Publicado em Comportamento, cotidiano, Diversão

A primavera dos gays

raphael-perez-flower
obra de Raphael Perez pintor homoerótico

Setembro chegou e com ele muito calor, baixa umidade e falta de chuvas. Há algumas semanas eu observo as flores desabrochando lá na chácara e mesmo com o tempo seco elas insistem em cumprir o seu ciclo.

Amanhã às 17h02 começa oficialmente a primavera aqui nos trópicos e já percebo as movimentações de gays circulando pela cidade, correndo de um lado a outro, de mãos dadas, curtindo e buscando diversão, interagindo socialmente com seus iguais.

Como observador do cotidiano, não vejo as pessoas falando da mais linda estação do ano, parece piegas, coisa juvenil, mas o esquecimento é natural num mundo de tecnologias onde o mais importante é estar sempre no topo, sair bem na foto e poucos percebem a influência desta estação na vida de cada um e nas mudanças comportamentais.

Sim, nosso comportamento muda com as estações e na primavera ficamos mais soltos e abertos ao diálogo. Se para os jovens a estação não tem tanta importância, para os mais velhos é o momento de rever velhos conceitos e recomeçar novo ciclo.

Um amigo diz: Os idosos são como ursos que hibernam no inverno para sair da toca na primavera.

Mesmo fadados à solidão os gays tem mais é que aproveitar o presente, porque o futuro é incerto e a única certeza é o dia de hoje. Os alarmistas já previram o fim do mundo para o próximo sábado, portanto, não deixe para amanhã o que pode ser feito agora. Crie coragem para entrar nos círculos sociais e deixe de lado o preconceito da sua homossexualidade.

Nas grandes cidades os parques já recebem multidões de pessoas que procuram lazer e descontração. Basta observar com atenção e lá estão os gays, principalmente os maduros e idosos com passos lentos e caminhadas compassadas. Entre um olhar e outro há muita desconfiança e ainda assim os encontros acontecem de forma natural.

Hoje é tempo de engavetar as roupas do inverno e desengavetar as roupas leves, marcar encontros para socializar e quem sabe rolar algo além da amizade. Os bares já apresentam os primeiros sinais de que tempos quentes e chuvosos virão e lá perto de casa os botecos ficarão apinhados de gays, alguns são figurinhas carimbadas marcando presença quase diária.

Se você acredita numa vida além do sábado, comece a planejar a próxima viagem, preferencialmente, bem acompanhado, porque os dias prometem muitas emoções. Não deixe passar oportunidades pois os ciclos da vida são curtos, assim como as estações do ano.

Se você está numa relação estável aproveite e saia de casa, saia da rotina, das notícias ruins sobre a política brasileira e leve o parceiro para uma sessão de cinema, um passeio no parque, um jantar, uma bebida e até mesmo uma boate e se a ocasião permitir leve flores.

Se você está solteiro vá para locais onde possa ser visto, observado e paquerado, sem desgrudar do Smartphone é claro! Pode incluir no roteiro saídas às escondidas para saunas e locais de pegação porque não? Tudo é permitido e danem-se os preconceituosos.

Aproveite bastante a sua vida nesta primavera porque quando você perceber acabou, is over, c’est fini.

Anúncios
Publicado em cotidiano, Sexualidade

Pequenas atitudes podem nos surpreender

deficiente_visualOi Regis! Lembra de mim, a bicha cega e confusa que pediu conselhos a você há alguns meses? Pois bem. Agora eu me converti a uma igreja evangélica e sou um ex-gay! brincadeira. Minha vida mudou muito desde a última vez em que conversamos. Vou contar por partes.

Após muita relutância, resolvi entrar em um grupo de deficientes gays no Facebook. Por meio dele, entrei em outro grupo, desta vez no whatsapp, de deficientes gays e devotees (pessoas que não são deficientes, mas se interessam por quem tem deficiência).

Sem querer me gabar, nunca pensei que eu fosse tão gostoso, visualmente falando! Kkkk. Toda hora eu recebia uma cantada de deficientes e não deficientes do tipo: “Nossa como você é lindo. Oi te achei isso e aquilo! Vamos conversar?”

Finalmente, após anos de sentimentos de inferioridade ou de inadequação eu estava me encontrando. Embora nenhum more perto de mim, consegui despertar um interesse maior em alguns homens: um cara do Rio de Janeiro, sem deficiência, o qual já me considera como namorado apesar da distância, um de São Paulo, que é cadeirante, e outro da Paraíba, também cadeirante! Todos os 3 coroas suuuuuuper gostosos, a julgar pelas vozes! Vale ressaltar que o cara do Rio que não tem deficiência não está no grupo do whatsapp. Esse eu conheci no grupo do Facebook.

Além disso, após tantas cantadas, minha auto-estima e coragem aumentaram tanto, que resolvi cantar um cara cego que tenho no face, mas que não estava em nenhum dos grupos citados. Eu sequer sabia se ele curtia homens ou não, e por sorte ele curtia! Tá doidinho pra me comer. E eu doida, louca, desnorteada pra dar pra ele! Kkkkk.

Ele tá tão animadinho que disse que vem à minha cidade a hora que eu quiser. Basta combinarmos!

Não preciso nem falar que qualquer sentimento de auto-rejeição que eu tinha acabou né? Sem brincadeira. De fevereiro pra cá, devo ter recebido umas 20 cantadas do Brasil inteiro! Costumo brincar que, se continuar assim, daqui a pouco viro patrimônio nacional!

O mais interessante é que eu devo ter cara de moça de família, porque a maioria dos caras que me canta quer coisa séria! Já discuti até adoção com alguns deles! Ah, se eles soubessem! E pensar que eu não queria absolutamente nada no ambiente virtual… “que bicha burra eu fui!” Bom, antes tarde do que nunca!

Você deve estar se perguntando: “””mas… E na vida real? Não aconteceu nada?” Aconteceu! Calma calma. Não dei ainda, mas fiz algo que com certeza vai me ajudar no encontro por sexo real.

No último e-mail, me abri com você sobre a dificuldade que eu tinha em andar sozinho, meus medos e inseguranças! Desde semana passada tenho ido sozinho para o trabalho e tem sido a melhor experiência da minha vida até então.

Para você ter uma ideia da sensação, se imagine saindo do armário com o apoio quase total da sociedade! Imaginou? A sensação de independência que andar sozinho me proporcionou chega a ser melhor!

O mais interessante é que eu fiquei seguro em várias áreas da minha vida, inclusive na amorosa, após tal feito! Não sei explicar… É bom demais para ser explicado em um e-mail.

Por enquanto é só isso. A propósito, parabéns pelo blog! Quanto mais eu leio, mais eu gosto!

P.s: espero que você não considere homofóbicos os termos que uso para referir-se a mim, tais como “bicha cega” e similares. Faço isso porque achei legal a junção das palavras.

É uma forma de chocar pessoas duplamente. Como sou bem resolvido com minha deficiência e minha homossexualidade, não me importo em me chamar de cego, de bicha ou de bicha cega! Quem me vê nem imagina. Por fora, um ser tímido, discreto e com carinha de anjo ingênuo e inocente. Por dentro, uma diaba prestes a explodir de prazer por aí!

Publicado em cotidiano, Qualidade de Vida, Saúde

Nostalgias e Melancolias dos gays

gay_idoso_em_crise2Carlos Heitor Cony escreveu: Nostalgia é saudade do que vivi, melancolia é saudade do que não vivi.

Com o passar do tempo temos propensão de lembrarmos-nos do passado com nostalgia, dos bons momentos vividos, de coisas, situações e pessoas, mas também dos maus momentos ou momentos não vividos da forma como gostaríamos de vivê-los.

E porque isso acontece? Vou tentar explicar

A nostalgia é a sensação de saudade e a melancolia é um estado de grande tristeza e muitas vezes associada à depressão.

As lembranças que temos do passado, sejam elas boas ou ruins, invariavelmente, são de caráter emocional, pois a noção de identidade pessoal pressupõe a relação entre experiência e memória. Subentende, ainda, o estabelecimento de vínculos, sejam eles ligados à natureza, de caráter étnico, religiosos, de classe ou afetivo.

Para os gays esses vínculos, balizam, bem ou mal, a inserção na sociedade.  Por isso temos a noção de quem somos e como é o mundo, porque independente da nossa sexualidade sentimos a necessidade de nos inserir numa ordem sociopolítica, cultural e cognitiva, em uma ordem de valores, que possam nortear nossa visão de mundo e nossa relação com os outros.

