Quando o amor vira amizade

O homem é por índole promíscuo enquanto entre as mulheres ocorre justamente o contrário— elas são em geral monógamas. Nesse aspecto, bravos para ela. Os homossexuais masculinos não são diferentes dos heterossexuais. Eles conquistam uma presa, se apaixonam, mas não deixam de ficar atentos aos machos que circulam à sua volta.E se tiverem oportunidade, dão o bote. Vamos ver as coisas como elas realmente são, sem disfarces. Naturalmente, toda regra tem muitas exceções. Existem gays monógamos que fixam numa única pessoa seu interesse sexual e desenvolvem com esse parceiro escolhido um “caso” que pode durar anos de mútuo prazer espiritual e carnal. Mas isso não é muito comum, convenhamos. O que ocorre nas grandes metrópoles, com suas múltiplas tentações eróticas, é que os relacionamentos homoafetivos durem meses, não anos.

Acontece que da convivência constante entre dois homens, que têm um relacionamento amoroso entre si, nasce, em geral, um forte sentimento de amizade entre eles. E a separação, quando o desejo sexual começa a desaparecer ou se extingue por completo, é sempre dolorosa. E esse é o grande drama dos relacionamentos gays – o desejo vai diminuindo aos poucos enquanto a amizade entre os parceiros tende a crescer. O que fazer, então? Nosso colaborador Paulo Azevedo Chaves dá seu depoimento pessoal sobre um relacionamento amoroso  que teve quando já estava com mais de 60 anos.

Na terceira idade, meu último relacionamento gay se prolongou durante pouco mais de um ano . Viviamos em casas separadas, mas Paulinho   me visitava umas três vezes por semana. Ele era bem jovem (28 anos) , pobre e desempregado e naturalmente rolava  um cachê quando a sessão sexual terminava. Com a convivência, o sexo se tornou cada vez mais uma rotina monótona e mecânica entre nós. E o recurso foi recorrer a estímulos, como assistir vídeos pornôs  durante a transa. Só desse modo pude manter o relacionamento com Paulinho e ter algum prazer sexual com ele. O problema foi que à medida que a amizade entre nós se solidificava, o interesse sexual mútuo diminuía. Ele era um negro forte,alegre, bonito e sua rola  era grande, grossa e bem torneada. Mas gradativamente a ereção já não era tão fácil e duradoura, como no início. Até que afinal, encontrei um motivo para nos separarmos quando ele se viciou em crack. Mas ainda hoje sinto saudades de meu jovem xará e isso é um sentimento mútuo, pois no dia do meu aniversário ele sempre telefona e diz, com voz embargada, que sente muito minha falta e gostaria de reencontrar-me. Mas eu sempre recuso, pois quero ficar o mais longe possível de viciados em crack. A vida é assim mesmo, com encontros prazerosos e separações sempre dolorosas”.

E você, leitor, acha como nosso amigo Paulo que os homossexuais masculinos são, por índole, polígamos e que os relacionamentos entre gays com o decorrer do tempo se transformam em amizade e cada um parte então para novas experiências com outros homens? Dê sua opinião. Este blog preza muito a opinião dos leitores.

Foto de Paulo Chaves com uma amiga, em dezembro passado, no jardim de sua casa, por ocasião do lançamento, ali, de seu livro de prosa e poesia Réquiem para Rodrigo N

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Tula, o Anjo gay caído

A juventude é a melhor fase da vida do ser humano e uma fase de muitas descobertas, inclusive, da sexualidade. Durante alguns anos desvendamos por curiosidade ou ingenuidade um novo mundo, assustador e desconhecido.

A ingenuidade juvenil é acompanhada por uma força estranha que  empurra o jovem para buscas de experimentações, é algo incontrolável, porque a curiosidade proporciona ao jovem gay  experimentações de relações sexuais. De certa forma, tudo isso ameniza a sensação de medo por descobrir-se diferente e cria-se uma falsa sensação de conforto, algo temporário e que aos poucos revela as verdades muitas vezes cruéis de ser homossexual. As descobertas das vulnerabilidades, da condenação social, da violência física e moral deixam traumas profundos e levam alguns jovens gays para um mundo paralelo –  O Mundo dos Espelhos.

Fato Verídico

José Fidélis era um adolescente que aos dezessete anos era “Tula”, uma bichinha residente na periferia de São Paulo, efeminado, afetado e completamente assimilado ao submundo da boca do lixo e dos guetos gay da cidade. Tula vivia os seus dias entre os desocupados, cafetões, marginais e drogados. Quando não estava batendo sapato ela descansava o seu corpo sobre o balcão de um boteco qualquer, sempre acompanhada de copos de cerveja ou cachaça.

O sexo barato era moeda de troca para os cigarros, pequenas porções de maconha e o vício das “bolinhas”, combustíveis necessários para suportar mais de dezesseis horas diárias de caça aos clientes e também para fugir da realidade cruel daquela vida.

Todos os dias desde muito cedo lá estava ela nas ruelas do gueto oferecendo o seu corpo para alguns poucos pederastas que usavam dos seus serviços e abusavam do seu corpo jovem e imberbe. Tula turbinava a cabeça para suportar a batalha diária e sempre gastava  alguns trocados na farmácia onde se abastecia de Optalidon, droga barata, uma bolinha cor-de-rosa e mágica quando ingerida com bebida alcoólica.

As transformações físicas e psicológicas ocorreram durante os dois anos de assimilação nos guetos gay, mas a degradação humana cobra o seu preço e quando não há esperanças de recuperar o rumo da vida é porque o gueto te consumiu. Tula teve várias passagens pela polícia, mas não ficava presa porque era menor de idade.

A vida do jovem José Fidélis findou ao raiar o dia de uma segunda-feira fria, quando o seu sangue escorreu na sarjeta do beco sujo e fétido.

Meses depois….

Por acaso, eu descobri que Tula morava num bairro próximo da minha casa e após algumas investidas curiosas eu soube mais do que eu imaginava.  Eu fiquei sabendo que o José Fidélis foi abusado sexualmente pelo padrasto. A sua homossexualidade já era evidente desde a infância e o homem cruel se aproveitou daquela condição e fez daquele jovem, um refém, o seu amante e a sua mulherzinha – Situações como aquela eram e são comuns na sociedade familiar brasileira.

Tula foi currada pelo padrasto entre os doze e quinze anos de idade e na primeira oportunidade ela cortou o bucho do velho com uma navalha, mas o infeliz não morreu e a vingança veio dois anos depois numa viela do gueto, pois o pedófilo conhecia os seus hábitos e os lugares por onde circulava.

O encontro

Eu conheci Tula numa saída do cine Ipiranga na região central da cidade. Naquela época eu tinha quinze anos e estava desempregado. Ela era louca para transar comigo, mas a minha preferência por homens mais velhos foi um obstáculo contra as suas investidas. Durante dois meses eu frequentei o gueto nas tardes de segunda a sexta-feira e à noite eu ia para o colégio.

O mundo dos espelhos

O mundo gay é semelhante ao mundo de espelhos, planos, côncavos e convexos. O gueto gay e o submundo do mercado do sexo circundam os horizontes longínquos.

São paisagens surreais que aprisionam os gays destinados às tragédias. Nesse mundo os homossexuais estão fadados a uma vida sem esperanças e raras são as vezes que algum deles consegue escapar.

Trinta e sete anos depois, eu ainda lembro daquela fase da minha vida e esteja eu onde estiver sempre vou me recordar da Tula como um anjo gay caído, um anjo que caiu do paraíso e foi sepultado para sempre no Mundo dos Espelhos.

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