Arquivos do Blog

Crônica de amor do João

1776594109-ensaio-traz-casais-gays-dos-anos-80-3348304035-323x479João, um prenome muito comum na língua portuguesa, desde cedo sabia que era homossexual. Ele define o mundo gay como um estereótipo do corpo malhado e rostos jovens. Na contra mão da preferência da maioria, João gosta de homem maduro, barriga saliente e se for calvo e tiver bigode, melhor ainda.

Ele sabe que o seu gosto vai além do fetiche, pois quando vê um homem maduro o seu cérebro reage de tal forma que o carinho e o afeto tornam-se necessidades vitais.

Naquele ano de 2007, ele conheceu um coroa, branco, alto, barrigudo e calvo, típico descendente germânico. Foi paixão avassaladora; sim, paixão da braba, aquele que te pega pelo dedão do pé na hora que você vai dormir.

O coroa era casado há mais de 40 anos e vivia com a mulher, filhos, netos… Naquela louca paixão João largou o emprego e fugiu para a cidade do seu homem. Houve reciproca, e como! O coroa em pouco tempo deixou o casamento e foi morar com ele. Na verdade, ele apenas ratificou sua separação. Já não existia casamento há anos.

Bem, em pouco tempo João descobriu que a paixão era amor, pois aguentou muitas situações ruins decorrentes do rompimento do matrimonio do amante e mesmo assim teve forças para continuar.

Por capricho dos Deuses ele foi aceito em um mestrado na Espanha e de mala e cuia mudou-se para lá. No aeroporto a despedida foi traumática, o coração do João se partiu em dois, um lado, a ilusão do cara pobre que conseguiu sair do país para estudar, e do outro, uma tristeza sem fim, mesclada com desespero, choro e raiva.

Mas ele não desistiu.  Quando chegou à Espanha, começou a buscar formas para que coroa pudesse ir. Não foi fácil, afinal para um homem, com mais de 60 anos, uma mudança de vida tão drástica seria difícil. Mas eles superaram; João arrumou um curso de castelhano, cultura espanhola e em janeiro de 2010, o coroa embarcou para a Europa.

No aeroporto do outro lado do Atlântico, João teve vontade de levar seu homem ao banheiro dos deficientes físicos, porque o movimento de pessoas, ali era menor, mas foi no saguão mesmo, ele deu um longo abraço e juntos seguiram para casa.

Assim, contando nos dedos, eles estão juntos há quase quatro anos. A diferença de idade às vezes pesa um pouco, mas ele sabe que já aprendeu a lidar com isso, por outro lado, seus amigos que sentem tesão por coroas não conseguem manter a relação por mais de uma semana.

No cotidiano o João ainda tem surtos de adolescente, mas a convivência com um homem de sessenta e poucos anos, mesmo que ranzinza e enjoado, ajuda no amadurecimento pessoal.

Eles fazem sexo, nem tanto quanto no início. A amizade permeia o relacionamento e fazem praticamente tudo juntos. Ainda não enjoaram da cara um do outro, tem tudo para dar certo, mesmo num pais estrangeiro neste início de inverno europeu, em dezembro 2011.

Essa história real estava engavetada há três anos e nesta semana algo me dizia que eu devia publicá-la. Pois bem, ai está! Então me pergunto: Como será que anda a vida do João? Será que ainda está na Espanha? E o mestrado? O parceiro? O romance? A vida?

Mande notícias João!

Relações intergeracionais entre gays

gay_idoso_5Caro leitor, prepare a poltrona porque hoje o post é longo, mas é legal, pois desmistifica muitas coisas sobre o tema, bem como, traz uma nova realidade que ainda passa despercebida nos dias atuais.

O título do post foi proposital para atrair alunos e acadêmicos , porque essa coisa de relação intergeracional é meio que preconceituosa. Quem sabe este post dê algumas informações e dicas para estudos acadêmicos sobre o envelhecimento dos gays masculinos e sobre as relações entre homens jovens que gostam de homens mais velhos.

A sociedade não enxerga as relações entre jovens e coroas com bons olhos e é pior ainda sendo uma relação homossexual. Até o próprio meio gay tem preconceito.

As relações sociais e sexuais entre gays maduros ou idosos e gays jovens é algo comum, mas as nuances que permeiam essas relações são desconhecidas para a maioria, pois quem não vivencia essa realidade nem imagina como um gay jovem, bonito e sarado pode gostar e manter relações sexuais com gays idosos, porque o modelo padrão faz referência à juventude e à beleza física.

