Arquivos do Blog

O romantismo gay

raphael_perezSer romântico pressupõe uma qualidade que nem todos os seres humanos possuem porque o romantismo está vinculado às emoções. É uma característica que aflora ao longo da vida, nas relações pessoais e nos seres que se apaixonam por outro.

Atualmente no meio gay esta é uma característica que está um pouco adormecida, mas não esquecida, talvez por conta de todas as mudanças sociais das últimas décadas, ou porque é próprio do século que vivemos. Dizem até que ser romântico é brega e está ultrapassado, será?

Eu, particularmente, acredito que não, pois ser romântico é pertencer à arte do sonho e fantasia, é ter fé, paixão, intuição, saudade.

Um leitor do blog me escreveu sobre as dificuldades em manter uma relação com um homem maduro e até acredita que nasceu na época errada. Diz que os homens são frios, mal educados e nada românticos.

Suas principais queixas são relativas à falta de interesse dos parceiros que querem apenas sexo e depois caem fora. Relatou a sua frustração com o mundo atual, tudo descartável, falta de respeito, cuidados, atenção e principalmente diálogo.

Recordo-me uma vez andando pela rua eu cruzei com um coroa bonitão, cabelos grisalhos, vestindo paletó e gravata. Ele olhou e veio na minha direção com galanteios e dizendo que eu era um tesão e queria transar comigo.

Eu apenas ouvi o que o homem dizia, ele até tentou ser romântico, com um convite para um jantar à luz de velas, um passeio ao luar e apenas nós dois juntinhos na sua casa na praia do Guarujá. Ao final daquela cantada me entregou um cartão e seguiu seu caminho. Nunca telefonei ou procurei o gostosão porque tudo o que ele me disse foi para impressionar, talvez ele fosse romântico e galanteador, mas queria sexo urgente. Ninguém é romântico no primeiro encontro

Foi-se o tempo das paqueras, das longas conversas onde se conhecia o parceiro, as intenções, as afinidades, tanto sexuais quanto pessoais. Não sou saudosista, mas até os últimos anos do século passado, as relações, inclusive heterossexuais eram mais românticas.

Outro caso ocorreu em 1977. Eu trabalhava numa empresa e todo dia passava no bar da esquina para tomar café. Eu sempre observava um senhor português que todo dia estava no balcão. Ele era o meu homem ideal e fiz de tudo para me aproximar.

Finalmente após três meses conversamos e rolou uma química. Dali para a sua casa levou mais dois meses e foi apenas para conversar e tomar uma cerveja. O sexo aconteceu no sétimo mês no seu apartamento na Ilha Porchat, litoral de São Paulo.

Naqueles meses nos encontramos diversas vezes, saíamos para passear nos finais de semana, íamos ao cinema, jantares em cantinas da cidade, inclusive, numa delas à luz de velas por conta de um blecaute em São Paulo. Ele era romântico, carinhoso e tinha todo o cuidado comigo.

Naquele período nos conhecemos bem, cada qual com seus desejos, frustrações, medos e sonhos. Ele por ser mais velho tinha receio de ser usado e depois descartado, porque buscava o amor romântico. Foi uma relação legal e nos tornamos amigos.

Enfim, fui servir o exército e mantivemos nosso relacionamento por um ano.  Uma vez por mês ele ia ao quartel me levar cigarros, até que por circunstâncias da vida cada qual seguiu seu caminho e sem mágoas.

Se você é do tipo romântico não mude sua maneira de ser, mas controle o tesão, conheça o parceiro, análise, veja as variáveis, porque cada ser humano é único, com mil defeitos e muitas virtudes. Também, seja quem você é e não o que os outros esperam de você.

Mesmo sendo romântico não dá para sair por ai se entregando ao primeiro que aparece. Essa coisa de se apaixonar no primeiro encontro é coisa de adolescente. Os gays têm tantas carências afetivas que ficam fragilizados, tanto na juventude quanto na velhice.

Não porque o homem é um deus grego que você vai se humilhar e rastejar aos seus pés. Em geral os gays se deixam levar por falsas promessas. O corpo e a aparência prevalecem e a razão fica em segundo plano. Mesmo os românticos devem equilibrar a racionalidade com as emoções.

É preciso identificar quando alguém quer apenas sexo, pois ninguém consegue mentir sem cair em contradições. Há gays que mesmo buscando apenas o sexo, são românticos, porque romantismo não é sinônimo de relação estável. O romantismo acontece principalmente quando há envolvimento emocional entre os parceiros. Aos apaixonados ficam as lições de vida!

Não podemos esquecer dos gays que são excelentes atores na arte de dissimular uma paixão, aí não tem jeito, você vai cair no conto do príncipe encantado.

Observe ao seu redor e perceberá a falta de diálogo entre as pessoas, todos querem resultados imediatos, inclusive para relações mais estáveis. As pessoas não mudaram o que mudou foram os costumes, porque o individualismo é marca registrada deste século, logo os interesses não são comuns e sim pessoais.

Vivemos no século da comunicação, tudo online e ainda assim há problemas de diálogo e há carência de afetos. Isso não quer dizer que não existem relações românticas, porque os românticos estão perdidos na multidão.

