Os gays de meia-idade

Alguns acadêmicos defendem a tese de que os homossexuais na fase adulta, entre os 45 e 55 anos tem uma tendência natural de encontrar condições de aceitar sua  homossexualidade, e se for o caso, também vivê-la – Os gays que estão nesta faixa de idade sabem que não é bem assim.

Para a maioria dos gays maduros parece ser válido que continuam a ser sexualmente ativos e que consideram a sexualidade como importante, embora já não tanto como na juventude. Em alguns o impulso sexual e a atividade sexual regridem. Porém, a maioria parece estar sexualmente satisfeita, às vezes até em mais ampla medida do que antes. Na fase da meia-idade, e também nos anos posteriores, a relação sexual é muitas vezes vista como parte de uma relação pessoal integral, onde comunhão, camaradagem, proximidade, calor e apoio desempenham grande papel.

A seguir eu defini alguns grupos de gays de meia-idade e o como eles vivem o presente e o que pensam sobre homossexualidade e velhice:

Gay workaholic – Esse grupo se sente incompreendido e desadaptado à sociedade; sente solidão, é fantasioso e ambivalente, apresenta falta de desejo sexual e tem como prioridade, o trabalho.

Gay otimista – Tem uma visão positiva de sexo e da sexualidade, possui libido alta, é sociável, não pensa em discriminação social por ser homossexual, tem percepção das limitações físicas decorrentes da idade e sua interferência nos relacionamentos.

Gay saúde – Esse grupo se sentiu discriminado socialmente na infância e adolescência, despertou sua homossexualidade de uma maneira dolorosa, tem uma sexualidade satisfeita. Para os integrantes deste grupo, envelhecer é uma etapa da vida e o mais importante é cuidar da saúde para ter boa qualidade de vida.

Gay sauna – Esse grupo se sentiu discriminado socialmente na infância e adolescência e hoje tem dificuldades de se expor como homossexual, com libido alta, mas tem medo de envelhecer por causa da solidão. Frequenta os points de pegação para sexo casual.

Gay tardio – Esse grupo despertou para a homossexualidade com idade avançada, viveu crises, discriminação social e se isolou da sociedade. O integrante deste grupo fala da velhice e dos mais velhos e não se percebe envelhecer.

Caro leitor, esses grupos foram inventados por mim apenas para ilustrar este artigo e não tem nada de concreto, real ou verdadeiro. Você até pode se identificar com algum deles, mas o cotidiano de cada um é diferente e as vivências são únicas.

Na meia-idade a maioria dos gays sente alguma mudança física ou psicológica que se manifesta por meio de sintomas como ansiedade sem causa definida, depressão, insatisfação com o relacionamento ou trabalho, angustia e dúvidas sobre o futuro.

Já escrevi a respeito das dificuldades que muitos gays enfrentam diante da transição inevitável da meia-idade para a velhice. Além dos aspectos óbvios relacionados à perda da juventude e de tudo o que ela representa na cultura e na subcultura gay ocidental massificada. Eu percebo também a dificuldade que vários gays têm de encontrar um sentido para a segunda metade da vida.

Os gays vivem um estilo juvenil, individualista e orientado para o presente e isso os faz se sentirem perdidos e sem uma perspectiva positiva de futuro. Com medo de envelhecer e atordoados por fantasias de abandono, porque já não serão mais atraentes fisicamente, de solidão, pois a maioria não tem filhos ou companheiro e de isolamento, principalmente os que se separaram de suas famílias. Isso gera um estado depressivo crônico difícil de ser atenuado de uma forma racional.

Para a maioria dos gays maduros o caminho é a simples negação dos sintomas físicos e psicológicos. Para outros, o mascaramento desses sintomas por meio do consumo abusivo de álcool e drogas leva a um comportamento autodestrutivo.

A crise da meia-idade é uma iniciação, um acontecimento físico, psicológico e espiritual próprio da nossa jornada de crescimento e autoconhecimento. Para nós, gays, é uma oportunidade de equilibrarmos nossa integridade psíquica, constantemente comprometida por homofobia internalizada e também, por vivermos aprisionados nos armários da vida.