Quando eu era jovem sentia a necessidade de inserção social, mas sempre vinha à minha cabeça: o que pode acontecer se descobrirem que sou gay? Hoje a necessidade de inserção não é tão importante porque o meu círculo social já está consolidado.

Igual a mim, penso que os gays acabam restringindo a inserção social por medo do confronto, ai passa-se a viver num mundo com limitações e isso também vai limitar a interação social.

Isso é fato, mas somos capazes de adaptações porque nossa vida não é apenas sexo e no decorrer da vida vamos interagir com o mundo, mesmo sendo ele predominantemente heterossexual.

crazy loucos de amor 2A nostalgia e a melancolia não ocorrem apenas na velhice, elas ocorrem em qualquer momento da nossa vida.

Podemos ter saudade de colegas, amigos e amantes, mas também sentimos saudade dos nossos familiares e de coisas que fazíamos noutros tempos que nos davam prazer e felicidade.

Eu por exemplo tenho nostalgia dos tempos da faculdade e não há uma razão específica para isso. É recorrente na minha vida. Talvez ocorra porque estudar me dava prazer e a homossexualidade nunca atrapalhou minha relação com professores e colegas de classe. Também não tenho saudades de ex-parceiros e olha que não foram poucos, pelo menos uns cinco relacionamentos mais estáveis. Hoje todos são falecidos e não me vem sentimentos nostálgicos. Já da família vez ou outra tenho nostalgia dos tempos vividos com a minha mãe.

Não é regra, mas os gays têm saudades da juventude porque eram belos, formosos e estavam sempre no centro das atenções. Eram cobiçados e disputados a tapas por amantes, ou porque os gays em sua maioria preferem os jovens – O hedonismo do mundo gay.

Às vezes nos frustramos, principalmente, nas relações humanas e com o tempo isso vai gerar tristeza e melancolia decorrentes das perdas ou de coisas que deixamos de fazer.

Sobre os gays mais velhos, um dos motivos da nostalgia é porque se tornam seletivos, a velhice em si traz a saudade e isso não significa dizer que a formação da identidade individual e coletiva dos gays se constitua de maneira imutável. O termo formação já carrega em si o sentido de algo em percurso, em vir a ser.

Essa noção de identidade e de história de vida pressupõe, ainda, uma relação efetiva e durável com o mundo exterior, o mundo dos seres e das coisas e ao nos tornarmos seletivos, nossas relações sociais são mais efêmeras porque vivemos numa sociedade que além de discriminar os homossexuais também discrimina o velho.

Portanto, eu digo: Viva intensamente toda a sua juventude, porque para envelhecer você tem toda a eternidade – isso é uma referência aos escritos do poeta persa Omar Khayyam.

Há gays maduros e idosos que tem espírito e mente jovem, abertos às transformações sociais e culturais e adaptam-se facilmente ao tempo presente. Isso é facilitador para inserção social e vai somar para sentimentos de nostalgia positiva.

Os seres humanos são frágeis e  nossa sexualidade contribui para mais fragilidade, logo, colecionamos uma dezena, talvez, centenas de situações ao longo da vida que nos trarão sentimentos de nostalgia ou melancolia. A balança vai pesar mais para o lado que você escolheu ou optou viver, ou não.

Você pode ter nostalgia dos momentos da juventude, das baladas, dos bares, das boates, viagens, mas principalmente de momentos vividos com outras pessoas.

A melancolia traz sensação de grande tristeza e é mais comum aos gays do que imaginamos porque se privam de viver a vida com plenitude devido a não aceitação da homossexualidade. Outro fator que acentua a melancolia são as perdas, principalmente, de parceiros queridos e amados por longos períodos ou anos.

A própria velhice e a finitude da vida traz momentos melancólicos.

Eu recomendo ao leitor fazer um exercício: Tente ficar um final de semana sem contato com outras pessoas, sem conversar com ninguém e completamente isolado e desligado do mundo exterior.

A primeira coisa que vem à mente são as situações vividas ontem, na semana passada e assim vai. Isso ocorre porque as coisas do mundo tem a função de estabilizar a nossa vida. Os seres humanos estão em contínua mutação, portanto estamos sempre renovando nossa relação com objetos, situações e pessoas.

