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Memorias de um gay maduro 

Da janela do hall de elevadores eu observava o horizonte e ao longe via nuvens cinzas sob a cidade. As sensações do outono trazem outras sensações, como o isolamento, a melancolia e a saudade.

O que eu senti não era tristeza, mas uma leve sensação de alegria. Também, uma sensação de vazio, não existencial, mas um vazio deixado por pessoas que passaram na minha vida e deixaram marcas, ou contribuíram para a formação do meu caráter e personalidade.

Caro leitor, essas sensações são gostosas e refletem o meu momento presente, pois ninguém imagina como será o futuro, mas a qualquer instante podemos trazer as lembranças do passado.

O que fazemos no presente terá consequências diretas no futuro, mas à medida que passam os anos nossas atitudes do presente já não tem o peso, por exemplo, do que fazemos na juventude, para influenciar o nosso destino.

A juventude é o melhor momento da vida para tomar decisões, portanto, é a melhor fase para enfrentar todos os problemas que a homossexualidade traz aos seres humanos.

Descobrir-se gay não é o fim do mundo, principalmente, se existem pessoas que nos auxiliam na jornada do descobrimento, porque se você está sozinho nesta jornada, estará sozinho no futuro.

Você que é jovem nem imagina como era difícil ser gay nos anos 1960/1970, mas ainda assim era possível viver uma vida normal porque as dificuldades, se superadas, te faziam mais forte em relação à maioria dos seus iguais.

Alguns amigos dizem que nem todos têm a mesma sorte por inúmeras variáveis, mas eu particularmente, me sai além das minhas próprias expectativas. No meu caso não foi sorte, mas determinação e foco no enfrentamento das situações que se apresentaram ao longo do caminho.

Na jornada da minha vida gay, eu credito o meu sucesso às pessoas que cruzaram o meu caminho, seja para sexo ou amizade. Desde o vizinho safado que queria apenas ser masturbado até o amante de mais de vinte anos de relacionamento.

Naqueles tempos era comum ter relações sexuais em casas abandonadas, no meio do mato, várzeas, beiras de rio, banheiros públicos, nos fundos da escola, à beira dos trilhos do trem do subúrbio, locais ermos e distantes dos olhos do mundo e até dentro de cemitérios.

Havia riscos? Sim, mas era aprendizado, na essência.

Hoje tudo isso é trash, porque a sociedade mudou, as cidades mudaram e criou-se serviços especializados no público LGBT e neste cenário os riscos ainda existem e da forma mais violenta.

Obviamente, tive namoros com garotas, para não ser cobrado, principalmente, pelos parentes. Ter uma namorada dava um status diferente, uma sensação de poder, de fazer parte do padrão social. Valeu à pena? Sim, porque foi a partir desses encontros que reafirmei minha preferência por homens.

Mas a sexualidade é apenas um apêndice de quem sou. Os estudos para a formação profissional foram fundamentais para a conquista de espaço no mercado de trabalho. As batalhas diárias e as dificuldades para trabalhar não eram diferentes das atuais. Quer queira você ou não a condição socioeconômica traz liberdade, principalmente aos gays.

É preciso determinação para alcançar objetivos profissionais e também, um pouco de sorte, porque você deve estar no lugar certo na hora certa, além de jamais se envolver sexualmente com colegas de trabalho. Pode ser difícil controlar, mas é preciso resistir às tentações. Nunca cuspa no prato que come. Entendeu?

Nos meus quarenta anos de vida profissional, nunca me envolvi com homens no ambiente de trabalho. Claro que senti tesão por alguns deles, mas a prudência era o meu lema, porque não sabia quais seriam as consequências e na dúvida nunca arrisquei.

Recordo-me de algumas paqueras no entorno da fábrica onde trabalhei na juventude, também, outras transas com homens frequentadores de bares próximos aos escritórios no centro da cidade e até um engenheiro de uma multinacional de Campinas que vinha à capital uma vez por mês para sexo e nada mais.

Tive amantes, exclusivamente, para sexo e por longos períodos, sem envolvimento emocional ou compromisso de fidelidade e tudo isso foi aprendizado de sexo, de relacionamento e de vida.

Nas relações casuais tive os melhores exemplos de aprendizado porque além do sexo, as conversas eram como terapia para mim e para meus interlocutores. Todos tinham algo em comum, gostar de homens, logo, os problemas eram especificamente psicológicos.

Outro fator importante foi a construção da aceitação e isso não aconteceu do dia para a noite. Passaram-se anos, toda a juventude e na maturidade me vi menos crítico e mais tolerante comigo e com meus semelhantes. O que foi importante? O convívio com dezenas de homens iguais a mim, cada qual com seus problemas e neuroses e todos com uma forma diferente de aceitar ou não a homossexualidade.

Na parte educacional, desde cedo me envolvi com professores, não muitos, apenas dois. O primeiro aos quinze anos e ele era gostoso demais, não agregou nada além do aprendizado do sexo. Anos depois nos encontramos num cinema da cidade, então compreendi que aquele ser era um animal ávido por sexo.

O outro professor entrou na minha vida quando eu tinha vinte e um anos. Não houve sexo, mas muitas conversas e muitas bebidas, sempre às sextas-feiras e após as aulas. A melhor lição: Nunca se envolva com outro gay que está em relacionamento com outro homem. É problema na certa!

Outro fator que ajudou bastante na construção da minha identidade foi a minha filiação ao Círculo do Livro por indicação de um amigo. Foi a melhor coisa que fiz na vida porque entre 1975 e 1990 li quase mil livros. Na literatura sempre gostei dos textos de Fernando Pessoa, Oscar Wilde e Yukio Mishima e através das suas obras e de outros escritores, abri a mente para o entendimento da homossexualidade. Além da leitura assisti mais de quatrocentos filmes com temática LGBT para conhecer a diversidade do meu mundo.

Caro leitor, a sua realidade foi e é diferente da minha, mas as situações aqui relatadas moldaram quem eu sou hoje.

Não importa se você é enrustido ou não, porque cada um sabe como deve se comportar, mas na maturidade e na velhice não é possível voltar no tempo e fazer tudo diferente. O que dá para fazer é mudar o presente, para não ficar preso aos guetos de antigamente e viver uma vida normal e em paz consigo mesmo!

Ensaio sobre a velhice dos gays

Setembro chegou e breve a primavera descortinará sua beleza através do colorido das flores na paisagem urbana ou rural.

Este texto estava há algum tempo engavetado, mas aí eu encontrei um antigo conhecido e o texto finalmente ficou pronto.

Envelhecer no Brasil é desagradável, se o sujeito é homossexual, é quase uma tragédia! Não só pelas doenças e enfermidades, mas pelo excessivo valor que se dá à beleza e à juventude.

Eu li alguns livros sobre a cultura do oriente que costuma reverenciar os mais velhos e os veem como possuidores de beleza única. Quando olho para a sociedade brasileira vejo o fato de envelhecer como algo detestável e repulsivo. Aqui, especialmente, os gays idosos são subestimados, ignorados e desvalorizados.

Os homossexuais idosos estão fadados à solidão – Esta afirmativa é uma maneira de desencorajar os jovens gays a assumir sua orientação sexual, bem como, de evidenciar o que está implícito no processo de envelhecimento dos homossexuais.

Em 2011, eu conheci o André, um gay idoso que naquela época tinha sessenta e seis anos de idade. Interessei-me por sua história porque ela não era diferente de tantas outras histórias que ouvi ao longo da minha vida e que aqui ilustro este tema.

André se aposentou em 2000 e em 2005, aos sessenta anos apresentou problemas psicológicos decorrentes da solidão e depressão.

