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Os dilemas de quem vive no armário e mora com a família 

Atendendo ao pedido do leitor Carlos, lá fui eu conversar com alguns conhecidos para escrever este artigo.

Viver no armário não é fácil, mas não é o fim do mundo! Viver no armário e morar com a família é ainda pior, mas também não é o fim do mundo!

No artigo anterior eu disse que sair da casa dos pais era a melhor solução, mas por que uma grande parcela opta por permanecer junto à família?

Um amigo disse ser quase impossível aceitar-se, ainda mais na juventude e nem sempre a aceitação é total e por diversas razões. Com o tempo há uma assimilação à sexualidade, mas perde-se muito tempo fugindo, se escondendo e não aceitando ser quem é. Há várias situações a serem enfrentadas, contornadas e assimiladas.

As causas sobre a permanência junto à família são variadas e as principais são: Ser filho único, os pais serem dependentes financeiramente do filho, o filho ser dependente da família ou o filho até pensa em sair de casa, mas remedia, também, pai ou mãe não aceita qualquer decisão do filho, isso ocorre em famílias patriarcais e de forte influência religiosa.

Falta coragem para romper os laços afetivos, enfrentar a situação e ir embora. É um alto preço, mas o que está em jogo é a sua vida e não a vida dos seus familiares.

Muitos filhos solteiros não saem de casa por comodismo e segurança. Hoje é mais comum do que antigamente e se aplica a todos os homens nesta condição, homossexuais ou não. Quanto às mulheres, elas são mais decididas.

Além das questões citadas, há que se considerar o nível de desenvolvimento intelectual do indivíduo, bem como, a sua identificação como gênero masculino. Exemplo: Tenho comportamento e traços biológicos masculinos, logo, quem vai desconfiar se eu gosto de homens?

No começo é um choque e ser diferente vai trazer muitos problemas, mas é lá em casa que de alguma forma há a segurança, principalmente contra o mundo exterior, pois vivendo junto à família não vão desconfiar que o cara é viado porque não tem jeito e nem cara de viado. Inconscientemente usa-se a família como escudo, é uma privação, quase um cárcere.

Ao optar por viver com os familiares você abre mão de realizações pessoais, a começar pelo sexo. Os desejos são reprimidos em benefício do bem-estar familiar, uma falsa normalidade.

Do ambiente familiar extrapola-se aos ambientes educacionais, profissionais e sociais, porque tudo está interligado, desde o vizinho que conhece a família, até um colega de trabalho ou da escola que sempre chega para uma visita e parentes próximos sempre marcando presença. Você cria vínculos e nesta roda viva não consegue se desvencilhar.

Privacidade é miragem num deserto de incertezas e se você se isola logo desconfiam, então você molda seu comportamento ao cotidiano familiar.

Vive-se num mundo normatizado e dentro dos padrões, mesmo com eventuais sumiços para satisfazer os desejos e a dúvida se alguém sentirá a sua falta por algumas horas ou alguns dias. É um mundo de mentiras necessárias. Mentir ou omitir são ações diárias e você é assimilado na condição de ator de si mesmo.

Viver no armário é isso e na maturidade você acaba aceitando sua condição homossexual, mas já é tarde porque perdeu muito tempo vivendo para a família e deixou de viver a melhor fase da sua vida. Eu mesmo tenho dúvidas sobre o tempo perdido, se é tarde ou não, e se isso traz dificuldades nos relacionamentos.

Alguém uma vez comentou: Porque vou sair da casa da minha família se não pretendo me casar ou manter relacionamento estável com outro homem? Vivo com os meus pais e sempre dou minhas escapulidas para sexo eventual.

Esse comentário faz sentido, mas você tem sonhos e vislumbra a liberdade para fazer o que bem entender e não apenas sexo. É por esse motivo que os heterossexuais se casam, para iniciar uma nova vida e formar outros vínculos sociais.

Eu digo que nada está totalmente perdido, pois enquanto existe vida há esperança de realizar os seus sonhos. É sabido que os gays não constituem família, logo, somos seres extraterrestes vagando por essa vida e copiamos os padrões heterossexuais para preencher nossos dias e nossas noites.

O sexo é apenas uma parte de tudo aquilo que chamamos de GAY. Há todo um contexto político, intelectual e social que permeia nossa existência. O modo de vida de cada um é único e também não podemos nos modelar por padrões homossexuais, porque vivemos num mundo heterossexual, mesmo com toda a diversidade humana. Sempre foi assim e assim sempre será.

O que é bom para o outro nem sempre é bom para você. Não se iluda com a falsa felicidade de ser um gay assumido. As dificuldades de praticar a sexualidade sem neuras são óbvias, porque as neuroses ficam arraigadas no subconsciente durante todos os anos da sua vida em família. São tantas situações que você acredita que não é gay, bissexual talvez, mas nunca heterossexual.

Também, não pense você que o mundo cor-de-rosa é um mar de flores. Há problemas de toda natureza. As idas e vindas nos relacionamentos, a discriminação, a busca pelo par perfeito e belo, a cobiça por espaço e visibilidade e a competição.

Neste balaio uma família homoerótica é apenas uma cópia das famílias tradicionais com papéis bem definidos, inclusive, quem é o papai e quem é a mamãe ou ambos.

O mundo gay possui um leque de opções e isso é natural porque somos diversos, com mil defeitos, mas também carentes e solitários igual a você que vive com sua família, ou não?

Os gays que não saíram da casa dos pais não estão errados, porque os seres humanos têm livre arbítrio em suas escolhas. Todos os dias fazemos escolhas certas ou erradas e as consequências são debitadas ou creditadas na conta de cada um.

Quem reside com família sabe quais são as restrições pessoais e sociais, porque durante anos foi questionado sobre casamento ou relacionamento com mulheres, até que um dia param de perguntar, ou porque desconfiam ou se calam para não constranger o indivíduo ou os próprios familiares. É assimilação!

Quem opta por ficar com os pais e os irmãos será o responsável e cuidador dos genitores na velhice e o tio solteirão dos sobrinhos. Aliás, para alguns ser chamado de solteirão é melhor do quer ser tachado de viado.

Chega uma hora onde tudo fica insustentável, ou melhor, insuportável, principalmente na maturidade, pois ela traz todas as certezas e arrependimentos, mas o que está feito pode ser desfeito a qualquer momento, ou se você preferir, mantenha o que está feito e vislumbre o mundo sob uma nova ótica, adapte-se ao novo, ao mundo atual, à nova ordem social porque nunca é tarde para tomar decisões que mudarão a sua vida para sempre.

Sair ou não Sair do Armário, eis a questão!

love-valour-compassion-07-gDepois de longas férias eu retorno ao blog para continuar o trabalho iniciado em 2009 e que não tem prazo para acabar.

Nesta volta dou espaço para histórias de leitores que acompanham nosso trabalho porque são temas recorrentes e comuns e acho legal compartilhar com todos os seguidores dos Grisalhos.

Eu prometi ao leitor publicar na próxima semana, mas antecipei por motivo de viagem:

Eis a história:

Pela primeira vez resolvi escrever sobre o tema homossexualidade entre homens maduros e casados. Gosto muito do tema e observo que além do medo natural, a maioria dos homens temem que descubram sobre a sua homossexualidade, ou ainda, temem que assumindo os seus desejos homossexuais é o mesmo que largar o certo pelo duvidoso – a vida estável de um casamento para uma vida promíscua dos gays.

Sou maduro na faixa dos 50 anos de idade e há 08 anos encontrei o grande amor e companheiro de minha vida, que também está na faixa dos 50 anos. Há quatro anos estamos juntos vivenciando uma vida maravilhosa e completa.  Moramos em Minas Gerais.

Ambos fomos casados com mulheres por mais de 20 anos e temos filhos e em respeito a eles é que não revelamos a nossa identidade, afinal o mais importante é o nosso relato e não os nossos nomes.

Como todos da nossa idade, somos fruto de uma ditadura que gerou uma sociedade repressora, castradora e machista onde “ser macho e comer todas as fêmeas” foi martelado em nossas cabeças desde que nos entendemos por gente. Assim, mesmo tendo desejos por outros coleguinhas de nossa idade, o contato, o troca–troca só nos era permitido quando ainda criança ou no muito quando estávamos na puberdade. Ao entrar na adolescência, já tínhamos que estar definidos sexualmente, e lógico, como heterossexual. E assim crescemos e nos tornamos os machos da sociedade, prontos para o casamento e a procriação.

Como sabemos o nosso desejo homossexual pode até ser reprimido, mas nunca suprimido. E assim aconteceu conosco. Quando nos tornamos “os machos da sociedade” entramos na roda viva da vida, tais como, fazer uma faculdade, casar, desenvolvimento de sua carreira profissional, criar filhos, fazer amigos (todos héteros e casados), ter um patrimônio etc. assim, você vai criando todos os seus personagens e quando você se dá conta, já se passaram anos e você já nem se lembra mais do seu EU, da sua própria essência, você foi engolido por seus personagens.

Por muitos anos achávamos que éramos e fomos felizes, pois tínhamos mulheres e filhos maravilhosos.

A partir dos quarenta anos os filhos estão crescidos, você começa a ter sua estabilidade financeira, adquire patrimônio, seu casamento já está totalmente desgastado, seus personagens vão se encerrando e você começa a resgatar o seu próprio EU e com eles o seu desejo de tocar, de beijar, de acariciar, de pegar em outro pau e sentir prazer total com outro homem, se permitindo ser penetrado e penetrar fazendo com que seus sonhos sejam todos realizados com plenitude.

Com o advento da Internet e o aparecimento das salas de bate papo, ficou muito mais fácil extravasar nossos desejos por muito tempo reprimidos. Observamos que  muitos dos que estão do outro lado sofrem e não se permitem viver plenamente a sua sexualidade.

Foi entre uma sala e outra, entre muitas histórias de vidas sofridas e algumas fantasiosas que num dia de agosto de 2007, era um sábado às 06h30 (antes das nossas mulheres acordarem) é que conheci o meu grande amor, o meu homem.

Pela primeira vez, não foi importante, se era ativo ou passivo, qual o tamanho do pau, o que gostava na cama, de onde estava teclando ou quero ver seu pau na net ou ainda bate uma punheta para mim. Conversamos sobre tudo, nossas vidas de héteros, nossas famílias e principalmente sobre nós mesmos, nossos desejos reprimidos e o desejo de encontrar um cara bacana, um verdadeiro companheiro. Ficamos conversamos durante sete dias sobre tudo e sobre todos e finalmente resolvemos marcar um encontro.

Era uma sexta feira e nos encontramos num lugar público e depois seguimos para o motel. Em nosso primeiro beijo, sentimos que ali estava algo diferente, foi algo tão intenso que ficamos namorando, nos beijos, nos tocando, nos chupando e conhecendo cada parte do corpo do outro por várias horas, foi tão intenso um com o outro que gozamos sem haver penetração, foi simplesmente maravilhoso!

Saímos do Motel e notamos um no outro a felicidade transbordando em nós, sentimos ali, que algo acontecera em nossas vidas e que depois daquele dia, nada seria mais como antes.

Mas tínhamos que ter certeza que aquilo tudo não era só um sonho e além disto, faltou algo em nosso primeiro encontro, a penetração. Se o prazer e o carinho com a penetração fosse igual aos nossos momentos que tivemos no motel, realmente tudo seria diferente.

Entramos em contato com o outro e nossos desejos eram ainda maiores e tínhamos a pressa de um novo encontro para provarmos e conhecermos o desejo total.

No dia seguinte, voltamos para o Motel, agora com mais confiança, sem o estresse da primeira vez, já nos conhecíamos um pouco na cama e a penetração aconteceu naturalmente, sem dores, com tranquilidade e com muito carinho. Lembro que naquele dia gozamos duas vezes e definitivamente, tínhamos encontrado o que procurávamos, um companheiro para chamar de meu!

Continuamos a nos encontrar, normalmente nas sextas feiras e seis meses depois eu pedi o divórcio para minha mulher. O amor que sentia era enorme e intenso pelo meu companheiro. Por outro lado, não tinha mais condições de continuar ao lado de uma pessoa que não amava mais, simplesmente para me garantir como macho era muito penoso e estava pagando um preço muito alto enganando a todos.

A psicoterapia foi uma grande aliada em minha vida para que pudesse romper com tudo que estava enraizado dentro de mim e nascer um novo homem.

Montamos um projeto de vida, programamos todos os passos que daríamos para não prejudicar ou se prejudicasse, muito pouco as pessoas que amamos. Hoje completamos quatro anos que estamos juntos.

Compartilhamos nossa vida com nossos filhos, nossos amigos héteros e agora com diversos amigos homossexuais.

Não precisamos levantar bandeiras e respeitamos quem o faça, nem sair gritando para todos que somos homossexuais. Nossos filhos convivem naturalmente conosco e nunca perguntaram sobre o que somos ou deixamos de ser quando estamos sozinho em nossa casa. Creio que para eles o que somos são simplesmente pai.

Os amigos, a mesma coisa, nunca perguntaram… vocês são gays?

Descobrimos que se afirmar em dizer pra todo mundo, sou gay não é importante para ninguém. O importante é o ser humano que está dentro de você. São suas atitudes que fazem toda a diferença. Ninguém sai por ai se apresentando. Muito prazer… Sou fulano de tal, sou hétero. Porque se exige tanto que os homossexuais, principalmente os maduros tem que sair do armário e tem que assumirem perante a sociedade?

Meus amigos, nosso relato não é para levantar nenhuma bandeira, simplesmente para dizer que, caso tenha se identificado com a nossa história, você também pode buscar sua felicidade através de organização, planejamento e principalmente amor a si próprio, você pode se permitir ser feliz, sem neuras, sem traumas e sem bandeiras.

Um grande abraço!

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