Publicado em Contos da cidade, História, Memória

Um relação doentia e casual

amor-c3a0-vida-Mateus solano - cc3a9sar-descobre-que-fc3a9lix-c3a9-gay-e-decide-ter-uma-conversa-sc3a9ria-com-o-filho2

Ricardo era um sujeito muito difícil que nunca aceitou sua homossexualidade. Eu o conheci em 1982 num bar do gueto paulistano.

Além de difícil ele também era muito safado e doente por sexo. Do banheiro do bar para um quarto de hotel era questão de minutos. Após o sexo cada qual tomava o seu rumo e só nos encontrávamos novamente depois de duas ou três semanas.

Aos poucos fui conhecendo aquele homem que tinha um coração maior do que o seu próprio corpo, alto e esbelto. Em muitos momentos ele se apresentava como um romântico e sonhador, em outros era rude, agressivo, intolerante e muito machão.

Após um ano de relacionamento eu decidi romper, justamente por conta do seu comportamento, da falta de maturidade, da não aceitação da homossexualidade e principalmente porque eu não enxergava um futuro com aquele homem grisalho de cinquenta e nove anos.

Vivíamos exclusivamente em ambiente heterossexual, não tínhamos amigos gays, não frequentávamos os bares, boates e o pior, não tínhamos local para praticar sexo. Nossas relações sexuais eram casuais e ocorriam dentro do carro, isso porque o Ricardo tinha pavor de hotel ou motel.

É óbvio que a relação tinha tudo para se deteriorar e deteriorou. Num final de semana frio em São Paulo estávamos com o tesão à flor da pele e ele aceitou ir para um hotel e não é que quando estávamos saindo para o estacionamento ele caiu na escada e quebrou o pé. Homem azarado que nunca vi igual.

Depois daquele fato ele ficou extremamente arredio e nunca mais fizemos sexo. Passaram-se dois meses e finalmente criei coragem para terminar a relação, mas o Ricardo era osso duro de roer e não aceitou a minha decisão.

Durante os três meses seguintes ele me procurou no trabalho, me telefonou todos os dias e até mandou flores. Dá para acreditar? Eu não cedi e literalmente sumi do mapa.

Depois de uns quatro meses eu voltei ao bar onde tudo começou e lá estava ele sozinho tomando uma cerveja. Conversamos rapidamente e ele até tentou uma aproximação, mas eu não queria mais problemas na minha vida porque era uma relação doentia e neurótica.

Naquela tarde de sábado foi a última vez que nos encontramos. Uma semana depois um amigo me informou que ele havia falecido num acidente automobilístico na Avenida Vinte e Três de Maio, próximo ao Parque do Ibirapuera. O acidente ocorreu apenas a uma quadra do seu apartamento, às quatro horas da madrugada de uma sexta-feira fria de inverno.

Esta história é verdadeira e eu sou um dos personagens. Também, me inspirei no conto do Paulo Azevedo Chaves – À terra o que é da terra

Publicado em Contos da cidade, Literatura

Conto: O Menino do Gouveia

menino do gouveia
Foto da Fundação Biblioteca Nacional

Caro leitor, eu descobri este conto vasculhando as obras de James Green. Recentemente adquiri um exemplar do seu livro raro chamado Frescos Trópicos – Fontes sobre a homossexualidade masculina no Brasil (1870 – 1980) em parceria com Ronald Polito.

De acordo com os pesquisadores e autores do livro, é considerado o primeiro conto erótico gay publicado no Brasil, editado pela revista Rio Nu, em 1914 e assinado por Capadócio Maluco, um pseudônimo. Na época Gouveia era a gíria para homens velhos que se relacionavam sexualmente com garotões.

O menino do Gouveia

Estendido junto a mim na cama suspirativa do chateau, depois de ter sido enrabado duas vezes, tendo na mão macia e profissional a minha respeitável porra, em que fazia umas carícias aperitivas, o menino do Gouveia, isto é, o Bembem, contou-me pitorescamente a sua história com todos os não-me-bulas de sua voz suave de puto matriculado.

– Eu lhe conto. Eu tomo dentro por vocação; nasci para isso como outros nascem para músicos, militares, poetas ou até políticos. Parece que quando me estavam fazendo, minha mãe, no momento da estocada final, peidou-se, de modo que teve todos os gostos no cu e eu herdei também o fato de sentir todos os meus prazeres na bunda.

Quando cheguei aos meus treze para catorze anos, em que todos os rapazes têm uma curiosidade enorme em ver uma mulher nua, ou pelo menos um pedaço de coxa, um seio ou outra parte do corpo feminino, eu andava a espreitar a ocasião em que algum criado, ou mesmo meu tio, ia mijar, para deliciar-me com o espetáculo de um caralho de um homem.

Não sei por que era, eu sentia uma atração enorme para o instrumento de meus prazeres futuros.

Havia então, entre os empregados, um que possuía uma parativelas que era mesmo um primor de grossura e comprimento, fora a cabeçorra formidável. Uma destas picas que nos consolam até a alma!

Entretanto, o que mais aguçava a minha curiosidade e me dava um desejo insofrível, era poder ver a porra de meu tio. Este, porém, era muito cauteloso, e jamais ia satisfazer as suas necessidades sem trancar a porta da privada, ficando eu deste modo com o único recurso de calcular e julgar, pelo volume que lhe via na perna esquerda, as dimensões do seu mangalho que parecia ser colossal.

Um dia em que ele e titia foram à cidade muni-me de uma verruma e fiz na porta do quarto dos mesmos uma série de buracos dispostos de maneira que eu pudesse observar todos os movimentos noturnos.

– Confesso, Capadócio Maluco – acrescentou o Bembem, aumentando o movimento punhetal que vinha fazendo na minha pica -, que nem uma só vez me passou pela cabeça a idéia de que ia ver a titia nua ou quase nua. O meu único pensamento era poder apreciar ereto o membro viril do titio.

Nessa noite, mal nos recolhemos aos dormitórios, eu fui postar-me, metido na comprida camisola de dormir, na porta e com os olhos pregados nos furos previamente feitos.

Parece, porém, que o casal não tinha pressa nenhuma em se foder ou então ambos andavam fartos, pois meu tio, em camisa de meia, sem tirar as calças, sentou a ler um livrinho que depois eu souber ser da Coleção Amorosa do Rio Nu, enquanto minha tia, em mangas de camisa, principiou uma temível caçada a algumas pulgas teimosas.

Se eu gostasse de mulher, teria me deliciado vendo, nos movimentos bruscos da caçada, os seios da moça, que eram alvíssimos, de bicos vermelhos, redondos e rijos como se ela ainda fosse cabaçuda; porém todo o meu prazer, toda a minha curiosidade, estavam entre as pernas do tio, no seu caralho, cuja lembrança me punha comichões na bunda.

Afinal, ela parece que cansou na perseguição dos pequenos animais, pois deixou cair a saia e rapidamente substituiu a camisa por uma pequena camiseta de meia de seda que lhe chegava até o meio das nádegas.

Mesmo sem querer, tive que admirar-lhe as pernas bem-feitas, as coxas grossas, torneadas e muito claras, a basta pentelhada castanho-escura e – com quanta raiva o confesso! – o seu traseiro, amplo, macio, gelatinoso.

Ah! se eu tivese um cu daqueles, era feliz! Era impossível que meu titio, tendo ao seu dispor um cagueiro daqueles, pudesse vir a gostar da minha modesta bunda! Quanto ciúmes eu tive da tia naquela noite!

Parece que a leitura do tal livrinho produziu alguma coisa em titio. Ele principiou a olhar de vez em quando para a mulher, estendida de papo para o ar sobre o leito; depois passou várias vezes a mão pela altura da pica.

Finalmente levantou-se, num momento tirou toda a roupa e caminhou para a cama.

Oh! Céus! Eu então pude ver, com toda a dureza que uma tesão completa lhe dava, os vinte e cinco centímetros de nervo com que a Natureza o brindara. Que porra!

Grande, rija, grossa, com uma chapeleta semelhante a um pára-choques da Central e fornida dum par de colhões que devia ter leite para uma família inteira.

Ele chegou-se ao leito, começou a beijar a esposa nos olhos, na boca, no pescoço, nos seios e depois, quando a sentiu tão arreitada como ele estava, afastou-lhe as belas coxas, trepou para cima do leito e eu, do meu observatório, vi aquele primor de pica deslizar suavemente e sumir-se todo pelo cono papudo da titia, que auxiliava a entrada do monstro fazendo um amestrado exercício de quadris, a suspirar, a gemer, a vir-se, no mais completo dos gozos, na mais correta das fodas.

Não quis ou não pude assistir ao resto da cena. Eu tinha uma sensação esquisita no cu, parecia que as pregas latejavam. Mais tarde vim a saber que isso era tesão na bunda.

Corri para o meu quarto, fechei-me por dentro, atirei para longe a camisola, que me incomodava e, tendo arrancado a vela do castiçal, tentei metê-la pelo cu acima a ver se me acalmava. Fui caipora; as arestas da bugia machucavam-me o ânus e não a deixavam entrar.
Passei uma noite horrível.