Um gay idoso sem fogo no rabo

gay_idoso_olivioEncontrei Olívio antes do Natal e num bate papo descontraído ele me contou a sua situação atual, aos setenta anos de idade.

Querido, estou sozinho e vou morrer sozinho. Quem quer um velho gay? Todos que eu encontro querem o meu dinheiro. Sexo é coisa do passado…E o vento levou.

A sexualidade já foi uma parte maior da minha vida. Quando eu era jovem meu desejo de transar era muito intenso. Eu pegava os caras na boate Homo Sapiens ou na Medieval e levava para a cama. Minha ultima ferveção foi na Corintho há mais de trinta anos.

Eu queria dar o rabo, mas muitos eram mais passivos do que eu. Um deles quando viu o tamanho da minha rola ficou babando de vontade, mas eu fiz “cu doce” e não cedi. Ele chorou de vontade de sentar na minha vara, ficou só na vontade.

Atualmente eu sinto desejo, mas não é mais como era.  Se eu ficar sem transar mais de uma semana, um mês ou dois, isso não vai ser o fim do mundo, porque eu tenho outras coisas que ocupam meu tempo.

Ai que vontade de dar o rabo. Só de pensar até faz cócegas. Tá prá mais de um ano que eu não sei o que é um cacete duro, aliás, como é uma rola mesmo?

Meu amiguinho, o sexo hoje está morno, meus amigos gays estão iguais também. Baixaram muito a bola. A velhice trouxe tranquilidade demais e eu pensava que seria fogo no rabo todos os dias, pois sempre tive um fogo, uma coisa incontrolável…Eu sou um gay idoso sem fogo no rabo. Põe isso lá no seu blog.

Hoje fiquei mais contido. Dei uma reduzida no tesão. Sexualmente eu fiquei mais transado. É uma coisa de você tomar as rédeas do seu prazer, é a sabedoria e a maturidade. Antigamente a minha sexualidade era mais hormônio mesmo, mais tesão.

Eu era uma “ejaculação precoce ambulante”. Tenho saudades do Raul, não o Seixas, mas o meu marido de dez anos que morreu em 2001. Hoje eu me controlo. Eu busco o prazer no outro. Eu troco prazeres, carícias… Sinto o meu corpo e o corpo do outro mais presente. Mas cadê o outro que não aparece? Será que sou tão passado assim? Hoje tenho a certeza do quanto o gay idoso é invisível.

Ainda bem que não sou careca, senão a coisa seria pior. Imagina um velho de 70 anos, magro, míope, enrugado como uma uva-passa, careca e de pinto mole. Quem vai querer?

Outro dia eu fui ao supermercado e lá eu vi um gatão de uns trinta anos, bonito mesmo. Até parecia o Rodrigo Santoro, mas o meu fogo apagou, porque quando puxei conversa o bofe era mais borboleta do que eu.

Amiguinho, você se lembra do Jarbas? Ele já tem 68 anos e tá parecendo a Lady Gaga, pois se veste como um garoto de 25 anos, a camisetinha justinha, a calça com a bunda aparecendo. Eu não me afino com ele porque procuro uma roupa que não me deixe parecer um tiozinho careta, mas não posso me vestir como ele. Eu sou da variante da masculinidade. Tem tanto bofe que gosta de homem másculo. Prá que fingir ser o que não é. Não sou Mona, sou gay e ponto final.

E como anda a sua saúde Olívio? Ai amiguinho nem te conto. Apareceu glaucoma, labirintite, pressão alta e uma lesão interna que vou ter que fazer biópsia. Tô morrendo de medo, não da biópsia, mas por não ter ninguém para ir comigo. Acho que vou pagar um michê para me acompanhar no hospital. Ninguém merece né, um michê acompanhante de um velho gay doente.

Caro leitor, o Olívio é um gay bem humorado e de conversa fácil que contagia qualquer um. Nesse último encontro tive a sensação de que ele não passa um bom momento e os problemas já apareceram e ele faz de conta que não é nada. Dos males o menor porque ontem quando retornei a São Paulo eu me lembrei de telefonar para ele e está tudo bem. Como ele diz: mais ou menos a gente vai levando a vida antes que ela me leve.

Sobre a biópsia ele faz drama, porque não precisa pagar um acompanhante. Tem o Jarbas, o Luiz, o André…

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Encontrei um gay na curva do rio

gay_interior_dunasEstou de férias no Rio Grande do Norte e no último sábado estive no município de Galinhos. Lá eu parei o carro num estacionamento e entrei num bar para comprar água mineral onde fui atendido por um rapaz efeminado, residente na região.

Quando saímos para pegar o barco que atravessa o canal e leva os turistas para as praias da península o meu companheiro perguntou o seu nome. No inicio ele relutou e ficou calado, mas meu companheiro insistiu e ele lhe disse que o seu nome era Camila.

Sim, Camila é o rapaz que atende os turistas naquele bar numa curva de rio.

Então eu pensei: como o mundo mudou, pois isso era impensável há poucos anos. Os gays de todos os lugares, mesmo que timidamente estão tomando consciência da sua sexualidade e assumindo sua identidade de gênero.

Camila foi uma grata surpresa no meu caminho e pensar que numa comunidade de pescadores com pouco mais de mil e quinhentos habitantes vive um gay que à primeira vista não é segregado pela sociedade local, bem como, por turistas e veranistas, já é um alento às possibilidades de liberdade dos cidadãos.

Não sei nada sobre Camila, mas fico imaginando a sua vida numa pacata comunidade de pescadores distante 180 quilômetros da capital, Natal. Quais os seus sonhos? Como é a sua vida? Será que é feliz?

Enfim, a vida continua…

Caro leitor, desejo a você um feliz 2013

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