Ele queria encontrar um namorado para os anos de vida que lhe restavam, mas era enrustido e não conseguia materializar o seu desejo. Excelente profissional na área da educação, ele tinha crescido numa pequena cidade do interior de São Paulo, filho mais velho de uma família de quatro irmãos.

Como a maioria dos gays, ele se sentiu diferente quando criança: gostava da natureza e das artes, era mais sensível e emotivo que outros garotos, não se interessava por esportes e preferia a companhia de meninas.

O pai faleceu quando ele tinha dezessete anos e mesmo assim sua vida não mudou. Logo que completou a maioridade e livre do serviço militar decidiu sair de casa e mudar-se para a cidade grande.

André viveu sua infância e adolescência numa cultura rural e interiorana dos anos cinquenta e sessenta, ainda mais repressora e implacável do que nos dias atuais e mesmo vivendo na capital paulista, a sua vida não mudou.

Era tímido, reservado, solitário e quase sempre sem parceiros. Na faculdade foi induzido por amigos a manter relações sexuais com mulheres e numa dessas relações, encontrou uma mulher com algumas afinidades e ele se casou, mas não teve filhos.

Raras vezes André foi buscar prazer em cinemas pornô e saunas nem pensar. Ele, contudo, manteve seus poucos casos homossexuais fortuitos em segredo.

A vida passou rápida e André se separou da mulher em 1998, após se apaixonar por um homem mais jovem. Mas a relação homoafetiva durou apenas quatro anos. Passados oito anos a velhice bateu à sua porta e as doenças já estavam instaladas.

A situação vivida por André é mais comum do que se imagina. Muitos homossexuais passam a vida evitando ou mesmo censurando a atração pelo mesmo sexo e optando por um relacionamento heterossexual.

À medida que começa a haver uma abertura, a homossexualidade passa a ser tratada de uma forma menos discriminatória. O envelhecimento seria ainda mais favorável para esse “repensar” por se tratar de um momento em que as pessoas, independentemente da sexualidade, também têm a oportunidade de rever a vida.

O envelhecimento não é restrito aos homossexuais, envelhecer é uma condição de vida independentemente com quem você faz sexo. Eu não sigo o que é condição social, pelo contrário, sou completamente contestador de todas essas imposições e regras medíocres impostas pela sociedade. O André nunca foi assim e sofreu muito e o pior, disse-me que perdeu toda a sua juventude e maturidade.

Mas a realidade ainda é medonha, mesmo que as dificuldades no envelhecimento não sejam decorrentes da orientação sexual. Homossexuais masculinos e femininos têm medos e angustias quando o assunto é velhice.

Eu convivo com gays maduros e idosos e observo que o problema na velhice está em encontrar parceiros interessados neles – Muitas vezes eu me pergunto por que isso é tão recorrente entre os gays, principalmente, os idosos. A resposta é óbvia, pois não constituímos família e estamos e moramos invariavelmente, sozinhos. Temos tudo, e ao mesmo tempo não temos nada!

Mas os tempos mudaram e eu também observo o cuidado com a saúde e o corpo por parte dos homossexuais — o que é geralmente negligenciado por heterossexuais tem espaço reservado no dia a dia dos gays. Eles praticam mais esportes, buscam uma alimentação saudável e mais tempo para cuidar de si. Por outro lado, tem uma parcela de gays idosos que são dependentes de álcool, fumo e até drogas, como maconha e cocaína.

Isso somente vai mudar à medida que a homossexualidade for mais inserida ao contexto social geral. O gay idoso não é assexuado, tem desejo o tempo todo na vida.  As formas de envelhecer e os modelos de envelhecimento são diversos, atravessados por uma infinidade de marcas de diferenciação como gênero, classe social e raça.

Às vezes é problemático afirmar que as formas de envelhecimento homossexual sejam especialmente difíceis ou que esse envelhecimento se resuma a um único modelo, positivo ou negativo. Além do mais, nada garante que não existam envelhecimentos homossexuais semelhantes aos envelhecimentos heterossexuais.