Como não existem muitos trabalhos acadêmicos sobre o envelhecimento da população LGBT, entenda-se como maduro ou coroa homens com idade acima de 50 anos e os idosos com idade acima de 65 anos.

olderclubeO rio das paixões entre jovens e idosos

De um lado do rio os gays maduros e idosos possuem um conjunto de características físicas apreciadas por uma parcela de jovens, como cabelos brancos, a barriguinha saliente, além da idade. Isso combinado com acúmulo de experiência, estabilidade emocional, familiar, financeira e social.

Esse conjunto de características se traduz num perfil de homens mais masculinos, discretos e mais ativos. Embora não implique em desempenho sexual marcado, exclusivamente, pela preferência por ser ativo. Na terceira idade esses gays adaptam-se às limitações e transformações físicas e optam por outras maneiras de manter relações sexuais, fazendo o papel de passivo.

Eu incluo ainda neste conjunto a competência emocional para lidar com relações menos efêmeras e mais significativas, indo além das atividades sexuais eventuais. Os maduros e os idosos buscam relações mais estáveis e um convívio social senão diário, pelo menos semanal ou mensal, porque na velhice não dá para ficar atirando para qualquer lado ou envolvendo-se com diversos parceiros, pois o processo de envelhecimento já está em curso.

Para os leitores mais leigos tudo o que eu escrevi até aqui pode parecer utópico, porque as imagens que se tem dos gays maduros e idosos são de aberrações, tias velhas, tarados e decadentes que pagam michês para fazer sexo, além de serem promíscuos e que as saunas são o seu refúgio e os banheiros públicos proliferam idosos advindos de todos os cantos da cidade.

Pode até ser verdade quanto à frequência em saunas e bares, porque o gueto ainda é o único local de socialização dos gays maduros e idosos que viveram parte da juventude e da fase adulta num regime de ditadura e de muita repressão familiar, religiosa e policial.

Pausa:

O contexto deste post aplica-se à cena das grandes cidades e capitais, ou você pensa que isso acontece numa cidade do interior? Bem, pode até acontecer, mas os coroas e jovens do interior, geralmente migram temporariamente para os grandes centros na busca por parceiros e para efetivar compromissos e essas buscas invariavelmente ocorrem em bares e saunas.

gay_idoso_3Do outro lado do rio os jovens tem que ser discretos, másculos, mesmo que sejam passivos; que queiram envolver-se em relacionamentos mais estáveis e que estejam dispostos a retribuir possíveis favores na forma de dedicação, de empenho e de fidelidade. Será que escrevi alguma besteira, ou isso é um resumo “quase” fiel dessa realidade?

Os coroas costumam chamar seus parceiros jovens por filhão ou filhote e os mais jovens chamam os mais velhos de paizão ou paizinho. Essa forma de tratamento induz a pensar em hierarquia familiar, permeada por diferenças de poder onde o lugar de poder está ligado ao parceiro mais velho.

Existem outros modelos mais tradicionais na relação homossexual entre jovens e maduros ou idosos. Na relação entre o coroa/paizão e o seu filhão/filhote, há diversos casos em que o parceiro mais velho reveste-se de um papel de tutor, de amigo, de padrinho, de alguém que ajuda a família de origem do jovem.

Muitos gays maduros ou idosos não se importam que o seu companheiro mantenha namoros e até casamento heterossexual, desde que ele conserve o vinculo estabelecido entre eles.

Nesse cenário também existem as coisas materiais que servem como moeda de troca de favores afetivos ou sexuais. Eu chamo isso de trocas de dádivas, ou negociações de desejo e afeição.

Se o coroa aparece sempre como aquele mais bem posicionado social, cultural e economicamente, dispondo de poder decisivo para a conquista e a manutenção da relação, por outro lado, não pode deixar de considerar formas de poder vindos da parte do rapaz, sob o qual recaem designações sociais: o rapaz geralmente é de origem negra ou mestiça; mora em periferias ou em cidades vizinhas à capital; de origem socioeconômica pobre e tem baixa escolaridade.

No entanto, esses jovens dispõem de um capital erótico, expresso em seus atributos físicos e em suas habilidades afetivas e sexuais que, muitas vezes, se sobressai na relação e introduz inesperados arranjos de equilíbrio e negociação de poder nas parcerias.