Essa faculdade de as coisas do mundo terem o poder de estabilizar a vida humana, bem como, as relações entre os seres humanos, por mais conflituosas que venham a ser, é o que gera infindáveis modos de integração, percepção e enraizamento.

Implica, portanto, a criação de quadros de referências e de valores, com os quais toda e qualquer experiência humana entrará em contato, seja negando, transformando ou endossando-os como vetores para a estabilização, sempre relativa, às vezes contraditória e ambígua, da trajetória de vida dos seres humanos.

Hoje vivendo entre a maturidade e a velhice eu consigo perceber que o mundo comum está retirando-se para as sombras e posso perceber mais claramente o quanto necessito dele.

Por um longo tempo, essa necessidade foi esquecida pela satisfação que acompanhou a minha descoberta de uma vida interior plenamente desenvolvida, liberada ao menos dos olhares curiosos dos vizinhos, dos preconceitos do bairro, da desconfiança dos colegas de trabalho e da presença inquisitorial dos mais velhos, de tudo que fosse acanhado, asfixiante, insignificante e convencional.

Mas, agora, é possível ver que o colapso da minha vida comum empobreceu também a minha vida privada; libertou a minha imaginação dos constrangimentos externos, mas, ao mesmo tempo, expôs mais diretamente à tirania das compulsões e ansiedades internas.

Assim, nostalgia e melancolia estão ai esperando o momento de aflorar e vai depender exclusivamente de cada um permitir o que deve ou não fazer parte das suas emoções presentes. Hoje eu vivo momentos nostálgicos e se a melancolia bater à porta eu deixarei entrar sem arrependimentos ou traumas.

Caro leitor dos Grisalhos, desejo a você um ótimo feriado e aproveite esses dias para viver momentos felizes e prazerosos, pois esses momentos serão figurinhas do seu álbum de nostalgias no futuro.

Publicado em Comportamento, cotidiano

A problemática da comunicação entre gays

Estou sempre atento às situações que envolvem os gays – Outro dia conversando com um amigo ele relatou a dificuldade de encontrar outros gays para conversar.

Eu mesmo já tive esse problema de comunicação, principalmente, na juventude e os anos buscando pessoas que pudessem me ouvir foram na verdade anos de muito sexo, porque quando eu me aproximava de alguém para conversar, de imediato pensavam que eu queria transar – Nem sempre é assim, não é mesmo?

Vivemos no século da comunicação via Internet, redes sociais, smartphones e ainda assim somos carentes porque não temos a quem recorrer para falar da nossa homossexualidade. Poucos se arriscam a se abrir com familiares e a maioria se cala e se isola.

Os gays tem necessidade de falar sobre suas frustrações, dúvidas, anseios, desejos, gostos pessoais, problemas comportamentais no ambiente de trabalho, na faculdade e principalmente sobre os bloqueios emocionais. Dificilmente encontramos alguém que nos ouça sem interesses e nos fale coisas motivadoras e positivas.

E para quem gosta de homens maduros a situação é ainda mais crítica, porque envolve preconceitos, inclusive, no próprio meio gay.

Eu, particularmente, acredito que essa dificuldade ocorre porque relações de amizades são difíceis e gays, principalmente, jovens têm dificuldades na comunicação.  Quanto aos maduros e idosos a dificuldade de comunicação é decorrente de preconceitos já instalados, além dos medos de se abrir com estranhos. Talvez, eles se acostumaram no isolamento.

Outro fator é você gostar de homens maduros e não se relacionar bem com os jovens, logo, inconscientemente barreiras são criadas e os bloqueios são naturais. Se já é difícil encontrar um gay maduro para relacionamento, imagine a dificuldade de encontrar um maduro para amizade? Também, nem sempre os gays estão dispostos a manter relações de amizade para ser ouvinte.

Se você tem um companheiro a situação é mais fácil, porque no dia-a-dia conversa-se sobre tudo e ai colocamos nossas frustrações pra fora e o desabafo ajuda na autoestima.

Observando o que existe na Internet não encontrei um canal de comunicação que dê a oportunidade aos gays de desabafarem e relatarem seus problemas. É um círculo que não leva a lugar algum. Quem numa sala de bate papo ou no Facebook quer saber de ler ou ouvir problemas alheios? Até a comunidade do Yahoo Respostas está esvaziada.

