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Universo gay e o poder das circunstâncias.

top_horny_daddyNo último final de semana eu estava na chácara com a minha sobrinha e nos pusemos a conversar sobre o mundo, a sociedade e as circunstâncias que nos rodeiam e influenciam nossas vidas. Por mais que tentávamos elencar alguns pontos positivos não chegávamos a nenhum lugar.

Ontem após o jantar eu voltei a pensar no assunto e trouxe aqui no blog as reflexões sobre o universo gay e as circunstâncias que nos influenciam diariamente e nos distanciam da nossa essência.

O mundo à nossa volta nos manipula e influencia nossos pensamentos e instintos mais viscerais. A nossa personalidade não é tão estável quanto imaginamos e somos mais influenciados por aqueles que nos rodeiam do que gostaríamos (O poder das circunstâncias: Sam Sommers)

Essa coisa sobre o poder das circunstancias vem lá dos anos 1950 quando o psicólogo Kurt Lewin realizou um experimento para verificar até que ponto o ambiente social influía no comportamento das pessoas.

Bem, antes de sermos homossexuais somos seres humanos e estamos inseridos em todos os extratos sociais. Assim, diariamente, ignoramos as circunstâncias de nossa vida e não percebemos que questões comuns como onde estamos, com quem estamos ou se estamos bem ou não, afetam a nossa forma de pensar e agir.

A sociedade heterossexual nos vê e nos segrega pela nossa homossexualidade e dessa forma caímos diariamente em armadilhas que devemos evitar.

Ninguém para pra pensar porque supomos que a natureza humana é assim ou assado. Devido à homossexualidade não tomamos decisões melhores e não observamos em detalhes o mundo à nossa volta. Também, não percebemos o quanto situações do cotidiano exercem influência em nossas atitudes, obrigando-nos a ficar confinados em caixas, o que torna nossa visão de mundo menos real e sem percebermos somos relegados a segundo plano no trabalho, na faculdade, no cotidiano e na sociedade.

O universo gay também é repleto de circunstancias que norteiam o cotidiano e a vida. Veja o exemplo a seguir:

gay-couple-marryO must do momento é sair do armário ou fazer um Outing. Os gays em geral saem do armário e o outing é o termo usado por figuras públicas que assumem sua orientação sexual perante a sociedade. Caso recente da cantora Daniela Mercury.

Essas circunstâncias não servem pra mim. É ótimo para os gays jovens e para aqueles que precisam de promoção ou preferem tornar públicas suas preferências sexuais, para sentirem-se libertos e isso não os libertará dos preconceitos.

Vou ser bastante claro e objetivo. Pode ser-se homossexual e ser-se contra a adoção de crianças por duas pessoas do mesmo sexo. Pode ser-se homossexual e ser-se contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Pode ser-se homossexual e achar que o melhor para a sociedade é a “família tradicional”. Pode até ser-se homossexual e achar-se que a heterossexualidade é, sendo possível a escolha, preferível.

Um homossexual não está obrigado a ser mais liberal do que qualquer outra pessoa. Não está sequer obrigado a ter uma opinião especifica sobre a sexualidade. Um homossexual é apenas uma pessoa que tem preferência sexual e/ou amorosa por pessoas do mesmo sexo. Nem mais nem menos do que isto.

gay-couple-with-kidsO universo homossexual é composto por pessoas de todas as raças, credos e dos mais variados níveis sociais e culturais. Neste cenário existem gays que julgam outros gays com autoridade moral sobre a forma como cada um lida com a sua própria sexualidade.

As pessoas têm o direito a viverem o mais felizes que conseguirem com a sua heterossexualidade, homossexualidade ou bissexualidade.

E só elas sabem se a publicitação da sua intimidade é o que melhor garante essa felicidade. Desde que não cometam crimes (abuso de menores e violação), todos os cidadãos, sejam gays ou não, têm o direito a decidirem o que é intimo e o que é público na sua vida sexual e amorosa. Assumir a homossexualidade não é uma coisa simples, é complexa, envolve família, valores, religião. Assume quem quer, a qualquer tempo e idade.

Dadas às circunstâncias, os gays podem escolher: A mentirem. A dissimularem. A esconderem. A revelarem. A terem posições políticas que podem parecer contraditórias com as suas opções sexuais. Por quê? Porque a sexualidade de cada um não é um tema político. O que é político são os direitos civis e a igualdade perante a lei. Nem mais um milímetro do que isto.

O poder das circunstancias em nosso cotidiano está naquilo que fazemos com prazer e alegria e sem ofender ninguém, nem mesmo nossos pares homossexuais.

Eu, por exemplo, sou adepto do amor livre e dos direitos civis e sem rótulos. Pra mim é indiferente se os seres humanos são homossexuais, heterossexuais, bissexuais, se praticam swing ou BDSM, se gostam de sexo de manhã ou à noite, a toda a hora ou nunca. Se amam uma mulher, um homem ou mulheres e homens. Se dividem a sua vida e a sua economia com uma pessoa do mesmo sexo, do sexo oposto ou com ninguém.

Eu não me importo com quem quer sair do armário ou fazer outing. Se não quiserem, eu não pergunto, não denuncio, não insinuo, não julgo. A opinião alheia não tem que entrar na cama de ninguém porque os meus valores estão acima de qualquer julgamento que possa atrapalhar a vida do outro.

