Ensaio sobre a velhice dos gays

Setembro chegou e breve a primavera descortinará sua beleza através do colorido das flores na paisagem urbana ou rural.

Este texto estava há algum tempo engavetado, mas aí eu encontrei um antigo conhecido e o texto finalmente ficou pronto.

Envelhecer no Brasil é desagradável, se o sujeito é homossexual, é quase uma tragédia! Não só pelas doenças e enfermidades, mas pelo excessivo valor que se dá à beleza e à juventude.

Eu li alguns livros sobre a cultura do oriente que costuma reverenciar os mais velhos e os veem como possuidores de beleza única. Quando olho para a sociedade brasileira vejo que o fato de envelhecer é algo detestável e repulsivo. Aqui, especialmente, os gays idosos são subestimados, ignorados e desvalorizados.

Os homossexuais idosos estão fadados à solidão – Esta afirmativa é uma maneira de desencorajar os jovens gays a assumir sua orientação sexual, bem como, de evidenciar o que está implícito no processo de envelhecimento dos homossexuais.

Em 2011, eu conheci o André, um gay idoso que naquela época tinha sessenta e seis anos de idade. Interessei-me por sua história porque ela não era diferente de tantas outras histórias que ouvi ao longo da minha vida e que aqui ilustro este tema.

André se aposentou em 2000 e em 2005, aos sessenta anos apresentou problemas psicológicos decorrentes da solidão e depressão.

Ele queria encontrar um namorado para os anos de vida que lhe restavam, mas era enrustido e não conseguia materializar o seu desejo. Excelente profissional na área da educação, ele tinha crescido numa pequena cidade do interior de São Paulo, filho mais velho de uma família de quatro irmãos.

Como a maioria dos gays, ele se sentiu diferente quando criança: gostava da natureza e das artes, era mais sensível e emotivo que outros garotos, não se interessava por esportes e preferia a companhia de meninas.

O pai faleceu quando ele tinha dezessete anos e mesmo assim sua vida não mudou. Logo que completou a maioridade e livre do serviço militar decidiu sair de casa e mudar-se para a cidade grande.

André viveu sua infância e adolescência numa cultura rural e interiorana dos anos cinquenta e sessenta, ainda mais repressora e implacável do que nos dias atuais e mesmo vivendo na capital paulista, a sua vida não mudou.

Era tímido, reservado, solitário e quase sempre sem parceiros. Na faculdade foi induzido por amigos a manter relações sexuais com mulheres e numa dessas relações, encontrou uma mulher com algumas afinidades e ele se casou, mas não teve filhos.

Raras vezes André foi buscar prazer em cinemas pornô e saunas nem pensar. Ele, contudo, manteve seus poucos casos homossexuais fortuitos em segredo.

A vida passou rápida e André se separou da mulher em 1998, após se apaixonar por um homem mais jovem. Mas a relação homoafetiva durou apenas quatro anos. Passados oito anos a velhice bateu à sua porta e as doenças já estavam instaladas.

A situação vivida por André é mais comum do que se imagina. Muitos homossexuais passam a vida evitando ou mesmo censurando a atração pelo mesmo sexo e optando por um relacionamento heterossexual.

À medida que começa a haver uma abertura, a homossexualidade passa a ser tratada de uma forma menos discriminatória. O envelhecimento seria ainda mais favorável para esse “repensar” por se tratar de um momento em que as pessoas, independentemente da sexualidade, também têm a oportunidade de rever a vida.

O envelhecimento não é restrito aos homossexuais, envelhecer é uma condição de vida independentemente com quem você faz sexo. Eu não sigo o que é condição social, pelo contrário, sou completamente contestador de todas essas imposições e regras medíocres impostas pela sociedade. O André nunca foi assim e sofreu muito e o pior, disse-me que perdeu toda a sua juventude e maturidade.

Mas a realidade ainda é medonha, mesmo que as dificuldades no envelhecimento não sejam decorrentes da orientação sexual. Homossexuais masculinos e femininos têm medos e angustias quando o assunto é velhice.

Eu convivo com gays maduros e idosos e observo que o problema na velhice está em encontrar parceiros interessados neles – Muitas vezes eu me pergunto por que isso é tão recorrente entre os gays, principalmente, os idosos. A resposta é óbvia, pois não constituímos família e estamos e moramos invariavelmente, sozinhos. Temos tudo, e ao mesmo tempo não temos nada!