Os profissionais de psicologia estão ai para ajudar, mas a maioria não quer contar seus problemas aos psicólogos. O percentual dos que procuram ajuda de profissionais é muito pequeno e nem todo gay tem condições financeiras de pagar as consultas.

Há que se considerar ainda, os fatores geográficos. Se já é difícil encontrar um ouvinte que mora no seu bairro ou na sua cidade, como encontrar esse amigo num Brasil continental?

Algumas saídas:

  • Buscar literatura específica sobre temática gay pode ajudar a esclarecer dúvidas;
  • Quebrar paradigmas e não criar barreiras de idade;
  • Não confundir preferência sexual com relacionamento social;
  • Jovens devem se relacionar com jovens, pois os problemas e dúvidas são comuns;
  • Maduros e idosos devem procurar se relacionar com os seus pares da mesma faixa de idade, por conta das experiências de vida;
  • Criar um círculo de amigos verdadeiros.

Ainda assim, é óbvia a carência de pessoas dispostas a ouvir, o que dificulta o aprendizado e o entendimento da homossexualidade. Isso gera um vazio que não tem fim e a sensação de abandono é total.

Aqueles que têm mais facilidade de comunicação nem sempre se dão bem, porque a homossexualidade não é inclusiva.

Conselho ninguém dá, então use a sua inteligência para interagir no mundo, para adquirir aprendizado e esclarecimentos. O mundo dos gays está repleto de indivíduos solitários, mudos, surdos, literalmente.

Outro dia eu li um artigo interessante publicado num blog americano e para finalizar este post transcrevo um trecho daquele texto:

8 coisas que os gays deveriam dizer mais frequentemente um ao outro:

  • Estou orgulhoso de quem você é;
  • Venha se juntar a nós;
  • O que você quer dar vida?
  • Como posso ser um amigo melhor?
  • Eu sou uma pessoa forte, mas estou sofrendo agora;
  • Eu tenho medo de falar sobre minha homossexualidade;
  • Você pode me dar seu telefone para conversarmos e sermos apenas amigos?
  • Qualquer coisa positiva ou encorajadora

Caro leitor dos Grisalhos, o que você acha? O que poderíamos dizer um ao outro, com mais frequência?

Publicado em Comportamento, Opinião

Reflexões sobre a solidão de um gay maduro

gay-olderFrequentemente este assunto vem à tona, por sugestão de leitores, troca de mensagens e a constatação de como isso interfere na vida de milhares de gays, desde os mais jovens até os maduros e idosos.

Desta vez traço uma panorâmica sobre o tema e as minhas experiências pessoais no decorrer da vida.

É importante distinguir solidão de solitário. Enquanto a primeira é um sentimento no qual uma pessoa sente profunda sensação de vazio e isolamento, a segunda trata-se de uma pessoa que vive ou gosta de estar só.

A solidão é o fantasma de qualquer gay, mas não é o fim do mundo, explico: Quando descobrimos a nossa homossexualidade, nós rompemos com o mundo, porque ninguém quer ser homossexual, ou quer? Podemos nos adaptar a ela, mas não nos aceitamos, por que não é o padrão normativo da sociedade. Pode até aceitar, mas isso leva muito tempo. É um aprendizado constante e tudo graças ao isolamento que gera o sentimento de solidão.

Os gays precisam entender e aceitar que sentir solidão ou vazio faz parte da vida desde os primeiros anos da adolescência até a morte – Descobrir-se gay é um divisor de águas, é onde tudo termina para um novo recomeço.

Não foi nada fácil quando eu descobri que gostava de homens e às duras penas fui aprendendo a driblar as circunstâncias do cotidiano, logo, ser solitário passou a ser comum e a solidão passou a ser companheira frequente.

No início foi meio estranho, pois eu estava acostumado às interações sociais. Ser homossexual cria uma barreira natural nessas interações e nos isolamos das pessoas, não porque gostamos de estar sozinhos, mas porque nossa diversidade sexual nos leva a mudar hábitos e costumes.

A minha primeira reação foi recolher-me, ficar calado. Passei a ficar trancado no quarto, para não ter de enfrentar a família, como se eles já soubessem do meu segredo.

