável mundo novo de tecnologias que facilitam a vida e a comunicação, mas em contrapartida geram indiferença nas pessoas, pois cada um está vivendo no seu mundo particular, em redomas de vidro, com seus pets de estimação.

Talvez eu esteja errado, porque sempre tenho a sensação de que os meus amigos e conhecidos estão desaparecidos. Eu perdi o contato com a maioria, porque cada um seguiu seu caminho e a cena gay se espalhou pela cidade e desembarcou em todos os espaços públicos.

Os poucos gays com quem tenho contato falam pouco ou quase nada sobre homossexualidade, até parecem heterossexuais.  Tenho a sensação de inércia e acomodação dos gays maduros. Claro, não dá para ser rebelde a vida toda, isso é coisa para os jovens e nem os jovens dessa geração y ou z está interessada em rebeldia.

Também, ficamos seletivos e sossegamos o facho. Às vezes vem a vontade de sair à noite para dançar na boate, mas algo diz para deixar para lá, porque hoje sou um senhor de bigodes e cabelos brancos e vivenciei muita discriminação no meio gay.

O dia-a-dia é algo até surreal, porque antigamente você olhava para outro homem e se fosse heterossexual abaixava os olhos, senão era ir fundo na paquera. Hoje olhar para um homem não dá em nada e mesmo que ele seja gay não dá a mínima para você, ou talvez não dá atenção porque não sou jovem?

Hoje há muito respeito à individualidade, seja no elevador do prédio onde moro, seja no transporte público e mesmo na rua. Não tem graça andar de mãos dadas com o companheiro porque ninguém não está nem aí. Noutros tempos isso era motivo de prisão, atentado ao pudor. Hoje o máximo é um arranca rabo, bate boca e fim.

Aqueles viados dos anos 70 e 80 eram verdadeiros heróis da resistência, quebrando regras, levando porrada da polícia e sendo presos por mera questão de atentado à moral e bons costumes.

Outro dia eu fui ao supermercado perto de casa e ao atravessar a rua um velho conhecido passou por mim de carro, desacelerou, acenou e foi embora, nem deu bom dia. Viado esnobe!

Antigamente, os vizinhos de prédios residenciais compravam binóculos para observar as janelas dos outros. Hoje você pode ficar pelado na janela, pois ninguém está interessado na curiosidade, porque não há nada de novo nisso, o pudor ficou no passado.

A última vez que eu fui ao Shopping Center observei um casal gay, ambos jovens e de mãos dadas e até as mães mais conservadoras não deram atenção, porque isso é corriqueiro e já virou carne de vaca nas novelas das oito – Para uma centena de leitores de língua inglesa, carne de vaca é uma gíria brasileira para coisa comum, vulgar, banal.

Observando as redes sociais não encontro nenhuma biba bombando no Twitter, Facebook, Instagram ou Snapchat e lembrar da bicharada enfrentando a polícia, levando porrada e sendo trancafiada nas delegacias era motivo para ter a foto estampada nas páginas policiais dos jornais da cidade.

Hoje todos querem o seu minuto de fama, tão efêmera quando os fragmentos das minhas lembranças transformadas em cinzas daquele paraíso gay fervilhante, indescritivelmente belo, de músicas pulsantes, corpos suados, aromas e sabores, luzes e cores, lantejoulas, plumas e paetês.

Enfim, envelhecer e ver o mundo mudar é algo assustador, mas não é o fim. Adaptar-se às mudanças está na nossa natureza. Quem viveu, viveu, não volta mais!

Caro leitor, viva intensamente cada momento para preencher o livro da sua vida com histórias maravilhosas, porque isso é o que importa e os resto são cinzas.

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A homossexualidade no Brasil no século XIX

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Largo do Rocio no fim do século XIX

Caro leitor, eu sei que este artigo talvez não cative a sua atenção, mas é sempre bom conhecer um pouco sobre a homossexualidade em tempos passados para entendê-la no tempo presente.

Escrever sobre a homossexualidade de épocas muito distantes é um tanto quanto complicado. É necessário pesquisar, ler, abstrair, etc. Também o tema é amplo e tentei resumir os principais tópicos.

Enfim, sobre o século XIX no Brasil e mais especificamente nas capitais, sabe-se que marcou de forma profunda a sociedade brasileira devido às mudanças estruturais em grandes centros como Rio de Janeiro e São Paulo.

Os hábitos sociais foram objetos de atenção das ciências, que se voltaram com o propósito de compreendê-los, estudá-los e controlá-los, fazendo surgir as categorias de normalidade ou anormalidade, principalmente no campo sexual.

A homossexualidade ganhou destaque quando surgiram pesquisas científicas procurando nomear e classificar as variações sexuais, logo marcadas e rotuladas como desvios ou patologias.

Contudo, essas mudanças que ocorreram no século XIX não se referiam a todas as práticas sexuais e vários segmentos sociais foram arrolados como pervertidos, degenerados e desviantes, já que ameaçavam a normalização médica, cujo período higienista estava em curso.

A homossexualidade passou a ser vista como sinal de degeneração, surgindo um julgamento moral, dos discursos religiosos, jurídicos e médicos. Todos esses discursos serviram para criar o estereótipo homossexual..

Embora o discurso fosse rude e pouco encorajador, face às reações e consequências sociais e legais, a prática homossexual era algo amplamente difundido naquele período como ações marginalizadas, já que o que não é aceito é reservado ao silêncio, à obscuridade e ao anonimato.

Em vários locais públicos, como parques e praças, os homens que buscavam relações sexuais com outros homens encontravam-se para fazer sexo. No Rio de Janeiro, o largo do Rocio, atual Praça Tiradentes(foto) foi célebre por ser o lugar onde à noite reuniam-se os pederastas passivos à espera de quem os desejasse e os possuísse.

Existiam lugares que eram bastante frequentados por homossexuais, tais como portas dos teatros, cafés, restaurantes, bilhares, botequins, portarias de conventos, escadarias de igrejas, casas de banho, além dos já citados parques e praças, o que dá ao leitor uma ideia da ampla rede de relações homossexuais que existia naquele período.

A situação ficou tão comum e isso causava  aversão às classes médica, jurídica e religiosa, que foi necessário importar prostitutas da Europa, na intenção de conter as práticas homossexuais..

As relações homossexuais na Marinha eram generalizadas e chamadas de amor de marinheiro. Essa relação não se dava entre iguais, envolvia relação de hierarquia funcional, hierarquia de idade, hierarquia de experiência, apesar de serem consideradas faltas graves e punidas com chibatadas.

Além da Marinha, no Exército as práticas homossexuais também eram muito difundidas. Embora as práticas acontecessem com mais frequência em comunidades fechadas, como o Exército, a Marinha, conventos e colégios internos, devido ao distanciamento social e da reclusão de pessoas do mesmo sexo, sua ocorrência não era restrita a esse ambientes.

A prática da homossexualidade, também acontecia em ambientes refinados e intelectuais, como o corpo diplomático, o magistério, o funcionalismo público e o meio dos literatos e poetas.

Já entre as classes mais baixas, os encontros casuais ocorriam nos bairros pobres das cidades e o sexo era praticado em lugares ermos, matagais e longe dos olhos das comunidades. Há relatos orais de praticas sexuais em quintais, matadouros, sítios e chácaras distantes. Algumas vezes os pederastas eram flagrados em pleno ato sexual. Imagine a cena!

Nesse contexto social, a homossexualidade era praticada mais por instinto e desejo do que por amor e afeição. Da solidão e isolamento das periferias os homens de classes mais pobres passaram a migrar para o centro das cidades devido à facilidade e maior probabilidade de encontros em locais públicos, bem como, para fugir dos olhares críticos dos conhecidos e vizinhos.

Essa corrente migratória misturou as classes e o sexo homossexual quebrou barreiras sociais e colocou os homossexuais no mesmo balaio, frequentando os mesmos lugares. Este modelo se espalhou para as demais capitais brasileiras e a interação entre os pederastas colocou frente a frente, a burguesia e a plebe, os fidalgos e os escravos, uma mistura tipicamente brasileira, ou universal?

Já nas primeiras décadas do século XX esses locais centrais das cidades demarcaram territórios e que hoje conhecemos como guetos, mas isso é outra história.

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Bar, Boate e Clube Off

off_espaçoQuem viveu os anos 70 na capital de São Paulo, participou das transformações sociais ocorridas na cena gay entre 1978 e 1990 – Do gueto gay do centro velho da cidade ao mercado LGBT das baladas que surgiram na região dos jardins.