Romantismo pressupõe compartilhar momentos e ninguém consegue ser romântico para si mesmo, mas idealiza encontrar um homem para praticar o romantismo e viver uma história de amor.

Identifica-se os românticos  nas relações estáveis e duradouras, por questões óbvias. Quem ama sabe ou aprende a ser romântico com a pessoa amada.

Se você está apaixonado ou ama outro homem e é correspondido, você é um privilegiado!

Mais um leitor escreveu: sou simpático, romântico, sincero, amigo e carinhoso, mas ninguém quer um gay extraterrestre.

Eu disse a esse leitor que esse discurso é padrão no meio gay, principalmente, aos que gostam de homens mais velhos e aos que estão com autoestima baixa e até parece anúncio classificado pessoal comum na Internet.

Outro leitor me escreveu: Regis é tão confuso ser gay! Imagine ser gay romântico?

Eu respondi: que nada! Ser gay é natural e ser romântico demonstra que você não faz parte da maioria deles.

Ser romântico é uma arte! Eu me considero romântico e não espero reciprocidade do meu companheiro, porque nem todos são iguais e e lá se vão quase oito anos de relacionamento.

O gueto como referência aos gays

gueto_gay_no_mundoCaro leitor dos Grisalhos, há quinze anos nós vivemos no século XXI e parece que nada mudou.

O subconsciente coletivo dos homossexuais do nosso século ainda guarda resquícios e memórias do século passado onde os gays foram confinados em guetos.

Em geral, os gays reclamam que os coroas querem apenas sexo e que buscam apenas os jovens bonitos e de corpos sarados. Isso acontece porque os gays buscam homens para relacionamento nos guetos, principalmente, os mais jovens que estão aprendendo a socializar.

Quem gosta de coroas e quer mais do que uma relação sexual não vai encontra-los nos guetos e se encontrar, eles estão lá para buscar parceiros para sexo, logo a beleza física e os dotes são essenciais e quem não possui essas características está fora do mercado.

Ao longo das últimas três décadas o gueto ampliou suas fronteiras, além dos bares, boates, saunas e cinemas, ele invadiu as praias brasileiras e principalmente a Internet.

Quem busca relacionamentos via Internet, invariavelmente, vai encontrar apenas o mercado do sexo, seja em sites de relacionamento, salas de bate papo ou redes sociais.

Aqui no blog, todo dia eu deleto dezenas de comentários de leitores que fazem seus anúncios pessoais, com e-mail, telefone de contato, descrições físicas e preferências sexuais. O chamado: anúncio classificado. Porque isso acontece? Porque nas buscas do Google quando se digita gay maduro ou idoso, o blog dos grisalhos é referência nacional.

Breve viveremos mais um verão brasileiro e as praias estarão lotadas de pessoas e lá estarão os gays fervendo nos quiosques e points de badalação. Quem busca gay maduro ou idoso nas praias poderá até encontrar um parceiro para um relacionamento, mas sempre prevalecerá o mercado do sexo. Pense comigo: Os gays nas praias querem olhar homens bonitos de corpos perfeitos. Se você não tem essas características está fora. Pode até rolar um sexo eventual, mas você será descartado.

Os gays residentes em cidades do interior de qualquer parte do Brasil sempre viajam para os grandes centros urbanos em busca de liberdade e da possibilidade de um encontro homossexual, ou não?

Quem curte homem maduro vai às quintas-feiras ao ABC Bailão em São Paulo ou ao La Cueva no Rio de Janeiro, para que?

A maioria dos gays frequentadores de Parada Gay ou carnaval da sua cidade quer o que? Expressar sua homossexualidade, seus afetos e paquerar.

Os poucos e imundos cinemas de pegação dos centros velhos das capitais ainda resistem ao tempo, por quê?

Pegação é sinônimo de sexo e as saunas, parques e banheiros públicos ainda são referência quando o assunto é sexo homossexual.

Fora do gueto a coisa é muita estranha, porque os gays maduros e idosos estão inseridos em todos os espaços e a probabilidade de encontra-los é pequena, a maioria está em relacionamento estável, não é assumido, tem hábitos próprios da idade e vivem no armário, logo, é figurinha difícil de encontrar.

Leia o meu artigo: Porque os gays maduros são assim? ou este outro: Por onde andam os gays maduros e idosos?

A seguir um trecho de uma resposta do João Silvério Trevisan, de uma entrevista para a Revista Cult em 2010:

Eu frequento o gueto, tenho receio de que leve a uma demarcação de territórios – mas sei que ele é necessário. Se eu for com meu namorado ao gueto, posso beijá-lo; mas se eu fizer isso em uma boate hetero ou em um restaurante, o segurança vai me botar para fora ou eu vou ser repreendido pelo garçom – tanto que as pessoas estão forçando a barra para expressar seus afetos em público, apoiando-se nas leis anti-homofóbicas que existem.

Fora do gueto, você corre riscos, pois o campo da sexualidade é muito propício para a eclosão de demônios e existe uma enorme quantidade de pessoas doentes por homofobia. A existência do gueto, portanto, é um mal menor. A ideia é que o gueto se amplie a tal ponto que as suas fronteiras desapareçam.

Um ótimo fim de semana e feriado a todos!

%d blogueiros gostam disto: