O mundo gay e o mundo fora dele

Para o homossexual que não está acostumado a frequentar ambientes, exclusivamente, para gays é uma verdadeira tortura.

No início tudo é estranho, as pessoas são estranhas. Michês, travestis, ursos, jovens e idosos em ambientes surreais e neste cenário o gay se insere para contatos, bate papo e sexo.

Esses ambientes podem ser comparados a centros de atividade social, mesmo sabendo que por lá a principal atividade é o mercado do sexo.

E quem disse que praticar sexo não é uma atividade social? Interagimos com pessoas de qualquer classe social e de níveis culturais distintos porque o que nos une é a atração física. Sabe quando você sente tesão pelo cara e não está nem ai se ele é rico ou pobre, alfabetizado ou analfabeto? Exceção, daquela minoria interessada no Pink Money.

Isso pode parecer coisa de bicha burra, mas é assim que acontece. Quando nos colocamos à disposição para caça e paquera, saímos de casa com uma lista de atributos do homem ideal: Bonito, gostoso, bem dotado, bem sucedido, educado, bem vestido – um verdadeiro Don Juan. Mas num final de noite após várias garrafas de cerveja, solitários e sem ninguém, nós carregamos para casa o primeiro que aparecer.

Outra coisa interessante no mundo gay é a socialização e a integração. Imagine você, um gay residente num bairro da periferia ou numa cidade pequena e que chega à capital sem conhecer ninguém e que por indicação ou porque ouviu falar, aterrissa num bar ou boate gay.

Imaginou? Pois é, vamos a algumas conclusões:

Na primeira semana ele sente-se deslocado, tímido, um estranho. Mas com o decorrer das semanas e meses ele se adapta e já sente que faz parte da família. Uma transa aqui outra transa ali e depois de um ano ele já é conhecido e falado dentro daquela comunidade. É assim que funciona dentro das saunas, dos bares e das boates.

A idade também é um fator relevante para quem entra no mundo gay. Se o homossexual for jovem a assimilação e o aprendizado é mais fácil, mas se ele for maduro ou idoso a assimilação é difícil porque ele traz uma carga de muitos conflitos internalizados, tanto cultural e familiar quanto religioso.

Quando um gay se amarra em alguém e parte para uma relação estável, a primeira coisa que ele faz é se afastar do mundo gay. Isso é instintivo e natural. Mas ai a relação acaba e lá vai ele novamente para dentro dos ambientes à procura de novos parceiros para sexo e socialização. Porque isso acontece? Ninguém quer ficar sozinho, sem colegas ou conhecidos. Todos precisam de pessoas para um bate papo, nem que seja apenas para tomar um café. Na velhice isso é mais importante do que a paquera e o sexo.

Como qualquer ser humano, os homossexuais sentem necessidade de compartilhar o dia-a-dia, para contar as novidades. No caso dos gays, eles falam dos bofes, das viagens, dos filmes, das peças de teatro, dos livros, da Parada Gay. Invariavelmente, fala-se coisas de bom astral, nunca de dramas ou tragédias e quando isso acontece, todos fazem cara de túmulo, mas no dia seguinte tudo volta ao normal.

Os dramas ficam mais evidentes na velhice, na solidão, na ponta de um balcão de bar à espera de algum conhecido para conversar. Isso ajuda passar o tempo, ou, na falta dos velhos conhecidos que morreram procura-se algo novo que desperte para a vida.

Nas memórias de cada um estão as melhores lembranças da vida. As loucuras da adolescência, os amores vividos, as fodas inesquecíveis, os porres homéricos nos finais de semana, as festas embaladas ao som de Maria Bethânia e Elis Regina. Será que isso ainda existe?

Quando o gay envelhece ele fica isolado, falam mal, fica passado e sozinho. Quem vive décadas no mundo gay se transforma em tia, Candinha ou Lazinha. Alguns são verdadeiros dicionários ambulantes da vida gay alheia e sabem de tudo e de todos, sejam os alvos, jovens ou idosos.

Como cantou Caetano Veloso lá pelos idos de 1968. – Atenção, tudo é perigoso, tudo é divino maravilhoso.

