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Mix Brasil – O tempo não para

10357533_547803542021376_6604240762967114951_nHoje ao abrir o jornal me deparei com a notícia do início do Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade.

Caramba! Já se passaram vinte e dois anos desde a primeira edição. Naquele ano de 1992, eu tinha 33 anos e não fazia ideia de como seria o mundo hoje.

Os anos 1970 deram início aos movimentos ativistas gays que, entre outras coisas, questionavam a representação de identidades homossexuais pelos meios de comunicação de massa – em especial pelo cinema, bem como,  propunham novos padrões de representação que contribuíssem para a aceitação social dos gays.

No Brasil, esta discussão foi postergada devido às lutas contra a censura como um todo, imposta pela ditadura vigente à época.

Foi só nos anos 1990 que vimos a problematização de representações estereotipadas das minorias sexuais, principalmente através de obras cinematográficas.

O Festival Mix Brasil teve papel primordial nisto, permitindo, a partir de 1992, acesso ao público brasileiro a obras internacionais que se debruçavam sobre essas questões, e, principalmente, provendo um espaço anual para a exibição da produção brasileira.

De lá pra cá, estas formas de representação passaram por várias mudanças, desde a assimilação de novas representações pela TV e cinema comercial à problematização de representações positivas em detrimento da diversidade de identidades e da afirmação.

Mas eu posso afirmar que de alguma forma tudo isso contribuiu para vivenciarmos um mundo diferente daquele apresentado no início da década de 1990.

Eu, particularmente, sou um cinéfilo de carteirinha e sempre guardo espaço na agenda para assistir algum filme temático. Talvez, essa compulsão originou-se lá atrás, quando eu tinha meus trinta anos, aliás, creio que tudo começou na juventude, porque tudo na vida dos gays daquela época era difícil, com muitos traumas e incertezas.

Os filmes temáticos eram pra mim uma válvula de escape, um cenário onde eu me via no papel de um personagem qualquer. Os filmes sempre representaram o meu mundo homossexual, eram e são a minha realidade.

Você que é mais jovem talvez não conheça, mas quando eu assisti Domingo Maldito, Sunday bloody Sunday, com Peter Finch, eu passei a entender melhor a relação dos gays idosos com os mais jovens, a solidão dos velhos, a vida privada, a distância na relação familiar e principalmente, as concessões num relacionamento amoroso entre iguais.

Voltando ao Mix Brasil, eu tive gratas surpresas. Me recordo de ter assistido pelo menos uns trinta filmes no festival, mas dois deles eu guardo até hoje na minha coleção particular. Ambos já foram registrados aqui no blog: C.R.A.Z.Y e Shortbus.

O primeiro conta a história de um jovem lutando com seus sentimentos homossexuais enquanto cresce com quatro irmãos e um pai conservador nos anos 1960/1970 – Por incrível que pareça, o final do filme mostra o filho gay cuidando do pai idoso. É como eu estou vivendo o meu momento presente. Não moro com meu pai, mas na medida do possível estou cuidando dele e como no filme levando o pai para passear.

filmes_9282_Shortbus02O segundo é um filme forte, recheado de cenas de penetrações e masturbação, com diversos personagens centrados no mesmo clube Shortbus.

Adorei a sequencia do gay idoso (foto ao lado) que abre seus pecados a um desconhecido, diz que aquela terra recém-devastada pelos ataques é um lugar de gente tolerante, perfeita para os golpes desferidos pelos intolerantes – É quase uma declaração de amor.

Eu já vi essa sequencia pelo menos umas dez vezes e sempre descubro algo novo, talvez porque estou envelhecendo  e porque sempre encontro gays idosos vivendo nas mesmas condições do personagem do filme, ou seja, isolado, solitário, carente de afeto e atenção.

Enfim, registro aqui a importância do Festival Mix Brasil que a partir de hoje apresenta não apenas filmes, mas teatro, música e dança e é considerado um evento importante no calendário cultural de São Paulo e o maior festival LGBT da América Latina.

Caso você tenha interesse pode ler o artigo publicado por Suely Engelhard sobre a análise do filme CRAZY – aqui.

Os gays rasgam as fantasias no Carnaval

GalaGay-Isabelita-dos-Patins-e-Ricardo-AmaralNo Brasil, talvez não exista data mais aberta à diversidade do que o carnaval. Dos desfiles de escolas de samba aos blocos de rua, onde homens se vestem com roupas de mulher sem medo de ser feliz – a folia costuma receber e celebrar a comunidade gay todos os anos, em diversos cantos do País.

O termo rasgar a fantasia originou-se de velhos carnavais onde as pessoas mostravam-se como realmente elas eram em personalidade e comportamento, depois de tê-los dissimulado, ou seja, no carnaval você pode ser quem você quiser ser porque tudo é permitido.

Para os gays o carnaval é o momento de “sair do armário” e ir para as festas de rua ou salão com alguma fantasia que lhe seja especial ou particularmente pessoal.

A fantasia usada no carnaval tem relação com nossas fantasias mais secretas, aquelas que a gente não conta pra ninguém.

Para muitos rasgar a fantasia quer dizer “cair na folia”, para outros significa lavar todos os pecados, esquecer o cotidiano como se nada tivesse acontecido.

Os gays buscam os bailes de carnaval para soltar a sensualidade e a sexualidade reprimida, dessa forma, os bailes de carnaval servem como uma oportunidade anual para que o privado torne-se mais público.

A expressão desinibida do homossexual durante o carnaval comprova que a sociedade brasileira tolera a homossexualidade e a bissexualidade, mas no cotidiano não é bem assim…

Até a primeira metade do século XX, os homossexuais não tinham muito espaço para brincar o carnaval, exceto os bailes de salão. Isso ocorreu gradativamente a partir do final dos anos 40 com a institucionalização do carnaval através de ajuda financeira do governo de Getúlio Vargas, para as escolas de samba.

carnaval_gay_wordpressA partir dos anos 70 surgiram os primeiros bailes para o publico gay, onde travestis e Drag Queens deixaram suas marcas registradas. Personalidades como Rogéria, Isabelita dos Patins, Roberta Close, Telma Lipp e Claudia Wonder ferveram nos salões, principalmente no Gala Gay do Rio de Janeiro. Tanto que em 1984 Roberta foi a musa do carnaval carioca.

Portanto, há 30 anos os gays estão mais soltos, porque a partir do pioneirismo dessas desbravadoras, novos comportamentos foram assimilados na sociedade brasileira. Naquela época os homossexuais, travestis e transexuais não eram bem-vindos e nem endeusados como ocorre atualmente.

Mesmo assim, o carnaval ainda é uma das poucas oportunidades dos gays realmente soltarem a franga, rasgarem todas as fantasias e cair na folia, para libertar a sexualidade.

Ninguém precisa atravessar o deserto do Saara, dizer à mamãe que quer mamar ou perguntar à jardineira por que ela está tão triste para saber que, nos próximos dias, o carnaval vai mobilizar milhões de pessoas de norte a sul do País.

Então, um ótimo carnaval!

Leia também: 

## Gala Gay do Rio de Janeiro

Cenas de Antigos Carnavais

## Os gays no Carnaval

O carnaval chegou

## Mundo gay e carnaval…tudo a ver

 

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