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Cinzas do Paraíso gay

blog_grisalhos_paulistanos_gayCaro leitor, enquanto reviso e finalizo a terceira parte do artigo intitulado “não sou homossexual”, vou preenchendo este espaço com outros escritos, para trazer minhas ideias aos leitores e não dar a impressão de que estou abandonando o blog.

O mundo está completamente diferente daqueles tempos da minha juventude e a liberdade individual é o único diferencial positivo para os homossexuais. As tecnologias chegaram com perspectiva revolucionária. Entretanto, as utopias sociais do passado não mudaram. Basta observar a constante luta pela igualdade, união estável entre pessoas do mesmo sexo, preconceito, religião, novos conceitos de família, etc.

Os jovens gays do presente serão os idosos de amanhã e talvez em 2055 a sociedade brasileira esteja noutro patamar, mas a vida desses jovens não será diferente da minha ou da sua.

Chegar às portas da terceira idade é um processo que muitas vezes passa despercebido por todos, porque como dizia um falecido amigo: Quem vive intensamente a juventude e a maturidade não têm tempo de pensar no futuro e quando se der conta o tempo passou e virá o tempo das memórias e das histórias para contar.

Hoje aos 57 anos eu posso afirmar: Vivi a juventude e a maturidade plena. Desde os idos de 1975, lá se vão mais de quarenta anos. Puxa vida! Quando eu penso nisso é que me dou conta da dimensão desses quarenta anos. As transformações da sociedade são impressionantes!

Quando jovem eu imaginava o futuro como as ficções vistas nos cinemas dos anos 70 e até tive devaneios com robôs gays saciando o meu desejo homossexual. Mas cá estou, sem robô viado e com os pés fincados no chão de terra da chácara no interior.

Naqueles tempos os jovens tinham dezenas de opções de lazer no circuito do entretenimento. Os gays sempre foram atraídos principalmente para as baladas noturnas porque foi assim que a sociedade os confinou nos guetos.

Dos males o menor, porque nos guetos surgiram as boates e a oportunidade de vivenciar a homossexualidade, aprender os truques da paquera e ter contato com um mundo repleto de pessoas iguais a você.

As boates fervilhavam na cidade de São Paulo e a diversão era marca registrada da juventude. Dançar, beber, paquerar e procurar o seu par no meio da multidão é o que todos buscavam e ainda buscam nos dias atuais.

Pouca gente sabe, mas até o Freddie Mercury foi ferver na boate Homo Sapiens em São Paulo, quando esteve pela primeira vez no Brasil em 1980.

Com o surgimento da AIDS houve um retrocesso na cena gay, mas simultaneamente os primeiros movimentos sociais LGBT tomavam forma e se organizavam para abrir as portas para as novas gerações e aqueles personagens pioneiros hoje ainda vivem e estão na mesma faixa de idade ou mais velhos do que eu.

Que fim levou Zezinho? Estudante de filosofia da Faculdade São Bento, sumiu depois de 1980. Januário era companheiro das baladas dos finais de semana e sonhava ter um marido maduro e grisalho. Foi para a Itália em 1982 e nunca mais tive notícias. Pedro e Luís Alberto eram carne e unha, até a maconha era dividida. Pedrinho morreu de overdose de cocaína e Luís sumiu no mundo.

Foi assim com Odair, Ricardo, Lauro, Joãozinho, Carlinhos e tantos outros. Às vezes tenho a impressão de que sou o único sobrevivente gay de um holocausto nuclear.

Eu tento ser ativo no meu contexto social, mas raras vezes encontro um conhecido daqueles tempos de ferveção, mesmo sabendo que dezenas deles morreram doentes e esquecidos no tempo.

Os sobreviventes que como eu conseguiram navegar naqueles mares tempestuosos estão isolados num admirável mundo novo de tecnologias que facilitam a vida e a comunicação, mas em contrapartida geram indiferença nas pessoas, pois cada um está vivendo no seu mundo particular, em redomas de vidro, com seus pets de estimação.

Talvez eu esteja errado, porque sempre tenho a sensação de que os meus amigos e conhecidos estão desaparecidos. Eu perdi o contato com a maioria, porque cada um seguiu seu caminho e a cena gay se espalhou pela cidade e desembarcou em todos os espaços públicos.

Os poucos gays com quem tenho contato falam pouco ou quase nada sobre homossexualidade, até parecem heterossexuais.  Tenho a sensação de inércia e acomodação dos gays maduros. Claro, não dá para ser rebelde a vida toda, isso é coisa para os jovens e nem os jovens dessa geração y ou z está interessada em rebeldia.

Também, ficamos seletivos e sossegamos o facho. Às vezes vem a vontade de sair à noite para dançar na boate, mas algo diz para deixar para lá, porque hoje sou um senhor de bigodes e cabelos brancos e vivenciei muita discriminação no meio gay.

O dia-a-dia é algo até surreal, porque antigamente você olhava para outro homem e se fosse heterossexual abaixava os olhos, senão era ir fundo na paquera. Hoje olhar para um homem não dá em nada e mesmo que ele seja gay não dá a mínima para você, ou talvez não dá atenção porque não sou jovem?

Hoje há muito respeito à individualidade, seja no elevador do prédio onde moro, seja no transporte público e mesmo na rua. Não tem graça andar de mãos dadas com o companheiro porque ninguém não está nem aí. Noutros tempos isso era motivo de prisão, atentado ao pudor. Hoje o máximo é um arranca rabo, bate boca e fim.

Aqueles viados dos anos 70 e 80 eram verdadeiros heróis da resistência, quebrando regras, levando porrada da polícia e sendo presos por mera questão de atentado à moral e bons costumes.

Outro dia eu fui ao supermercado perto de casa e ao atravessar a rua um velho conhecido passou por mim de carro, desacelerou, acenou e foi embora, nem deu bom dia. Viado esnobe!

Antigamente, os vizinhos de prédios residenciais compravam binóculos para observar as janelas dos outros. Hoje você pode ficar pelado na janela, pois ninguém está interessado na curiosidade, porque não há nada de novo nisso, o pudor ficou no passado.

A última vez que eu fui ao Shopping Center observei um casal gay, ambos jovens e de mãos dadas e até as mães mais conservadoras não deram atenção, porque isso é corriqueiro e já virou carne de vaca nas novelas das oito – Para uma centena de leitores de língua inglesa, carne de vaca é uma gíria brasileira para coisa comum, vulgar, banal.

Observando as redes sociais não encontro nenhuma biba bombando no Twitter, Facebook, Instagram ou Snapchat e lembrar da bicharada enfrentando a polícia, levando porrada e sendo trancafiada nas delegacias era motivo para ter a foto estampada nas páginas policiais dos jornais da cidade.

Hoje todos querem o seu minuto de fama, tão efêmera quando os fragmentos das minhas lembranças transformadas em cinzas daquele paraíso gay fervilhante, indescritivelmente belo, de músicas pulsantes, corpos suados, aromas e sabores, luzes e cores, lantejoulas, plumas e paetês.

Enfim, envelhecer e ver o mundo mudar é algo assustador, mas não é o fim. Adaptar-se às mudanças está na nossa natureza. Quem viveu, viveu, não volta mais!

Caro leitor, viva intensamente cada momento para preencher o livro da sua vida com histórias maravilhosas, porque isso é o que importa e os resto são cinzas.

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A homossexualidade no Brasil no século XIX

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Largo do Rocio no fim do século XIX

Caro leitor, eu sei que este artigo talvez não cative a sua atenção, mas é sempre bom conhecer um pouco sobre a homossexualidade em tempos passados para entendê-la no tempo presente.

Escrever sobre a homossexualidade de épocas muito distantes é um tanto quanto complicado. É necessário pesquisar, ler, abstrair, etc. Também o tema é amplo e tentei resumir os principais tópicos.

Enfim, sobre o século XIX no Brasil e mais especificamente nas capitais, sabe-se que marcou de forma profunda a sociedade brasileira devido às mudanças estruturais em grandes centros como Rio de Janeiro e São Paulo.