Recordo-me dos anos difíceis da adolescência e à medida que eu me afastava da família a solidão se fazia presente em meus devaneios – O isolamento foi natural! Era como entrar num labirinto e não saber como sair.

Após o isolamento familiar ocorreu o isolamento social. Aos quinze anos eu deixei de frequentar a Igreja Metodista que eu tanto gostava de ir, porque comecei a ter desejos sexuais por um pastor muito gostoso daquela igreja – Só voltei naquele lugar para velar minha mãe que faleceu em 1986.

Outros isolamentos ocorreram no ambiente de trabalho, na turma de amigos da rua onde morava e dos colegas do colégio. Eu adorava música e junto com um amigo organizava bailes familiares nos finais de semana, mas por ser gay e com medo de sofrer constrangimentos, eu larguei tudo pra trás.

Quanto mais eu me isolava desses ambientes mais eu me aproximava dos guetos, dos bares gays, da pegação na noite paulistana, da busca por parceiros eventuais em banheiros públicos, cinemas, boates e inferninhos do centro da cidade – Eu não estava isolado, mas sentia a solidão ao quadrado!

Lá nos anos 70, todo final de semana eu saia de casa no bairro para ir ao centro da ferveção gay. Eu queria socializar com outros homossexuais sem ter que me esconder.

Nessas minhas aventuras eu conheci dezenas, talvez centenas de gays de todas as idades e todos eram iguais a mim, solitários e vazios.

Na fase adulta mudei meu way of life, eu foquei na faculdade e na estabilidade profissional e passei a buscar relações estáveis para fugir do isolamento. Mesmo depois de longos anos de relacionamento com meu amante, eu havia casado definitivamente com ela, minha amada imortal, a solidão!

Aos quarenta e poucos anos, descobri que estar só não era apenas estar sozinho, era também estado de espírito, pois me adaptei numa vida singular, sem exageros, com qualidade de vida e de poucos amigos. Naquela fase o meu estado de espírito estava elevado e a solidão sumiu por uns tempos.

Na última década a solidão tornou-se ótima parceira e nesse tempo eu também aprendi a driblar o isolamento. Hoje eu vivo bem sem ela e quando ela volta, eu a recebo com beijos e abraços apertados. Não sei dizer por que, mas eu não sinto mais a sensação de vazio.

Dizem que a solidão se apega aos seres humanos fragilizados, mas não sei se isso é verdade. Ela se apega àqueles que são sonhadores e sensíveis, principalmente, os que buscam relações de afeto, para preencher as carências da infância e da juventude. Muitos gays chegam à fase adulta carentes de tudo: de atenção, de conversa, de afagos, de motivação e de sexo.

Especialistas associam solidão às pessoas ansiosas, principalmente quando precisam conviver em grupos e no caso dos gays é difícil lidar com convivência social heterossexual – Talvez seja por isso que a maioria consome bebidas alcoólicas e drogas.

Aos cinquenta e seis anos eu vivo bem com a solidão. Ela não é nenhum bicho papão, muito pelo contrário, é amiga e companheira que me faz ver a vida de outros ângulos. Aprendi a transformar situações de nervosismo em empolgação.

Hoje eu tenho tempo para leituras demoradas, planejamento de ações futuras, viagens e passeios. O meu companheiro não entende como eu consigo passar uma semana isolado na chácara, observando a natureza, cuidando das plantas, do pomar, da manutenção da casa e com o mínimo de interação social. Ai eu digo: Como eu posso sentir solidão se faço coisas prazerosas?

Pensando bem, se eu não vivesse bem com o isolamento, eu não teria tempo para escrever os artigos do blog.

Hoje não faço questão de ter mais pessoas em minhas relações, apenas o meu companheiro basta. O importante é qualidade, não quantidade, portanto, alguns poucos amigos são suficientes para preencher o tempo livre.

Não é o que ocorre com os casais gays, eles querem ter amigos, mais amigos e amigos dos amigos, para preencher todo o tempo. Compreendo porque os gays tem essa necessidade louca de preencher a vida com pessoas. É porque querem a qualquer custo afastar a solidão e eles não entendem que isso é cármico e estava escrito nas estrelas.

A maioria dos gays procura um parceiro fixo, mas vivem dos parceiros sem nomes, do sexo anônimo na sauna, da ilusão de uma relação com um homem casado que se sabe de antemão que não irá para frente. Fadados à solidão? Não, pois eu já fiz tudo isso.

