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Um olhar crítico sobre publicações homoeróticas

olhar_critico_g_magazineO envelhecimento parece não interessar a ninguém, inclusive aos gays.

Quando eu era jovem eu era cobiçado e desejado e olha que não faz tanto tempo assim. Hoje aos 55 anos percebo claramente como o homossexual vai desaparecendo à medida que envelhece.

A minha geração participou dos primeiros movimentos sociais em prol dos diretos e da identidade dos homossexuais. No decorrer desses anos conquistamos alguns direitos e liberdade, mas o próprio movimento gay não liberou esse preconceito de idade.

Eu me recordo de antigas publicações, como o Snob, Gente Gay, Pasquim e Lampião da Esquina que traziam notícias sobre o universo homossexual, violência policial e discutia-se a sexualidade. Com o fim do jornal em 1981 sobraram as revistas homoeróticas ou pornográficas, em sua maioria estrangeiras centradas na publicação de fotos de nu e cenas de sexo. Lembro-me também da revista SuiGeneris quesurgiu como produto da segmentação do mercado editorial que propunha discutir, com homossexuais e heterossexuais, questões relativas à homossexualidade.

A revista investiu numa possibilidade de afirmação do “ser gay” através de temas como cultura, comportamento, moda e entrevistas com grandes nomes do meio artístico/político nacional. Esta publicação buscava refletir a atitude do “assumir-se”, mas também destacava a validade do desejo homoerótico e buscava fortalecer a autoestima dos seus leitores. Circulou de janeiro de 1995 a março de 2000, quando, por motivos financeiros, encerrou sua publicação.

olhar_critico_juniorHá algum tempo eu acompanho as publicações da revista G Magazine lançada em 1997 e da Junior e o que pude constatar é que não existe espaço para os gays mais velhos; os ursos até ganham algum destaque porque se mostram másculos e viris e os poucos maduros ou idosos são apresentados de uma forma deturpada.

No caso da representação dos homossexuais idosos feitas nas revistas homoeróticas como a G Magazine e Junior, por exemplo, é válida a daquele que se cuida, que está preocupado em ficar com aparência de homem jovem e bonito; que procura sempre fazer com que a velhice não esteja ali, a mostra de quem quer ver.

Em boa parte das matérias, esses homens idosos e homossexuais aparecem como pessoas que só tinham desejos sexuais quando eram jovens. Na velhice, eles são representados como pessoas que não possuem desejos sexuais. Ser homossexual idoso, nas matérias dessas revistas, está ligado à imagem daquele que disfarça a velhice e que são carentes de relações afetivo-sexuais.

Estamos no meio da cultura da juventude: importa a masculinidade, mas também importa a idade. É como se os gays vivessem um eterno complexo de Peter Pan, onde o envelhecimento é o principal vilão que deve ser combatido a todo custo. Do contrário, deixará de ser um corpo desejado, tornando-se um corpo abjeto e que deverá ser escondido.

No tocante a homossexualidade, o corpo velho parece evidenciar uma espécie de pânico produzido pela imagem de deterioração legado pelo mito da velhice, cuja fragilidade e horror são amplamente produzidos no interior das “comunidades” gays, que produzem novos efeitos em torno de certa homonormatividade baseada no ideal de juventude e individualismo.

Mais do que nunca, a homossexualidade está sempre ligada ao “ser jovem”, consequentemente, a ideia do ser jovem não deve aparecer apenas no rosto, mas também no corpo que deve sempre ser “sexy”, “gostoso”, “malhado”, “sarado”, “atlético” e “saudável”.

olhar_critico_sui_generisOscilando entre a imagem da “tia velha”, exageradamente efeminado, desprovido de atrativos e meio gagá, e a do “tiozinho tarado”, capaz de atacar inesperadamente qualquer jovem “inocente”, os homossexuais idosos representariam uma das formas mais proeminentes de alteridade abjeta e excluída dentro da atual experiência “positiva” da homossexualidade masculina.

Eu digo isso sem nenhum receio de ser criticado, pois se observa, por exemplo, na imprensa voltada para grupos minoritários, em especial ao público homossexual masculino, a existência de publicações que não atribui automaticamente um lugar de fala para o homossexual na sociedade. Indo mais além, através das revistas voltadas para os gays é possível analisar qual o espaço e representações que elas fazem do desdobramento desse grupo, pois até então, é como se os homossexuais idosos não existissem, há um silencio no tocante a existência desse grupo tido, normalmente por essas publicações homoeróticas e pelos próprios homossexuais, como pessoas duplamente abjetas, isto é, pela questão da idade e do corpo, que vai fugir do padrão de desejo.

