Publicado em Comportamento, História, Memória

A multiplicidade de personagens homossexuais

PERSONAGENS

Caro leitor, quando você se descobre gay a sua vida se transforma, é um trauma. A primeira reação é um choque, depois vem outros pensamentos, isolamento social e o afastamento familiar porque a cada dia aflora o desejo, então cada um busca formas de inserção social no meio para encontrar parceiros e viver a sexualidade reprimida, além de conciliar o padrão heteronormativo ao homossexual.

Na fase de aprendizado o gueto é o local ideal para socialização, obviamente nem todo homossexual gosta de bares, saunas e boates. Aqueles que optaram por socializar no gueto viveram dias felizes e conheceram e interagiram com uma infinidade de personagens homossexuais.

Anos 1970 >> leia aqui

Durante a minha juventude eu socializei principalmente no gueto paulistano. Para mim foi fundamental a inserção e interação com outros iguais. Durante mais de vinte anos eu percebi a multiplicidade de personagens do nosso meio.

Havia uma variedade de personagens. O garoto pobre que desde muito cedo começava na prostituição, muitos deles menores de idade tentando se desvencilhar das batidas policiais. Garotos humildes em busca de sonhos e prazer homossexual. Uma parcela deles era sonhador e buscava um homem mais velho para viver um grande amor.

Lembro-me das bichas velhas que saiam ao anoitecer em busca de companhia para um final de semana. As paixões desenfreadas dos travestis que gastavam tempo e dinheiro para manter o bofe sempre a tiracolo, como proteção pessoal contra roubos e acharques. Vez ou outra iam parar na delegacia por conta da perseguição aos gays ocorrida no estado de São Paulo, no governo Maluf tendo à frente o famoso delegado Richetti que prendia travestis arbitrariamente.

Nos bares eu sempre ouvia as histórias e tragédias das bichas enrustidas, muitas casadas com mulheres por conveniência e sem nenhum remorso de estar longe dos filhos e dos netos. Nunca critiquei, mas sempre fui ouvinte desses personagens. O aprendizado foi um legado do que sou hoje. Gay, independente, sem mulher, filhos e feliz.

No turbilhão de conversas as emoções eram expostas, muitas frustrações e arrependimentos vinham à tona numa conversa qualquer de bar. Como um psicólogo eu ouvia tudo atentamente e daqueles anos de amizades tirei o aprendizado para a vida. A diversidade é magnifica, mas era frustrante numa época de pouca abertura social.

Vez ou outra aparecia um novo personagem no pedaço, outros casais desconhecidos da clientela e até a história incestuosa de dois irmãos apaixonados vivendo no gueto longe da família.

Dos bares da Vieira de Carvalho, eu me recordo de uma bicha decadente num Opala vermelho 1977, louca e apaixonada por um garoto tímido do interior e ambos não se davam conta da paixão um pelo outro que não acabou em nada, porque o amor homossexual muitas vezes é a razão.

Anos 1980 >> leia aqui

Toda semana, no final da rua próximo ao Largo do Arouche uma comunidade de bichas disputavam um bofe musculoso e bem dotado. Nas idas e vindas pela calçada elas paravam para conversar quando encontravam outras amigas na contramão do fluxo.

Enfiados dentro de um bar com amplo balcão homens masculinizados entre 30 e 60 anos tomavam seus drinks observando o movimento. Vez ou outra um conhecido se aproximava e a conversa ia noite adentro.

Esses seres solitários na maioria das vezes estavam ali para encontrar outros semelhantes em comportamento heteronormativo. Naqueles assentos junto ao balcão pernas se encostavam, mãos se tocavam e acordos eram fechados. Dali para o hotel mais próximo era uma questão de tempo, não mais do que duas horas. Poucos se firmavam em relacionamentos e na semana seguinte lá estavam eles sentados naqueles assentos do mesmo balcão.

Quem frequentava semanalmente o gueto conhecia todos os personagens, bem como, eram conhecidos e se não eram, se deixavam conhecer porque a socialização era difícil numa época de muita repressão.

Outro personagem era o dono do estabelecimento. Naquela época os donos ou gerentes nem sempre eram gays e isso as bichas sabiam e mantinham bom comportamento, excluindo um ou outro que sempre se apaixonava pelo dono do lugar.

Na Vieira de Carvalho quem não se lembra do Bar do Gil? Conhecido pejorativamente como Caneca de Lata. Pois é, mera coincidência, o Gil era um português esbelto e era meu vizinho de bairro e sempre me dava carona quando fechava as portas, nunca antes das duas horas da madrugada. Um heterossexual que conhecia como ninguém a noite paulistana e mantinha sua vida familiar longe das conversas do bar.

