Arquivo mensal: maio 2015

Homossexualidade: Pecados e Desejos

a-criacao-de-adao-michelangeloA Irlanda se tornou o primeiro pais do mundo a aprovar em um referendo o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Com todas as urnas apuradas na última sexta-feira, 22, o sim atingiu 62%.

Ai eu leio uma matéria no jornal, onde a igreja católica dá uma resposta sobre o tema e não me surpreende ler que o Vaticano considera esse referendo uma derrota para a humanidade.

Pior do que essa declaração, é a doutrina adotada pelo Papa, segundo a qual os atos homossexuais são considerados pecado, mas a homossexualidade, em si, não é.

Então quer dizer que eu posso amar outro homem, mas não posso transar com ele?

Atos homossexuais são as práticas sexuais e a homossexualidade é a atração física, estética ou emocional por outro ser do mesmo sexo ou gênero.

Nessa doutrina os padres estão em constante pecado, porque o prazer carnal está presente no seu cotidiano.

Eu fiz sexo com pelo menos uns três padres e todos queriam apenas sexo e nenhum deles se apaixonou por mim. Estranho não? Isso não quer dizer que padres não amem outros homens, mas os seus sentimentos são suprimidos por dogmas e doutrinas.

Caro leitor, imagine a cena:

Lá pelos idos dos anos 1980, eu tive uma transa com um idoso evangélico. Ele relutava em aceitar-se homossexual, mas na cama ele rebolava gostoso, enquanto eu gozava ele gemia de prazer e soltava gritos, pedido a Deus o perdão. Após o ato sexual saímos do motel, estacionei o carro num ponto de ônibus e nunca mais vi aquele homem.

Sobre a minha homossexualidade:

Eu não queria ser gay. Eu não escolhi ser gay. Mas a sociedade me julga, os amigos falam mal, os meus pais me rejeitaram e as religiões me mandam para o pior dos infernos. Nas religiões, a impossibilidade de salvação para os gays é outro pensamento que pesa. Por isso eu digo: Viva sem culpas, transe muito, apaixone-se, sofra de e por amores, e não se importe com o pecado da carne.

No decorrer da minha vida eu descobri que o desejo por outro homem era tão natural quanto o desejo por uma mulher. Isso me fez crescer como ser humano e a aceitar as práticas homossexuais com naturalidade.De tanto fazer sexo eu simplesmente descartei da minha vida a palavra pecado. Se é para viver em pecado que assim seja!

Hoje sou um homossexual que aos cinquenta e cinco anos não tem mais nada a perder. Tudo o que eu tinha que perder eu já perdi e outras perdas ainda virão, com ou sem pecado, principalmente, nas relações homossexuais. Eu quero amar, ser amado, fazer sexo, masturbar pensando naquele coroa gostosão do andar de baixo e dane-se a doutrina do Papa.

Considere a possibilidade de não existir mais nada após a morte, então de que adianta preservar-se do pecado? Não se culpe, a culpa é do cristianismo.

Oscar Wilde escreveu:

De acordo com os psicólogos, há momentos em que o desejo do pecado, ou do que os homens chamam de pecado, domina de tal modo a nossa natureza, que cada fibra do corpo e cada célula do cérebro parecem ser movidas por impulsos terríveis.

Em tais momentos, os homens e as mulheres perdem sua liberdade e seu arbítrio. Dirigem-se como autômatos para seu objetivo fatal. O direito de escolher lhes é recusado e sua consciência está morta, ou, se ainda vive, é somente para emprestar atrativos à rebelião e encanto a desobediência. Pois todos os pecados, como sempre nos recordam os teólogos, são pecados de desobediência!

Quando aquele espírito altaneiro, aquela estrela matutina do mal caiu dos céus, sua queda foi a de um rebelde.

O retrato de Dorian Gray

Um leitor do blog e católico praticante me disse que as suas culpas são tantas que ele nem comunga durante as missas, pois está em constante pecado. Por outro lado, ele vai diariamente à igreja por conta de um amor platônico por outro paroquiano.

Enfim, pecado e desejo andam lado a lado há séculos e a doutrina do Vaticano sobre práticas homossexuais e homossexualidade não me afeta. O que sei é que essa doutrina bate de frente com a realidade de padres, bispos e cardeais – Casa de ferreiro, espeto de pau.

Enquanto isso o mundo evolui para um melhor entendimento da diversidade sexual humana.

Leia este post: Quando o desejo se tornou pecado

Gay idoso: Solidão que nada

gay_idoso_olivioEu observo pelo retrovisor o tempo quando o homossexual e idoso era sinônimo de solidão e isolamento mesmo que textos jornalísticos e acadêmicos ressaltem essa estigmatização. Isso não quer dizer que não existem gays idosos solitários e isolados, mas ao longo das últimas décadas houve mudanças significativas na vida desse personagem estigmatizado e discriminado, inclusive, no meio gay.

Os meus argumentos são de uma visão bem específica: a classe média. Os gays de classes sociais mais baixas ou mesmo os transexuais idosos ainda vivem no túnel do tempo e isso os torna vulneráveis ao preconceito social, isolamento e invisibilidade.

A maioria dos gays sessentões da classe média e que vivem nos grandes centros urbanos  possuem bom nível de escolaridade, independência financeira, moram sozinhos em imóveis próprios e a maioria possui carro – Mesmo morando sozinhos eles não são solitários e mesmo sem estarem numa relação estável, eles tem amigos e companheiros.

Os vínculos de amizade entre iguais não é um fenômeno novo, isso já existia nos anos 1950 e 1960, mas a diferença é que hoje a socialização ocorre em todos os espaços urbanos e não apenas nos guetos.

Talvez este seja o principal motivo do porque é difícil encontrar um gay idoso para relacionamento estável. Eles não vivem mais nos guetos e ocupam os diversos espaços urbanos, saem com amigos, fazem almoços e jantares, vão ao cinema, aos cafés e até viajam juntos e o sexo acaba ficando em segundo plano.

Eu perguntei a um amigo como ele convive com a solidão e ele foi enfático: “O homossexual passa a viver sozinho a partir do momento que se descobre diferente, portanto, desde a adolescência a solidão faz parte da minha vida e não é na velhice que ela me assusta”.

Quem vive no mundo gay há mais de quarenta anos aprendeu tudo sobre a vida, ganhos e perdas, mais perdas do que ganhos, tanto materiais quanto emocionais, logo, estão acostumados com tantas idas e vindas que acabam assimilando as regras do jogo.

Os grisalhos gordinhos - Chubby DaddiesOs gays sessentões buscam a qualidade de vida como uma opção pessoal, mesmo limitados pelos padrões de convivência social e isso também é observado entre as lésbicas idosas. A qualidade de vida proporciona equilíbrio e envolve o bem-estar físico, mental, psicológico e emocional.

Os gays da melhor idade enxergam a saúde como o principal fator da qualidade de vida. Se ficar doente terá muitas limitações, portanto, eles vão regularmente ao médico para exames de rotina.

O Brasil ainda engatinha nas questões dos LGBT e as diferenças regionais são enormes e quase nada garante aos idosos a qualidade de vida para uma velhice digna e saber que várias pessoas idosas, gays, lésbicas, bissexuais e transexuais fizeram parte de uma geração de inovadores que mudaram leis no país e a forma como a sociedade os trata.

O grupo de homens gays que estão nos seus 60 anos gastaram muitos dos seus anos produtivos rodeados de pessoas que estavam morrendo de AIDS ou gastaram parte desse tempo escondendo a homossexualidade dos parentes e familiares. Eles perderam esses anos e querem uma velhice sem perdas, principalmente, de tempo.

Esses gays idosos têm medo de serem empurrados para dentro do armário, pois sempre foram independentes e não pensam em confinamento nos seus últimos anos de vida, porque ainda há muita intolerância na sociedade brasileira.

O envelhecimento é um processo natural da vida. Embora envelhecer só e sem filhos não é exclusividade da comunidade gay, aliás, é uma tendência mundial.

Eu percebo nesses gays idosos uma força interior que os impulsiona para a vida.

Como cantou Cazuza:

Viver é bom

Partida e chegada

Solidão, que nada…

Leia também:

Velhice gay: O ciclo da solidão

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