Pausa:

O cenário apresentado até aqui se mantêm relativamente estável há muitas décadas, porque os homossexuais não tinham outras opções a não ser o confinamento nos guetos e os poucos locais de paqueras eram os bares, saunas e banheiros públicos.
Bem, isso ainda existe e os gays, principalmente, os idosos ainda frequentam bares e saunas, mas com o advento da Internet as transformações sociais agregaram novos elementos à cena e um novo personagem foi inserido nesse contexto – O gay jovem de classe média.

gay_idoso_6Com boa escolaridade, bons cargos de trabalho e estabilidade financeira, os jovens de classe média mostram-se aos coroas em igualdade de condições socioeconômicas.

Esse personagem é cada dia mais comum dentro do teatro das relações entre jovens e coroas, porque através da Internet ele mantem-se anônimo e pode expressar a sua sexualidade e preferências por homens mais velhos de uma forma secreta, até a consolidação de uma relação mais estável.

Com a comunicação online as distâncias foram encurtadas e mesmo os coroas buscam via Internet parceiros nas salas de bate papo e redes sociais, o que permite encontros fora do circuito das saunas, bares e boates e sem riscos de exposição.

Mas como um gay jovem de classe média pode gostar de um gay maduro ou idoso? Bem, ele não precisa de dinheiro, favores, bens materiais ou outra moeda de troca.

Para entender esse novo personagem, eu procurei informações junto aos leitores e correspondentes do blog, com idade até 30 anos e identifiquei dois fatores preponderantes.

O principal fator é a experiência e a segurança dos mais velhos – Experimentar o sexo com homens maduros deixou de ser mera curiosidade e os jovens estão expondo os seus desejos por homens maduros sem receios ou medos.

Outro fator é o equilíbrio sociocultural. Os jovens buscam companheiros não apenas para o sexo, mas para interações sociais e ai incluem-se, viagens, programas culturais, jantares e até morar juntos.

Também, os gays maduros e idosos buscam nos jovens de classe média o equilíbrio que conquistaram ao longo da vida e também mantem o seu papel de disseminador de experiências de vida e como educador de práticas sexuais.

A evolução das relações entre esses parceiros jovens e coroas ocorre através da confirmação na troca de afetividade e o encaixe do papel sexual. Como diz um amigo meu: “Nas relações entre parceiros sempre temos que nos adaptar a alguma situação, seja ela de conflito de ideias, de poder, de geração ou de papel sexual”.

A convivência entre jovens de classe média e homens mais experientes e idosos quebra paradigmas e coloca em xeque todos os estudos acadêmicos sobre o assunto.

Um leitor do blog me alertou que a quantidade de caras da classe média que curtem homens maduros é muito grande.

gay_idoso_sp_saunaSobre as pressões

Mesmo com tantas pressões diárias exercidas igualmente sobre o coroa e sobre o mais jovem as relações estão acontecendo com maior frequência.

Sobre o mais velho, as pressões vêm com frases como: você está sendo enganado, você está sendo usado, você vai acabar sendo traído, você vai acabar se dando mal; enquanto sobre o mais novo, a pressão é mais do tipo: ele não vai aguentar o seu pique, não dá pra aguentar esse velho, transar com esse coroa deve ser horrível e, igualmente, mas com outro sentido, ‘você está sendo usado’.

Mesmo com tantas restrições, os gays maduros e idosos não estão mais sozinhos. Eu acho que aos poucos a Síndrome do Gay Solitário vai ficando no passado.

É verdade que a velhice na sociedade brasileira é muito difícil. No caso dos gays, a situação se agrava por conta do preconceito e do afastamento da família, que já ocorreu há muitos anos.
No entanto, a vida dos gays que entram na terceira idade pode ser bem diferente do que imaginamos e parte disso se deve justamente às relações entre jovens e coroas: Existe uma parcela considerável de gays que se sente atraída sexualmente por homens bem mais velhos, alguns até com idades acima dos 70 e 80 anos.

Mas e ai, como é que ficam os gays jovens que habitam as saunas, bares e banheiros públicos? Eles continuarão a existir porque as periferias das cidades continuarão produzindo jovens mestiços, com baixa escolaridade, gostosos, másculos e viris.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 294 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: