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Grisalhos: balanço 2016

O mês de dezembro chegou com o Dia Mundial de Luta Contra a AIDS. Eu sempre gosto de registrar esta efeméride porque quem viveu os anos 80 sabe que não foi nada fácil.

Dezembro é um mês dos mais esperados por todos, por marcar o fim de um ciclo regido pelo calendário gregoriano. É especial por conta das festas natalinas e apesar de ser uma festa cristã, associamos ao início do período de férias e de festas pagãs.

Eu, particularmente, gosto porque há mais de trinta anos eu não trabalho entre o Natal e Ano Novo e sempre é possível programar alguma viagem mais longa.

Para a maioria dos gays, principalmente, os jovens este é um período de muita ferveção por conta do início do verão nos trópicos. As praias ficam lotadas e nas areias escaldantes corpos seminus desfilam ao som dos sucessos do momento. Do calçadão das praias aos bares e boates, tudo é motivo para diversão e paqueras.

Os cenários se transformam, com mais luz, beleza e muito colorido. É tempo de roupas e alimentação leves e muita descontração, pois há dezenas de opções de lazer com novos points que nascem e morrem ao fim do verão.

Este também é um período propício para os gays maduros e idosos saírem dos seus casulos e irem para as ruas. Aqueles que estão solteiros tentam socializar e interagir com o mundo. Já os casados aproveitam para fazer em pouco tempo tudo o que não fizeram o ano inteiro.

Por incrível que pareça é neste mês que as saunas ficam lotadas, quando deveria ser justamente o contrário. Os adeptos das saunas não estão nem aí com o calor quase insuportável e a maioria vai mesmo para caçar e encontrar um parceiro para sexo. Dizem que sauna boa é aquela que tem o maior número de homens por metro quadrado.

Dezembro é o cenário perfeito para encontrar um grande amor. É mês das paixões avassaladoras, dos romances fortuitos e dos flertes escancarados. Do outro lado da janela os beijos quentes e molhados unem casais entrelaçando corpos e fulminando corações.

Este é um período de otimismo por dias melhores, menos preconceito, mais tolerância e aceitação da sociedade por nossos desejos homossexuais. Dentro ou fora o armário, os gays vivem um processo de auto reconhecimento e procuram vivenciar com os seus iguais suas angústias e suas identidades.

Balanço

Quando o ano iniciou fiz planos, mudei velhos hábitos e descortinei sonhos e desejos. A cartomante previu maravilhas, pois viado que se preze consulta os magos para garantir ano bom.

Para mim o ano começou depois do carnaval, pois os velhos já não faziam parte do meu presente e na ausência gélida dos sons das marchas, aguardei o fim da folia para sair de férias.

Este ano a melhor parte ocorreu em março, viajando de carro entre São Paulo e Diamantina nas Minas Gerais. Eu queria conhecer o Parque Estadual do Biribiri e lá me senti no céu. Lugar simples típico do serrado de comidas caseiras lá para as bandas da terrinha da Chica da Silva.

Durante dez dias não me deparei com nenhum gay, jovem, maduro ou idoso e olha que passei por Belo Horizonte, mas não fui aos points da cidade porque queria me descolar dos vícios antigos de observar homens bonitos de outras paradas, aliás, vi um grisalho sim, no mercado municipal de BH, estava sozinho tomando um café expresso e com a cara enfiada num jornal. Belo visual, mas ficou só nisso.

Depois de abril a vida seguiu rotineira. Trabalho, casa, chácara e raras visitas a amigos e familiares. O primeiro semestre foi quase sabático e quando setembro chegou eu já estava aposentado.

A sensação da velhice é estranha, mas não é o fim, pois a partir de certo momento a vida desacelera e passa lenta. Felizes os amantes que nessa idade tem um companheiro, um amigo ou amante. Hoje sei como é importante ter alguém para compartilhar os momentos tão aguardados durante toda a vida.

Das coisas banais, comprei meu primeiro brinquedo e olha que não é sexual. Lá na chácara estou aprendendo a pilotar um drone. Outro dia alguém falou: Isso não é coisa de viado!

Também, foi no meio do ano que decidi vender todo o meu acervo de filmes temáticos. Reativei o grisalhos.com.br e montei uma loja virtual.

Ao longo do ano foram centenas de filmes vistos e revistos. Do desconhecido, uma luz entre Oceanos ao último poema do Rinoceronte. Dos polêmicos Spotlight e o Clube. Pedofilia de padres católicos nos Estados Unidos e no Chile. Corra lá na loja que ainda tem algum exemplar à venda.

Este ano eu e o meu companheiro passamos ilesos de doenças, mas para não passar em branco resolvi fazer implante dentário e se soubesse que não era complicado e doloroso já havia feito antes.

Enfim, vida de gay é igual à vida de todo mundo. Me surpreendi com alguns exemplos de superação e olha que superar homofobia é uma vitória. Um amigo perdeu um amigo que perdeu outro amigo. Na roda viva da vida ficamos entre a cruz e a espada.

Eu vivo tempos de rever velhos conceitos e adaptá-los aos novos tempos. A homossexualidade no envelhecimento constitui um assunto contaminado por preconceitos sociais, culturais, familiares e até mesmo pessoais.

O meu ano foi assim, observando o cotidiano e buscando entender o quanto somos ignorados, além de marginalizados e sempre esperando por dias melhores.

Notas: Este foi meu primeiro post escrito 100% via smartphone .

A imagem que ilustra esse artigo é de Raphael Perez, artista israelense

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+ Sobre os gays e as drogas

gay_e_drogasQuando falamos de drogas, logo associados às drogas ilícitas como, cocaína, maconha, crack, etc. É bom lembrar-se das drogas lícitas como cigarro, álcool, medicamentos e até um simples colírio, assunto já tratado aqui no blog.

No universo dos homossexuais não existem estudos sobre o consumo de drogas ilícitas, portanto, todas as referências utilizadas neste artigo foram embasadas em estudos e pesquisas sobre o consumo de drogas no Brasil entre 2005 e 2015.

Por que os gays consomem drogas? Porque antes de serem homossexuais eles são seres humanos e estão inseridos no contexto deste problema de ordem social universal.

O consumo de drogas no universo gay atinge todas as faixas de idade e todas as camadas sociais, com prevalência entre os jovens e predominantemente do sexo masculino.

Os jovens começam a consumir drogas lícitas, como o álcool e cigarro no fim da infância e acentua-se na juventude quando os conflitos internos da homossexualidade são evidentes, pois é quando o jovem passa por transformações hormonais e emocionais.

A partir daí, há todo um contexto social contribuindo para se consumir drogas lícitas. As pressões exercidas por grupos familiares, educacionais e religiosos geram exclusão social, falta de empatia a grupos heterossexuais, agressividade doméstica e principalmente a baixa autoestima.

A maioria dos jovens busca inserção em grupos homossexuais. Essa ocorrência é comum nos grandes centros urbanos e capitais brasileiras, principalmente na região sudeste do Brasil.

Como acontece o contato com as drogas ilícitas?

Há estudos indicando as escolas secundárias como o principal vetor para o consumo de drogas.

Há que se considerar também que os jovens gays andam em turmas e se encontram, geralmente, nos finais de semana e sempre nos finais de tarde e à noite, onde circulam por bares e baladas dos points gay e sempre viram a noite, bebendo, dançando,paquerando e é ai que entra a droga.

Neste universo dos grupos existe a divisão de classes: os mais pobres consomem maconha e crack e os mais abastados consomem ecstasy, cocaína e até heroína.

Acredita-se que mais de 20% dos jovens gays de todas as classes sociais viverão toda a juventude na corda bamba entre o consumo de bebidas e o consumo de drogas e desses aproximadamente 7% serão dependentes químicos até a fase adulta e mais de 10% farão uso eventual da maconha até os 50 anos de idade.

Há também na fase adulta entre os 30 e os 50 anos, um percentual de 3% dos gays consumindo cocaína e outras drogas sintéticas. Esse fenômeno ocorre durante o período de ascensão profissional com o consequente aumento da renda mensal.

O mais interessante é que o declínio do consumo de drogas ilícitas na fase adulta contrasta com o acentuado aumento do consumo de bebidas alcoólicas. Estima-se que mais de 50% dos gays masculinos consumirão álcool até a velhice.

Experiências no universo homossexual

Desde os meus quinze anos, no ano de 1974, eu tenho vivências no universo gay de São Paulo e no Rio de Janeiro.

As drogas populares da época eram a maconha e as chamadas bolinhas, remédios consumidos com álcool que atuavam no sistema nervoso central e davam o tal “barato”.

As minhas experiências com drogas restringiram-se ao consumo de maconha e comprimidos durante o período de um ano, entre 1979 e 1980. O primeiro contato foi em bares gays do centro da cidade e através da Tula, uma bicha que circulava nos guetos à procura de sexo, aventuras e drogas.

Naqueles tempos o consumo de drogas ocorria principalmente dentro das boates. A Medieval frequentada por famosos, Val Improviso, Nostro Mondo e a famosa Homo Sapiens conhecida como HS, na Rua Marques de Itu onde atualmente está o ABC Bailão. Inclusive, o motivo do fechamento da HS,foi justamente uma batida policial que identificou tráfico e consumo de drogas dentro da boate.

Muitos conhecidos, colegas e amigos se drogavam para enfrentar a noite nas ruas, bares e boates. As drogas eram consumidas nas ruas escuras e becos da cidade. Na década de 70 as noitadas eram um mundo surreal de sexo livre e explícito nas praças e banheiros públicos. Leia o artigo Um Olhar Retrô sobre a Cena Gay Paulistana.

Já nos anos 80, eu tive um amigo chamado Luizinho que se drogava com cocaína e tinha um caso com um coroa sessentão do Rio de Janeiro que ia para São Paulo todo final de semana e fez uso de cocaína por mais de três anos.

Motivo para o gay idoso se drogar: As experiências sexuais do casal eram verdadeiras orgias e viagens alucinógenas numa realidade paralela.

Algumas vezes tinha-se notícia que corria de boca em boca, sobre gays mortos por overdose em festas particulares em apartamentos privados, hotéis e motéis da cidade.

O uso de drogas no universo gay das décadas de 70 e 80 não era diferente do consumo dos dias atuais. Os principais motivos são: inserção social em ambientes gay, hábitos e costumes do grupo, fuga da realidade e experiências extrassensoriais, mas devido ao consumo contínuo por longos períodos a dependência é inevitável para uma parcela desses gays.

A dependência é o pior dos mundos, pois a juventude é a melhor fase da vida, período de estudos, inserção no mercado de trabalho, ascensão profissional e crescimento pessoal em todos os sentidos.

Não sou conversador, mas todos nós almejamos algo na vida, como realizar sonhos e conquistar um espaço neste mundo, ainda mais para o gay que é minoria neste planeta.

Outro dia passeando na Avenida Paulista eu observei um homem parado e olhando um gay abraçado a um amigo e ele soltou o seguinte comentário: Além de viado também é drogado – Duplo preconceito: drogas e homossexualidade.

 Como observador deste mundo moderno, eu percebo os gays jovens e maduros vivendo freneticamente numa sociedade de consumo e penso que eles buscam a droga como solução mágica para seus conflitos interiores, mas não é assim que funciona.

O contato com ela ocorre quando o gay está buscando mais intensamente o conceito de si mesmo, a sua identidade psicossocial, pois ele acredita que a resposta está no exterior, sem tentar buscá-la em si mesmo.

Já os gays maduros e idosos se drogam porque não enxergam perspectivas para o futuro. Muitos buscam esquecer traumas ou perdas de entes queridos e sem perceber o vício acaba sendo parte integrante do seu cotidiano, pois não conseguiram se livrar da dependência química.

O pior dos mundos é a dependência e a necessidade do uso de drogas em maiores quantidades para se obter os mesmos efeitos. Quando se percebe passaram anos e até décadas.

Por mera coincidência, eu fiquei em São Paulo num feriado abril deste ano e fui acordo logo cedo com sirenes de carros de bombeiro. Resumo: Um gay morador do prédio da frente queria suicidar-se porque o parceiro rompeu a relação, mas o motivo da paranoia é que ele estava drogado.

No mundo das drogas há riscos de morte súbita, paranoias como citei no parágrafo anterior, agressividade e o mais comum: parada cardíaca. Também, é sabido que na abstinência provoca depressão.

É triste, mas esta é a realidade

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