Muito já se discutiu acerca das tendências de representações negativas quanto às formas de envelhecimento homossexual, partindo da ideia de indivíduos solitários, melancólicos, desvalorizados e indesejados, no caso dos homens, que tendem a ser chamados de “tias” ou “bichas-velhas”.

Essas representações são acionadas a partir de um imaginário da homossexualidade fragilizada e de uma supervalorização do contexto familiar.

As pesquisas mais contemporâneas procuram enfocar as formas criativas e positivas de se vivenciar o envelhecimento. Se você frequenta ambientes gays conhece a figura do tiozão, aquele homem a partir dos 45 anos, com bom poder aquisitivo e que se mantém com atributos sociais valorizados, incorporando a juventude como estilo de vida.

A questão de classe social tem relevância não apenas na aceitação social, mas também nas formas de vivenciar a homofobia em várias faixas etárias. Eu só percebi isso quando comecei a me estabelecer financeiramente e isso ocorreu somente após os quarenta anos.

A própria homofobia não é experimentada por todos os homossexuais da mesma forma. Alguns indivíduos tendem a se manter mais distanciados ou protegidos, o que não quer dizer que os homossexuais de elites econômicas não sofram nenhum tipo de discriminação.

Eu já escrevi sobre isso num artigo onde esses gays, talvez, não estejam tão expostos a certos tipos de violência, manifestações de intolerância corriqueiras contra gays que precisam circular a pé pelas ruas das cidades, dependendo de transporte coletivo – Se for idoso a intolerância é ainda maior.

Quanto aos homossexuais mais velhos, é possível afirmar que uma maior potencialidade de consumo auxilia a ampliar o campo de possibilidades sociais, tanto em termos de aceitação quanto de recepção pelos espaços de sociabilidade homoeróticos, comumente chamados de guetos.

A ideia de respeitabilidade e cidadania através do consumo acaba excluindo de maneira problemática uma parcela bastante expressiva de homossexuais. Quanto aos gays mais pobres, restaria qual cidadania e aceitação social?

Nas relações geracionais conflituosas, de um lado, há uma desvalorização acentuada de homens homossexuais mais velhos pelos mais jovens. O que, aliás, não parece ser tão expressivo em relação às mulheres lésbicas mais velhas.

Por outro lado, há um olhar bastante negativo voltado às gerações mais jovens de gays e lésbicas pelos gays mais velhos, com todo um conjunto de caracterizações morais desqualificadoras que a eles são relacionados, como: escandalosos, vulgares, promíscuos, garotos femininos e meninas masculinas.

Grande parte da crítica circunda a ideia de desrespeito à discrição, pois os gays idosos vem de gerações onde o segredo e discrição eram normas estabelecidas pela sociedade daquela época.

O contexto atual dos mais jovens esta marcado por um campo de possibilidades mais amplo para a vivência de afetos e sexualidades, fruto das grandes lutas históricas por maior visibilidade e direitos sociais dos movimentos LGBT.

Os jovens tendem a ter mais contextos e espaços sociais onde se sentem à vontade e seguros para expressar seus afetos de maneira pública, sem precisar respeitar as noções de discrição que eram parte expressiva de outros contextos restritos vivenciados pelos mais velhos.

Bem, voltando à história do André, durante as intermináveis horas no divã do analista, ele conheceu um rapaz que o tratava de maneira bastante especial. Eles começaram a namorar e seis meses depois, apesar da preocupação com a sua privacidade que lhe era tão cara, André convidou o seu amigo para morar com ele.

Foi uma surpresa encontrar o André em julho deste ano. Ele estava rejuvenescido, alegre e com sonhos a realizar.

Ele me disse que não se sentia mais deprimido ou solitário, pois encontrou a motivação para superar décadas de auto depreciação. Se fosse noutra época talvez a sua realidade fosse outra.

Infelizmente, nem todos os gays idosos tem a sorte do André, que hoje aos setenta anos, diz que ainda tem muita lenha para queimar.

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