Deu pra entender? Pois é, vivemos num mundo midiático e de respostas imediatas, o que é novidade hoje amanhã é notícia velha. Somos influenciados a tomar decisões que nem sempre são boas para a nossa vida.

Portanto, as circunstâncias devem ser analisadas e assimiladas na hora, para não sermos influenciados negativamente. Quem tem discernimento sobre o poder das circunstâncias está à frente do seu tempo e não é refém da sociedade.

Termino este artigo com um trecho da obra de José Ortega Y Gasset – A rebelião das massas.

Não são as circunstâncias que decidem a nossa vida. A nossa vida, como repertório de possibilidades, é magnífica, exuberante, superior a todas as historicamente conhecidas. Mas assim como o seu formato é maior, transbordou todos os caminhos, princípios, normas e ideais legados pela tradição. É mais vida que todas as vidas, e por isso mesmo mais problemática. Não pode orientar-se no pretérito. Tem de inventar o seu próprio destino.

É, pois, falso dizer que na vida «decidem as circunstâncias». Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema, sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter. 

O tropicalismo e a homossexualidade

TROPICALIANeste domingo acontece em São Paulo a Parada Gay e isso me fez refletir sobre onde tudo começou, mais precisamente no Tropicalismo que durou pouco mais de dois anos,  mas que durante os poucos anos enquanto movimento, ele  mudou os rumos da sexualidade e da livre expressão política e cultural no Brasil.

Aos jovens leitores do blog, o Tropicalismo foi um movimento que resultou em uma síntese assistemática de alguns elementos da brasilidade, em sintonia com as manifestações estéticas e culturais do final dos anos 60. A geração tropicalista pode ser considerada aquela estudiosa ou conhecedora do modo de vida em nosso país.

Essa geração entendeu que os participantes de movimentos sociais – sindicais, estudantis, eclesiásticos, ambientalistas, feministas, anti-racistas, homossexuais, entre outros, juntamente com intelectuais e artistas independentes, poderiam se tornar companheiros, na criação de um partido político a partir dessas bases.

Quando se fala em tropicalismo logo nos lembramos de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Mutantes, Gal Costa, Tom Zé, Jorge Mautner, entre outros. Mas as mudanças não foram apenas através da música, inclui-se principalmente, o teatro, a literatura e porque não, a política!

Gilberto Gil foi o responsável pelo desbunde da época do tropicalismo, ele chegou a ser acusado de apologia à homossexualidade nos relatórios do Departamento de Ordem Política e Social – DOPS, durante seu período de exílio em Londres. Isso porque Gil requebrava e se permitia trocar afeto com Caetano Veloso em suas apresentações na Inglaterra.

É óbvio que o movimento tropicalista tinha tudo a ver com a quebra de tabus, inclusive, sexuais. O que rolou aqui no Brasil foi semelhante ao movimento Flower Power americano. Foram os hippies brasileiros que abriram as portas para o entendimento da homossexualidade. Ninguém pensou em fazer o tropicalismo, ele simplesmente aconteceu. Tom Zé disse: “Foi uma visão que fervia no cérebro de seus principais integrantes”.

Um pouco de história:

Em 1967 as transformações sociais eram evidenciadas no mundo e aqui no Brasil os homossexuais entraram em cena misturados à explosão da cultura brasileira onde tudo parecia possível. Os homossexuais não eram o foco do movimento, mas pegaram carona nas transformações em curso.

Em 1968, ano das barricadas estudantis em Paris, dos festivais da Ilha de Wight em Londres e Woodstock em Nova York, da Primavera de Praga, Caetano Veloso, Gilberto Gil e mais um grupo de músicos e cantores lançou o Tropicalismo, movimento que, em sintonia com a contracultura que mobilizava jovens em todo o mundo ocidental, apresentava uma nova postura estética, política e existencial. Influenciados pelo movimento antropofágico de Oswald de Andrade e pela poesia concreta, Caetano, Gil e Torquato Neto, entre outros poetas e compositores, incorporaram à linguagem poética as novidades da indústria cultural, a retórica dos comícios, passeatas e manifestações políticas, as imagens fragmentárias do discurso cinematográfico.

A partir de 1968, com a Instituição do Ato Institucional número 5 – AI-5, as cassações, deportações e prisões recrudesceram, e a censura proibiu a circulação de centenas de filmes, livros, peças teatrais, músicas e até novelas. A imprensa diária, durante anos, sofreu com a censura prévia, que inúmeras vezes impediu a divulgação de notícias políticas, sociais ou culturais sobre o país. Registro aqui que os homossexuais foram perseguidos e também deportados e muitos foram mortos ou sumiram nos porões da ditadura militar.

Foi um período lindo de descobertas e possibilidades individuais e coletivas, em contrapartida foi um período negro marcado por torturas, mortes e exílio.

APTOPIX Gay Pride

Para mim ficou marcado como uma época de mudança de comportamento, a ruptura com o ancestral machismo brasileiro. A extravagância dos cabelos compridos e das roupas coloridas, mais do que uma cópia de um modelo americano hippie, também era uma forma de protesto ao provincianismo brasileiro.

E hoje, mesmo depois dos anos históricos do tropicalismo, a questão comportamental dos gays, a orientação sexual, a identidade de gênero e a androginia ainda não esta totalmente resolvida, mas as conquistas alcançadas são heranças daqueles anos maravilhosos porque o tropicalismo e a homossexualidade estão intrinsecamente unidos por questões históricas.

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