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O desinteresse dos grisalhos por relações estáveis

gay_heterossexualCaro leitor dos Grisalhos, após longas férias eu estou de volta completamente renovado. Confesso que desta vez senti saudades.

Hoje trago este assunto para discussão, pois muitos jovens gays sentem atração por homens mais velhos e na maioria das vezes as relações são fugazes e em outras é difícil encontrar outro parceiro. É o caso de um jovem acadêmico de medicina que teve seu primeiro contato com um homem há seis meses.

Antes, ele achava que o relacionamento com homem não passava de sexo, atração, algo carnal, sem envolvimento emocional e que assim ele pudesse manter o controle, manter o sigilo, ter a sua família com filhos e quem sabe algumas vezes dar as fugidas para suprir seus reais desejos.

Contudo, apos o primeiro contato, ele percebeu que há sim o envolvimento emocional, e, no seu caso foi muito forte, pois se considera carinhoso e descobriu que gostaria de ter alguém sigiloso assim como ele, mas que quisesse manter algo fixo e que pudesse dormir juntos, uma amizade, algo além de sexo.

Este jovem conheceu o blog há pouco tempo e chamou a sua atenção a quantidade de posts sobre a carência e o isolamento dos coroas homossexuais.

No entanto, suas experiências são incoerentes com essas ideias de que os coroas sofrem por não conseguir alguém, pois, as poucas experiências que ele teve o fizeram concluir que a maioria dos coroas só quer sexo, não estão preocupados em manter algo como uma amizade, apesar de mentirem que querem e que são carinhosos.

Este leitor já está desanimado, pois acha muito complicado encontrar alguém, poucos são os que entram em salas de bate papo e encontrar alguém na rua é muito complicado, apesar de acreditar que existem muitos enrustidos, mas quem se arrisca à exposição pública, principalmente na velhice?

Num e-mail ele escreveu: Gostaria de saber se você pode fazer um post dando sua opinião sobre esse descaso e desinteresse de um grande numero de maduros, para com algo mais fixo ou um envolvimento afetivo.

O meu corresponde pediu sigilo, portanto vou me restringir e complementar este post com a minha opinião.

Quando se é jovem temos o mundo à nossa frente, muitos sonhos e desejos de realizações tanto profissionais quanto pessoais. O jovem gay sonha em encontrar um parceiro para a eternidade, mas infelizmente tudo na vida tem data de validade.

Na juventude em me envolvi em alguns relacionamentos com homens maduros e nenhum deles foi uma relação estável, duraram meses e apenas um foi além de um ano. A diferença de idade, os diferentes níveis culturais e as próprias experiências de vida eram distintas. Eu nunca encontrei a minha alma gêmea.

Com o passar dos anos e com a maturidade percebi em mim o que deve ocorrer com a maioria dos gays maduros, ou seja, as vivências nos calejam e deixam cicatrizes profundas. Desilusões de sonhos não realizados, relacionamentos turbulentos, perdas, diferença de idade nas relações e a confirmação de que o mundo gay é completamente diferente do que imaginamos.

Já na fase adulta e na porta da terceira idade eu penso que é mais importante ter um amigo do que ter um amante ou companheiro. Morar juntos não é para qualquer um, porque as relações se desgastam.

Como diz um amigo: na velhice, seja gay ou não, o importante é ter saúde, algum dinheiro guardado para eventualidades e se aparecer alguém para uma transa ótimo, senão não há nada a fazer e terminar uma noite de tesão com uma punheta assistindo filme pornô ou interagindo com algum homem no mundo virtual.

Este meu amigo não está errado, porque eu sempre ouvi de outros gays idosos que no fim terminamos a vida, invariavelmente, sozinhos – Os gays não constituem família, então é óbvio que na velhice estaremos sozinhos.

Eu conheço pelo menos uma dezena de casais que vivem juntos para não ficarem ou morrerem sozinhos. Eu mesmo, já estou preparando a minha velhice porque sei que lá na frente eu estarei só.

Hoje eu tenho um companheiro, mas a morte é um divisor de águas em nossas vidas e perdas são irreparáveis e quase sempre insubstituíveis.

O desinteresse dos grisalhos por relações mais duradouras é decorrente de inúmeras variáveis durante a vida e a grande maioria delas foram variáveis frustrantes.

