Bar, Boate e Clube Off

off_espaçoQuem viveu os anos 70 na capital de São Paulo, participou das transformações sociais ocorridas na cena gay entre 1978 e 1990 – Do gueto gay do centro velho da cidade ao mercado LGBT das baladas que surgiram na região dos jardins.

 Eu tive o prazer de conhecer um dos lugares mais emblemáticos e chic da cena gay paulistana: O Clube Off, considerado o primeiro prive gay da cidade.

 O local foi aberto no final dos anos 70, mais especificamente em 1979 por Celso Curi, que havia sido editor da Coluna do Meio, no jornal Última Hora e que participou também do jornal Lampião da Esquina.

 Localizado na Rua Romilda Margarida Gabriel, 142, perto da esquina da Avenida 9 de Julho com Rua São Gabriel no Itaim Bibi, o clube fez história na cidade, mesmo localizado fora circuito do centro velho onde ocorria a afluência de homossexuais naquelas décadas.

 Originalmente era simplesmente um bar com uma pista de dança, conforme palavras do próprio Celso era um local onde não se pedia atestado de sexualidade, mas acabou se transformando num bar gay, porém muito frequentado também por não gays.

 Era um lugar legal e eclético, o Off fez parte da vida de muita gente importante e também de anônimos como eu.

 Eu estive lá pelo menos umas três vezes com amigos que vinham do Rio de Janeiro, única e exclusivamente, para ir ao bar.

 Lembro-me da primeira vez e foi mágico!

 Eu entrei naquele lugar no verão de 1980, por intermédio de um amigo que tinha convites prives. Na hora em que aquilo se abriu fiquei deslumbrado, era uma boate pequena e tudo era forrado de veludo vermelho, era pequeno e amontoado de gente, um monte de mulheres, homens jovens e maduros, bonitos, todos perfumados, bem vestidos, era uma espécie de esconderijo da burguesia gay.

 Quando finalmente achei o bar foi um abre-te sésamo. Porque naquele lugar descobri que tinha centenas de pessoas como eu. Até hoje recordo das duas letras “ces” em neon, imitando os da Coca-Cola numa das paredes do bar.

 Naquela noite foi tudo hipnótico, durante horas eu só olhava, não fiz nada, não falei com ninguém, fiquei catatônico, observando o local e as pessoas. Homens se relacionando afetivamente da maneira que eu achava totalmente proibida. Eu fiquei literalmente hipnotizado durante horas, só olhando, percebendo que aquilo existia.

 O Clube Off foi mais um acontecimento na minha vida, pois comecei a sentir que ser gay era pertencer a uma sociedade secreta, era ter passe livre para um universo muito mais interessante, mais colorido do que todo mundo via.  Aos vinte e um anos de idade eu confirmei que existia um mundo gay além de tudo o que eu conhecia dos guetos do centro velho da cidade, mesmo tendo conhecido a Boate Medieval na Rua Augusta pertinho da Avenida Paulista.

 No turbilhão dos anos 70 e 80, eu ia às festas, experimentava coisas, olhava gays dançando de maneira extravagante e ninguém que eu conhecia fazia coisas divertidas quanto eu, então foi muito interessante fazer parte daquele clube fechado.

 No auge da casa, a procura era tanta que o dono da Off chegou a desenvolver artifícios para restringir o seu público. Para entrar, as pessoas faziam uma carteirinha, pagavam uma taxa por ano, tinham de ser indicadas por outras cinco pessoas. Assim, selecionava um pouco a frequência. Claro que tinha gente que chegava de fora da cidade e entrava e se você fosse bonitinho era mais fácil. Esse foi o mote para o lugar ser chamado de Clube Off, uma coisa particular e privada.

 O fechamento da boate Off ocorreu devido à expansão da cena gay em São Paulo e à virada do mercado de consumo LGBT. Aliás, teve tantas boates gays que surgiram e desapareceram que nem dá para detalhar e quando lembro de alguma eu trago aqui no blog.

 Off deixou saudades, pois era algo com conotação de secreto, ou prive aos quais poucas pessoas tinham acesso, seja por limitações econômicas ou por não integrar redes sociais em que as informações a respeito de lugares como o Off circulasse.

 Era um lugar protegido, onde se desenvolvia um universo paralelo, cuja condição de existência era justamente o fato de ser fechado ao mundo exterior.

 O Clube Off conseguiu reunir durante sete anos todos os públicos, até que,em 1986, Celso Curi transformou a casa noturna num teatro, com o nome de Teatro Espaço Off, embrião de seu maravilhoso guia teatral de mesmo nome, que existe até hoje em SP e RJ, inclusive, no Facebook, cuja logomarca é a imagem que ilustra este post.

Off é mais um fragmento da minha existência! Obrigado Celso!

 

Nostalgias e Melancolias dos gays

gay_idoso_em_crise2Carlos Heitor Cony escreveu: Nostalgia é saudade do que vivi, melancolia é saudade do que não vivi.

Com o passar do tempo temos propensão de lembrarmos-nos do passado com nostalgia, dos bons momentos vividos, de coisas, situações e pessoas, mas também dos maus momentos ou momentos não vividos da forma como gostaríamos de vivê-los.

E porque isso acontece? Vou tentar explicar

A nostalgia é a sensação de saudade e a melancolia é um estado de grande tristeza e muitas vezes associada à depressão.

As lembranças que temos do passado, sejam elas boas ou ruins, invariavelmente, são de caráter emocional, pois a noção de identidade pessoal pressupõe a relação entre experiência e memória. Subentende, ainda, o estabelecimento de vínculos, sejam eles ligados à natureza, de caráter étnico, religiosos, de classe ou afetivo.

Para os gays esses vínculos, balizam, bem ou mal, a inserção na sociedade.  Por isso temos a noção de quem somos e como é o mundo, porque independente da nossa sexualidade sentimos a necessidade de nos inserir numa ordem sociopolítica, cultural e cognitiva, em uma ordem de valores, que possam nortear nossa visão de mundo e nossa relação com os outros.

Quando eu era jovem sentia a necessidade de inserção social, mas sempre vinha à minha cabeça: o que pode acontecer se descobrirem que sou gay? Hoje a necessidade de inserção não é tão importante porque o meu círculo social já está consolidado.

Igual a mim, penso que os gays acabam restringindo a inserção social por medo do confronto, ai passa-se a viver num mundo com limitações e isso também vai limitar a interação social.

Isso é fato, mas somos capazes de adaptações porque nossa vida não é apenas sexo e no decorrer da vida vamos interagir com o mundo, mesmo sendo ele predominantemente heterossexual.

crazy loucos de amor 2A nostalgia e a melancolia não ocorrem apenas na velhice, elas ocorrem em qualquer momento da nossa vida.

Podemos ter saudade de colegas, amigos e amantes, mas também sentimos saudade dos nossos familiares e de coisas que fazíamos noutros tempos que nos davam prazer e felicidade.

Eu por exemplo tenho nostalgia dos tempos da faculdade e não há uma razão específica para isso. É recorrente na minha vida. Talvez ocorra porque estudar me dava prazer e a homossexualidade nunca atrapalhou minha relação com professores e colegas de classe. Também não tenho saudades de ex-parceiros e olha que não foram poucos, pelo menos uns cinco relacionamentos mais estáveis. Hoje todos são falecidos e não me vem sentimentos nostálgicos. Já da família vez ou outra tenho nostalgia dos tempos vividos com a minha mãe.

Não é regra, mas os gays têm saudades da juventude porque eram belos, formosos e estavam sempre no centro das atenções. Eram cobiçados e disputados a tapas por amantes, ou porque os gays em sua maioria preferem os jovens – O hedonismo do mundo gay.

Às vezes nos frustramos, principalmente, nas relações humanas e com o tempo isso vai gerar tristeza e melancolia decorrentes das perdas ou de coisas que deixamos de fazer.

Sobre os gays mais velhos, um dos motivos da nostalgia é porque se tornam seletivos, a velhice em si traz a saudade e isso não significa dizer que a formação da identidade individual e coletiva dos gays se constitua de maneira imutável. O termo formação já carrega em si o sentido de algo em percurso, em vir a ser.

Essa noção de identidade e de história de vida pressupõe, ainda, uma relação efetiva e durável com o mundo exterior, o mundo dos seres e das coisas e ao nos tornarmos seletivos, nossas relações sociais são mais efêmeras porque vivemos numa sociedade que além de discriminar os homossexuais também discrimina o velho.

Portanto, eu digo: Viva intensamente toda a sua juventude, porque para envelhecer você tem toda a eternidade – isso é uma referência aos escritos do poeta persa Omar Khayyam.

Há gays maduros e idosos que tem espírito e mente jovem, abertos às transformações sociais e culturais e adaptam-se facilmente ao tempo presente. Isso é facilitador para inserção social e vai somar para sentimentos de nostalgia positiva.

Os seres humanos são frágeis e  nossa sexualidade contribui para mais fragilidade, logo, colecionamos uma dezena, talvez, centenas de situações ao longo da vida que nos trarão sentimentos de nostalgia ou melancolia. A balança vai pesar mais para o lado que você escolheu ou optou viver, ou não.

Você pode ter nostalgia dos momentos da juventude, das baladas, dos bares, das boates, viagens, mas principalmente de momentos vividos com outras pessoas.

A melancolia traz sensação de grande tristeza e é mais comum aos gays do que imaginamos porque se privam de viver a vida com plenitude devido a não aceitação da homossexualidade. Outro fator que acentua a melancolia são as perdas, principalmente, de parceiros queridos e amados por longos períodos ou anos.

A própria velhice e a finitude da vida traz momentos melancólicos.

Eu recomendo ao leitor fazer um exercício: Tente ficar um final de semana sem contato com outras pessoas, sem conversar com ninguém e completamente isolado e desligado do mundo exterior.

A primeira coisa que vem à mente são as situações vividas ontem, na semana passada e assim vai. Isso ocorre porque as coisas do mundo tem a função de estabilizar a nossa vida. Os seres humanos estão em contínua mutação, portanto estamos sempre renovando nossa relação com objetos, situações e pessoas.

Essa faculdade de as coisas do mundo terem o poder de estabilizar a vida humana, bem como, as relações entre os seres humanos, por mais conflituosas que venham a ser, é o que gera infindáveis modos de integração, percepção e enraizamento.

Implica, portanto, a criação de quadros de referências e de valores, com os quais toda e qualquer experiência humana entrará em contato, seja negando, transformando ou endossando-os como vetores para a estabilização, sempre relativa, às vezes contraditória e ambígua, da trajetória de vida dos seres humanos.

Hoje vivendo entre a maturidade e a velhice eu consigo perceber que o mundo comum está retirando-se para as sombras e posso perceber mais claramente o quanto necessito dele.

Por um longo tempo, essa necessidade foi esquecida pela satisfação que acompanhou a minha descoberta de uma vida interior plenamente desenvolvida, liberada ao menos dos olhares curiosos dos vizinhos, dos preconceitos do bairro, da desconfiança dos colegas de trabalho e da presença inquisitorial dos mais velhos, de tudo que fosse acanhado, asfixiante, insignificante e convencional.

Mas, agora, é possível ver que o colapso da minha vida comum empobreceu também a minha vida privada; libertou a minha imaginação dos constrangimentos externos, mas, ao mesmo tempo, expôs mais diretamente à tirania das compulsões e ansiedades internas.

Assim, nostalgia e melancolia estão ai esperando o momento de aflorar e vai depender exclusivamente de cada um permitir o que deve ou não fazer parte das suas emoções presentes. Hoje eu vivo momentos nostálgicos e se a melancolia bater à porta eu deixarei entrar sem arrependimentos ou traumas.

Caro leitor dos Grisalhos, desejo a você um ótimo feriado e aproveite esses dias para viver momentos felizes e prazerosos, pois esses momentos serão figurinhas do seu álbum de nostalgias no futuro.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 391 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: