O amor e o desejo homossexual

Gays maduros - a difícil arte dos encontrosCaro leitor, quantas vezes você parou para pensar sobre amor e sexo? Qual a diferença entre homoerotismo e homoafetivo? É possível amar um homem, sem pensar em sexo? É possível fazer sexo e não ter sentimento?

Durante muito tempo vivi conflitos dessa natureza, pois na adolescência antes da paixão, eu tinha atração física por homens mais velhos e depois da primeira relação sexual me senti como se tivesse cometido um crime. Isso aconteceu com você?

Eu lembro que chequei na minha casa e estava morrendo de medo de alguém perguntar o que estava acontecendo. Essa coisa de se achar cometendo um crime é a culpa por ser diferente.

Com o passar do tempo fui sendo envolvido por sentimentos, não apenas por um corpo, mas o aconchego, aquela necessidade de estar com o outro, até o instante que me apaixonei. Foi a primeira paixão e um amor juvenil me tirou dos trilhos da normalidade.

Sofrimento e desilusão são substantivos adequados para descrever aqueles momentos, mas no balaio veio também a satisfação, alegria e contentamento, por mera questão de gramática, os substantivos evidenciam a essência.

Já na fase adulta eu ainda tinha dúvidas sobre sexo e amor, ou desejo físico, porque quase nunca se completavam totalmente. Quando eu amava não era correspondido e quando o tesão aflorava o amado brochava.

Há situações comuns do companheiro jurar de pés juntos te amar e realmente ama, mas pula a cerca para sexo casual. É uma situação emblemática sentir amor por alguém e não se satisfazer totalmente.

Ainda sobre o meu passado, obviamente não vivi apenas buscando o amor. Também experimentei o prazer sexual sem envolvimento emocional com diversos homens. Era apenas carnal, porque não sentia paixão ou amor pelo parceiro e vice-versa.

Acho legal ser sincero, não iludir ou enganar o semelhante. Diz não amar, mas sente tesão. Diz que ama, mas não sente tesão ou ainda o melhor dos mundos: Diz amar e tem enorme tesão. Tudo isso é a realidade mesmo que não haja correspondência.

Amor e sexo para um mesmo companheiro não é raro, pois há sintonia entre dois seres onde o sentimento de cada um está afinado com o outro, enquanto a parte física também satisfaz ambos parceiros.

Dizem por aí, serem os gays promíscuos por natureza e não é verdade, pois buscar primeiro o sexo é coisa natural entre os humanos, para depois desabrochar as emoções e afinidades entre o casal. Não é tão simplista assim!

Uma boa parcela de gays privilegia o sexo e isso pode ser explicado por vivências do passado que marcaram ou machucaram o coração. Amor não correspondido, sofrimentos e rejeições bloqueiam os sentimentos.

É importante considerar cada uma das suas escolhas. Eu optei por viver os últimos trinta anos com apenas dois companheiros e posso afirmar: amei o primeiro e amo o último e ambos me deram tesão. Não preciso cobiçar a galinha do vizinho achando que ela é mais saborosa.

Conjugar o verbo amar é muito mais difícil do que o verbo fornicar e nas questões do coração não existe uma bula padrão com instruções para a felicidade.

Conheço gays de todas as idades e sempre me deparo com um ou outro sofrendo por amor não correspondido e a maioria nem chegou a ter uma relação sexual com o homem amado. Deixam-se levar por sentimento platônico e o tempo passa e se perde meses e até anos investindo numa relação que não vai dar em nada. Vale como experiência de vida.

Eu, por exemplo, penso ser primordial tentar primeiro o sexo, a afinidade física, porque se isso der certo o amor pode desabrochar naturalmente, basta se permitir amar e ser amado. Tem gente que não quer nem pensar nisso. Tudo bem!

Mas a realidade é muito diferente do cenário ideal, dos casais felizes, da longa convivência e relações estáveis. Eu posso estar enganado, mas vivemos uma época de total liberdade onde a individualidade está acima de qualquer regra, todos priorizam o bem-estar pessoal e muitos não abrem mão da sua privacidade em prol de uma relação a dois.

