Publicado em Contos da cidade

Um conto homoerótico

homem_no_espelho_gay_fofendoCaro leitor, após um período de viagens eu estou de volta para continuar os escritos do blog.

Antes de viajar eu fiz uma faxina nos arquivos e documentos do computador e separei um conto escrito por mim há mais de dez anos baseado numa história real de um gay  frequentador dos guetos paulistanos nos anos 1980.

Morte ao chegar

 Era início da primavera na cidade grande. As árvores estavam mais verdes em relação à primavera passada. Um aroma agradável pairava no ar, trazendo prenúncios de bons fluídos. Inquieto Carlos procurava distração naquela cidade magnética, frenética e louca que ele amava de paixão.

Nas esquinas da região central os seres humanos circulavam e se cruzavam rapidamente. Enquanto isso lá no gueto, bichas e travestis se amontoavam nos bares e botecos.

O desejo acelerava seu andar descompassado e lento. Um turbilhão de imagens eróticas fluía do cérebro até um tropeço involuntário. Lá estava ele, o macho cinquentão dos seus devaneios.

De voz mansa o homem de meia idade e estatura mediana foi gentil. Um convite para um café no bar da esquina e a promessa de novo encontro na sexta-feira à noite.

Carlos não tinha compromisso e aguardava uma companhia para preencher o seu tempo livre num final de semana de outubro.

Mais tarde…

Sexta-feira com cara de feriado e os bares da principal avenida do gueto estavam abarrotados. Ele apareceu na esquina e entrou no Bar do Português, local de frequência da boemia e dos homossexuais que procuravam sexo e diversão.

O encontro foi rápido. Carlos mal tomou o primeiro gole de cerveja e já saíram para um hotel há duas quadras dali.

O quarto amplo de janelas grandes decoradas com cortinas de voil bege dava ao ambiente um ar de antigo. Seu amante já sem roupa, deitado sobre a enorme cama de casal e de mastro em riste esperava o seu corpo para usufruir dos prazeres da carne.

Ao ver o mastro ereto e grosso Carlos pulou em cima do macho. Com carícias leves e a língua afiada circundou o pênis ereto, entrelaçando os dedos delgados entre os bagos e o membro.

Após meia hora de chupões e um sessenta e nove, o macho virou o Carlos de bruços para penetrar seu cu sedento.

Através do espelho na cabeceira da cama, Carlos observava os movimentos do seu homem fodendo por trás. Seu olhar curioso percorria todos os ângulos, enquanto o garanhão usava a força bruta com músculos fortes e o suor escorrendo entre os pelos.

Os suaves gemidos compunham uma bela sinfonia do prazer, os gritos lembravam o cantar da cotovia, o rebolar das nádegas nuas e sedentas era uma réplica fiel da cena final da dança do fogo, enquanto isso, Carlos frágil e indefeso agarrava-se aos travesseiros desesperado para não naufragar no mar das delícias do amor homossexual.

O macho também gemeu e pressionando as coxas grossas e carnudas contra suas pernas, disse que ele gozaria apenas com a penetração por trás. Dito e feito! Foi uma delícia! Carlos viu estrelas!

Já era noite e os amantes ainda sem forças para levantar. Deitado ao lado do macho, Carlos mirava o teto e imaginava desenhos saídos dos contos de Platão.

No fim de noite...

De volta ao Bar do Português eles beberam até altas horas e a despedida não foi nada convencional. O macho tascou um beijo molhado na boca do Carlos e saiu pra rua.

Carlos continuou bebendo e observando os frequentadores do bar. Ele queria mais e ainda tinha tempo para mais uma foda de fim-de-noite.

Mas para os boêmios muitas vezes os imprevistos mudam o rumo dos acontecimentos e ao sair Carlos se surpreendeu ao ver o seu homem esperando na calçada.

Com cara séria ele o chamou e convidou para leva-lo de carro até a sua casa no bairro da zona norte, na periferia da cidade.

