Publicado em Comportamento, Sexualidade, Sociedade

Comportamento, sociedade e homossexualidade

fanatismo

Caro leitor, falar de sociedade, dos tão numerosos tipos de preconceito que nela existem e, principalmente, sobre homossexualidade, não é tarefa fácil. É tão complexo pensar na questão, porque estas três esferas sociedade, comportamento e homossexualidade estão interligadas de tal modo que formam um nó.

O titulo deste artigo foi composto a partir da leitura das estatísticas do blog, onde percebi que as categorias e tags dos artigos mais procurados nos últimos cinco anos foram esses.

Bem, vivemos o ano de 2018 do século XXI, chamado também de Século Contemporâneo, de Era Pós-Moderna, ou, ainda, de Era Líquida, segundo o dizer do sociólogo Zygmunt Bauman.

Ele defende a ideia de que a nossa sociedade não consegue mais tecer relações duráveis, devido a uma insatisfação constante no ser humano, o que leva as pessoas e a sociedade de um modo geral a terem diversos vínculos, mas sem afetos que consolidem as relações.

Eu complemento dizendo que a sociedade moderna é fruto dos avanços das tecnologias, da medicina e das conquistas politicas e individuais ocorridas a partir dos anos 1960.

Opa parece que já vimos este filme, ou não? Desde que eu me conheço por gente os gays estão na eterna busca de uma relação durável, típica da relação heterossexual e se as relações humanas mudaram e não vou citar aqui os motivos, estamos todos no mesmo barco da individualidade e das relações sem afeto.

Se, por um lado, há certa dificuldade em desenvolvermos laços afetivos, há, por outro, uma liberdade de escolha em nossas vidas, em relação a tudo, talvez jamais vivida em outro tempo. Se há, portanto, esta forma de liberdade, as noções de certo ou errado caíram por terra e a cada um de nós compete fazer escolhas sem que a própria sociedade possa nos julgar.

Talvez estes sejam os motivos que nos dão certa tranquilidade em relação à nossa orientação sexual. Eu penso que hoje tudo é relativo, do ponto de vista de uma pessoa. Não há mais certo, nem errado. Há o que a pessoa acredita ser verdade para ela e não mais uma única verdade que deva ser imposta a todos os seres humanos, seja pela família, pela igreja ou pelo Estado.

Mesmo com tantas transformações o preconceito é mais acentuado do que em tempos remotos por conta justamente da palavra magica acreditar. Cada um acredita em algo e isso transforma as minorias em alvo preferido daqueles que acreditam ser errado o diferente do padrão.

Ou seja, vivemos no século XXI, com uma mentalidade do século XX, cujas pessoas foram educadas com os valores do século XIX. Esclarecedora, esta equação! Mas é assim que estamos vivendo: com crenças e valores de diferentes séculos sobrepostos.

Eu nasci na metade do século XX e para mim, ser homossexual passou a ser normal quando eu aceitei a minha sexualidade. As transformações sociais e comportamentais foram radicais, mas o preconceito contra os homossexuais é mais evidente por conta da visibilidade e comportamento dos próprios gays.

A palavra homofobia tem um peso enorme nas atitudes das pessoas. Na adolescência nos anos 1970 essa palavra nem existia e surgiu por intermédio dos movimentos sociais e artigos de sociologia, além da massificação dos meios de comunicação.

Durante a minha vida eu acompanhei e acompanho casos de homofobia e intolerância e isso não me assusta, mas assustou e assusta principalmente os jovens gays e a maioria dos casos de violência estão nessa faixa de idade, incluem-se também os travestis, efeminados e os idosos.

A homofobia vai desde o bullying na escola até os casos extremos de violência física e morte.

homofobia escola

Quando vejo ou ouço alguma notícia de homofobia eu não fico abalado, não me causa medo ou espanto. Eu não tenho medo de ser agredido, mesmo sabendo que a maioria dos gays tem um sentimento de pânico, de impotência, por não poder fazer nada. Os mais jovens sentem indignação e tristeza, mesmo não sabendo que para conquistar direitos é preciso lutar por eles e para isso sofrer física e psicologicamente faz parte do aprendizado.

Para mim, a palavra homofobia é sinônimo de ódio, intolerância e irracionalidade; falta de amor ao próximo. Se as pessoas tivessem mais amor ao próximo, elas se colocariam no lugar do outro e entenderiam que a felicidade é merecida para qualquer um, independentemente de raça, credo ou orientação sexual. Mas não e assim que funciona porque herdamos a cultura dos nossos antepassados e ela ainda esta inserida na sociedade.

Mesmo assim, eu nunca passei por alguma situação de preconceito tão direta em relação a mim, mas já presenciei piadinhas de amigos que não sabiam que eu era homossexual e com o tempo aprendemos a conviver com todas as formas de ataque à qual somos expostos.

Com o tempo todos aprendem a lidar com a situação. Não costumo me expor, mas também não me escondo. Como não aparento, poucas pessoas percebem algo. A partir do momento que deixei de responder aos questionamentos houve afastamento natural das pessoas e a vida seguiu seu curso.

Pensando sobre isto, eu acredito que as pessoas não são obrigadas a nos aceitar, mas o mínimo é nos respeitar! Se eu pudesse dizer algo aos homofóbicos, eu diria: O mundo está aí para todos. Viva a sua vida, e eu vivo a minha. Respeite-me para que eu te respeite, mas isso nem sempre vale para grupos minoritários.

Para que esta situação mude, creio que este assunto deva ser tratado da forma mais natural possível; pois as crianças nascem sem nenhum tipo de preconceito. São os pais e a sociedade que ensinam o preconceito aos seus filhos. A própria sociedade estimula o preconceito. Muitas pessoas até aceitariam o homossexual, mas, com medo do que os outros falariam ou pensariam deles, optam por estar do lado da maioria, que têm maior aceitação. Assim, a pessoa não precisa se explicar.

Em relação ao futuro, se um dia acabará ou não a intolerância? Tenho um parecer contraditório, pois parte de mim acredita que sim, é a voz da esperança e outra parte acredita que não, é a voz da razão; assim como a escravidão acabou, o preconceito continua; assim como as mulheres conquistaram seu espaço, o preconceito continua; acredito que é assim também com os gays. Conquistamos direitos e visibilidade, mas o preconceito…

Para chegarmos a uma era de extinção do preconceito, acho que levaria tempo demais, séculos e mais séculos, e eu não estarei aqui para ver e isto me entristece! E, mesmo assim, nunca saberemos se todo tipo de preconceito, um dia, será extinto da raça humana!

Publicado em Comportamento, História, Memória

A multiplicidade de personagens homossexuais

PERSONAGENS

Caro leitor, quando você se descobre gay a sua vida se transforma, é um trauma. A primeira reação é um choque, depois vem outros pensamentos, isolamento social e o afastamento familiar porque a cada dia aflora o desejo, então cada um busca formas de inserção social no meio para encontrar parceiros e viver a sexualidade reprimida, além de conciliar o padrão heteronormativo ao homossexual.

Na fase de aprendizado o gueto é o local ideal para socialização, obviamente nem todo homossexual gosta de bares, saunas e boates. Aqueles que optaram por socializar no gueto viveram dias felizes e conheceram e interagiram com uma infinidade de personagens homossexuais.

Anos 1970 >> leia aqui

Durante a minha juventude eu socializei principalmente no gueto paulistano. Para mim foi fundamental a inserção e interação com outros iguais. Durante mais de vinte anos eu percebi a multiplicidade de personagens do nosso meio.

Havia uma variedade de personagens. O garoto pobre que desde muito cedo começava na prostituição, muitos deles menores de idade tentando se desvencilhar das batidas policiais. Garotos humildes em busca de sonhos e prazer homossexual. Uma parcela deles era sonhador e buscava um homem mais velho para viver um grande amor.

Lembro-me das bichas velhas que saiam ao anoitecer em busca de companhia para um final de semana. As paixões desenfreadas dos travestis que gastavam tempo e dinheiro para manter o bofe sempre a tiracolo, como proteção pessoal contra roubos e acharques. Vez ou outra iam parar na delegacia por conta da perseguição aos gays ocorrida no estado de São Paulo, no governo Maluf tendo à frente o famoso delegado Richetti que prendia travestis arbitrariamente.

Nos bares eu sempre ouvia as histórias e tragédias das bichas enrustidas, muitas casadas com mulheres por conveniência e sem nenhum remorso de estar longe dos filhos e dos netos. Nunca critiquei, mas sempre fui ouvinte desses personagens. O aprendizado foi um legado do que sou hoje. Gay, independente, sem mulher, filhos e feliz.

No turbilhão de conversas as emoções eram expostas, muitas frustrações e arrependimentos vinham à tona numa conversa qualquer de bar. Como um psicólogo eu ouvia tudo atentamente e daqueles anos de amizades tirei o aprendizado para a vida. A diversidade é magnifica, mas era frustrante numa época de pouca abertura social.

Vez ou outra aparecia um novo personagem no pedaço, outros casais desconhecidos da clientela e até a história incestuosa de dois irmãos apaixonados vivendo no gueto longe da família.

Dos bares da Vieira de Carvalho, eu me recordo de uma bicha decadente num Opala vermelho 1977, louca e apaixonada por um garoto tímido do interior e ambos não se davam conta da paixão um pelo outro que não acabou em nada, porque o amor homossexual muitas vezes é a razão.

Anos 1980 >> leia aqui

Toda semana, no final da rua próximo ao Largo do Arouche uma comunidade de bichas disputavam um bofe musculoso e bem dotado. Nas idas e vindas pela calçada elas paravam para conversar quando encontravam outras amigas na contramão do fluxo.

Enfiados dentro de um bar com amplo balcão homens masculinizados entre 30 e 60 anos tomavam seus drinks observando o movimento. Vez ou outra um conhecido se aproximava e a conversa ia noite adentro.

Esses seres solitários na maioria das vezes estavam ali para encontrar outros semelhantes em comportamento heteronormativo. Naqueles assentos junto ao balcão pernas se encostavam, mãos se tocavam e acordos eram fechados. Dali para o hotel mais próximo era uma questão de tempo, não mais do que duas horas. Poucos se firmavam em relacionamentos e na semana seguinte lá estavam eles sentados naqueles assentos do mesmo balcão.

Quem frequentava semanalmente o gueto conhecia todos os personagens, bem como, eram conhecidos e se não eram, se deixavam conhecer porque a socialização era difícil numa época de muita repressão.

Outro personagem era o dono do estabelecimento. Naquela época os donos ou gerentes nem sempre eram gays e isso as bichas sabiam e mantinham bom comportamento, excluindo um ou outro que sempre se apaixonava pelo dono do lugar.

Na Vieira de Carvalho quem não se lembra do Bar do Gil? Conhecido pejorativamente como Caneca de Lata. Pois é, mera coincidência, o Gil era um português esbelto e era meu vizinho de bairro e sempre me dava carona quando fechava as portas, nunca antes das duas horas da madrugada. Um heterossexual que conhecia como ninguém a noite paulistana e mantinha sua vida familiar longe das conversas do bar.

No tradicional bar Caneca de Prata, quem não se lembra do Mané e do Ratinho? Personagens distintos e educados, com a paciência maior que o mundo para aturar outro personagem característico: a bicha bêbada e inconveniente. A maioria dos clientes era comportada, mas num ambiente pequeno e fechado sempre aparecia aquela que encheu a cara por frustração, vício ou decepção amorosa.

Na rua era um mar de gente circulando nas calçadas onde se escondiam padres amantes, advogados apaixonados, políticos enrustidos e artistas também enrustidos.

Nas décadas de 1970-1980 o boom gay tomou conta das principais cidades do Brasil e com a abertura política já nos primeiros anos da década de 1990, o cenário expandiu as fronteiras, o gueto consolidou-se para além do carnaval.

Os casais românticos preferiam locais fechados e privados como o Paribar na Praça Dom José Gaspar, os michês fixavam ponto em locais estratégicos em praças e ruas próximas aos points gays. Sim, porque a quantidade de bares triplicou nos anos seguintes.

Em 1978 surgia a boate HS – Homo Sapiens e no seu entorno bares como o 266 West Bar, Man’s Club, Batuk Bar, o perigoso Val Improviso e o restaurante Chopp Escuro.

O cenário era diverso e os personagens circulavam em todos os locais, de bar em bar, dos bares para as calçadas da Avenida Ipiranga e São Luís, das boates para saunas e o circuito dos cinemas, muitos preferiam a pegação anônima nos banheiros públicos e os mais recatados optavam por restaurantes e espetáculos teatrais.

Aliás, a partir dos anos 1970, a vida desses personagens foi escancarada diante das plateias nos palcos das grandes cidades do país.

Inconfundíveis personagens da cena homossexual paulistana com ou sem exibicionismo viveram uma época de afirmação da sua identidade.

Minhas memórias dos anos 1970-1980 – leia aqui