 Eu tive o prazer de conhecer um dos lugares mais emblemáticos e chic da cena gay paulistana: O Clube Off, considerado o primeiro prive gay da cidade.

 O local foi aberto no final dos anos 70, mais especificamente em 1979 por Celso Curi, que havia sido editor da Coluna do Meio, no jornal Última Hora e que participou também do jornal Lampião da Esquina.

 Localizado na Rua Romilda Margarida Gabriel, 142, perto da esquina da Avenida 9 de Julho com Rua São Gabriel no Itaim Bibi, o clube fez história na cidade, mesmo localizado fora do circuito do centro velho onde ocorria a afluência de homossexuais naquele período.

 Originalmente era simplesmente um bar com uma pista de dança, conforme palavras do próprio Celso era um local onde não se pedia atestado de sexualidade, mas acabou se transformando num bar gay, porém muito frequentado também por não gays.

 Era um lugar legal e eclético, o Off fez parte da vida de muita gente importante e também de anônimos como eu.

 Eu estive lá pelo menos umas três vezes com amigos que vinham do Rio de Janeiro, única e exclusivamente, para ir ao bar.

 Lembro-me da primeira vez e foi mágico!

 Eu entrei naquele lugar no verão de 1980, por intermédio de um amigo que tinha convites prives. Na hora em que aquilo se abriu fiquei deslumbrado, era uma boate pequena e tudo era forrado de veludo vermelho, era pequeno e amontoado de gente, um monte de mulheres, homens jovens e maduros, bonitos, todos perfumados, bem vestidos, era uma espécie de esconderijo da burguesia gay.

 Quando finalmente achei o bar foi um abre-te sésamo. Porque naquele lugar descobri que tinha centenas de pessoas como eu. Até hoje recordo das duas letras “ces” em neon, imitando os da Coca-Cola numa das paredes do bar.

 Naquela noite foi tudo hipnótico, durante horas eu só olhava, não fiz nada, não falei com ninguém, fiquei catatônico, observando o local e as pessoas. Homens se relacionando afetivamente da maneira que eu achava totalmente proibida. Eu fiquei literalmente hipnotizado durante horas, só olhando, percebendo que aquilo existia.

 O Clube Off foi mais um acontecimento na minha vida, pois comecei a sentir que ser gay era pertencer a uma sociedade secreta, era ter passe livre para um universo muito mais interessante, mais colorido do que todo mundo via.  Aos vinte e um anos de idade eu confirmei que existia um mundo gay além de tudo o que eu conhecia dos guetos do centro velho da cidade, mesmo tendo conhecido a Boate Medieval na Rua Augusta pertinho da Avenida Paulista.

 No turbilhão dos anos 70 e 80, eu ia às festas, experimentava coisas, olhava gays dançando de maneira extravagante e ninguém que eu conhecia fazia coisas divertidas quanto eu, então foi muito interessante fazer parte daquele clube fechado.

 No auge da casa, a procura era tanta que o dono da Off chegou a desenvolver artifícios para restringir o seu público. Para entrar, as pessoas faziam uma carteirinha, pagavam uma taxa por ano, tinham de ser indicadas por outras cinco pessoas. Assim, selecionava um pouco a frequência. Claro que tinha gente que chegava de fora da cidade e entrava e se você fosse bonitinho era mais fácil. Esse foi o mote para o lugar ser chamado de Clube Off, uma coisa particular e privada.

 O fechamento da boate Off ocorreu devido à expansão da cena gay em São Paulo e à virada do mercado de consumo LGBT. Aliás, teve tantas boates gays que surgiram e desapareceram que nem dá para detalhar e quando lembro de alguma eu trago aqui no blog.

 Off deixou saudades, pois era algo com conotação de secreto, ou prive aos quais poucas pessoas tinham acesso, seja por limitações econômicas ou por não integrar redes sociais em que as informações a respeito de lugares como o Off circulasse.

 Era um lugar protegido, onde se desenvolvia um universo paralelo, cuja condição de existência era justamente o fato de ser fechado ao mundo exterior.

 O Clube Off conseguiu reunir durante sete anos todos os públicos, até que,em 1986, Celso Curi transformou a casa noturna num teatro, com o nome de Teatro Espaço Off, embrião de seu maravilhoso guia teatral de mesmo nome, que existe até hoje em SP e RJ, inclusive, no Facebook, cuja logomarca é a imagem que ilustra este post.

Off é mais um fragmento da minha existência! Obrigado Celso!