Aos jovens gays: ou vocês procuram rever um pouco os seus valores ou o hedonismo solitário será o destino de suas vidas. Amargo? Não, diria que é realista e faço uma crítica muito sutil, sem ser chato ou politicamente correto, a respeito dos valores da comunidade gay – Alta valorização do corpo e individualismo exacerbado.

Publicado em Esportes, Opinião

Copa do Mundo: Memórias de um gay maduro

copa_2014_gayA partir de amanhã estarei de férias e não foi por acaso que escolhi este período. Eu quero ficar longe das manifestações, aglomeração, agitação, transito caótico, barulho e todas as inconveniências da Copa do Mundo na minha cidade, no meu país.

Eu até gosto de futebol, mas no conforto da minha casa. Outro dia um amigo me perguntou se eu tinha lembrança da minha primeira copa. Bem, eu nunca fui a uma Copa do Mundo e nem pretendo ir, mas aquela conversa me fez viajar no tempo e buscar no baú de memórias alguns fatos importantes que construíram a homossexualidade no curso da minha vida.

Eu Tenho vagas lembranças da Copa em 1970 no México e de lá para cá foram outras dez. Caramba! O tempo é realmente implacável!

No decorrer dessas copas, a minha homossexualidade  foi construída com muita determinação e luta. Além do envelhecimento natural, eu amadureci, a sociedade mudou e hoje me sinto tranquilo.

Na Copa de 1970, eu nem tinha ideia de quem eu era. As poucas memórias me remetem à rua onde morava. Na minha adolescência, era quase proibido ser homossexual. Então, a pessoa sabia que a outra era homossexual e já via com outros olhos, já achava que era um marginal. Eu acho que os vizinhos tinham mais medo de um homossexual do que de um bandido. Pra eles homossexualidade era uma doença que podia contagiar alguém da sua família.

Em 1978, na Copa da Argentina, eu assisti a final entre os anfitriões e a Holanda ao lado de um homem que me ensinou muita coisa sobre “ser gay”, ainda numa época de ditadura militar. O que marcou a minha vida naquele período foi a percepção de que, eu precisava não só de aventuras homossexuais, eu precisava enveredar por um amor homossexual.

Na Copa de 1986 no México eu ainda me sentia constrangido com a própria homossexualidade, o que gerou enfrentamento das muitas crises existenciais que apareceram na gestão da vida individual.

Quando o Brasil foi tetracampeão na Copa de 1994, eu já tinha travado as lutas contra mim mesmo, a fim de me situar num espaço social preconceituoso, que gerava sentimentos de vergonha, sensação de permissividade, sujeira e transgressão.

Em 2002, enquanto o Brasil buscava mais um título, eu partia para os Estados Unidos e Canadá na busca do entendimento das questões da homossexualidade fora do país. Naquela época eu já tinha a percepção de se poder viver um estilo de vida gay satisfatório adaptado às normas sociais.

Na última Copa em 2010, este blog já tinha mais de um ano de vida e eu escrevi sobre os gays maduros como torcedores de futebol – Leia aqui. Também, escrevi um artigo sobre Amenidades, mundo gay e futebol.

De lá para cá não toquei mais no assunto do esporte bretão (origem do futebol na Bretanha ou Inglaterra) e priorizei os temas culturais e sociais, além das experiências de outros gays. Como diz outro amigo: “na velhice tem que cuidar da saúde e ter algum dinheiro para ter uma vida digna”.

Enfim, eu chego a mais uma Copa do Mundo e desta vez no Brasil. Não vou nem entrar nas questões sociais, políticas e financeiras deste evento, mas eu posso dizer que a maturidade associada ao momento social me permite ser quem eu sou.

Eu sei que no trabalho falam de mim, dizem muitas coisas às escondidas, mas não estou nem ai. O meu lema é: Seja distinto, afaste-se de pessoas maldosas, e viva a vida sem neuras.

Durante a Copa, eu quero a vida tranquila das pequenas cidades do interior de Minas Gerais, depois uma passagem rápida por outras cidades do Mato Grosso e por fim, uma viagem de aventuras nas Serras Catarinenses. O meu companheiro detesta o frio, mas vai me acompanhar nessa aventura e não contra a sua vontade.

