Os gays no carnaval

carnaval2013Outro dia numa conversa informal entre amigos surgiu a pergunta: Porque os gays se libertam no carnaval?

Festa da carne originada na Grécia uns quinhentos anos antes de Cristo. Os gregos e romanos introduziram bebidas e práticas sexuais na festa tornando-a intolerável aos olhos da Igreja.

A mesma igreja católica que seiscentos anos depois adotou a festa como culto que bania os atos pecaminosos – Dá pra entender?

Ao longo de vários séculos a festa se disseminou na Europa e chegou ao Brasil sob a influência europeia. Tá, mas onde os gays entram  nesta história?

Os homossexuais descobriram no carnaval uma forma de viver a sua sexualidade reprimida e desde muito tempo saem nos carnavais para arrumar parceiros para sexo. Os mais endinheirados escondidos sob as máscaras nos bailes de salão e os mais pobres utilizando trajes femininos nas festas de ruas dos cordões e blocos carnavalescos.

Durante muito tempo, o carnaval brasileiro, com seu cortejo de homens travestidos de mulher, vendeu dentro e fora do país a imagem de uma convivência pacífica da sociedade com a homossexualidade e a bissexualidade o que não é fato porque após o carnaval tudo volta ao que era antes e fim.

Também por debaixo dos trajes à la Carmen Miranda, típico mito de exportação da alegria e descontração carnavalescas, sempre esteve escondido o preconceito – Quer saber mais leia o livro Além do Carnaval: a homossexualidade masculina no Brasil do século XX, de James Green.

carnaval2013_dragsPara você ter uma ideia de como a coisa evoluiu lá pelos anos 1970/1980 com o advento da Discoteca surgiu a imagem do entendido, com seus locais de encontro, bares e restaurantes, boates noturnas, saunas, cinemas de pegação, os bailes carnavalescos “Gala Gay” do Rio de Janeiro, a banda de Ipanema e a invasão das escolas de samba dirigidas por carnavalescos homossexuais, como Joãozinho Trinta.

As imagens da travesti ou transexual, assim como a dos transformistas, Drag Queens e das caricatas povoam as festividades carnavalescas em todo o Brasil.

Hoje a imagem gay está associada ao carnaval, no marketing para atrair turistas estrangeiros, na mídia para vender revistas e jornais, além de campanhas do governo na prevenção à AIDS – A cultura gay tomou de assalto todas as cidades brasileiras antes, durante e depois do carnaval.

Então porque os gays se libertam no carnaval? Porque o carnaval parece ser um momento de permissividade, momento de tornar visível para o outro o que se faz em dias normais longe de outros olhares.

No carnaval os gays de todas as idades saem não apenas para se divertir, mas principalmente, para caçar um parceiro. Locais com grande aglomeração de pessoas como nos carnavais de Recife, Olinda e Salvador são propícios para as esfregações e encoxadas. Os desfiles das escolas de samba no Rio de Janeiro e São Paulo atraem os gays não só nas arquibancadas, mas nos banheiros que fervilham de gays à procura de uma boa pica. Os bailes de  clubes e de salão ainda atraem os gays para a diversão e sexo, além é claro de todos os truques utilizados na paquera.

Então que venha o carnaval…

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Casais gays – Dinâmicas de relacionamento

dinamica_casais_gay_filhoO casal gay masculino é um dos exemplos do pluralismo de formas familiares emergentes nas sociedades contemporâneas. Em si é um conceito recente, mas que na prática sempre existiu.

Na juventude as minhas relações não foram estáveis e não duraram mais do que dois ou três meses. Eram loucas paixões, com muito fogo sexual e todas foram vividas na clandestinidade através de encontros fortuitos, a maioria noturnos, em saunas, hotéis e motéis à beira das estradas.

As dinâmicas de relacionamentos dos gays dependem dos protagonistas e da fase da vida dos envolvidos: jovem/jovem, jovem/maduro, jovem/idoso, maduro/maduro, maduro/idoso ou idoso/idoso.

Analisar uma relação gay corresponde a falar-se, antes de qualquer coisa da dinâmica do desenvolvimento do compromisso e dos laços afetivos entre os parceiros. Apesar de não ser uma forma institucionalizada de relacionamento, o casal homossexual masculino regulamenta a gestão da sua intimidade com base em valores sociais abrangentes, nomeadamente, amor, amizade, confiança e companheirismo.

A diferença estabelece-se quanto à importância da fidelidade sexual, decidindo os parceiros o que é mais adequado na sua relação, de forma que a satisfação e a estabilidade no relacionamento sejam asseguradas – Isso é inconsciente e acontece com a maioria dos gays.

Observe por exemplo o modelo da relação aberta. Parece ser legitimada pela visão e vivência masculina da sexualidade; o amor que se sente pelo parceiro não é impeditivo da procura de prazer sexual fora da relação, uma vez que exerce uma distinção entre desejo sexual e afetividade e, por conseguinte, entre fidelidade sexual e fidelidade emocional, esta sim, considerada como o elemento vital para a relação.

Para que o sexo extraconjugal não se converta num foco de instabilidade e insegurança, não é permitido ao parceiro que ganhe outro significado para além do prazer físico. Acordos são firmados para que o prazer físico não entre na esfera afetiva – tem casais que vivem assim, há décadas.

Quando se fala em afetividade, o ciúme é um sentimento sempre presente. Têm gays que não querem nem ouvir falar em relação aberta, porque a esfera afetiva prevalece sobre a esfera do prazer carnal. O sentimento de posse é um paradigma nas relações de casais homossexuais.

dinamica_casais_gayÉ interessante a aspiração à vida de casado pelos gays. Eu conheço alguns solteiros e observo que o sonho de encontrar um parceiro para uma vida a dois é constante e ocorre em qualquer fase da vida. Mesmo aqui no blog sempre me deparo com leitores buscando um companheiro para uma vida conjugal.

Na dinâmica dos casais gays, os envolvidos procuram parceiros com base no estabelecimento da afetividade e preferem-se em função de figuras de compatibilidade psicológica que culmina no estreitamento de laços de intimidade. A situação de vivência em casal é procurada como um suporte às carências afetivas e um meio de suprimir uma situação de solidão – Você pode discordar, mas essa é a minha opinião.

Às vezes eu penso que a relação parece ser idealizada pelos gays como um projeto de entrega emocional estável e duradoura sem que a condição de perenidade se constitua como um fator adquirido.

Neste tipo específico de casal a consciência sobre a instabilidade do sentimento amoroso e da falta de amarras institucionais é forte, fazendo com que o relacionamento seja pensado e vivido diariamente, sendo marcado pela satisfação que proporciona aos parceiros. Assim, o único projeto de vida em comum é o desfrutar da presença e da intimidade do companheiro.

Outro fator que observo nos gays que procuram parceiros é a questão de morar juntos. Sempre analiso essa situação com atenção, pois para alguns, isso tem um significado especial. Embora eu saiba que essa coisa de “morar juntos” vai ocorrer de uma forma natural na evolução da relação, o lance de morar juntos pode ser concretizado de duas formas diferentes – regime parcial e regime total – Deu pra entender? É isso ai, você morando na sua casa e semanalmente fica uns dias na casa dele ou você sai de casa e vai morar com o parceiro ou vice-versa.

Tudo isso deriva da articulação entre as necessidades do casal e as especificidades particulares de cada parceiro. Alguns gays gostariam de viver junto, mas devido às pressões familiares e sociais acabam vivendo um regime parcial de moradia – eu mesmo tive um companheiro que devido a não aceitação da homossexualidade e das pressões familiares jamais permitiu que eu dormisse se quer uma noite na casa dele. A nossa relação durou dois anos.

Essa situação de moradia parcial na casa do parceiro pode constituir-se como um elemento transitório em que são avaliadas as possibilidades do envolvimento material e emocional do casal, conduzindo a uma situação de moradia total. Aquela coisa da individualidade, a independência e a preservação do espaço pessoal contribuem para a manutenção do modelo que poderá ser mais ou menos aceito pelo casal e serve para os gays de todas as idades.

A gestão do relacionamento é algo complexo que articula, no mesmo plano, personalidades diferentes, maturidade, aceitação da condição homossexual, regras de convivência e as particularidades que cada um vai levar para a relação.

