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O desejo homossexual e a vergonha do próprio corpo 

Nas últimas décadas virou obsessão os cuidados físicos e a beleza virou religião. A liberdade sobre o próprio corpo veio com o dever de ser belo e impulsionada pela indústria da beleza advinda dos Estados Unidos.

No mundo gay o prazer supremo acima de qualquer coisa acompanhou as mudanças culturais e os padrões também mudaram a forma como os homossexuais buscam aprimoramentos corporais para assemelhar-se ao modelo americano/global, ou seja, cuidar dos músculos, definir barriga, tornear as pernas e braços para no final ficar parecido com aqueles viados machões de leather da velha são Francisco dos anos 70 e 80.

Desde a minha adolescência observo corpos masculinos e a transformação é algo surreal. Não tinha essa de peeling porque o corpo não era mercadoria de vitrine. Os jovens gays dos anos 1970, cuidavam mais da postura, para não serem identificados como pederastas. Não havia espaço para cuidados corporais, bastava um bom banho, trato nos cabelos, roupa adequada e estava pronto para conquistar parceiros.

Naqueles tempos era quase imperceptível a observação do próprio corpo, salvo, casos de exibicionismo crônico, pois isso sempre existiu.

Com ou sem exibicionismo todos os homens gays passaram a gostar e cuidar do corpo e respectivas partes íntimas, a começar por olhares e contemplação de seus cacetes grossos, compridos, finos ou curtos.

Independente das formas ou tamanhos não basta olhar é preciso apalpar, tocar, sentir o membro entre os dedos e mesmo se o sujeito é tipicamente passivo, usa as ferramentas táteis para desvendar os segredos corporais e posteriormente busca no corpo de parceiros aquilo que lhe proporciona o prazer.

As variantes corporais vão além da genitália, descobrir o próprio bumbum é algo fascinante através do toque e do visual e para isso o espelho está sempre de plantão e na falta dele, elogios do parceiro elevam o ego de seus donos. Aliás, é na frente do espelho que descobrimos o nosso corpo, cada detalhe, cada mancha e na velhice buscamos os primeiros sinais de envelhecimento, rugas, sardas e flacidez.

Há aqueles que são feios de cara e lindos de bunda ou lindos de cara e feios pra cacete. Um amigo diz que antes de qualquer coisa ele olha o cacete e se for feio nem adianta ser o mister mundo. Até os belos tem vergonha do corpo se não estiver dentro do padrão enlatado.

Observar o próprio rosto é algo comum desde a adolescência, porque em geral os gays prestam mais atenção ao rosto do outro. Ninguém em sã consciência se acha feio, porque os defeitos são compensados na observação de outro corpo igual ao seu, ou melhor, do mesmo gênero.

Tem gente que vê beleza nos pés, mãos, ombros, costas, quadril e até orelhas, tudo é corpo, tudo é desejado e o desejo começa em casa, trancado no banheiro ou no quarto observado e tocando suas partes.

O desejo por outro corpo masculino é algo natural. A maioria prefere jovens, uma parcela cobiça os maduros e a minoria deseja os idosos, mas no geral todos querem tocar o corpo alheio como se fosse seu e aí não importa padrões e rótulos.

Há de se considerar o padrão das cores e acessórios corporais: brancos, pardos e negros nessa ordem, pouco pelo, peludos ou imberbes também nessa ordem.

Foi-se o tempo das nádegas rechonchudas como atributo corporal masculino, as mulheres adoram e vice-versa, mas no meio gay isso nunca foi moda. Prevalece o padrão saradão, mas sempre há espaço para os gordinhos e gordões.

No universo corporal conta até a cor dos olhos e cabelos, dos raros azuis ao castanho popular e cabelos escuros, grisalhos e loiros nesta ordem e até os carecas.

A descoberta da sexualidade é motor propulsor para descobrir o corpo, porque desde cedo fomos educados e treinados para não tirar a roupa na frente de ninguém e assim incorporamos a vergonha ao nosso cotidiano e deixamos de lado a curiosidade sobre partes e membros. Aliás, nosso corpo é composto por pele, músculos, órgãos, ossos e nervos.