Se você gosta de futebol torça por sua seleção, mas priorize a sua vida e trate das questões da homossexualidade sem culpas ou medos, pois lá na frente, você ainda vai rir de tudo isso.

Aos leitores dos GRISALHOS uma ótima Copa do Mundo. Em Julho estarei de volta – Abraço, Regis

Publicado em Comportamento, Qualidade de Vida

Na contramão da onda gay

gay_contra_mao_idosoAmor, dor, alegria, contato, comunicação, solidão, atração, esperança, desespero, são temas universais, independente de raça, gênero, classe socioeconômica, cultura ou orientação sexual.

Esses temas também estão inseridos no universo gay e foi legal eu reencontrar um velho amigo que há muito tempo eu não via.

Neste final de semana eu encontrei o José Carlos, um gay de 60 anos e que sempre está de bem com a vida. Ele tem posições bem definidas sobre alguns temas inerentes à vida dos gays.

A nossa conversa inicial girou em torno do assunto sobre a solidão e ele foi objetivo sobre o seu ponto de vista.

Para o Zé Carlos essa coisa de gay idoso, solidão, velhice e tristeza é coisa para psicólogos, porque ele acredita que cada um vive a vida que quer e merece e sem depender dos outros. A velhice é cruel com todos, gays ou não.

Sobre o amor ele diz que tem pessoas que passam a vida inteira e nunca amam ou não são amadas. Então porque ficar na expectativa de encontrar o amor da sua vida? Deixe acontecer e se não acontecer, tudo bem. Ninguém precisa de um amor para que a vida seja melhor.

Ele diz que podemos ser felizes mesmo sem termos um companheiro fixo ou um amor. Muitas vezes amigos são mais importantes do que amantes e amores. O momento atual é propício às relações abertas, típico da era de Aquário.

Perguntei por que todo mundo quer uma relação estável. Para o Zé essa coisa de relação entre dois homens é complicada e é melhor viver sozinho do que dividir espaços com homens que muitas vezes se esforçam para não complicar e não fazem nada para tornar a relação uma coisa realmente prazerosa. Tem muito gay se achando o dono do outro e isso não soma, apenas subtrai.

Na falta de alguém para dividir a cama, se aparecer um bofe para uma transa casual, tudo bem, senão, tudo bem também. Na falta de sexo, às vezes a masturbação resolve a situação emergencial.

Perguntei porque os gays idealizam a situação de “morar juntos”. Isso é até chato, os gays são muito vulneráveis. Essa coisa de dividir o mesmo teto é tema para heterossexual ou monges enclausurados.

José Carlos afirmou que os gays precisam aprendem a viver por si e não depender dos outros, porque na hora do aperto, todos somem e você terá que se virar sozinho. Nada como ter liberdade para viver a sua vida do jeito que você quiser.

Ele também não acredita em casamento gay. De cada dez casamentos, talvez um tenha vida longa. Isso é ideia plantada pela mídia gay, das tevês e revistas. O pior é que todo mundo acredita que isso resolverá todos os problemas.

Sobre adoção de crianças por casais gays ele me responde com outra pergunta: Mas porque um gay quer adotar uma criança? Isso não é normal. Os gays devem entender que sentem atração por homens, portanto, filhos nem pensar. Essa é outra situação plantada pela mídia, novelas, etc.

Para ele o mais importante é ter uma vida plena, com saúde, pois ninguém escolhe ser homossexual e a sexualidade não pode ser termômetro para a sociedade medir o que você é capaz de fazer para si e para os outros.

Viver sozinho não faz bem para a saúde mental, mas os gays precisam aprender a conviver com a solidão, pois assim crescem como seres humanos. Se você passar pelos vendavais da solidão estará preparando para o que der e vier. É preciso equilibrar suas emoções para ter vida saudável.

Enfim, o papo foi longo e falamos sobre muitos temas e no final ele ainda lançou uma afirmação interessante:

Eu acho tão bom o momento presente. As pessoas estão vivendo suas individualidades de uma forma nunca vivenciadas e isso é ótimo, porque assim, ninguém enche o meu saco para saber se sou ou não gay, ou, porque estou sozinho e porque não tenho filhos. Eu fico na minha e vivo hoje muito melhor do que eu vivia há trinta anos.