Lidar com as limitações biológicas da vida e aceitar o corpo em degeneração continuam sendo um dos principais desafios dos gays no mundo moderno, basta observarmos a obsessão que as pessoas, têm com as formas corporais e a apresentação juvenil que atravessa todo o complexo da moda, das academias de ginástica, dos anabolizantes, dos cosméticos e da cirurgia plástica.

Se a preferência pela juventude e a antipatia pela velhice é comum na história das concepções sobre envelhecimento, e também constituem sentimentos disseminados na chamada cultura de consumo, eles parecem atingir o seu ápice quando se considera a chamada “cultura gay masculina” dos centros urbanos e das metrópoles.

Nesse cenário, aparentemente marcado pelo hedonismo e pela obsessão com atributos físicos capazes de suscitar atração e desejo, em que tudo parece girar em torno de um mercado sexual hierarquizado por critérios de juventude e beleza, não há lugar para pessoas de mais idade, que carregam os estereótipos derivados da depreciação de sua atratividade como parceiros sexuais.

Aos mais velhos, só resta pagar para desfrutar de companhia fugaz e arriscada. E essa concepção ou “verdade” que geralmente está inserida no contexto ao ser gay idoso, pois a verdade pode ser vista como social e histórica.

Ode ao Amor Gay

ode_amor_gayOntem enquanto retornava a São Paulo, eu pensava num post para começar o ano com otimismo. Nada de escrever sobre solidão, isolamento, velhice ou doenças, porque os leitores precisam ser recebidos em 2014 com entusiasmo, alegria e esperança.

Pelo para-brisa do carro flashes de lembranças passavam como paisagens na estrada escura. Memórias submergiam facilmente para a realidade.

No carro, o silencio era um suspiro. Aos poucos as palavras foram nascendo. Difíceis como um parto com dor. Primeiro encontro, uma carona. Estarem juntos, sonho ou desespero? Trocaram ideias sobre fatos comuns. Há dias, conheceram-se, descobriram-se entre tantas pessoas, olhando, apenas.

Opa, não quero confundi-los, mas a memória vai e vem tão fácil que realidade e lembranças confundem-se entre linhas.

O amor gay não é uma coisa extraterrestre, é maravilhoso amar um homem. Quem em sã consciência já se viu amando o outro? E os gays idosos? Que já viveram uma vida e ainda assim são cobiçados por jovens moçoilos, belos, incautos.

Uma das memórias mais marcantes da minha vida remete ao primeiro contato físico entre iguais, honesto e solene. Sonhos que muitos gays jovens e ainda virgens, acalentam no seu dia-a-dia.

Não é proibido amar, é proibido recusar-se a amar, pois a homossexualidade não escolhe corpo. Os gays são merecedores de coisas boas, são sensíveis e frágeis como o mais fino dos cristais.

Há que separar os sensíveis dos inconsequentes, mas o carinho é comum e ambos têm o direito ao amor. O carinho imensurável do sensível é corpo e fogo ao inconsequente.

O gay sensível mesmo sem conversar, espiritualmente ama e o inconsequente logo bulina a vara que lhe será ferro nas entranhas profundas.

O amor gay tem incontáveis faces e formas. Cabe a cada um encontrar o seu caminho, seja de flores, seja de espinhos.

O mundo renova-se a cada novo ano e cá estamos iniciando mais um, com muitos sonhos, desejos e promessas de amor eterno, mas o poeta já alertou: que seja eterno enquanto dure.

Então está esperando o que? Quem vive de passado é museu. As lembranças devem ser guardadas com carinho no armário das memórias e não precisam ser escancaradas porque o amor gay nunca ousou dizer o seu nome, mesmo batendo à porta, ao acaso, um dia.

Um dia eles se beijaram profundamente, e não houve mais dúvidas: um beijo devagar, meigo, apaixonado. Único, impar.

Separação, apesar do amor.

Outras vezes, umas três, talvez, se viram. O sentimento era imenso, puro, tranquilo. Tinham certeza, mas…

Muitos anos depois eu recebi um cartão: “em seus olhos, vejo sua alma; em suas mãos sinto o seu coração”.

55 é um número mágico!

Bem-vindo ao ano de 2014.

Hoje eu tenho 55, a idade dele naquele inicio de janeiro de 1974.

Viva intensamente cada minuto deste novo ano e seja feliz!

Nota:

A imagem que ilustra este post é de Richard Wilson um senhor gay de 77 anos que tem uma vida bastante ativa.

Faz exercícios e pratica natação diariamente, além de ser patrono de uma instituição de caridade. Eleito pela revista OUT como uma das personalidades gays mais atuantes em 2013.

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