Há também, o grupo daqueles que não gostam do mundo gay e preferem viver fora dele. Mas o mundo lá fora é chato, é armário, são festas esnobes, teatro de marionetes, viagens sem rumo e sem cor, sem Travestis, Drag Queen, Michês, Ursos, Barbies, gays masculinizados e tias velhas.

Lá fora não tem falação da vida alheia e nem disputas pelo gostosão do pedaço, ou, a carne fresca recém-chegada da periferia ou do interior. Lá fora o gay se passa por heterossexual, vai à missa toda semana, estuda, estuda e nunca chega a nenhum lugar. Assiste futebol, faz churrasco para amigos ou parentes e quando vai pra casa no final do dia, aí bate a solidão, a falta de alguém com quem conversar ou um corpo masculino para acariciar.

Na calada da noite ele corre para o mundo gay, senão ele enlouquece. Entra na primeira sauna que conhece para se acabar em punheta, sexo oral e anal. Se a sauna estiver vazia ele corre para aquele boteco gay na região central da cidade. Ele encosta-se ao balcão, pede uma cerveja e fica olhando os gays afortunados e felizes, bebendo, falando alto e gesticulando como loucas peruas no cio. Ele sente inveja, mas não troca a sua vida confortável por uma vida insegura e duvidosa. Enfim, sempre acaba a noite carregando um homem à tira colo para dormir na sua cama.

A maioria dos encontros entre gays acontece no mundo gay e não fora dele. Aí, um conhecido meu retrucou: Todos os meus encontros ocorreram fora do mundo gay. Sim, é possível, mas isso não é importante, porque pode passar um quarto de século e lá estará você de volta ao mundo gay, nem que seja apenas para matar as saudades, rever alguns poucos conhecidos, tomar uma cerveja ou tomar um café. Tudo isso para mostrar aos outros que você está bem, está saudável, está vivo, ou, quem sabe, disponível!

Caro leitor, existirá um mundo gay? Ou o mundo é gay, como se diz na linguagem popular?

Tudo o que escrevi não é mundo? É gueto?

Penso que hoje o mundo gay é um misto de guetos e outros espaços públicos que aos poucos o público LGBT está conquistando.

O mundo não é gay e nem seria legal se fosse porque os bares, as boates e as saunas são pontos de referencia, socialização e aprendizado para os gays de todas as idades.

O mundo gay é essencial e MARAVILHOSO !

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@@@@ Um bar chamado Caneca de Prata

Raio-X da Parada Gay 2012

Nesta edição da parada gay de São Paulo faltaram os políticos e sobraram alguns poucos candidatos.

Também, parece que o público ficou muito abaixo das expectativas, mesmo com tempo bom e temperatura amena.

Eu sempre acompanho de perto tudo o que rola nas ruas e após três horas de observação, eu posso concluir o seguinte:

  • Mais de 90% são jovens na faixa de idade até 24 anos;
  • A maioria são mulheres;
  • As mulheres lésbicas estão mais leves e soltas;
  • Os gays vão para a parada com a finalidade de caçar um parceiro (a);
  • As drags são os únicos vetores de cores e humor;
  • Numa panorâmica visual os gays maduros eram minoria e os idosos, bem, os idosos ficaram em casa;
  • O comércio ambulante de bebidas alcoólicas está cada vez mais presente;
  • Os turistas fazem uma parada à parte. Mais de 600 mil na cidade de São Paulo – Nem todos foram para as ruas;

Os felizardos foram:

  • Os empresários que faturaram muito dinheiro com serviços voltados para público gay. Hotéis friendly, lojas, bares, saunas e boates.
  • Os gays que conseguiram um parceiro para uma relação sexual;
  • Os ambulantes que ganharam o dia vendendo bebida barata e de origem duvidosa;
  • Os skinheads abordados na Avenida Paulista pela polícia e que foram dispensados em seguida;
  • VOCE que preferiu ficar em casa e não se perder na multidão.

Mais um ano, mais uma festa e apenas uma certeza –  A Parada Gay de São Paulo é o maior evento da cidade, mas eu tenho uma sensação: breve ela perderá o status que tem.

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@@@ Parada gay SP – Lições para o futuro

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