No tradicional bar Caneca de Prata, quem não se lembra do Mané e do Ratinho? Personagens distintos e educados, com a paciência maior que o mundo para aturar outro personagem característico: a bicha bêbada e inconveniente. A maioria dos clientes era comportada, mas num ambiente pequeno e fechado sempre aparecia aquela que encheu a cara por frustração, vício ou decepção amorosa.

Na rua era um mar de gente circulando nas calçadas onde se escondiam padres amantes, advogados apaixonados, políticos enrustidos e artistas também enrustidos.

Nas décadas de 1970-1980 o boom gay tomou conta das principais cidades do Brasil e com a abertura política já nos primeiros anos da década de 1990, o cenário expandiu as fronteiras, o gueto consolidou-se para além do carnaval.

Os casais românticos preferiam locais fechados e privados como o Paribar na Praça Dom José Gaspar, os michês fixavam ponto em locais estratégicos em praças e ruas próximas aos points gays. Sim, porque a quantidade de bares triplicou nos anos seguintes.

Em 1978 surgia a boate HS – Homo Sapiens e no seu entorno bares como o 266 West Bar, Man’s Club, Batuk Bar, o perigoso Val Improviso e o restaurante Chopp Escuro.

O cenário era diverso e os personagens circulavam em todos os locais, de bar em bar, dos bares para as calçadas da Avenida Ipiranga e São Luís, das boates para saunas e o circuito dos cinemas, muitos preferiam a pegação anônima nos banheiros públicos e os mais recatados optavam por restaurantes e espetáculos teatrais.

Aliás, a partir dos anos 1970, a vida desses personagens foi escancarada diante das plateias nos palcos das grandes cidades do país.

Inconfundíveis personagens da cena homossexual paulistana com ou sem exibicionismo viveram uma época de afirmação da sua identidade.

Minhas memórias dos anos 1970-1980 – leia aqui

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Largo do Arouche referência LGBT

A capital paulista possui diversos lugares que construíram a identidade homossexual a partir dos anos 1960 no meio urbano, tais como o Largo do Arouche, Avenida Ipiranga, República e o Conjunto Metrópole. Foi nesses locais que os homossexuais começaram a ocupar a cidade enquanto coletivo. A comunidade se reunia em bares, praças ou em banheiros públicos em busca de sexo.

Quem visitou a cidade e não conheceu o Largo do Arouche? Eu nasci na cidade e tenho o largo como referência desde 1973 e já escrevi aqui no blog várias referências e passagens sobre a ferveção nos bares, boates e banheiros. Hoje resido a apenas 400 metros da praça, é o quintal da minha casa.

largo do arouche

O Arouche é o logradouro brasileiro com o maior número de endereços LGBT, em levantamento realizado pelo Guia Gay São Paulo. E o próprio largo também é área de convivência dos gays e lésbicas, especialmente nos fins de semana.

No coração gay da cidade, o Largo do Arouche é rodeado quase exclusivamente por lugares do mundo mix, como lojas, bares, cinemas, saunas, clubes do sexo, restaurantes e até padaria gay! Sim, é verdadeiramente um bairro gay, semelhante aos bairros de Toronto e Barcelona porque além do comércio e de serviços há diversos prédios residenciais ocupados por morados gays de todas as idades. Os moradores mais antigos ainda residem por lá.

Hoje o largo não está abandonado, mas carece de revitalização, pois há mais de duas décadas nada foi feito para melhorar este espaço urbano.

Mas boas notícias são bem-vindas e o local será revitalizado a partir da segunda quinzena do mês de junho, talvez após a Parada Gay 2018.

O projeto de reforma para o Largo do Arouche, inclui a criação de um quiosque LGBT.

O espaço prestará atendimento social, psicológico e jurídico para a comunidade arco-íris. Outros três quiosques vão abrigar a administração do Largo (com uma horta comunitária anexa), base da polícia militar e banheiro público 24 horas.

Idealizado pelo escritório de arquitetura francês Triptyque, o projeto prevê a demolição do atual Mercado das Flores, inaugurado em 1953, e a construção de um novo, que terá marquise para captação, armazenamento e reúso de água da chuva para rega da plantas.

Segundo a Câmara de Comércio França-Brasil, 25 empresários franceses doaram R$ 2,3 milhões para a obra. A Prefeitura de São Paulo não informa os valores.

O projeto também prevê área para cães, bancos de madeira e concreto e um playground que poderá ser usado à noite.

Desde o ano passado, grupos, como o Coletivo Aroucheanos, fazem reuniões e discutem a reforma do espaço para que ele não perca a simbologia que possui para a comunidade gay da cidade e principalmente para os visitantes de outras cidades e estados.

É aguardar, conferir e acompanhar o projeto.

Nota: Parte do texto foi extraído exatamente como publicado no Guia Gay de São Paulo