Gay idoso que gosta de jovem sabe que a relação não vai durar, portanto, opta por relações fugazes e casuais. São raros os encontros que se estendem por muito tempo. Alguns até preferem pagar michê para não ter envolvimento emocional.

Outro amigo me disse que os gays são assim porque não sabem trabalhar o seu lado emocional, são fragilizados pela família e pela sociedade. É tanta repressão que ao longo da nossa vida reprimimos nossas emoções e vivemos apenas para satisfazer nossos desejos sexuais.

Neste universo de relações entre jovens e maduros ou idosos existem casais que estão juntos há décadas, mas eu penso que é minoria dentro da minoria homossexual.

Independente desse cenário eu sempre digo aos jovens para seguirem em frente, buscando realizar seus sonhos pessoais, porque os seres humanos são distintos e únicos. As relações humanas são iguais às caixas de surpresa, sempre tem uma premiada.

Crônica de amor do João

1776594109-ensaio-traz-casais-gays-dos-anos-80-3348304035-323x479João, um prenome muito comum na língua portuguesa, desde cedo sabia que era homossexual. Ele define o mundo gay como um estereótipo do corpo malhado e rostos jovens. Na contra mão da preferência da maioria, João gosta de homem maduro, barriga saliente e se for calvo e tiver bigode, melhor ainda.

Ele sabe que o seu gosto vai além do fetiche, pois quando vê um homem maduro o seu cérebro reage de tal forma que o carinho e o afeto tornam-se necessidades vitais.

Naquele ano de 2007, ele conheceu um coroa, branco, alto, barrigudo e calvo, típico descendente germânico. Foi paixão avassaladora; sim, paixão da braba, aquele que te pega pelo dedão do pé na hora que você vai dormir.

O coroa era casado há mais de 40 anos e vivia com a mulher, filhos, netos… Naquela louca paixão João largou o emprego e fugiu para a cidade do seu homem. Houve reciproca, e como! O coroa em pouco tempo deixou o casamento e foi morar com ele. Na verdade, ele apenas ratificou sua separação. Já não existia casamento há anos.

Bem, em pouco tempo João descobriu que a paixão era amor, pois aguentou muitas situações ruins decorrentes do rompimento do matrimonio do amante e mesmo assim teve forças para continuar.

Por capricho dos Deuses ele foi aceito em um mestrado na Espanha e de mala e cuia mudou-se para lá. No aeroporto a despedida foi traumática, o coração do João se partiu em dois, um lado, a ilusão do cara pobre que conseguiu sair do país para estudar, e do outro, uma tristeza sem fim, mesclada com desespero, choro e raiva.

Mas ele não desistiu.  Quando chegou à Espanha, começou a buscar formas para que coroa pudesse ir. Não foi fácil, afinal para um homem, com mais de 60 anos, uma mudança de vida tão drástica seria difícil. Mas eles superaram; João arrumou um curso de castelhano, cultura espanhola e em janeiro de 2010, o coroa embarcou para a Europa.

No aeroporto do outro lado do Atlântico, João teve vontade de levar seu homem ao banheiro dos deficientes físicos, porque o movimento de pessoas, ali era menor, mas foi no saguão mesmo, ele deu um longo abraço e juntos seguiram para casa.

Assim, contando nos dedos, eles estão juntos há quase quatro anos. A diferença de idade às vezes pesa um pouco, mas ele sabe que já aprendeu a lidar com isso, por outro lado, seus amigos que sentem tesão por coroas não conseguem manter a relação por mais de uma semana.

No cotidiano o João ainda tem surtos de adolescente, mas a convivência com um homem de sessenta e poucos anos, mesmo que ranzinza e enjoado, ajuda no amadurecimento pessoal.

Eles fazem sexo, nem tanto quanto no início. A amizade permeia o relacionamento e fazem praticamente tudo juntos. Ainda não enjoaram da cara um do outro, tem tudo para dar certo, mesmo num pais estrangeiro neste início de inverno europeu, em dezembro 2011.

Essa história real estava engavetada há três anos e nesta semana algo me dizia que eu devia publicá-la. Pois bem, ai está! Então me pergunto: Como será que anda a vida do João? Será que ainda está na Espanha? E o mestrado? O parceiro? O romance? A vida?

Mande notícias João!

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