Um amigo diz: a época do romantismo ficou no passado e hoje só há romance se ele vier acompanhado do minuto de fama. Não é bem assim, mas analisando o cenário numa visão macro, ele não está errado.

Todos os seres humanos são dotados da capacidade de amar e obviamente de ter desejos carnais. Deliciar-se com um corpo é maravilhoso!

Não posso esquecer de mencionar situações onde os gays reprimem os sentimentos por conta das pressões sociais e familiares. A vida dupla não permite abrir-se ao amor e a busca por um corpo masculino acontece fortuitamente nos cantos escuros das cidades.

Quanto aos gays idosos, esses buscam um parceiro para viver a velhice, sem abrir mão da beleza física ou os dotes do bofe. Nem sempre isso é possível, então observa-se esses personagens atirando para qualquer lado e mesmo assim nada os priva do isolamento.

Outro complicador entre o amor e o desejo está no valor da aparência e do status social muito valorizado pela maioria dos gays.

Se você é idoso e tem estabilidade financeira não vai ter problemas, se você não tem dinheiro, mas você é bonito, as pessoas vão ficar com você porque é um coroa lindo e enxuto. Desculpem-me os feios, mas beleza é fundamental no universo homossexual.

Eu nunca busquei beleza física e o máximo das exigências eram restritas às características, pois todos têm o seu modelo de homem ideal e isso não passa necessariamente por corpos esculturais, belas picas, mãos másculas, cara e jeito de macho. Isso é fetiche!

O romantismo do passado citado pelo meu amigo está vinculado à época, porque era difícil socializar em praça pública. Os encontros eram raros e não havia tanta oferta de homens no mercado. Longas convivências sem o sexo de fato, nutriam as paixões, além da possibilidade de criar um clima favorável para romances novelescos.

O amor está no ar em qualquer época, é apenas uma questão de visão e interpretação. Não dá para analisar fora do contexto social, porque hoje as abordagens da paquera são muito mais fáceis e acessíveis.

Existem sim, por aí, gays românticos, amáveis, dóceis e carinhosos, buscando um parceiro para amar, bem como, estão sedentos de prazer e desejo homossexual, pois até as bichas podem ser felizes

Grisalhos: balanço 2016

O mês de dezembro chegou com o Dia Mundial de Luta Contra a AIDS. Eu sempre gosto de registrar esta efeméride porque quem viveu os anos 80 sabe que não foi nada fácil.

Dezembro é um mês dos mais esperados por todos, por marcar o fim de um ciclo regido pelo calendário gregoriano. É especial por conta das festas natalinas e apesar de ser uma festa cristã, associamos ao início do período de férias e de festas pagãs.

Eu, particularmente, gosto porque há mais de trinta anos eu não trabalho entre o Natal e Ano Novo e sempre é possível programar alguma viagem mais longa.

Para a maioria dos gays, principalmente, os jovens este é um período de muita ferveção por conta do início do verão nos trópicos. As praias ficam lotadas e nas areias escaldantes corpos seminus desfilam ao som dos sucessos do momento. Do calçadão das praias aos bares e boates, tudo é motivo para diversão e paqueras.

Os cenários se transformam, com mais luz, beleza e muito colorido. É tempo de roupas e alimentação leves e muita descontração, pois há dezenas de opções de lazer com novos points que nascem e morrem ao fim do verão.

Este também é um período propício para os gays maduros e idosos saírem dos seus casulos e irem para as ruas. Aqueles que estão solteiros tentam socializar e interagir com o mundo. Já os casados aproveitam para fazer em pouco tempo tudo o que não fizeram o ano inteiro.

