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Um Cruel Gosto de Sangue

gosto-de-sangueNuma conversa, um correspondente me disse que ainda existe muita homofobia em diversos segmentos sociais brasileiros. Eu perguntei: ainda existe? Desculpe-me, mas sempre vai existir, talvez melhore daqui a cinquenta anos.

Na troca de mensagens eu tive uma leve percepção de que a homofobia era coisa do passado, mas após reflexão constatei que não era. Hoje existe mais homofobia do que em outras épocas, talvez por causa da exposição instantânea. Tudo acontece online, a violência está generalizada.

Além da homofobia, tem a transfobia, a lesbofobia e outras fobias sociais, pois as pessoas ficam apavoradas quando esbarram em seres humanos porque sofrem de ansiedade e se acham os donos do mundo e da verdade.

O preconceito não vai acabar tão cedo. Viado será sempre tratado como anormal, mesmo que você ache tudo muito lindo nas séries de TV com viés cômico, ainda assim, é uma verdadeira burrice acreditar que não existe, porque os gays vivem no mundo da lua, num mundo cor-de-rosa, de paz e amor, principalmente, os jovens.

Caro leitor, abra os seus olhos para o mundo à sua volta e deixe de pensar que você é aceito em qualquer extrato social, porque não é assim que acontece, é tudo fake! Há exceções, mas isso não vale para a maioria.

Vivemos numa sociedade machista, individualista, preconceituosa e cheia de vilões e super-heróis, aliás, quais são os seus heróis LGBT? Não estou falando de super-heróis da Marvel Comics ou DC comics – Não existem heróis!

Nós cidadãos LGBT, temos a falsa sensação de tolerância, de que somos aceitos, mas não é nada disso e assim vamos vivendo, cada qual no seu mundo particular como se o coletivo estivesse distante da realidade, mas o perigo está logo ali na esquina.

Inserir-se nos contextos sociais da atualidade é mais difícil do que se imagina.  Se é difícil para os pobres, imagine então, para as minorias?

A verdade nua e crua é que vivemos um faz-de-contas eterno onde as mídias eletrônicas mostram a realidade que não faz parte da nossa vida, até acontecer conosco. Tudo acontece instantaneamente.

Para nós simples mortais nem percebemos o quanto somos manipulados por informações plantadas nas redes sociais e nos canais de comunicação online e quando tiramos a venda que nos tapa os olhos não há nada a fazer a não ser resignar-se ao sistema.

A intolerância é marca registrada deste século e as pessoas perderam a habilidade de respeitar diferenças em crenças e opiniões, porque o seu ponto-de-vista jamais será considerado para qualquer fim.

Em qualquer lugar onde você está, existe uma nuvem negra que povoa o seu cotidiano. Se você ainda não sofreu qualquer violência física fique atento porque pode acontecer a qualquer momento, basta um deslize.

Numa sociedade de autômatos, somos robôs controlados pelo sistema e semelhantes aos personagens dos filmes: Laranja Mecânica ou Brazil de Terry Gilliam. A ficção nunca foi tão real!

Caro leitor, vivemos num Estado totalitário, onde nossos governantes são corruptos. Somos controlados por computadores e pela burocracia e somos identificados por fichas, números e cartões de crédito.

Neste cenário futurista vivemos confinados em caixas e obedientes a um sistema podre, se achando o rei da comédia, da mortadela, enfim, o rei de tudo e acreditamos que estamos seguros e imunes à violência.

Mas uma notícia na TV chama a nossa atenção e observamos atônitos números recorde de suicídio entre jovens gays, aliás são os jovens que mais sofrem violência física e psicológica, seja numa estação de trem do subúrbio, do metrô ou num terminal de ônibus.

A violência urbana está nas ruas, nos bares, nas baladas, na escola, na faculdade, na praia e principalmente, dentro de casa.

A violência rural está dentro de casa, nas ruas e praças das pacatas cidades do interior, ironia, não? Pois é, não existem lugares seguros.

Os idosos são extorquidos, espancados e mortos diariamente, pelo simples fato de serem gays.

Os travestis são cruelmente assassinados pelo fato de viverem na corda bamba da clandestinidade.

