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Vida gay no Paquistão

gay_paquistaoHá algum tempo eu publico no blog informações sobre a homossexualidade noutros países e sempre me deparo com surpresas e o Paquistão foi mais uma grata, senão controversa surpresa.

Atos homossexuais são ilegais no Paquistão. Os colonizadores britânicos introduziram leis criminalizando o que era descrito como sexo “contra a ordem da natureza”. Na década de 80, a legislação baseada em leis islâmicas também estabeleceu punições para atividades homossexuais com penas que variam entre dois e dez anos de prisão ou multa – A homossexualidade é um tabu, inclusive entre as famílias paquistanesas.

Curiosidade: Apenas a homossexualidade masculina é punida.

Não existem comunidades homossexuais, saunas, bares e points nem pensar, mas nos últimos dez anos houve um pequeno avanço nas questões de direitos e assim a homossexualidade fervilha naquele longínquo país muçulmano.

Um dos locais de práticas homossexuais mais conhecidos é na cidade portuária de Karachi situada na província de Sindh no sul do país – A cidade é o paraíso dos gays.

Por ser uma região portuária a cidade é ideal para encontros, tanto que muitos homossexuais mudaram para a cidade e alguns vivem em bairros exclusivos de classe média alta.

Os contatos ocorrem em festas particulares promovidas por gays endinheirados e empresários e são organizadas usando a tecnologia, ou seja, o celular ou smartphone.

Hoje em dia, existem apps para smartphones que usam GPS para mostrar quão próximo você está de outro homem gay com um perfil na internet. Existem milhares de homens homossexuais online no Paquistão a qualquer momento do dia. Se você quer sexo, a cidade é um paraíso gay. Se você quer um relacionamento, isso é mais difícil.

O Paquistão é um país fortemente patriarcal. Espera-se que seus cidadãos se casem e a maioria das pessoas obedece à regra. O resultado é uma cultura de desonestidade, mentiras e vidas duplas.

Os gays fazem um grande esforço para evitar qualquer relacionamento com outro homem porque sabem que um dia terão de se casar com uma mulher. Uma vez casados, vão tratar bem suas esposas, mas continuarão a ter sexo com outros homens.

No Paquistão, os homens não são incentivados a ter namoradas e com frequência suas primeiras experiências sexuais acontecem com amigos ou primos. Isso é visto como parte do processo de crescimento e a família tende a fazer vista grossa.

gay_paquistao_templo1Parece utopia, mas o sexo entre homens acontece em lugares públicos, até mesmo em templos religiosos como o Abdullah Shah-Ghazi

As famílias visitam o templo para honrar um homem santo que está enterrado lá e para pedir as bênçãos de Deus, mas o templo também é o lugar de sexo homossexual mais popular da cidade.

Todos os dias, principalmente, às quintas-feiras à noite, quando o sol se põe, homens se reúnem ali. Um círculo fechado se forma e os que estão no centro são apalpados pelos que estão ao redor.

Para quem está fora, parece uma massa de homens se contorcendo e se esfregando uns nos outros. Alguns até descrevem a cena como uma “misteriosa cerimônia religiosa”. Para quem participa, é sexo grupal, anônimo. E não pense você que o sexo grupal é praticado por adolescentes, pois predominam homens maduros e até idosos.

Isso me lembrou das rodas que se formam nas praças públicas de grandes cidades brasileiras, onde ambulantes vendem de tudo e onde homens buscam parceiros para sexo casual e anônimo.

Enfim, talvez demore uma geração ou duas, para que haja uma mudança no Paquistão – mesmo paquistaneses liberais tendem a considerar a violência sectária e a instabilidade econômica muito mais importante do que a sexualidade. Ainda assim, existem alguns espaços privados e até públicos onde homossexuais paquistaneses podem expressar sua sexualidade livremente.

E nesse cenário de vidas duplas as mudanças estão ocorrendo de dentro para fora, pois são os familiares (pai, mãe ou tios) dos homossexuais que procuram negociar com autoridades a liberdade de seus filhos, evitando prisões e punições em praça pública, como ocorrem regularmente nas cidades das principais províncias do país.

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Os santos gays católicos

sao_jorgeEste post estava guardado há algum tempo e aproveitando a enxurrada de informações sobre a Semana Mundial da Juventude e a vinda do papa ao Brasil, finalmente decidi tirá-lo do armário.

Eu sou católico e protestante de batismo, mas não pratico a minha fé baseado em dogmas religiosos. Faço trabalho social numa comunidade católica no interior do estado de São Paulo e colaboro com uma entidade assistencial espirita de apoio a mães solteiras.

A minha chácara no interior chama-se N.S do Bom Conselho em homenagem à devoção mariana de Genazzano nos arredores de Roma. Eu não tenho devoção a santos e sou guiado por misticismo e incredulidade, assim como São Tomé.

Os santos

No cristianismo, santo é aquela pessoa que viveu de forma exemplar, seguindo todos os mandamentos com heroísmo e morrendo em santidade. Cada santo tem uma “especialidade” e uma data dedicada a ele, quer seja o dia de seu nascimento, de sua morte ou, ainda, de quando se converteu ao cristianismo.