Por incrível que pareça é neste mês que as saunas ficam lotadas, quando deveria ser justamente o contrário. Os adeptos das saunas não estão nem aí com o calor quase insuportável e a maioria vai mesmo para caçar e encontrar um parceiro para sexo. Dizem que sauna boa é aquela que tem o maior número de homens por metro quadrado.

Dezembro é o cenário perfeito para encontrar um grande amor. É mês das paixões avassaladoras, dos romances fortuitos e dos flertes escancarados. Do outro lado da janela os beijos quentes e molhados unem casais entrelaçando corpos e fulminando corações.

Este é um período de otimismo por dias melhores, menos preconceito, mais tolerância e aceitação da sociedade por nossos desejos homossexuais. Dentro ou fora o armário, os gays vivem um processo de auto reconhecimento e procuram vivenciar com os seus iguais suas angústias e suas identidades.

Balanço

Quando o ano iniciou fiz planos, mudei velhos hábitos e descortinei sonhos e desejos. A cartomante previu maravilhas, pois viado que se preze consulta os magos para garantir ano bom.

Para mim o ano começou depois do carnaval, pois os velhos já não faziam parte do meu presente e na ausência gélida dos sons das marchas, aguardei o fim da folia para sair de férias.

Este ano a melhor parte ocorreu em março, viajando de carro entre São Paulo e Diamantina nas Minas Gerais. Eu queria conhecer o Parque Estadual do Biribiri e lá me senti no céu. Lugar simples típico do serrado de comidas caseiras lá para as bandas da terrinha da Chica da Silva.

Durante dez dias não me deparei com nenhum gay, jovem, maduro ou idoso e olha que passei por Belo Horizonte, mas não fui aos points da cidade porque queria me descolar dos vícios antigos de observar homens bonitos de outras paradas, aliás, vi um grisalho sim, no mercado municipal de BH, estava sozinho tomando um café expresso e com a cara enfiada num jornal. Belo visual, mas ficou só nisso.

Depois de abril a vida seguiu rotineira. Trabalho, casa, chácara e raras visitas a amigos e familiares. O primeiro semestre foi quase sabático e quando setembro chegou eu já estava aposentado.

A sensação da velhice é estranha, mas não é o fim, pois a partir de certo momento a vida desacelera e passa lenta. Felizes os amantes que nessa idade tem um companheiro, um amigo ou amante. Hoje sei como é importante ter alguém para compartilhar os momentos tão aguardados durante toda a vida.

Das coisas banais, comprei meu primeiro brinquedo e olha que não é sexual. Lá na chácara estou aprendendo a pilotar um drone. Outro dia alguém falou: Isso não é coisa de viado!

Também, foi no meio do ano que decidi vender todo o meu acervo de filmes temáticos. Reativei o grisalhos.com.br e montei uma loja virtual.

Ao longo do ano foram centenas de filmes vistos e revistos. Do desconhecido, uma luz entre Oceanos ao último poema do Rinoceronte. Dos polêmicos Spotlight e o Clube. Pedofilia de padres católicos nos Estados Unidos e no Chile. Corra lá na loja que ainda tem algum exemplar à venda.

Este ano eu e o meu companheiro passamos ilesos de doenças, mas para não passar em branco resolvi fazer implante dentário e se soubesse que não era complicado e doloroso já havia feito antes.

Enfim, vida de gay é igual à vida de todo mundo. Me surpreendi com alguns exemplos de superação e olha que superar homofobia é uma vitória. Um amigo perdeu um amigo que perdeu outro amigo. Na roda viva da vida ficamos entre a cruz e a espada.

Eu vivo tempos de rever velhos conceitos e adaptá-los aos novos tempos. A homossexualidade no envelhecimento constitui um assunto contaminado por preconceitos sociais, culturais, familiares e até mesmo pessoais.

O meu ano foi assim, observando o cotidiano e buscando entender o quanto somos ignorados, além de marginalizados e sempre esperando por dias melhores.

Notas: Este foi meu primeiro post escrito 100% via smartphone .

A imagem que ilustra esse artigo é de Raphael Perez, artista israelense

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