Os brutamontes e gangues apavoram os mais vulneráveis e os homossexuais.

Gays de todas as idades são assassinados pelo simples fato de estarem no lugar errado e na hora errada.

Tudo isso por um simples e banal gosto de sangue

Ótimo final de semana!

Nota: A imagem que ilustra este artigo faz parte da capa do filme Gosto de Sangue dos irmãos Ethan e Joel Coen

Reflexões sobre perdas e ganhos

Perdas-e-GanhosSabe-se que na vida há perdas e ganhos e isso está vinculado a cada ser humano de formas diferentes.

Conversando com um amigo ele diz que já saiu perdendo na vida por ser homossexual, pois segundo ele, ser gay num mundo predominantemente heterossexual é a maior perda que um ser humano pode ter.

Eu, obviamente, não contestei, mas penso diferente porque perdas e ganhos não tem nada a ver com opção ou preferência sexual.

Quando se fala em perdas, lembramos-nos de perdas humanas por morte ou conflitos por rompimento de relações de entes queridos. Há perdas de coisas materiais, como dinheiro, carro, casa ou uma simples agulha. Há ainda perdas por situações que deixamos passar em nossas vidas: perda de tempo, de horários, de compromissos e oportunidades.

Outras perdas como memória, visão, audição e membros do corpo são extremamente traumatizantes. Enfim, se você parar para refletir sobre perdas vai entrar num buraco sem fundo de tantas possibilidades, mas porque isso acontece?

Simples, porque o ser humano só enxerga coisas negativas. Imagine então como os gays vivem num mundo de situações negativas. Só para ilustrar, eu conheço um vizinho idoso e gay que todos os dias reclama de tudo e quando ele se vê envolvido em situações de perdas até parece que o mundo vai acabar, faz drama, chora e por ai vai. Às vezes leva tempo além do normal para assimilar tanta coisa negativa.

Portanto, não há uma receita para lidar com as perdas, é cada qual com suas experiências de vida, mas sempre com a expectativa de que amanhã será outro dia.

Obviamente, as grandes perdas são de pessoas e quando alguém perde o companheiro a superação leva meses, anos ou talvez não seja superada em vida.

Sobre os ganhos a história é outra, lembramos-nos de ganhos materiais, situações que aproveitamos sem deixar passar, ganhamos experiências de vida, novas vidas. Se ganha diariamente, mas valorizamos pouco os nossos ganhos, como se fossem situações normais do cotidiano.

Para os gays os ganhos não são diferentes, afinal fazemos parte do mundo. Outro dia ouvi alguém dizer: Ganhei um amante e perdi minha família porque assumi a relação com o parceiro. Ganhou de um lado e perdeu do outro e nem vou entrar no detalhe do que mais valeu, se a perda ou o ganho.

Em minha opinião ganhou um companheiro, mas poderia ter evitado a perda da família. Precisava contar ou assumir?

São situações assim que me levam sempre a ponderar atitudes que possam causar qualquer tipo de perda. Claro, eu já perdi demais nessa vida e hoje mais experiente evito perder, sim, porque perdemos muitas coisas devido ao nosso comportamento.

O que eu mais ouço no meu círculo de amizades é sobre fim de relacionamento e perda do companheiro. A proporção nesta relação é 10 por 1, muito mais porque a relação terminou do que por morte. Lembro ao leitor que meu círculo de amizades é composto em sua maioria por gays maduros e idosos.

Talvez a perda com fim de relacionamento seja a principal perda entre os gays, por questões óbvias. Em contrapartida o principal ganho é experiência de vida, ou não?

No balança da minha vida perdas e ganhos tem pesos iguais, ops! Esta semana perdi mais um ente querido, mas não vou contabilizar como perda e vou colocar no meu baú de ganhos, afinal foi uma pessoa que passou na vida e me trouxe apenas coisas boas.

Assim é a vida! Portanto, mãos à obra. Vamos limpar do nosso caminho perdas desnecessárias, porque a maioria delas pode ser evitada e vamos colecionar ganhos para equilibrar os pesos da balança.

Os gays precisam perder o medo para ganhar na vida!

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