 

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Sair ou não Sair do Armário, eis a questão!

love-valour-compassion-07-gDepois de longas férias eu retorno ao blog para continuar o trabalho iniciado em 2009 e que não tem prazo para acabar.

Nesta volta dou espaço para histórias de leitores que acompanham nosso trabalho porque são temas recorrentes e comuns e acho legal compartilhar com todos os seguidores dos Grisalhos.

Eu prometi ao leitor publicar na próxima semana, mas antecipei por motivo de viagem:

Eis a história:

Pela primeira vez resolvi escrever sobre o tema homossexualidade entre homens maduros e casados. Gosto muito do tema e observo que além do medo natural, a maioria dos homens temem que descubram sobre a sua homossexualidade, ou ainda, temem que assumindo os seus desejos homossexuais é o mesmo que largar o certo pelo duvidoso – a vida estável de um casamento para uma vida promíscua dos gays.

Sou maduro na faixa dos 50 anos de idade e há 08 anos encontrei o grande amor e companheiro de minha vida, que também está na faixa dos 50 anos. Há quatro anos estamos juntos vivenciando uma vida maravilhosa e completa.  Moramos em Minas Gerais.

Ambos fomos casados com mulheres por mais de 20 anos e temos filhos e em respeito a eles é que não revelamos a nossa identidade, afinal o mais importante é o nosso relato e não os nossos nomes.

Como todos da nossa idade, somos fruto de uma ditadura que gerou uma sociedade repressora, castradora e machista onde “ser macho e comer todas as fêmeas” foi martelado em nossas cabeças desde que nos entendemos por gente. Assim, mesmo tendo desejos por outros coleguinhas de nossa idade, o contato, o troca–troca só nos era permitido quando ainda criança ou no muito quando estávamos na puberdade. Ao entrar na adolescência, já tínhamos que estar definidos sexualmente, e lógico, como heterossexual. E assim crescemos e nos tornamos os machos da sociedade, prontos para o casamento e a procriação.

Como sabemos o nosso desejo homossexual pode até ser reprimido, mas nunca suprimido. E assim aconteceu conosco. Quando nos tornamos “os machos da sociedade” entramos na roda viva da vida, tais como, fazer uma faculdade, casar, desenvolvimento de sua carreira profissional, criar filhos, fazer amigos (todos héteros e casados), ter um patrimônio etc. assim, você vai criando todos os seus personagens e quando você se dá conta, já se passaram anos e você já nem se lembra mais do seu EU, da sua própria essência, você foi engolido por seus personagens.

Por muitos anos achávamos que éramos e fomos felizes, pois tínhamos mulheres e filhos maravilhosos.

A partir dos quarenta anos os filhos estão crescidos, você começa a ter sua estabilidade financeira, adquire patrimônio, seu casamento já está totalmente desgastado, seus personagens vão se encerrando e você começa a resgatar o seu próprio EU e com eles o seu desejo de tocar, de beijar, de acariciar, de pegar em outro pau e sentir prazer total com outro homem, se permitindo ser penetrado e penetrar fazendo com que seus sonhos sejam todos realizados com plenitude.

Com o advento da Internet e o aparecimento das salas de bate papo, ficou muito mais fácil extravasar nossos desejos por muito tempo reprimidos. Observamos que  muitos dos que estão do outro lado sofrem e não se permitem viver plenamente a sua sexualidade.

Foi entre uma sala e outra, entre muitas histórias de vidas sofridas e algumas fantasiosas que num dia de agosto de 2007, era um sábado às 06h30 (antes das nossas mulheres acordarem) é que conheci o meu grande amor, o meu homem.

Pela primeira vez, não foi importante, se era ativo ou passivo, qual o tamanho do pau, o que gostava na cama, de onde estava teclando ou quero ver seu pau na net ou ainda bate uma punheta para mim. Conversamos sobre tudo, nossas vidas de héteros, nossas famílias e principalmente sobre nós mesmos, nossos desejos reprimidos e o desejo de encontrar um cara bacana, um verdadeiro companheiro. Ficamos conversamos durante sete dias sobre tudo e sobre todos e finalmente resolvemos marcar um encontro.