Mas os tempos mudaram e eu também observo o cuidado com a saúde e o corpo por parte dos homossexuais — o que é geralmente negligenciado por heterossexuais tem espaço reservado no dia a dia dos gays. Eles praticam mais esportes, buscam uma alimentação saudável e mais tempo para cuidar de si. Por outro lado, tem uma parcela de gays idosos que são dependentes de álcool, fumo e até drogas, como maconha e cocaína.

Isso somente vai mudar à medida que a homossexualidade for mais inserida ao contexto social geral. O gay idoso não é assexuado, tem desejo o tempo todo na vida.  As formas de envelhecer e os modelos de envelhecimento são diversos, atravessados por uma infinidade de marcas de diferenciação como gênero, classe social e raça.

Às vezes é problemático afirmar que as formas de envelhecimento homossexual sejam especialmente difíceis ou que esse envelhecimento se resuma a um único modelo, positivo ou negativo. Além do mais, nada garante que não existam envelhecimentos homossexuais semelhantes aos envelhecimentos heterossexuais.

Muito já se discutiu acerca das tendências de representações negativas quanto às formas de envelhecimento homossexual, partindo da ideia de indivíduos solitários, melancólicos, desvalorizados e indesejados, no caso dos homens, que tendem a ser chamados de “tias” ou “bichas-velhas”.

Essas representações são acionadas a partir de um imaginário da homossexualidade fragilizada e de uma supervalorização do contexto familiar.

As pesquisas mais contemporâneas procuram enfocar as formas criativas e positivas de se vivenciar o envelhecimento. Se você frequenta ambientes gays conhece a figura do tiozão, aquele homem a partir dos 45 anos, com bom poder aquisitivo e que se mantém com atributos sociais valorizados, incorporando a juventude como estilo de vida.

A questão de classe social tem relevância não apenas na aceitação social, mas também nas formas de vivenciar a homofobia em várias faixas etárias. Eu só percebi isso quando comecei a me estabelecer financeiramente e isso ocorreu somente após os quarenta anos.

A própria homofobia não é experimentada por todos os homossexuais da mesma forma. Alguns indivíduos tendem a se manter mais distanciados ou protegidos, o que não quer dizer que os homossexuais de elites econômicas não sofram nenhum tipo de discriminação.

Eu já escrevi sobre isso num artigo onde esses gays, talvez, não estejam tão expostos a certos tipos de violência, manifestações de intolerância corriqueiras contra gays que precisam circular a pé pelas ruas das cidades, dependendo de transporte coletivo – Se for idoso a intolerância é ainda maior.

Quanto aos homossexuais mais velhos, é possível afirmar que uma maior potencialidade de consumo auxilia a ampliar o campo de possibilidades sociais, tanto em termos de aceitação quanto de recepção pelos espaços de sociabilidade homoeróticos, comumente chamados de guetos.

A ideia de respeitabilidade e cidadania através do consumo acaba excluindo de maneira problemática uma parcela bastante expressiva de homossexuais. Quanto aos gays mais pobres, restaria qual cidadania e aceitação social?

Nas relações geracionais conflituosas, de um lado, há uma desvalorização acentuada de homens homossexuais mais velhos pelos mais jovens. O que, aliás, não parece ser tão expressivo em relação às mulheres lésbicas mais velhas.

Por outro lado, há um olhar bastante negativo voltado às gerações mais jovens de gays e lésbicas pelos gays mais velhos, com todo um conjunto de caracterizações morais desqualificadoras que a eles são relacionados, como: escandalosos, vulgares, promíscuos, garotos femininos e meninas masculinas.

Grande parte da crítica circunda a ideia de desrespeito à discrição, pois os gays idosos vem de gerações onde o segredo e discrição eram normas estabelecidas pela sociedade daquela época.

O contexto atual dos mais jovens esta marcado por um campo de possibilidades mais amplo para a vivência de afetos e sexualidades, fruto das grandes lutas históricas por maior visibilidade e direitos sociais dos movimentos LGBT.

Os jovens tendem a ter mais contextos e espaços sociais onde se sentem à vontade e seguros para expressar seus afetos de maneira pública, sem precisar respeitar as noções de discrição que eram parte expressiva de outros contextos restritos vivenciados pelos mais velhos.

Bem, voltando à história do André, durante as intermináveis horas no divã do analista, ele conheceu um rapaz que o tratava de maneira bastante especial. Eles começaram a namorar e seis meses depois, apesar da preocupação com a sua privacidade que lhe era tão cara, André convidou o seu amigo para morar com ele.

Foi uma surpresa encontrar o André em julho deste ano. Ele estava rejuvenescido, alegre e com sonhos a realizar.

