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As sociedades invisíveis de gays idosos

gay_farmer2Dezembro chegou e o verão se apresenta com as suas cores, altas temperaturas e gente correndo pelas ruas apressada em garantir o melhor da festa de final de ano.

Aqui no meu cotidiano eu continuo observando o cotidiano dos gays e me causou surpresa, aliás, agradável, perceber que o mundo gay dos maduros e idosos é recheado de vida.

Aquela ideia de isolamento é coisa do passado, existe um mundo colorido para além dos nossos olhos e nosso entendimento. É o que eu chamo de sociedade invisível de gays idosos.

Na maturidade e principalmente na velhice os gays estão se enturmando, arrumando seus pares, para amizades e sexo. Vejo casais caminhando na Avenida Paulista e posso afirmar que esses arranjos de parceria tem muita coisa positiva.

As relações estão mais estáveis e menos fugazes porque se busca um companheiro para compartilhar o dia-a-dia e depois encontram outros casais para compartilhar amizades. Neste cenário eles compartilham bate papo, viagens, almoços, jantares e festas.

Não é surreal afirmar que a felicidade existe e preenche a vida desses maduros e idosos com muita vida. Cuida-se da saúde e o que vem depois é lucro.

A minha geração está literalmente fora do armário, com reservas, sem chocar a sociedade, vivendo a plenitude da aposentadoria com segurança e alegria. O estereótipo do velhinho gay ainda existe principalmente aqueles que não prepararam o caminho da velhice, tanto emocional quanto material.

Eu, particularmente acho legal e até motivador ver essa turma desfilando por aí sem a preocupação de encontrar o bofe ideal, pois ele ficou no passado e se aparecer um no presente tudo bem, senão, vida que segue.

Outra coisa comum são os círculos fechados de amigos, muito semelhante ao que acontece nos Estados Unidos. Uma turma de seis gays e até mais, todos maduros e aposentados com tempo de sobra para fazer o que lhe dão prazer.

Os componentes desses grupos se identificam por afinidades e dificilmente existe um jovem no grupo. São gays que gostam de homens maduros e a amizade começa justamente por gostos semelhantes de parceiros. Nesses grupos há respeito, não há traição, ou seja, um paquerando o parceiro do outro. Cada membro sabe o seu lugar nesta sociedade e isso gera vínculos fortes e duradouros.

Há reciprocidade em compartilhar o entretenimento e quando um não quer os demais seguem o planejado. Obviamente, nem sempre é possível todos estarem presentes em todos os eventos, mas na maioria das vezes eles estão sempre juntos.

Outro fator positivo neste tipo de sociedade é a ajuda mutua porque têm as características de uma família homoafetiva, cada qual se preocupa com o outro e não estão nem aí para o que os outros vão pensar, principalmente, vizinhos.

Nesta sociedade invisível não é obrigatório ter um parceiro, mas a maioria tem e isso torna o grupo mais coeso. São casais de maduros e idosos se enturmando com outros casais e diferentemente de maduros que gostam de jovens não querem viver isolados como um casal.

Os encontros geralmente ocorrem em ambientes fechados, na casa de um ou de outro, um almoço, um jantar ou simplesmente para passar o tempo. Quase nunca em locais públicos, exceto em eventos previamente combinados, como lazer, viagens, turismo,etc.

Ah, e não pense você que são puritanos e chatos pelo contrário, são alegres, soltam literalmente a franga, contam piadas, se travestem do que bem entender e vivem a vida numa boa.

E assim o mundo gira, os laços afetivos se estabelecem e a velhice é vivida com plenitude, logo, o isolamento para esses gays idosos é simples miragem e a solidão é apenas um assunto acadêmico.

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Observando o cotidiano dos gays

museu clara nunesCaro leitor, desde o começo de outubro eu estou definitivamente aposentado e já iniciei uma nova etapa da minha vida sem os compromissos, principalmente com o relógio. Nada de correria ou preocupações demasiadas com as responsabilidades do trabalho, pois desde os meus quinze anos eu não sabia o que era ficar mais de dois ou três meses sem trabalho e no último deles passei quase trinta anos.

Nesta nova fase eu ouvi do meu companheiro o seguinte:

Agora é a hora de aproveitar a vida sem pressa, observar os detalhes do cotidiano e cuidar da saúde porque sem ela nada é possível.

Confesso que a situação é nova, mesmo eu esperando há mais de dez anos por este momento. Agora sou um gay aposentado e diferentemente de outras gerações eu percebo que a minha está mais preparada para viver a velhice com dignidade.

A homossexualidade não é empecilho para realizar outros sonhos pessoais. Eu sei que daqui para frente o tempo passará lento, mas quando eu perceber decorrerá uma década.

Outro dia numa conversa com um vizinho, eu pude observar como a vida do gay idoso não é fácil. Imagine então sendo gay, judeu e com idade beirando os 65 anos?

Ao ouvir atentamente o que o meu interlocutor dizia, o que ficou evidente foi a solidão, não física, mas emocional, porque ele tem um bom padrão de vida, mas não tem relacionamento estável, é de poucos amigos e passa os seus dias entre os afazeres do prédio e algumas saídas para um café nas tardes solitárias de São Paulo.

Não é isso o que eu quero para mim e aos poucos vou me enturmar e fazer trabalho voluntário com pessoas LGBT porque é necessário retribuir à sociedade as minhas conquistas.

Existem gays que se isolam porque durante a vida sofreram repressão da família e da sociedade e este isolamento é uma forma de vingança que não leva a nada.

Hoje mais do que nunca eu sou um observador do cotidiano das pessoas e particularmente dos gays. Quando eu tinha 21 anos a AIDS assombrou o mundo e toda a comunidade homossexual. Passados quase quarenta anos eu me pego a pensar sobre os sobreviventes dessa doença terrível e vez ou outra eu encontro gays da minha geração vivos e saudáveis.

Ontem caminhando numa Rua de São Paulo encontrei um deles e fiquei feliz, primeiro por reencontrá-lo e segundo porque ele me disse que após o advento do HIV a sua vida mudou completamente a começar pelo comportamento na busca por parceiros. A promiscuidade tão falada no nosso meio deu lugar a escolhas pontuais e relacionamentos saudáveis e verdadeiros, o que o fez sumir dos guetos para viver a sua vida e hoje com sessenta anos ele nem pensa mais naquilo e eu disse ser importante jamais esquecer os acontecimentos do passado porque aquilo foi uma verdadeira tragédia não anunciada.

É preciso refletir com cautela sobre a finitude da vida e o nosso papel neste mundo, seja para não fazer nada na velhice ou preenche-la com coisas boas e saudáveis. Eu gosto de viajar e desde outubro ainda não parei uma semana em casa. Já rodei por Londrina e Maringá e recém cheguei de Belo Horizonte e cidades históricas mineiras, além de uma visita especial à cidade de Caetanópolis e Cordisburgo terra de Guimarães Rosa.

Fica a dica:

Ao pessoal da minha geração que curtiu a cantora Clara Nunes eu recomendo uma visita ao seu Instituto e Memorial na cidade de Caetanópolis em Minas.

clara-nunes1

 

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