Era uma sexta feira e nos encontramos num lugar público e depois seguimos para o motel. Em nosso primeiro beijo, sentimos que ali estava algo diferente, foi algo tão intenso que ficamos namorando, nos beijos, nos tocando, nos chupando e conhecendo cada parte do corpo do outro por várias horas, foi tão intenso um com o outro que gozamos sem haver penetração, foi simplesmente maravilhoso!

Saímos do Motel e notamos um no outro a felicidade transbordando em nós, sentimos ali, que algo acontecera em nossas vidas e que depois daquele dia, nada seria mais como antes.

Mas tínhamos que ter certeza que aquilo tudo não era só um sonho e além disto, faltou algo em nosso primeiro encontro, a penetração. Se o prazer e o carinho com a penetração fosse igual aos nossos momentos que tivemos no motel, realmente tudo seria diferente.

Entramos em contato com o outro e nossos desejos eram ainda maiores e tínhamos a pressa de um novo encontro para provarmos e conhecermos o desejo total.

No dia seguinte, voltamos para o Motel, agora com mais confiança, sem o estresse da primeira vez, já nos conhecíamos um pouco na cama e a penetração aconteceu naturalmente, sem dores, com tranquilidade e com muito carinho. Lembro que naquele dia gozamos duas vezes e definitivamente, tínhamos encontrado o que procurávamos, um companheiro para chamar de meu!

Continuamos a nos encontrar, normalmente nas sextas feiras e seis meses depois eu pedi o divórcio para minha mulher. O amor que sentia era enorme e intenso pelo meu companheiro. Por outro lado, não tinha mais condições de continuar ao lado de uma pessoa que não amava mais, simplesmente para me garantir como macho era muito penoso e estava pagando um preço muito alto enganando a todos.

A psicoterapia foi uma grande aliada em minha vida para que pudesse romper com tudo que estava enraizado dentro de mim e nascer um novo homem.

Montamos um projeto de vida, programamos todos os passos que daríamos para não prejudicar ou se prejudicasse, muito pouco as pessoas que amamos. Hoje completamos quatro anos que estamos juntos.

Compartilhamos nossa vida com nossos filhos, nossos amigos héteros e agora com diversos amigos homossexuais.

Não precisamos levantar bandeiras e respeitamos quem o faça, nem sair gritando para todos que somos homossexuais. Nossos filhos convivem naturalmente conosco e nunca perguntaram sobre o que somos ou deixamos de ser quando estamos sozinho em nossa casa. Creio que para eles o que somos são simplesmente pai.

Os amigos, a mesma coisa, nunca perguntaram… vocês são gays?

Descobrimos que se afirmar em dizer pra todo mundo, sou gay não é importante para ninguém. O importante é o ser humano que está dentro de você. São suas atitudes que fazem toda a diferença. Ninguém sai por ai se apresentando. Muito prazer… Sou fulano de tal, sou hétero. Porque se exige tanto que os homossexuais, principalmente os maduros tem que sair do armário e tem que assumirem perante a sociedade?

Meus amigos, nosso relato não é para levantar nenhuma bandeira, simplesmente para dizer que, caso tenha se identificado com a nossa história, você também pode buscar sua felicidade através de organização, planejamento e principalmente amor a si próprio, você pode se permitir ser feliz, sem neuras, sem traumas e sem bandeiras.

Um grande abraço!

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Os antigos carnavais de São Paulo

O folião, fantasiado de palhaço, descansa durante o carnaval
O folião, fantasiado de palhaço, descansa durante o carnaval

Todo ano aqui no blog rola um artigo sobre o tema. Todo ano, arrisco sociologias, antropologias e até profundidades psicológicas sobre a cultura do carnaval, principalmente, para os LGBT.

Lá estava eu preparando este artigo quando viajei nas minhas memórias de antigos carnavais.

Noutras épocas em terras tupiniquins, os bailes de salão eram válvulas de escape para os gays vivenciarem sua homossexualidade e tudo dentro de normas comportamentais até puritanas se comparadas aos bailes atuais.

As festas de rua também despertavam o interesse dos enrustidos e a partir dos anos sessenta os desfiles das escolas de samba massificaram a presenta de homossexuais entre carros alegóricos, passistas e alegorias.

Hoje os velhos carnavais são vistos como coisa de saudosistas, românticos demais para os jovens, pois o mundo virou do avesso nas últimas décadas.

