O coroa, o filhão e a reinvenção do gay idoso

1776594109-ensaio-traz-casais-gays-dos-anos-80-3348304035-323x479Outro dia lá na chácara eu me pus a pensar porque o gay idoso é tão cobiçado pelos mais jovens. Sei também, que são pretendidos por gays maduros e até mesmo por outros idosos. Neste texto vou explorar apenas as relações entre os coroas e os jovens.

Existem no universo homossexual vários tipos de relações e uma delas é o garoto gostar de homens mais velhos, em contrapartida, os mais velhos procuram os mais novos, principalmente, por conta da juventude e beleza física.

Os garotos que curtem coroas e maduros buscam a experiência dos mais velhos, idealizam relações mais significativas e mesmo sendo jovens até sonham com relações duradouras, mas a realidade mostra-se muito diferente por incontáveis razões que não vem ao caso relatar aqui.

Atualmente os jovens buscam muito mais do que uma relação para curtir, para ficar ou para fazer sexo. Ficar por ficar, se envolver com o coroa apenas para fazer sexo é uma forma desvalorizada pelos garotos, exceção aos profissionais do sexo.

Pensar que hoje, ser coroa diz respeito a um tipo muito mais definido por seus atributos emocionais e por sua trajetória de vida do que exatamente por sua idade – É o que eu chamo de Reinvenção do Gay Idoso.

Em termos gerais é correto dizer que o coroa é associado aos quarentões e cinquentões acompanhados de qualidades, de personalidade e de competências emocionais relacionadas à estabilidade, experiência e maturidade.

No mundo gay são comuns algumas formas de tratamento usadas nas relações íntimas entre os coroas e os jovens: paizão, paizinho, tio, tiozinho, filhão, filhote e até bebê; apesar dessas denominações terem uma relação de afetividade, na verdade é uma forma de hierarquia, ou não?

Quando se fala de gay maduro entenda-se como outra categoria para o coroa. O filhão se caracteriza por ter uma cabeça boa, ser maduro, a respeito da sua pouca idade, situada, aproximadamente, entre os 20 e 30 anos, embora haja coroas que afirmam que há muitos rapazes mais novos, com menos de vinte anos, que os procuram para sua iniciação sexual, assim como, por outro lado, encontra-se filhões com mais de 30 anos de idade.

O coroa dispõe de um capital erótico ambíguo. É um gay de idade indefinida, mas com sinais visíveis do envelhecimento. O cabelo grisalho, as rugas, a barriga saliente, os movimentos mais lentos. Tipicamente, parece ser o homem maduro de modos viris, que tem saúde, disposição física, apresentação pessoal e dinheiro suficiente para frequentar espaços do circuito gay, encontrar amigos, beber, se divertir e também tentar a sorte no mercado da paquera. O coroa é, portanto, a figura que encarna a representação mais positiva do gay idoso, contrapondo-se às representações associadas à velhice.

Para o filhão, o coroa tem que ter caráter, maturidade e experiência e ao mesmo tempo tem que se cuidar, principalmente da aparência. Os garotos esperam deles habilidades eróticas e afetivas: eles acham que os coroas sabem iniciar o cara sem dor e o cara gostando. O que não deixa de ser verdade.

A virilidade também é uma característica associada ao coroa. Mesmo que nem sempre na relação sexual o coroa desempenho o papel de ativo.

Os coroas também exigem dos garotos discrição, que sejam másculos, mesmo que sejam passivos; que queiram envolver-se em relacionamentos mais estáveis, que estejam dispostos a retribuir dedicação, empenho e fidelidade. Em troca os coroas dão aos jovens a oportunidade do aprendizado e da convivência social, alguns dão carro e roupas, outros, estudos e até moradia.

Um fator decisivo, a meu ver, que permite compreender essas relações é como essas situações coexistem sem muitas perdas e onde todos ganham. Obviamente, há perdas e os garotos reclamam que os coroas querem apenas sexo, já os maduros reclamam que os garotos são volúveis e ao se deparar com uma situação melhor, pulam de galho em busca de melhores parceiros.

Nesse redemoinho de situações, eu observo as mudanças comportamentais, principalmente, dos coroas. Talvez nessa primeira geração de gays idosos, nossos contemporâneos, se tornou possível conceber a vivência legítima de uma vida amorosa como experiência possível para esses “novos” senhores.

gay_idoso_5Pense comigo: Essa é a primeira geração de LGBTs maduros e idosos que podem expressar seus desejos e identidades, para além dos limites da clandestinidade vivida até o inicio dos anos 90. Eu vivi a minha adolescência e parte da vida adulta naquele cenário repressivo e clandestino e não era nada fácil as relações homossexuais, principalmente, entre jovens e maduros. Se hoje as relações entre jovens e coroas duram em média um ou dois anos, naquele tempo duravam semanas ou alguns meses.

Ainda assim, nos dias atuais, em sua maioria, essas relações não sofreram grandes mudanças. Ainda se percebe o anonimato, a manutenção da vida dupla, tanto do coroa quanto do jovem por questões familiares e é mais comum do que imaginamos, encontrar coroas casados e que querem ter relações estáveis com garotos.

Outro dia eu ouvi o seguinte depoimento de um gay cinquentão e casado: Eu quero encontrar um jovem que queira me fazer sentir amor, pois família e filhos, isso eu já tenho. Eu quero alguém dedicado a mim, enfim, eu quero viver uma história de amor.

Os coroas que gostam de garotos entre 16 e 19 anos sabem que a relação não será duradoura, logo, é o sexo pelo sexo – é a iniciação sexual do jovem e a satisfação sexual do coroa.

Os coroas casados e com filhos buscam nos jovens o sexo homossexual e o anonimato, preservando as relações familiares já estabelecidas. São raros os casos de divórcio para viver um grande amor.

Os coroas ciumentos que gostam de garotos já viveram muitas relações e as perderam por possessão e incompatibilidades.

A situação mais comum são os coroas que gostam de demonstrar poder em relação aos garotos com quem tem relacionamentos sexuais. Na verdade esse comportamento tem a ver com a não aceitação da homossexualidade e os coroas descontam suas frustrações nos jovens.

Moral da história: Acabam sozinhos e abandonados pelos garotos, não conseguem manter relação estável, vivem em bares e saunas buscando o sexo, para preencher o vazio de suas vidas.

Filme: Um Estranho no Lago

estranho_03_patrickHá muito tempo eu comprei este filme em DVD e somente esta semana eu assisti. Confesso que fiquei surpreso, pois esperava mais do que eu vi. O filme não é ruim e pode parecer agressivo, mas vale a pena conferir.

Aplicativos, Internet, saunas, cinemas, casas noturnas e muitos outros cenários são usados por gays para encontrar parceiros. No filme durante o verão, homens se encontram na beira de um lago escondido. Franck (Pierre Deladonchamps) se apaixona por Michel (Christophe Paou), um homem bonito, poderoso e mortalmente perigoso. Franck sabe com quem está se envolvendo, mas ignora o perigo para poder viver essa paixão.

estranho_02_atoresO envolvimento sexual com pessoas estranhas é uma prática arriscada, com potencial de criar situações de perigo. Os homens que circulam pelo lago estão cientes do risco, mas o desejo é maior. Nem um assassinato que ocorre no local impede os amantes de seguirem suas rotinas.

Um Estranho no Lago traça um paralelo entre o perigo e a libido de forma contundente. É bastante ousado nas cenas do bosque, onde vários homens cheios de desejo vão à caça. As cenas de ejaculação e felação chegam a impressionar.

>> O DVD ainda está disponível para compra na Livraria CulturaAqui

Aqui vai o trailer:

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