Dentro do carro Carlos observava as luzes da cidade ficando pra trás, Após atravessar a ponte nos limites da cidade, finalmente o seu homem estacionou o carro sob a claridade do poste de luz na rua escura.

Carlos estava tranquilo mesmo sabendo dos casos de assassinatos ocorridos nas mesmas circunstancias nas madrugadas escuras das ruas e becos daquela região da cidade.

A conversa não demorou cinco minutos. Na despedida o seu macho pediu novo encontro para a semana seguinte e o Carlos consentiu.

Lentamente ele caminhou rumo ao portão da casa, olhou vagamente o carro se afastar, caminhou rumo à porta, girou a chave na fechadura e apoiou a mão na maçaneta.

Subitamente uma dor lancinante no peito, um flash de luz, a respiração ofegante e a queda lenta do corpo apoiado no batente da porta. Carlos desfaleceu e foi encontrado morto com os primeiros raios da manhã.

Publicado em Contos da cidade, História, Memória

Um relação doentia e casual

amor-c3a0-vida-Mateus solano - cc3a9sar-descobre-que-fc3a9lix-c3a9-gay-e-decide-ter-uma-conversa-sc3a9ria-com-o-filho2

Ricardo era um sujeito muito difícil que nunca aceitou sua homossexualidade. Eu o conheci em 1982 num bar do gueto paulistano.

Além de difícil ele também era muito safado e doente por sexo. Do banheiro do bar para um quarto de hotel era questão de minutos. Após o sexo cada qual tomava o seu rumo e só nos encontrávamos novamente depois de duas ou três semanas.

Aos poucos fui conhecendo aquele homem que tinha um coração maior do que o seu próprio corpo, alto e esbelto. Em muitos momentos ele se apresentava como um romântico e sonhador, em outros era rude, agressivo, intolerante e muito machão.

Após um ano de relacionamento eu decidi romper, justamente por conta do seu comportamento, da falta de maturidade, da não aceitação da homossexualidade e principalmente porque eu não enxergava um futuro com aquele homem grisalho de cinquenta e nove anos.

Vivíamos exclusivamente em ambiente heterossexual, não tínhamos amigos gays, não frequentávamos os bares, boates e o pior, não tínhamos local para praticar sexo. Nossas relações sexuais eram casuais e ocorriam dentro do carro, isso porque o Ricardo tinha pavor de hotel ou motel.

É óbvio que a relação tinha tudo para se deteriorar e deteriorou. Num final de semana frio em São Paulo estávamos com o tesão à flor da pele e ele aceitou ir para um hotel e não é que quando estávamos saindo para o estacionamento ele caiu na escada e quebrou o pé. Homem azarado que nunca vi igual.

Depois daquele fato ele ficou extremamente arredio e nunca mais fizemos sexo. Passaram-se dois meses e finalmente criei coragem para terminar a relação, mas o Ricardo era osso duro de roer e não aceitou a minha decisão.

Durante os três meses seguintes ele me procurou no trabalho, me telefonou todos os dias e até mandou flores. Dá para acreditar? Eu não cedi e literalmente sumi do mapa.

Depois de uns quatro meses eu voltei ao bar onde tudo começou e lá estava ele sozinho tomando uma cerveja. Conversamos rapidamente e ele até tentou uma aproximação, mas eu não queria mais problemas na minha vida porque era uma relação doentia e neurótica.

Naquela tarde de sábado foi a última vez que nos encontramos. Uma semana depois um amigo me informou que ele havia falecido num acidente automobilístico na Avenida Vinte e Três de Maio, próximo ao Parque do Ibirapuera. O acidente ocorreu apenas a uma quadra do seu apartamento, às quatro horas da madrugada de uma sexta-feira fria de inverno.

Esta história é verdadeira e eu sou um dos personagens. Também, me inspirei no conto do Paulo Azevedo Chaves – À terra o que é da terra