O amor homossexual

As relações entre dois parceiros têm muitas variantes. O post de hoje é sobre a relação com AMOR e onde os gays maduros ou idosos entram nessa história.

Outro dia um colega de 50 anos de idade me disse que não está nem ai se encontrar ou não um parceiro para um relacionamento, porque sexo ele encontra e compra facilmente. No futuro com certeza esse cara estará, invariavelmente, sozinho.

Eu vejo isso toda vez que passeio pela Rua Vieira de Carvalho em São Paulo. Os gays idosos estão sozinhos e vivem falando da vida alheia. Gostam de falar dos outros e adoram jogar pragas sobre os casais que estão juntos há muito tempo. – será inveja? Porque estão sozinhos? Bem, estão sozinhos porque a velhice dos gays é assim mesmo, salvo raras exceções.

Também, ouço com frequência os gays reclamando que os mais velhos não querem nada sério a não ser sexo, outros não entendem as evasivas dos mais velhos para dispensar o parceiro após uma relação sexual.

Os próprios gays não acreditam no amor entre dois homens e, por isto, talvez desistido de protagonizá-lo. Trata-se de uma descrença resultante, certamente, da observação de situações alheias e, possivelmente, de decepções pessoais, cujo efeito é o da desesperança em relação a novos amores – o envelhecimento e a beleza física são outros motivos para não acreditar ou apostar numa relação afetiva.

A maior parte dos homossexuais acha-se na impossibilidade de amar, ao mesmo tempo em que,  manifestando-se a sexualidade ao longo da vida e correspondendo a uma necessidade permanente, muitos gays exercem-na como expressão única da sua condição homossexual, o que lhes gerou  uma promiscuidade célebre, caracterizada pela pluralidade de parceiros, pela ausência de afetividade entre eles e pela busca exclusiva do prazer: não podendo amar, restava-lhes o transar.

As gerações passadas, e dentre as atuais, os gays que estão na faixa dos quarenta anos ou mais, foram condicionados, a reprimir a sua natureza, quero dizer, a frustrar a sua sexualidade e a privar-se de amar.

Esta última particularidade resultou em que muitos homens não experimentaram o amor, não aprenderam a estabelecer compromissos afetivos sérios, não idealizaram uma vida a dois, não adquiriram o valor da fidelidade, não puderam estabelecer uma comunhão com quem amassem: da maioria dos integrantes destas gerações não se pode esperar relacionamentos duradouros: em relação a eles, a descrença na felicidade a dois é total.
Eu, particularmente, penso que é possível amar outro homem, como uma expressão da natureza emocional de cada um. Amor e sexo podem existir simultaneamente. Um não exclui o outro e no meio gay isso parece não ser verdade.

Outro dia um leitor me escreveu perguntando por que os gays buscam relações semelhantes aos heterossexuais. Eu respondi que não há diferença entre o amor heterossexual e o homossexual, em ambos, há atração, encantamento, carinho e anseio por compartilhar cada qual da vida do outro; em ambos, encontram-se os mesmos problemas: ciúme, traição, insegurança, desencanto, separações; em ambos, as mesmas virtudes: fidelidade, companheirismo, adaptação mútua, seriedade, realização afetiva e felicidade.

Eu nunca parei para refletir sobre a relação de afetividade entre os jovens. Frequentemente, encontro casais de mãos dadas ou abraçados nas ruas. Isso demonstra que o amor entre iguais já existe entre os jovens e existirá, crescentemente, sobretudo entre eles e em proporção menor entre os mais velhos, o que vem provocando uma alteração bem-vinda e acelerada na psicologia dos jovens gays, face ao anseio de muitos deles pela afetividade e ao esforço pela sua realização. A felicidade de dois homens entre si corresponde a um objetivo cada vez mais alcançável e merecedor da tentativa dos interessados nele.

Infelizmente, os gays que gostam de homens maduros e idosos ainda sofrerão a falta de afetividade porque isso é um processo de mudança que não acontece da noite para o dia. Mas há uma luz no fim do túnel, porque os gays idosos estão buscando nos parceiros maduros e idosos a afetividade perdida há muito tempo ou nunca vivenciada.

Aos mais velhos cabe uma reflexão sobre sexualidade, afetividade e “não aceitação” da homossexualidade. Vivemos tempos que se fala em casamento gay e união estável, muitos até acreditam que dois homens podem dar certo, enquanto família.

E você caro leitor, como vê o amor homossexual?

Leia também:

  1. Relação estável entre gays – até quando acreditar
  2. Mais sobre relações estáveis
  3. A difícil arte das relações estáveis entre gays
  4. Gays maduros – a difícil arte dos encontros
  5. A mudança de preferências sexuais entre os gays

A vida dos gays nos anos 60

Vasculhe a Internet e você encontrará tudo sobre a história e os movimentos gays (gay power) na América e na Europa na década de 1960, mas não encontrará nada sobre a vida dos gays no Brasil. Os poucos relatos ou registros estão em obras do João Silvério Trevisan ou trabalhos acadêmicos de sociologia.

Ser gay no Brasil naquela época não foi diferente da década anterior, mas a classe média e alta vivia uma explosão de juventude em todos os aspectos e influenciados pelas ideias de liberdade os gays aderiram à nova ordem mundial da contracultura.

É óbvio que diferente do que rolava nos Estados Unidos e Inglaterra os jovens gays brasileiros também mudaram os seus hábitos e passaram a caminhar pelas ruas e influenciaram novas mudanças de comportamento. Ainda assim, a maioria dos gays principalmente os maduros e idosos não tinha coragem de sair dos guetos para as ruas. Esses continuaram confinados nos poucos bares das principais capitais brasileiras.

Nesse cenário, a transformação da moda iria ser radical. Era o fim da moda única, que passou a ter várias propostas e a forma de se vestir se tornava cada vez mais ligada ao comportamento. O Jeans é a marca registrada daquela época e no Brasil poucos tinham acesso às calças importadas.

Cidades como São Paulo e Rio de Janeiro passaram a atrair os gays de outras cidades e capitais brasileiras que buscavam oportunidades de estudo e trabalho, além da liberdade sexual. Dai surgiram as pensões “somente para rapazes” e que foram cenários urbanos de experimentações da homossexualidade masculina.

No decorrer dos anos 60 esse modelo se multiplicou por outras capitais brasileiras: Recife, Fortaleza, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre. Naquela época não tinha as tribos atuais de bears, daddies ou barbies e a totalidade dos gays circulava pelas ruas com “cara e jeito de homem”. Os efeminados, travestis e prostitutos já circulavam e faziam parte dos guetos urbanos de prostituição desde os anos 1930.

Um gay de 65 anos relata como ele vê aquela época:

O Rio de Janeiro e São Paulo, que na condição de grandes metrópoles, eram vistas como acolhedoras de jovens do interior cuja coragem permitia-lhes partir em busca de seus desejos naturais, desde que sem a necessidade, ao menos imediata, de montar fontes de batalha em casa. Esses gays logo passaram a vincular sua distância social baseando-se nela, isto é, expressando-se por meio de extrema libertinagem sexual. Eu mesmo vivi loucamente aquela época em São Paulo e pensava em sexo todo dia porque na minha cidade isso era impossível. Caçar homem na cidade grande era um esporte saudável e arriscado, mas valia a pena porque mesmo “enrustido” eu me sentia livre.

Nos anos 60 os gays ainda se escondiam por trás de denominações características, como: os classificados dos jornais, os famosos “banhos de piscinas” e os “bares alegres”.

Nos classificados dos jornais da época os anunciantes usavam pseudônimos e buscavam os diversos tipos de gays, desde garotos de programa, companheiros fixos até aqueles que buscavam um parceiro que o sustentasse.

Os anúncios de banhos de piscinas eram utilizados para mascarar o famoso “banheirão”. Sim, encontros eram marcados nos anúncios para não haver o perigo de ser pegos pela polícia. O anunciante publicava o local, os dias e horários que estaria no banheiro público.

Por fim, os bares alegres eram contaminados de alegria homossexual e frequentados por gays de diversas idades e origens sociais. Um espaço onde o principal tema das conversas era o terceiro sexo.

Mesmo com alguns locais nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro a vida dos gays ainda era restrita, pois temiam a descoberta de sua sexualidade perante as denúncias públicas, aos castigos corporais, prisões em delegacias e alguns casos, inclusive, de morte.

As festas gays ocorriam em chácaras e sítios nas cercanias das cidades ou em casas no litoral. O acesso era difícil e no boom automobilístico daquela década o carro era a condução discreta para vários colegas e amigos se fartarem em finais de semanas de orgias, bebidas e muito sexo.

Na década de 60 surgiram os primeiros bares gays.  O famoso bar Caneca de Prata em São Paulo existia desde 1943 como Pierrot, mas o nome famoso surgiu em 1965. A Boate La Cueva no Rio de Janeiro foi inaugurada em 1964. O Paribar foi inaugurado em 1949, mas somente nos anos 60 os clientes gays se misturaram aos intelectuais e boêmios. Ah, não posso me esquecer do famoso Gala Gay do Rio de Janeiro.

Hoje todo mundo conhece a palavra BIBA por conta do personagem Clô daquela novela Fina Estampa, mas quase ninguém sabe que o termo foi roubado dos anos 60, alguns dizem que foi o Clóvis Bornay – Biba foi uma butique da moda daquela década, frequentada por personalidades da época.

É importante mencionar os gays anônimos que foram mortos nos porões da ditadura militar, principalmente, entre 1964  e após o AI5 de 13 de dezembro de 1968. Os gays de todas as partes do país que chegaram às cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, estudantes que buscavam educação e a sua liberdade de expressão, inclusive, a sexual.

Caro leitor, se você tem memórias sobre a vida gay dos anos 1960, registre em comentários. Infelizmente, ou felizmente eu era criança e minhas memórias tem referências a partir de 1974.

obrigado

Regis – blogueiro dos grisalhos

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