Blocos pelas ruas de São Paulo em  1973
Blocos pelas ruas de São Paulo em 1973

Relembrando antigos carnavais, principalmente em São Paulo onde passei minha juventude, hoje aquelas situações e circunstâncias parecem banais. O lança-perfume que ejetava o éter perfumado no lenço mais parece experimento juvenil – A cabeça começava a rodar, as músicas ficavam longínquas, os gritos se abafavam e eu desmaiava no chão.

Ainda sinto o tremor dos porres homéricos, os homens musculosos passeando nos meios-fios da Avenida Ipiranga, os vômitos salpicados de confete, bichas e travestis esfaqueados com sangue no asfalto, as manchetes nos jornais: “Rasgou à faca o coração do amante”. Era crime passional!

E os beijos no banheiro da Boate Medieval, os chupões e sarros no calor infernal que jorrava suor, com gosto de cerveja, os “amassos” no beco escuro, porque dar o cu nem pensar, os beijos sem destino, os céus de purpurina, as teias de serpentinas coloridas.

Naqueles tempos havia muito menos gente, sem sexo esfregado na cara; eram carnavais com esperança de se encontrar um grande amor na esquina, um carnaval sem camisinha e nem AIDS.

Um amontoado de veados se esfregando no cordão de isolamento entre a passarela do samba e a Avenida Tiradentes, mãos bobas apalpando cacetes duros e outras mãos esfregando a bunda dos passivos.

Baile de Carnaval do Clube Pinheiros 1961
Baile de Carnaval do Clube Pinheiros 1961

Lembro-me também, dos bailes dos heterossexuais e grã-finos no Teatro Municipal e nos clubes: Militar, Monte Líbano, Juventus, Palmeiras, Corinthians e tantos outros, pulava-se carnaval até em galpões improvisados nos bairros da cidade.

Nessas memórias lembrei-me de Tula, o anjo gay caído, das noites mal dormidas, dos passeios pelo gueto gay, do carnaval nos inferninhos do baixo meretrício da Rua Aurora, dos boquetes anônimos na Praça Roosevelt, dos bacanais do carnaval das Boate Homo Sapiens e Nostro Mondo, da busca frenética por um corpo antes da quarta-feira de cinzas.

Transformista chegando à Boate Medieval no capô de um Opala 1971
Transformista chegando à Boate Medieval no capô de um Opala 1971

Para aqueles que não curtiam a folia, tinham as sessões noturnas nos cinemas do centro. Os mais concorridos eram Cine Ipiranga e o Art Palácio. O máximo que rolava era a mão na coxa de um estranho no escuro, uma punheta mal batida que terminava no lenço do parceiro, e com o cu na mão com medo do lanterninha.

Ainda vejo o André, uma bicha louca correndo e gritando, mendigos rebolando, confundidos com foliões, os primeiros veados assumidos desfilando, às vezes levavam porrada, pois era duro ser gay naqueles tempos.

Os primeiros travestis de São Paulo, as roupas de luxo do Clóvis Bornay vistas em preto e branco, porque não tinha TV em cores, a bicha com um escravo negro abanando-a. Até memórias mais remotas de Madame Satã, precursor das drag queens, negro bom de briga, saindo na porrada com os policiais de cassetete, ele vestido de bailarina, peruca loura, dando-lhes rasteira de salto alto.

Muito hilário, até parece filme pastelão, mas essas são algumas das cenas dos meus antigos carnavais, lembranças de muitos baús, ou simplesmente cinzas de um carnaval que já não temos mais.

Como escreveu Manuel Bandeira: o carnaval é um bacanal que se impregna da relação dionisíaca com a vida, dessa cambalhota, dessa máscara dos avessos que é oficialmente permitida nos tempos de carnaval.

É isso ai! Bom carnaval a todos os leitores dos GRISALHOS.

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Filme: Yves Saint Laurent

No final do ano passado fui assistir este filme que para mim não representava muita coisa, porque no auge do sucesso de Yves Saint Laurent eu era um adolescente pobre da periferia de São Paulo.

Enfim, me enganei e me apaixonei pela obra – A Direção de Arte do filme é deslumbrante, de emocionar, uma Ode à Beleza! O filme é imperdível, inclusive pela interpretação do protagonista que nos faz pensar estar diante de YSL, excelente!

O filme ainda retrata algumas paixões da sua vida, como Jacques de Bascher, que mais tarde namorou por quase 20 anos Karl Lagerfeld, e Pierre Bergé, que também era parceiro de negócios do estilista.

Fica a dica.