Boa semana a todos os leitores

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Gay idoso é a bola da vez

Quando se fala em “bola da vez” lembramos do jogo de sinuca e também de coisas boas ou ruins, neste caso, as coisas não são nada boas, mas também, não são tão ruins.

O declínio da crença de que uma velhice bem-sucedida associa-se a eventos sobrenaturais, à sorte, ou ao coroamento de uma vida virtuosa coincide com a ampliação da crença na ciência como a fonte mais confiável de compreensão dos fatos naturais.

Assim, o ser humano passou a conviver com cada vez mais informações sobre fatores que conduzem a uma velhice bem ou malsucedida. É dado científico que a velhice caracteriza-se pelo declínio das funções biológicas, da resiliência e da plasticidade. Ainda que ocorram de forma diferenciada entre pessoas, as perdas que caracterizam a velhice provocam o aumento da dependência dos indivíduos em relação aos elementos da cultura e da sociedade – No Brasil  isso é mais evidente para os gays, porque trilhamos a estrada da vida, solitários, confinados no armário da homossexualidade, numa sociedade hipócrita e machista.

Por outro lado, e ao contrário do que se pensa, é possível a preservação e ganhos evolutivos em determinados domínios do funcionamento, como o intelectual e o afetivo, sendo este último capaz de atuar de maneira compensatória sobre as limitações cognitivas.

A velhice por si só já é um drama e sendo gay a coisa é ainda pior, mas sempre existe esperança enquanto existe vida.

Eu conheço um idoso de 78 anos, gay e sozinho, entenda, sem companheiro para relacionamento afetivo ou sexual, que sempre usufruiu o que a vida lhe deu de melhor, até que definitivamente a velhice bateu à sua porta.

Os primeiros sintomas foram o cansado, as dores nas juntas e nos membros, e a perda de alguns sentidos – a vida ficou mais lenta, tudo passa mais devagar, inclusive as dores musculares. Sendo um gay idoso ele se viu sozinho e a maioria dos parentes e amigos já partiu desta vida.

Numa conversa ele me confidenciou que mesmo que se tenha bom astral, o incomodo do corpo enferrujado faz mal à cabeça e é preferível ficar em casa a se aventurar em eventos externos, fato que eu contestei por acreditar que na velhice podemos acrescentar à nossa vida alguns fatores intelectuais e afetivos.

É o momento de descobrir a leitura diária, participar de eventos sociais de artes e espetáculos e se arriscar em relacionamentos afetivos e não sexuais, seja com companheiro ou algum amigo.

Ser a bola da vez não quer dizer que é o fim, mas significa que chegou a sua vez.

A velhice dos gays é vista como algo negativo desde a juventude, pois a maioria dos jovens gays cresce vendo os gays idosos serem tratados pelos estereótipos de “bicha velha”, “improdutivos”, “rabugentos”, o que determina a construção de uma imagem negativa do envelhecimento dos gays.

Certa vez eu ouvi a seguinte frase numa roda de gays: “velho gay só serve para financiar a boa vida dos jovens e michês ou pagar momentos de diversão para ocupar o tempo e a mente” – Aqui está mais uma visão negativa da velhice dos homossexuais.

Ser a bola da vez no século XXI é ter acesso à informação, inclusive, informações sobre envelhecimento, corpo e mente. Hoje é comum os gays idosos deitarem no divã do analista e abrir o jogo sobre a sexualidade e seus problemas emocionais e psicológicos. Também, existe um contingente de gays que curte os gays idosos para sexo e amizade – 

E para finalizar, uma triste constatação: Os gays idosos simplesmente desaparecem dos espaços públicos e privilegiam os espaços privados por questão de visibilidade da vida dupla de ser homossexual e também, ainda estamos distantes da plenitude da velhice gay – da Bola da Vez de Fato!

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