A vergonha do próprio corpo é um dos motivos mais banais para as relações sexuais entre parceiros não ir adiante e perde-se muitas oportunidades de usufruir outros corpos por medo de mostrar-se imperfeito. O medo da crítica ou comentário está lá no subconsciente.

Caro leitor, você já se sentiu envergonhado em tirar a roupa na frente do parceiro? Nos acostumamos a nos sentir mal em relação ao nosso corpo e na hora H não queremos todas as luzes acessas e corremos para fechar todas as janelas. Temos vergonha de sermos observados nus, por inteiro e praticamos o sexo até à noite ou ainda enchemos a cara de álcool e seja o que Deus quiser.

De todas as possibilidades de sentir-se envergonhado a pior é a comparação dos membros entre parceiros. Você imagina um bofe escândalo, gostoso com um cacete avantajado e quando o homem tira a roupa você percebe que o seu pau dá de dez a zero no concorrente. Você passou a vida achando o seu pênis o maior dos problemas, mas nem sempre é o tamanho do pênis que vai definir quem vai dar para quem ou mais ou menos prazer.

Numa das minhas aventuras sexuais conheci um homem maduro e corremos para o motel. Eu queria dar ou comer aquela gostosura e não é que ele me fez bolinar seus mamilos até gozar? Aliás, aqueles mamilos eram lindos, avantajados e pontudos, uma delícia! Ele nunca gostou dos mamilos, achava-os feios, mas depois que elogiei a autoestima foi nas alturas. Portanto, antes de ter vergonha do seu corpo ou de qualquer parte dele, busque uma segunda opinião, porque em matéria de corpo tem gosto para tudo e para todos.

Há quem goste de corpos tatuados ou orelhas, nariz e boca com piercing, um tribal primitivo e não estranhe ao se deparar com argolas nos mamilos, nos bagos e até na glande do pinto de parceiros como prova de masculinidade.

Outro dia morri de rir ao ouvir de um colega que ficou chocado ao ver uma argola de metal na cabeça do cacete do parceiro. Na hora ele desistiu de ser passivo e como o seu bilau não dava conta do recado, a aventura terminou sem final feliz e cada um seguiu o seu caminho.

Enfim, os tempos mudaram e hoje existem até academias inclusivas que ajudam pessoas a não sentirem vergonha do próprio corpo. Vale tudo para modelar músculos e destruir camadas superficiais da pele em cirurgias estéticas pelo simples motivo de nos sentir belos e desejados.

Um olhar crítico sobre publicações homoeróticas

olhar_critico_g_magazineO envelhecimento parece não interessar a ninguém, inclusive aos gays.

Quando eu era jovem eu era cobiçado e desejado e olha que não faz tanto tempo assim. Hoje aos 55 anos percebo claramente como o homossexual vai desaparecendo à medida que envelhece.

A minha geração participou dos primeiros movimentos sociais em prol dos diretos e da identidade dos homossexuais. No decorrer desses anos conquistamos alguns direitos e liberdade, mas o próprio movimento gay não liberou esse preconceito de idade.

Eu me recordo de antigas publicações, como o Snob, Gente Gay, Pasquim e Lampião da Esquina que traziam notícias sobre o universo homossexual, violência policial e discutia-se a sexualidade. Com o fim do jornal em 1981 sobraram as revistas homoeróticas ou pornográficas, em sua maioria estrangeiras centradas na publicação de fotos de nu e cenas de sexo. Lembro-me também da revista SuiGeneris quesurgiu como produto da segmentação do mercado editorial que propunha discutir, com homossexuais e heterossexuais, questões relativas à homossexualidade.

A revista investiu numa possibilidade de afirmação do “ser gay” através de temas como cultura, comportamento, moda e entrevistas com grandes nomes do meio artístico/político nacional. Esta publicação buscava refletir a atitude do “assumir-se”, mas também destacava a validade do desejo homoerótico e buscava fortalecer a autoestima dos seus leitores. Circulou de janeiro de 1995 a março de 2000, quando, por motivos financeiros, encerrou sua publicação.

olhar_critico_juniorHá algum tempo eu acompanho as publicações da revista G Magazine lançada em 1997 e da Junior e o que pude constatar é que não existe espaço para os gays mais velhos; os ursos até ganham algum destaque porque se mostram másculos e viris e os poucos maduros ou idosos são apresentados de uma forma deturpada.