Os hábitos sociais foram objetos de atenção das ciências, que se voltaram com o propósito de compreendê-los, estudá-los e controlá-los, fazendo surgir as categorias de normalidade ou anormalidade, principalmente no campo sexual.

A homossexualidade ganhou destaque quando surgiram pesquisas científicas procurando nomear e classificar as variações sexuais, logo marcadas e rotuladas como desvios ou patologias.

Contudo, essas mudanças que ocorreram no século XIX não se referiam a todas as práticas sexuais e vários segmentos sociais foram arrolados como pervertidos, degenerados e desviantes, já que ameaçavam a normalização médica, cujo período higienista estava em curso.

A homossexualidade passou a ser vista como sinal de degeneração, surgindo um julgamento moral, dos discursos religiosos, jurídicos e médicos. Todos esses discursos serviram para criar o estereótipo homossexual..

Embora o discurso fosse rude e pouco encorajador, face às reações e consequências sociais e legais, a prática homossexual era algo amplamente difundido naquele período como ações marginalizadas, já que o que não é aceito é reservado ao silêncio, à obscuridade e ao anonimato.

Em vários locais públicos, como parques e praças, os homens que buscavam relações sexuais com outros homens encontravam-se para fazer sexo. No Rio de Janeiro, o largo do Rocio, atual Praça Tiradentes(foto) foi célebre por ser o lugar onde à noite reuniam-se os pederastas passivos à espera de quem os desejasse e os possuísse.

Existiam lugares que eram bastante frequentados por homossexuais, tais como portas dos teatros, cafés, restaurantes, bilhares, botequins, portarias de conventos, escadarias de igrejas, casas de banho, além dos já citados parques e praças, o que dá ao leitor uma ideia da ampla rede de relações homossexuais que existia naquele período.

A situação ficou tão comum e isso causava  aversão às classes médica, jurídica e religiosa, que foi necessário importar prostitutas da Europa, na intenção de conter as práticas homossexuais..

As relações homossexuais na Marinha eram generalizadas e chamadas de amor de marinheiro. Essa relação não se dava entre iguais, envolvia relação de hierarquia funcional, hierarquia de idade, hierarquia de experiência, apesar de serem consideradas faltas graves e punidas com chibatadas.

Além da Marinha, no Exército as práticas homossexuais também eram muito difundidas. Embora as práticas acontecessem com mais frequência em comunidades fechadas, como o Exército, a Marinha, conventos e colégios internos, devido ao distanciamento social e da reclusão de pessoas do mesmo sexo, sua ocorrência não era restrita a esse ambientes.

A prática da homossexualidade, também acontecia em ambientes refinados e intelectuais, como o corpo diplomático, o magistério, o funcionalismo público e o meio dos literatos e poetas.

Já entre as classes mais baixas, os encontros casuais ocorriam nos bairros pobres das cidades e o sexo era praticado em lugares ermos, matagais e longe dos olhos das comunidades. Há relatos orais de praticas sexuais em quintais, matadouros, sítios e chácaras distantes. Algumas vezes os pederastas eram flagrados em pleno ato sexual. Imagine a cena!

Nesse contexto social, a homossexualidade era praticada mais por instinto e desejo do que por amor e afeição. Da solidão e isolamento das periferias os homens de classes mais pobres passaram a migrar para o centro das cidades devido à facilidade e maior probabilidade de encontros em locais públicos, bem como, para fugir dos olhares críticos dos conhecidos e vizinhos.

Essa corrente migratória misturou as classes e o sexo homossexual quebrou barreiras sociais e colocou os homossexuais no mesmo balaio, frequentando os mesmos lugares. Este modelo se espalhou para as demais capitais brasileiras e a interação entre os pederastas colocou frente a frente, a burguesia e a plebe, os fidalgos e os escravos, uma mistura tipicamente brasileira, ou universal?

Já nas primeiras décadas do século XX esses locais centrais das cidades demarcaram territórios e que hoje conhecemos como guetos, mas isso é outra história.

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