O historiador da Universidade de Yale John Boswell (1947-1994), autor de inúmeras obras sobre o assunto, publicou suas pesquisas sobre a existência e a historia de santos gays em dois livros com maior ênfase: Christianity, Social Tolerance and Homosexuality (Cristianismo, Tolerância Social e Homossexualidade) e Same-Sex Unions in Premodern Europe (Uniões do Mesmo Sexo na Europa Pré-Moderna).

Em seus estudos, Boswell aborda desde a história de Perpétua e Felicidade na Antiguidade, ama e escrava que se tornaram santas populares entre a comunidade gay devido ao profundo afeto que as unia, ate os santos considerados patronos das uniões homossexuais, São Sérgio e São Baco.

sao_sergio_baco

São Sérgio e São Baco

No começo do século IV, na região onde atualmente fica a Síria, viviam Sérgio de Resapha e Baco de Barbalistus, considerados um casal de amantes. Nobres romanos, eles tinham altos cargos no exercito do imperador César Maximiliano, quando então se converteram e se tornaram cristãos. Entretanto, como o cristianismo era considerado uma seita perigosa, eles foram denunciados, presos e torturados brutalmente para renunciar a fé crista e voltarem aos deuses romanos. Baco morreu logo, mas Sérgio teve de suportar intensos sofrimentos ate ser, finalmente, decapitado.

Na Síria após a canonização, o Imperador Justiniano construiu, em honra de Sergio, igrejas em Constantinopla e Acre. A primeira foi transformada em mesquita e tem em seu interior raros exemplares da arte bizantina. Sergio foi nomeado patrono da Síria

Em Roma existe uma igreja, construída no século VII, consagrada a Sergio e Baco. Os dois santos são representados pela arte cristã como soldados com roupas do exército e empunhando palmas de flores

Na Igreja ortodoxa no Monte Sinai, no Mosteiro Ortodoxo de Santa Catarina, construído por ordem da Imperatriz Helena de Bizâncio, são encontrados ícones de São Sergio e São Baco representados lado a lado, segurando, juntos, uma cruz.

St. Aelred of RievaulxSão Aelred de Rievaulx

Em 1134, aos 24 anos, Aelred entrou para a Ordem Cisterciense. Treze anos depois tornou-se abade na cidade inglesa de Rievaulx, onde viveu como monge celibatário pelo resto de sua vida.

Em seus escritos, prevenia ardentemente seus companheiros de clausura sobre as dificuldades da abstinência sexual – agravada, no seu caso, por sua inclinação bissexual. Ele também contou que, quando ainda noviço e responsável pelo treinamento de jovens, usava um tanque cheio de água gelada para mergulhar e assim poder controlar seus desejos carnais.

Ele era um homem de paixões fortes, que falava abertamente de seus relacionamentos, inclusive de sua paixão por outro rapaz em seus tempos de escola. De todas as contribuições que deixou para a Igreja, a mais importante é a certeza de que podemos nos aproximar mais de Deus através das relações que cativamos.

Saint_SebastianSão Sebastião
Esse quase todo mundo já ouviu falar. Embora existam imprecisões na historia do santo mártir, sabe-se que ele era capitão da guarda pessoal e homem de confiança do imperador romano Diocleciano, mesmo sendo cristão convicto e confesso (alguns, por isso e outros motivos, acreditam que eles eram amantes).
Denunciado por manter conduta branda com prisioneiros cristãos, foi condenado à morte com flechadas, com a intenção de prolongar ao máximo seu sofrimento. Diz a tradição que foi socorrido e curado por Santa Irene. Voltou a ser espancado até a morte em 20 de janeiro de 288.

Os simbolismos da historia do santo acabaram por influenciar vários celebres artistas homossexuais ao longo dos dois últimos séculos, Entre eles, Oscar Wilde, Federico Garcia Lorca, Rainer Maria Rilke, Thomas Mann, Yukio Mishima e Jean Cocteau.

Nas ultimas décadas, com a organização e crescimento do movimento gay, São Sebastião acabou sendo adotado por homossexuais do mundo inteiro, e hoje ate a cultura popular o reconhece como santo padroeiro dos gays.

Obviamente, existe pelo menos uma centena de homossexuais na vasta lista de mais de dez mil santos e santas.

São João Evangelista o discípulo amado ou o profeta Daniel? Por que não pensar que São Patrício, o padroeiro da Irlanda não fosse gay? Ou, seria a família de Marta, Maria e Lázaro uma família homoerótica?
Na minha juventude eu sempre via Joana D’arc como uma cross-dressing, nada diferente do nosso cartunista Laerte, mas uma mártir.

No mesmo grupo de Joana D’arc, eu incluo Santa Atanásia, Santa Eugênia de Alexandria, Santa Marina da Sicília, Santa Pelágia, Santa Theodora e Santa Anastácia de Constantinopla.

Eu nunca fui um fã de São Jorge, mas a sua iconografia sempre me mostrou um lado andrógino de um guerreiro muito sensual que fazia suspirar mulheres e homens.

Se existiram ou não santos gays, hoje isso não é importante. Mas a história deve ser preservada e vale o registro para desmistificar o que a igreja católica julga ser aberrações da natureza e contra os preceitos da igreja: A homossexualidade.