Gay idoso: Solidão que nada

gay_idoso_olivioEu observo pelo retrovisor o tempo quando o homossexual e idoso era sinônimo de solidão e isolamento mesmo que textos jornalísticos e acadêmicos ressaltem essa estigmatização. Isso não quer dizer que não existem gays idosos solitários e isolados, mas ao longo das últimas décadas houve mudanças significativas na vida desse personagem estigmatizado e discriminado, inclusive, no meio gay.

Os meus argumentos são de uma visão bem específica: a classe média. Os gays de classes sociais mais baixas ou mesmo os transexuais idosos ainda vivem no túnel do tempo e isso os torna vulneráveis ao preconceito social, isolamento e invisibilidade.

A maioria dos gays sessentões da classe média e que vivem nos grandes centros urbanos  possuem bom nível de escolaridade, independência financeira, moram sozinhos em imóveis próprios e a maioria possui carro – Mesmo morando sozinhos eles não são solitários e mesmo sem estarem numa relação estável, eles tem amigos e companheiros.

Os vínculos de amizade entre iguais não é um fenômeno novo, isso já existia nos anos 1950 e 1960, mas a diferença é que hoje a socialização ocorre em todos os espaços urbanos e não apenas nos guetos.

Talvez este seja o principal motivo do porque é difícil encontrar um gay idoso para relacionamento estável. Eles não vivem mais nos guetos e ocupam os diversos espaços urbanos, saem com amigos, fazem almoços e jantares, vão ao cinema, aos cafés e até viajam juntos e o sexo acaba ficando em segundo plano.

Eu perguntei a um amigo como ele convive com a solidão e ele foi enfático: “O homossexual passa a viver sozinho a partir do momento que se descobre diferente, portanto, desde a adolescência a solidão faz parte da minha vida e não é na velhice que ela me assusta”.

Quem vive no mundo gay há mais de quarenta anos aprendeu tudo sobre a vida, ganhos e perdas, mais perdas do que ganhos, tanto materiais quanto emocionais, logo, estão acostumados com tantas idas e vindas que acabam assimilando as regras do jogo.

Os grisalhos gordinhos - Chubby DaddiesOs gays sessentões buscam a qualidade de vida como uma opção pessoal, mesmo limitados pelos padrões de convivência social e isso também é observado entre as lésbicas idosas. A qualidade de vida proporciona equilíbrio e envolve o bem-estar físico, mental, psicológico e emocional.

Os gays da melhor idade enxergam a saúde como o principal fator da qualidade de vida. Se ficar doente terá muitas limitações, portanto, eles vão regularmente ao médico para exames de rotina.

O Brasil ainda engatinha nas questões dos LGBT e as diferenças regionais são enormes e quase nada garante aos idosos a qualidade de vida para uma velhice digna e saber que várias pessoas idosas, gays, lésbicas, bissexuais e transexuais fizeram parte de uma geração de inovadores que mudaram leis no país e a forma como a sociedade os trata.

O grupo de homens gays que estão nos seus 60 anos gastaram muitos dos seus anos produtivos rodeados de pessoas que estavam morrendo de AIDS ou gastaram parte desse tempo escondendo a homossexualidade dos parentes e familiares. Eles perderam esses anos e querem uma velhice sem perdas, principalmente, de tempo.

Esses gays idosos têm medo de serem empurrados para dentro do armário, pois sempre foram independentes e não pensam em confinamento nos seus últimos anos de vida, porque ainda há muita intolerância na sociedade brasileira.

O envelhecimento é um processo natural da vida. Embora envelhecer só e sem filhos não é exclusividade da comunidade gay, aliás, é uma tendência mundial.

Eu percebo nesses gays idosos uma força interior que os impulsiona para a vida.

Como cantou Cazuza:

Viver é bom

Partida e chegada

Solidão, que nada…

Leia também:

Velhice gay: O ciclo da solidão

Ao sair do armário, entrei na velhice…

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Em outubro de 2014 a pedido do próprio autor, publiquei uma chamada para o lançamento deste livro na página dos grisalhos no Facebook.

Prezado Murilo Mota, desculpe-me o atraso, eu somente pude ler o livro agora em abril, mas posso garantir aos leitores do blog que o seu livro é ótimo e por isso dedico este espaço para falar da sua obra.

Casado há mais de 20 anos com o argentino Joel, 70 anos, Paulo também está entrando na velhice. Ele não concorda com a atual paquera entre homens. “Antigamente, existia entre nós um clima de sedução muito excitante. Flertes e olhares discretos eram o suficiente para que se percebesse a intenção. Para se chegar às vias de fato era preciso muita perspicácia, coragem e conversa. Entre risadas e trocas de olhares com o parceiro, tudo era difícil mas acontecia. O problema era encontrar um lugar para fazer sexo”.

Já a história de Júlio, 68 anos, é permeada de sentimentos de repressão, culpa e vergonha. Casado por 20 anos com uma mulher, ele mantinha relações com homens às escondidas. Como resultado, a clandestinidade lhe gerou dificuldades em manter relações amorosas satisfatórias livres e sem preconceito, seja com homens ou com mulheres.

As histórias contadas acima fazem parte dos quinze relatos contidos no livro “Ao sair do armário, entrei na velhice… homossexualidade masculina e o curso da vida”. Escrito pelo ativista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Murilo Peixoto da Mota, e publicado pela Móbile Editorial, com apoio do programa de Auxílio à Editoração (APQ 3), o livro de 232 páginas é resultado de sua tese de doutorado na Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ESS/UFRJ).

A expressão “sair do armário” não entrou no título por acaso. “Quem está no armário fica mais vulnerável, pois a proteção pelo silêncio é ambígua, encobre a injúria e o desrespeito. Quanto mais assumimos o que somos, obrigamos o entorno social a tolerar o direito que todos temos diante da diferença. Há muito preconceito. Todo homossexual, assumido ou não, encara o duplo dilema de viver em dois mundos para não enfrentar a violência e a difamação. Ainda no século XXI, muitos gays são expulsos de casa, há muitos casos de suicídio de jovens ainda pouco relatados em pesquisas”, destaca o pesquisador.

Para ele, a aceitação da condição homossexual pela sociedade é essencial para a felicidade. “O que se quer é o direito à diferença e o reconhecimento de que todos somos iguais perante a lei. A cidadania é para todos em nome da diversidade sexual. Mas é importante que se assuma o que se é. Vivemos em uma sociedade heteronormativa, ou seja, com normas feitas para atender somente os heterossexuais, e preconceituosa com a velhice. Nesse contexto, a cidadania é sempre uma conquista”, explica.

“No livro, há relatos de homens que assumiram sua opção sexual após os sessenta anos, ou seja, eram jovens durante os anos 1970, quando se vivia o auge da ditadura militar. Na época, os direitos civis ainda eram bastante reduzidos, reuniões com mais de duas pessoas eram consideradas ameaça e esse assunto ainda não estava na pauta das discussões políticas”, recorda. “Ao mesmo tempo, vale lembrar que entrevistei pessoas e casais da geração do ‘desbunde’, do movimento hippie. Alguns posteriormente contraíram Aids e muitos deles morreram vitimados pela doença”, acrescenta.

O professor da UFRJ também chama a atenção para duas abordagens debatidas em seu estudo: o preconceito entre os próprios homossexuais, e a expressão “terceira idade” para designar as pessoas com mais de sessenta anos. No caso da velhice, os próprios homossexuais discriminam seus pares que chegam a essa idade, logo tachados de “bichas velhas”. “Isso acontece porque vivemos em uma sociedade que cultua a juventude, o corpo e o hedonismo, o velho é encarado como feio, não sexualmente atraente.” E a expressão terceira idade muitas vezes esconde o fato de os homossexuais serem considerados cidadãos de segunda categoria. “A velhice acarreta uma série de problemas de ordem cultural, assistencial e social de uma forma geral. Mas no caso dos gays, há um duplo preconceito”, diz.

Ele afirma que, apesar de culturalmente a velhice ser sinônimo de obsolescência, com os avanços da medicina e o aumento da expectativa de vida da sociedade como um todo, cada vez mais se vive bem aos sessenta, setenta e mesmo oitenta anos. “Espero que possamos realmente contribuir para começar o debate na academia sobre o envelhecimento e a homossexualidade. As pessoas não podem ser tratadas como ‘mortas’ só porque ficaram velhas. Por isso mesmo, a idade não deve significar necessariamente inutilidade nem incapacidade. Sejam as pessoas héteros ou gays”, conclui.

Você pode comprar a edição digital no site da Saraiva.

Fonte: FAPERJ – Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro

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