Velhice gay: Falsas percepções de identidade

velhice_gay_grisalhos_wordpressComo é que um homem gay maduro pode redefinir-se após anos de uma vida baseada numa falsa percepção de si mesmo?

Individualmente, cada um tem a sua história e trajetória de vida, mas quando pensamos no coletivo as histórias individuais são comuns.

Os gays são atores de si mesmos, por isso é que eles precisam saber com clareza de que modo estão atuando e sendo a cada instante. Com isso é possível desenvolver habilidades tornando-se os senhores criadores de suas realidades com maior consciência, deixando de ser autômato, ou seja, sem a percepção lúdica de si mesmo.

Eu acho importante cada um agir de modo consciente, pois na maturidade e na velhice os gays não são participantes ativos dentro de contextos familiares e sociais. A maioria já está aposentada e o contexto do trabalho foi excluído da sua vida.

Os gays na maturidade são apenas observadores do que ocorre no mundo e isso não os protege, pois jamais se perde o que somos na essência.

Os gays maduros e idosos sabem que não é fácil inserir-se em contextos familiares e sociais porque a homossexualidade sempre foi um divisor de águas das gerações anteriores a 1970.

Eu nasci em 1959 e hoje aos 54 anos, eu tenho a consciência e consigo notar que o individuo homossexual permanece incessantemente entrando e saindo de espaços fechados, todos configurados em meio a diversas leis e sistemas.

Se o gay não está dentro de um contexto familiar, está dentro de um contexto de trabalho ou em alguma outra situação sociocultural que o requisite num estado padronizado de manifestação que interage e modifica a sua biografia pessoal. Esse estado padronizado é o padrão heteronormativo.

É deste modo que eu observo o movimento que gera o aprisionamento do nosso ser essencial em uma trama que, ao atar, cega. 
O mais triste deste estado é que o cegar vale tanto para uma visão mais acurada sobre a realidade externa, como também para uma visão interior.

A crise, portanto, acontece quando o indivíduo homossexual passa a se dar conta de que não se entende nos vários sentimentos e sensações a que é acometido – Sente uma ruptura no sentido da vida.

gay_velhice_idoso

Clique para ampliar

Outra queixa comum daqueles que se percebem em estados mais depressivos é a falta de ação, mas mesmo neste estado de aparente não ação, exacerba-se mais uma amostra de um tipo de manifestação também sem controle.

Hoje existem as psicoterapias para gays que vivenciam processos que auxiliam o individuo a entrar em contato com os aspectos que os estruturaram e que, dentro deste processo, o gay maduro tem a oportunidade de se observar e de se transformar.

Isto gera a possibilidade de um reconhecimento perceptivo a respeito de nós mesmos e dos possíveis motivos que chegaram a nos distanciar de quem realmente somos.

Acontece que num processo gradativo, a nossa percepção pouco a pouco acaba sendo minada. Passamos a achar normal uma vida medíocre sem grande entendimento sobre nós mesmos. Achamos normal corrermos atrás de uma ganância desenfreada alimentada por uma competição atroz, sem contar o hedonismo reinante no meio gay.

Assim, envelhecemos e pouco a pouco perdemos a referência de quem somos e o pior é que passamos a achar que a baixa qualidade de prazer que temos na vida é normal.

Finalizo este artigo da mesma maneira que comecei, com perguntas para uma reflexão sobre a maturidade e velhice vividas no presente:

  1. Como é que um homem de meia idade pode sair do armário e começar a transição para viver como um homem gay?
  2. Quais são os desafios físicos e emocionais de homens gays maduros, alguns dos quais estão explorando sua atração pelo mesmo sexo pela primeira vez?
  3. Que preconceitos e desigualdades os gays têm de enfrentar quando chegam à maturidade ou velhice?

Nota:

O texto da segunda imagem do post é de Luís Antônio Groppo que é Pesquisador do CNPq, possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e professor do Mestrado em Educação do Centro Universitário Salesiano de São Paulo

Anúncios

Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 29/01/2014, em Comportamento, Sexualidade, Sociedade e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. É realmente difícil encarar essa nossa dura realidade.Viver e envelhecer é particularmente duro sim, para nós gays. Não estarmos inseridos num contexto familiar, com papel definido dentro do que está convencionado como normal, é bastante angustiante depois de uma certa idade e é incrível como a sociedade em que vivemos, seja aqui ou qualquer outro lugar do mundo, tem o poder de “cobrar” esse papel permanentemente.E o pior disso tudo é que NÃO adianta imaginar um “planeta gay”, só pra nós, porque somos todos frutos de uma união heterossexual! Socorro!!!

  2. Gostei demais deste texto, reportagem. Acho que retrata a pura realidades dos gatos de meia idade como eu. Ganharam mais um leitor deste site. Abraço

  1. Pingback: Gay idoso precisa sair do armário? | Grisalhos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: