Publicado em cotidiano, Sociedade

Afetos em espaços públicos

casal gay

O mundo mudou e com ele muitos conceitos, regras, comportamentos e atitudes caíram por terra. Hoje os gays estão soltos por conta de todas as mudanças culturais ocorridas na ultima década, principalmente no Brasil.

Atualmente estou numa fase da minha vida onde posso observar o cotidiano das pessoas com mais cuidado e atenção, principalmente dos gays.

Recentemente eu fui a um Shopping Center de São Paulo e observei dois homens subindo as escadas rolantes de mãos dadas e num determinado instante ambos se aproximaram e se beijaram na boca. Uma senhora que estava logo atrás com uma criança falou: Que falta de respeito. Depois reclamam que são discriminados. O casal ignorou e seguiu seu caminho.

Eu sou gay, tenho quase sessenta anos e os homossexuais da minha geração nunca puderam demonstrar afetos em espaços públicos porque era considerado atentado ao puder e era quase certo o encaminhamento para uma delegacia.

Eu penso que para ter respeito é preciso respeitar e naquele momento eu concordei com aquela senhora.

Hoje os casais heterossexuais estão mais comedidos e reservados, pouco se percebe de afetos em locais públicos, é até difícil encontrar casais de mãos dadas. Os afetos, beijos e carinhos estão reservados para locais privados, por conta da privacidade que todos reivindicam, mas parece que os gays estão vivendo noutra época típica do romantismo dos anos 1950 e 1960.

Em geral os homossexuais não paqueram em qualquer lugar, procuram locais adequados. Os jovens e maduros não se expõem publicamente e boa parcela dos solteiros usa aplicativos justamente por conta do anonimato e do sigilo.

Depois de encontrar um parceiro, deixa-se levar pela paixão e daí parte para o namoro, padrão heterossexual. Marca encontro para um passeio ou um cinema e lá vai o casal de mãos dadas ou entrelaçadas na cintura, para mostrar para todo mundo que está namorando, amando e que está feliz e nem aí para o que os outros vão pensar. Eu acredito que essa atitude é falta de respeito porque nunca se sabe quem vai encontrar pela frente.

Há reações neutras, indiferentes, mas sempre aparecerá alguém condenando o ato e responderá com palavras ou agressão física. Em geral as mulheres revidam com palavras e os homens com atitudes agressivas.

É necessário um mínimo de educação e cultura para discernir sobre esta questão e saber a hora e o lugar certo para demonstrar os seus afetos para outro homem.

Parece cômico, mas também, já observei dois gays abraçados caminhando na Avenida Paulista e um deles ficou alucinado e virou o rosto para observar o bofe lindo passando ao seu lado. Incoerente não?

Os viados de hoje não são diferentes dos viados de ontem. O desejo por homens é o mesmo, os papéis sexuais são os mesmos, mas o respeito não e o mesmo. Questão de educação, inteligência, postura social e identificação do seu lugar no mundo. Tudo isso faz parte de um conjunto de ações e comportamentos para termos o respeito enquanto cidadãos, seres humanos e gays.

Em tempos de tantas declarações de ódio e preconceito contra os homossexuais é preciso cuidado, porque no mundo real existem regras sociais e como você se comporta é o que garante a sua integridade física e moral.

Existem tantos lugares no mundo para demonstrar afetos e tem que ser justamente em locais com grande aglomeração de pessoas? Não esta querendo demonstrar afeto, quer afrontar mesmo!

Sair do armário, demonstração de afetos, movimentos de beijos públicos são atos políticos. Vivemos um momento perigoso de polarização politica no Brasil e não temos garantias da continuidade do processo de aceitação social dos gays pois ainda estamos longe do liberal em prol de minorias.

Caro leitor, você é livre para fazer da sua vida o que quiser, com quem quiser, em qualquer lugar e depende exclusivamente de você ganhar o respeito ou ser execrado publicamente.

Publicado em Comportamento, cotidiano

Coisas que a vida ensina depois dos 59 anos

sendak_headshotCaro leitor, todo ano eu faço um balanço da minha vida em relação ao ano anterior, o que mudou ou como estou?

A homossexualidade nos impede de viver a vida plenamente por questões óbvias de repressão familiar, religiosa e social. No decorrer dos anos ficamos mais isolados, também por conta do envelhecimento.

Hoje aos 59 anos eu encaro a vida de uma forma completamente nova, pois já não me importa o que os outros vão falar e sim como está a minha saúde, a minha cabeça e o meu bem estar.

Eu busco amizades que agregam valor ao meu dia-a-dia com boas conversas e sem as neuroses tão comuns na terceira idade, principalmente no meio gay.

Agora aposentado e fora do mercado de trabalho eu tenho tempo para observar o mundo nos detalhes e principalmente o mundo gay em constante transformação.

Na semana passada conversando com um amigo, comentei sobre o gueto gay, a importância para a socialização dos homossexuais, mas também como ele te escraviza e te prende e quando você percebe está alienado num círculo vicioso, mas apenas percebemos isso quando envelhecemos e olhamos o gueto de fora para dentro.

Eu não tenho necessidades de estar inserido no gueto, conheço muitos gays de todas as idades porque há mais de 40 anos eu vivo e moro no bairro mais gay do Brasil.

Quem tem o privilégio de morar em frente ao ABC Bailão? Ou a trezentos metros do Largo do Arouche?

Hoje eu divido a minha vida entre a Rua Marques de Itu e a chácara no interior. Eu adoro viajar e não consigo ficar na cidade mais de dez dias e para isso foi necessário um planejamento de longo prazo com objetivos claros e alcançáveis porque na velhice ficamos ou ficaremos invariavelmente sozinhos.

Eu sempre trabalhei as questões psicológicas para viver sozinho. Eu acredito que a solidão é estado de espírito. Você precisa estar bem e compartilhar com as pessoas momentos do seu cotidiano. Também, eu tenho um companheiro há mais de dez anos e isso facilita a vida e mesmo se estivesse só eu suportaria bem a situação, como dizemos: tiraria de letra.

Olhando no retrovisor da minha vida vejo todos os colegas e amigos gays que morreram decorrentes da AIDS num tempo onde os remédios e tratamentos eram precários. Hoje o Brasil é referência mundial no tratamento de soropositivos e eu jamais pensei que um dia isso fosse acontecer.

Sou um gay adulto quase na terceira idade, bem resolvido e de bem com a vida. O que me auxiliou nessa maturidade e aceitação foi muita leitura de livros acadêmicos, romances e ficção sobre a homossexualidade.

Também, sou cinéfilo e dei preferência aos filmes temáticos sobre gays, lésbicas, transexuais, bissexuais e isso ajudou demais a entender a homossexualidade, quem sou e porque sou gay.

Neste blog eu sempre procuro ser positivo porque eu sei que não é fácil aceitar a diversidade sexual dos seres humanos, imagine a sua própria diversidade? Existem muitas coisas negativas e é preciso afastar-se de coisas ruins e cercar-se de coisas boas.

Enfim, mais um ano, mais um ciclo se encerra e outro começa com muitos planos de viagens, leitura, muitos filmes, aliás, deixo a dica de um lançamento: 120 batimentos por minuto.

A vida se renova e neste novo ciclo, eu ocupo o meu tempo observando as pessoas, buscando novos contatos com parentes e familiares, afinal eu saí de casa muito cedo para enfrentar o mundo, foram quarenta e quatro anos de trabalho contínuo e agora é a hora de resgatar pessoas que eu deixei pelo caminho e aproveitar a vida sem pressa.

Aproveito para informar aos leitores que me escrevem que o meu aniversário é hoje, dia 18 de junho, coincidentemente, no mês do orgulho gay. Sou uma pessoa simples, sem luxos, acessível e procuro atender a todos sem distinção e tenho orgulho de ser gay e poder compartilhar com os leitores o meu mundo e as experiências de vida de pessoas iguais a mim e a você.

Também, não gosto de política, não defendo esse ou aquele, direita, centro ou esquerda. O segredo do sucesso é aceitar-se homossexual, estudar, trabalhar, conquistar o seu espaço e fazer o que você gosta.

Um abraço e seja feliz!