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Relações familiares e a velhice gay

amor-c3a0-vida-Mateus solano - cc3a9sar-descobre-que-fc3a9lix-c3a9-gay-e-decide-ter-uma-conversa-sc3a9ria-com-o-filho2Não existem muitos estudos acadêmicos sobre os motivos, ou, porque os gays idosos em sua maioria tem uma velhice complicada, principalmente, quanto à inserção social e familiar.

Para entender como isso acontece é necessário traçar as trajetórias dos homens homossexuais para compreender acontecimentos e fatores relacionados com a homossexualidade que influenciam a construção da integridade familiar versus a desconexão e alienação dos gays na velhice.

Ao longo de 2014, eu colecionei diversos relatos de idosos homossexuais e com a ajuda de um amigo, conseguimos mapear algumas situações que relato a seguir:

  1. Aceitação da orientação sexual: essa condição ocorre quando indivíduos sentem-se bem e realizados por serem gays. Geralmente eles não têm problemas de revelar a orientação sexual para a família e aprendem desde cedo a lidar com a homossexualidade. Outro fator que contribui para a aceitação é encontrar um companheiro, pois uma paixão é capaz de mudar completamente a vida de uma pessoa.
  1. Revelação da orientação sexual: Alguns indivíduos tem a necessidade intrínseca de revelar aos familiares e amigos sobre sua homossexualidade. É algo que nem eles sabem explicar. Muitas vezes nunca houve conversa formal, mas a família sabe através de atitudes homossexuais.
  1. Família por escolha/afinidade: Quem vive na comunidade gay em bares e boates geralmente tem facilidade de autoaceitação da orientação sexual. Em casos pontuais existe até o encorajamento de amigos que dão apoio antes e depois do momento da revelação aos pais – Se por um lado, nem sempre isso facilita o diálogo com os familiares, por outro pelo menos ameniza os traumas e aprende-se a aceitar-se.
  1. Efeito positivo nas relações familiares: Tem aqueles que depois de tanto sofrimento contam primeiro à mãe para facilitar o processo de revelação e depois contam ao pai ou irmãos. É um tipo de aceitação gradual. Há situações de revelação, primeiro para os irmãos, depois à mãe e sempre por último, ao pai.
  1. Contribuição Intergeracional: Gays maduros e idosos que tem a intenção de ajudar jovens homossexuais no processo aceitação da orientação sexual e revelação aos pais. Muitos desejam ser lembrados como um exemplo na homossexualidade. Nesses casos os mais velhos tem relação afetiva com os mais jovens.
  1. A não aceitação da orientação sexual: A maioria dos gays sente-se infelizes por serem homossexuais e isto está relacionado com a rejeição da sociedade. São os gays arrependidos, como se fosse uma escolha que podiam evitar. É o clássico: Ser a ovelha negra da família.
  1. A não revelação da orientação sexual: Por medo de rejeição muitos optam por ficar no silêncio. É uma forma de proteção, não apenas de si, mas dos pais, por preconceito social. Orientação sexual descoberta! Outro exemplo clássico: “Aos meus pais nunca iria contar, para quê magoa-los? Sempre os ouvi dizer que preferiam um filho morto, a um filho homossexual”.
  1. Rejeição por parte de outros: Uma parcela de gays sente rejeição por parte dos familiares, amigos e companheiros de trabalho. Alguns chegam até a mudar de carreira e muitos não veem a hora da aposentadoria para fugir do ambiente de trabalho.
  1. Família por afinidade: Muitos gays são expulsos de casa quando os pais descobrem a homossexualidade do filho e eles procuram nos guetos uma defesa, como um amortecedor para a rejeição dos pais. Aqui se inclui os efeminados e travestis.
  1. Desligamento mútuo depois da descoberta da orientação sexual: Aqui está outra situação comum. Quando o gay se descobre homossexual e não quer nenhum conflito ou envolvimento familiar ele inicia um processo gradual e progressivo de afastamento – Eu me incluo nesta condição, porque foi assim que aconteceu comigo e sinceramente, eu não me arrependo de nada.
  1. Desilusão por não cumprir o desejo dos pais. Esta situação está relacionada com a perpetuação da espécie, pois os pais sempre querem que seus filhos casem, tenham filhos e netos. Esses gays sentem-se desiludidos porque isso nunca aconteceu e nem vai acontecer.

amor-c3a0-vida-Mateus solano - cc3a9sar-descobre-que-fc3a9lix-c3a9-gay-e-decide-ter-uma-conversa-sc3a9ria-com-o-filhoAs situações apresentadas estão relacionadas aos seguintes homossexuais que se corresponderam conosco:

Francisco, 64 anos, ex-gerente de banco; Rodrigo, 61 anos, transformista; João, 60 anos, carpinteiro; Felipe, 60 anos, corretor de imóveis; Antônio, 65 anos, professor; Rui, 60 anos, zelador de condomínio; Marcos, 70 anos, professos aposentado; Tomás, 60 anos, médico; Paulo, 65 anos, Policial militar aposentado; José, 60 anos, empresário; Álvaro, 63 anos, advogado.

Como você pode observar, todos os correspondentes têm 60 anos ou mais e são das mais diversas áreas de atuação profissional, pois estamos inseridos em todos os extratos sociais.

Enfim, não é sempre que eu tenho a oportunidade de elaborar um artigo mais apurado e espero que isso contribua para que os leitores dos GRISALHOS entendam a autoaceitação como homossexual é fundamental na construção do sentido de integridade familiar e adaptação ao processo de envelhecimento, pois na velhice a desconexão familiar, traz sentimentos de isolamento e de inexistência de uma identidade familiar, por ausência de valores e crenças comuns.

Crédito da primeira imagem: Raphael Perez – Pintor homoerótico israelense.

Por onde andam os gays maduros e idosos?

200_biggest_issues.imgcache.rev1300477104955.webEntra ano e sai ano e este assunto sempre vem à tona. Afinal, onde estão os gays maduros e idosos?
Recebo dezenas de e-mails de leitores do blog e do Facebook preocupados com a constatação de que não é fácil encontrar os gays da melhor idade, principalmente, para relacionamentos estáveis.

Um leitor de Curitiba disse que há cinco anos não sabe o que é relação sexual com um gay maduro e que já perdeu as esperanças. Outro de Belo Horizonte vive sozinho há mais de dez anos.

As dificuldades sempre existiram e todo jovem que gosta de homens mais velhos sabe que encontrar um não é tarefa fácil. Se os encontros ocorrem nos guetos são raras as possibilidades da relação ser estável, porque a troca de parceiros é uma constante nesses ambientes.

Outro leitor encontrou um homem maduro e a relação durou apenas vinte dias. Ele descobriu que o mais velho gostava de variar de parceiros e não queria nenhum compromisso – Isso é comum.

Mas voltando ao assunto em questão, então, por que parece que os gays, mais velhos, desaparecem? A resposta é simples, mas talvez não pensamos a respeito: depois de uma certa idade, que varia bastante de indivíduo para indivíduo, o maduro não precisa contar mais para o mundo que é gay!

Não precisa de auto afirmação e nem viver experiências na comunidade, não precisa vestir roupas justas e ostentar os músculos na balada e também porque muitos aprendem, definitivamente, que ser gay é só um detalhe.

Viver na comunidade não é uma condição definitiva para quem é homossexual. Posso estar com meu namorado num hotel fazenda no interior de São Paulo, numa lanchonete do meu bairro ou em férias no nordeste do Brasil. Posso estar num churrasco de aniversário no final de semana ou num almoço em família na casa dos meus irmãos. À medida que envelhecemos aprendemos mais sobre o poder da mobilidade.

Mas enquanto jovens uma grande maioria que tem acesso, vai querer viver o meio gay, os hábitos e costumes. Pura necessidade de reconhecimento, necessidade de respirar juventude, de experiências, sexo, de ver e ser visto.

Por pouco tempo ou por longos anos, respirar o gueto não diz respeito apenas à identificação, identidade ou autonomia. Diz respeito a uma tentativa de preservar-se jovem, e isso se aplica perfeitamente em todos os meios, gays ou heterossexuais. Mas é só uma tentativa por que não tem como brigar com o tempo.

Outro dia um amigo disse que os homens quando envelhecem saem dos guetos por mera questão de rejeição dos mais jovens. Isso é fato!

Bem ou mal as coisas mudam e o envelhecimento traz novas descobertas e novos medos. Alguns sofrem mais, outros menos, alguns jovens e outros já adultos projetam-se em desespero quando velhos, sentindo aquele vazio e o sentimento de que o tempo passou.
Mas, de fato, viver cada momento com respeito e conformidade é o que pode lançar um pouco de purpurina ou brilho por toda a vida. Uma das poucas influências que não há como ir contra, chama-se tempo.

Essa situação de “desaparecimento”, também, tem a ver com o mundo atual. As tecnologias isolam os seres humanos. Os guetos estão esvaziados, as saunas sobrevivem dos habitues e os cinemas de pegação são túmulos que abrigam ladrões e michês.

Há que se considerar que os gays da atualidade, independente da idade, estão inseridos numa sociedade menos repressora, consequentemente, estão ocupando todos os espaços públicos.

Apesar das facilidades do anonimato, os encontros via Internet além de perigosos são superficiais, salvo raras exceções e os mais velhos usam essa ferramenta para paqueras e encontros, o que os condiciona ao isolamento social. Outro fator que gera isolamento e o sumiço é a velhice em si, pois a sociedade brasileira não tem nenhum cuidado com os seus idosos.

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