No caso da representação dos homossexuais idosos feitas nas revistas homoeróticas como a G Magazine e Junior, por exemplo, é válida a daquele que se cuida, que está preocupado em ficar com aparência de homem jovem e bonito; que procura sempre fazer com que a velhice não esteja ali, a mostra de quem quer ver.

Em boa parte das matérias, esses homens idosos e homossexuais aparecem como pessoas que só tinham desejos sexuais quando eram jovens. Na velhice, eles são representados como pessoas que não possuem desejos sexuais. Ser homossexual idoso, nas matérias dessas revistas, está ligado à imagem daquele que disfarça a velhice e que são carentes de relações afetivo-sexuais.

Estamos no meio da cultura da juventude: importa a masculinidade, mas também importa a idade. É como se os gays vivessem um eterno complexo de Peter Pan, onde o envelhecimento é o principal vilão que deve ser combatido a todo custo. Do contrário, deixará de ser um corpo desejado, tornando-se um corpo abjeto e que deverá ser escondido.

No tocante a homossexualidade, o corpo velho parece evidenciar uma espécie de pânico produzido pela imagem de deterioração legado pelo mito da velhice, cuja fragilidade e horror são amplamente produzidos no interior das “comunidades” gays, que produzem novos efeitos em torno de certa homonormatividade baseada no ideal de juventude e individualismo.

Mais do que nunca, a homossexualidade está sempre ligada ao “ser jovem”, consequentemente, a ideia do ser jovem não deve aparecer apenas no rosto, mas também no corpo que deve sempre ser “sexy”, “gostoso”, “malhado”, “sarado”, “atlético” e “saudável”.

olhar_critico_sui_generisOscilando entre a imagem da “tia velha”, exageradamente efeminado, desprovido de atrativos e meio gagá, e a do “tiozinho tarado”, capaz de atacar inesperadamente qualquer jovem “inocente”, os homossexuais idosos representariam uma das formas mais proeminentes de alteridade abjeta e excluída dentro da atual experiência “positiva” da homossexualidade masculina.

Eu digo isso sem nenhum receio de ser criticado, pois se observa, por exemplo, na imprensa voltada para grupos minoritários, em especial ao público homossexual masculino, a existência de publicações que não atribui automaticamente um lugar de fala para o homossexual na sociedade. Indo mais além, através das revistas voltadas para os gays é possível analisar qual o espaço e representações que elas fazem do desdobramento desse grupo, pois até então, é como se os homossexuais idosos não existissem, há um silencio no tocante a existência desse grupo tido, normalmente por essas publicações homoeróticas e pelos próprios homossexuais, como pessoas duplamente abjetas, isto é, pela questão da idade e do corpo, que vai fugir do padrão de desejo.

Lidar com as limitações biológicas da vida e aceitar o corpo em degeneração continuam sendo um dos principais desafios dos gays no mundo moderno, basta observarmos a obsessão que as pessoas, têm com as formas corporais e a apresentação juvenil que atravessa todo o complexo da moda, das academias de ginástica, dos anabolizantes, dos cosméticos e da cirurgia plástica.

Se a preferência pela juventude e a antipatia pela velhice é comum na história das concepções sobre envelhecimento, e também constituem sentimentos disseminados na chamada cultura de consumo, eles parecem atingir o seu ápice quando se considera a chamada “cultura gay masculina” dos centros urbanos e das metrópoles.

Nesse cenário, aparentemente marcado pelo hedonismo e pela obsessão com atributos físicos capazes de suscitar atração e desejo, em que tudo parece girar em torno de um mercado sexual hierarquizado por critérios de juventude e beleza, não há lugar para pessoas de mais idade, que carregam os estereótipos derivados da depreciação de sua atratividade como parceiros sexuais.

Aos mais velhos, só resta pagar para desfrutar de companhia fugaz e arriscada. E essa concepção ou “verdade” que geralmente está inserida no contexto ao ser gay idoso, pois a verdade pode ser vista como social e histórica.

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