Viver juntos é um aprendizado diário, eu que o diga. Mesmo não morando sob o mesmo teto, eu e o meu companheiro moramos no mesmo prédio, portanto, estamos próximos e diariamente nos encontramos para conversar, beijar, jantar, ver TV. etc. – Ele vem ao meu apartamento todos os dias e eu vou ao apartamento dele todos os dias. Quando um quer fazer uma coisa diferente não vai ao apartamento do outro. Isso preserva a individualidade.

Numa relação e morando juntos não basta apenas gostar e ter afinidade sexual. Existe um modelo dos papeis de cada um. Cada parceiro desempenha papeis identificados com o padrão feminino ou masculino – É uma coisa meio andrógina, porque mesmo os gays masculinizados lavam louças e fazem os serviços domésticos.

Outro ponto que sempre gera discussão é o poder, quem manda mais? – Aqui não cabe o ativo/passivo ou o mais forte fisicamente. As bases do poder entre um casal apresentam elementos como: renda individual, educação, cultura, idade, etc. Aparentemente isso se constitui como uma variável catalisadora da igualdade e do direito de cada um dos parceiros.

Regra geral, os dois parceiros desenvolvem uma profissão ou carreira que lhes confere autonomia econômica e, por conseguinte, poder pessoal que proporciona uma maior igualdade relacional no casal. O cotidiano é organizado, em igual medida, em função das determinantes particulares da vida profissional dos parceiros, às quais é atribuído o mesmo grau de importância – características que se verificam usualmente em sujeitos pertencentes à classe média ou média alta escolarizada, grupo em que se enquadra a maioria dos gays que eu conheço. Geralmente, os gays de classe sociais mais baixas submetem-se ao poder do mais endinheirado – Aqui estou eu gerando polêmicas.

Morar junto não é um mar-de-rosas. A invasão do espaço pessoal é uma importante fonte de conflitos, na medida em que os parceiros não reagem bem à submissão da sua identidade e liberdade individual.

A idade, o rendimento e nível educacional são elementos que podem ser invocados como indutores de uma diferença de estatuto entre os gays presentes na relação. Esta diferença de estatuto pode legitimar o posicionamento do elemento mais velho como ‘chefe de casal’, sendo este o detentor da palavra final no que respeita as decisões a serem tomadas e executadas.

Também, sem diálogo e tolerância não tem relação que resista. As insatisfações pessoais sempre culminam em situações de conflito.

Embora possa existir uma referência por parte dos indivíduos que desejam viver uma relação homossexual à semelhança de gênero como um elemento que favorece a existência de cumplicidades e compreensão entre os parceiros, esta não é garantia de uma relação mais igualitária ou livre de tensões e conflitos. Os casais continuam a experimentar situações de atrito.

A maioria dos casais opta por manter as finanças em separado, gerindo cada um os seus rendimentos como melhor lhe convém. As despesas comuns são divididas entre os dois parceiros e os gastos pessoais são custeados pelo próprio, segundo o modo que entender. A inexistência de uma fusão de rendimentos constitui-se como uma estratégia de eliminar um potencial foco de conflito que a gestão conjunta do dinheiro e diferentes visões quanto aos padrões de consumo podem fomentar.

Nos conflitos o casal compreende o fato de não haver acordo e na sua impossibilidade a disputa é esquecida. Retomando um ou outro, o curso normal da relação. Outros casais optam dialogar sobre o problema chegando a uma situação de compromisso. A iniciativa para o diálogo é proveniente do parceiro que iniciou a briga ou pelo parceiro que usa a razão nos argumentos do outro.

Um fato comum entre os casais é o reconhecimento do parceiro como aberto à reconciliação quando o conflito acontece. Neste sentido, as situações de conflito não se convertem como fatores de rupturas brutais – são as briguinhas normais que todo casal tem.

As relações começam e terminam todos os dias; a dinâmica dos relacionamentos é complexa, A nossa vida é contada através do tempo, ele é o senhor que rege as relações. Você pode passar trinta anos com o seu companheiro e ainda assim, você não o conhecerá por completo.

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