Ele me disse que não se sentia mais deprimido ou solitário, pois encontrou a motivação para superar décadas de auto depreciação. Se fosse noutra época talvez a sua realidade fosse outra.

Infelizmente, nem todos os gays idosos tem a sorte do André, que hoje aos setenta anos, diz que ainda tem muita lenha para queimar.

Reflexões de um blogueiro gay

terceira_idadeHá alguns meses eu tenho dedicado parte do meu tempo num projeto diferente deste do blog, o que me faz espaçar as publicações porque o tempo é escasso.

Em quase setecentos artigos publicados já abordei de tudo um pouco e observo que ao longo de quase seis anos, os leitores ainda buscam temas como: saunas gays, pegação em cinemas, parques e banheiros públicos. Talvez a busca direcione ao blog pessoas que pensam que esses temas são classificados pessoais, o que não é fato, mas por outro lado, aqueles que chegam até aqui por intermédio desses artigos acabam descobrindo outros temas e isso é o que realmente importa.

Percebo que nesses seis anos eu também mudei e os temas sempre refletem aquilo que estou vivendo no momento e nos últimos meses eu tenho pensado muito sobre o meu envelhecimento e como transmitir isso aos leitores de uma forma direta.

Observo atentamente os comentários postados e me chama a atenção a solidão dos gays. A busca por um parceiro que possa compartilhar momentos a dois. Muitas vezes esses gays nem querem um parceiro para sexo, mas um ser humano que entenda seus anseios e desejos, que tenha afinidades, que possa conversar sobre a homossexualidade de uma forma direta e sem rodeios.

É aquele tipo de amigo que faz companhia nos finais de semana, ou para assistir um filme no cinema, ir ao teatro, viajar e até assistir uma partida de futebol num estádio qualquer. Eu escrevi sobre isso em 2010. leia aqui.

A solidão bate à nossa porta a qualquer momento, mas torna-se constante depois dos quarenta anos. Eu conheço amigos que tentam driblar a solidão, mas no fim do dia, você está invariavelmente, sozinho.

Para os que trabalham, chegar em casa após o expediente é um alívio e após o banho faz suas refeições sentado na pequena mesa da cozinha ou sala de jantar. A maioria come mesmo de prato na mão e em frente à televisão.

E assim, a noite chega, as horas avançam e o sono não vem. É distrair-se com alguma leitura ou ocupar-se com algum entretenimento popular exibido na tevê aberta, porque televisão por assinatura não está ao alcance de todos.

Para a geração saúde, nada melhor do que correr para a academia após o trabalho e para os mais jovens a noite ainda vai ser longa porque a faculdade ainda não foi concluída.

Outro dia eu fui cobrado por meu companheiro de não sair muito à noite durante a semana e me senti anestesiado e sem respostas.

Eu sempre pensei que solidão fosse “estado de espírito”, mas recentemente descobri que ela também é física e isso reflete no emocional. Quando vivemos uma rotina ela acaba sendo tediosa e ai é cada um com seus problemas, mas ainda assim, nós temos muitas coisas em comum.

Neste mundo da tecnologia e da informação os gays maduros e até os idosos estão conectados ao mundo virtual, seja para ler as notícias, usar os serviços bancários e eu não sou diferente, mas eu não acesso a Internet à noite e nem na chácara nos finais de semana, porque é preciso viver um pouco a realidade fora do mundo virtual.

Você já parou para pensar como anda a sua vida? Bem, a minha está assim numa rotina que me traz um vazio, talvez uma fase passageira, porque não me falta motivação, mas a idade avança e é preciso muito cuidado para não se perder no redemoinho do cotidiano.

Um amigo diz que 55 anos é uma idade perigosa, porque é quando nos sentimos mais sozinhos mesmo estando acompanhados de parentes ou amigos, será?

Caro leitor, a minha vida não é diferente da sua vida, na essência somos todos iguais, com os mesmos sonhos, anseios e desejos. Entre altos e baixos vamos levando a vida. Ah, não tenho do que reclamar!

Termino essas reflexões com algumas frases que encontrei na Internet.

  • Ser gay é muito bom, ou você duvida?
  • Ter um companheiro muitas vezes significa não ter liberdade
  • A aposentadoria te condiciona ao gueto
  • O gay da geração saúde não quer corpo saudável, quer o bofe malhado.
  • Ser ativo ou passivo? prefira gouinage
  • Facebook ou Instagram? O melhor é cara a cara
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