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Um olhar crítico sobre o movimento gay

protesto_cura_gayNa semana passada eu e o meu companheiro saímos à noite para observar a manifestação organizada na Praça Roosevelt no centro de São Paulo, que tinha como foco protestar contra a aprovação do projeto de cura gay, no CDHM – Comissão de Direitos Humanos e Minorias, presidida por Marco Feliciano.

Num determinado momento um repórter se aproximou e me pediu para conceder-lhe uma entrevista. Curioso, eu perguntei porque ele me escolheu e a resposta foi óbvia: “Está difícil encontrar pessoas mais velhas ou idosas neste movimento para colher opiniões”.

Após a breve entrevista e registradas nossas idades, 54 e 67 respectivamente, o repórter agradeceu e se afastou e eu passei a prestar mais atenção as pessoas e percebi que nós éramos únicos, quase invisíveis naquela multidão, composta na totalidade por jovens, Drags, travestis, lésbicas e barbies.

Daquela visão constatei com tristeza de que os gays maduros e idosos continuam invisíveis não apenas para a sociedade, mas para as comunidades homossexuais organizadas e porque não, para nós mesmos, pois chegamos à zona de conforto, própria da idade e das consequências do isolamento social.

Em nosso país os contornos do movimento gay, embora tênues e sem limites precisos, apontam para uma diversidade de subgrupos internos e formas de vida particulares. Essa diversidade pode ser percebida na vida cotidiana, embora não faça parte do discurso mediático. Desse modo, a construção de uma imagem coletiva gay, é marcada pela tentativa de impor limites a essa diversidade de identidades.

Eu percebo o estilo de vida gay, como um espelho da realidade de um grupo homossexual brasileiro, urbano e de classe média.

Nas variadas falas que identifico pelas ruas, nas imagens dos protestos em diversas capitais do país, eu constato uma imagem ideal de homossexual, quer seja, o gay bem resolvido psicologicamente, jovem e assumido publicamente.

Os gays pós-geração 1980, consolidaram a imagem ideal.  Essa idealização cultuada, coloca-se como objetivo a ser alcançado para aqueles homossexuais que, num país tão desigual socialmente, pretendem se ver integrados e socialmente aceitos.

O estilo gay exclui de suas fileiras os “cidadãos de segunda categoria”. Essa exclusão, propiciada por um modo único de viver a sexualidade, está ligada a uma tentativa de uniformizar padrões de comportamento, hábitos e valores que perpassam a comunidade homossexual. Embora o discurso corrente saliente uma diversidade cromática e recrimine o preconceito interno nas comunidades homossexuais, eu percebo que prevalece os padrões estéticos, a juventude e o culto à beleza acima de qualquer coisa.

Também, observei naquela manifestação que o cenário das tribos homossexuais era composto por efeminados, Drags, travestis, lésbicas, jovens bears e boys sarados, mas a figura mais comum era da Barbie, tipo privilegiado no meio gay que é o modelo do ideal, um ícone contra a discriminação e os trejeitos femininos, que os homossexuais precisam alcançar se quiserem ser alçados à condição de cidadão gay, de “novo homem”, requintado e contemporâneo.

Por julgar que os gays, em geral, possuem maior poder aquisitivo que seus pares heterossexuais, já que não possuem filhos, e por acreditar que homossexuais são mais sensíveis e estetas, os movimentos gays excluem justamente, muitos daqueles que eles pretendem guiar em direção ao orgulho e a uma vida digna.

No retorno para casa, eu comentei com o meu companheiro sobre como o momento atual é propício às manifestações de rua e ainda assim, eu não vejo grupos homossexuais organizando protestos nas redes sociais (onde tudo começou), para reivindicar dos governos, a inclusão social para os gays pobres, desempregados e de rua. Ou, os gays idosos e sozinhos organizando-se para reivindicar casas de repouso ou asilos. Talvez, às ONGs com representatividade caberia cobrar programas consistentes sobre DST e AIDS ou mobilizar-se para a aprovação do PLC-122, entre tantas outras coisas. Tudo isso é possível no nível mais específico das nossas necessidades – Veja como a Marcha das Vadias ganhou visibilidade nacional.

Fazer uma manifestação contra um projeto ridículo do deputado federal João Campos do PSDB de Goiás, apelidado de “cura gay” é pouco para milhões de homossexuais paulistanos e brasileiros. Aliás, o próprio João Campos foi um dos nove deputados que ontem votaram a favor da PEC 37.

…o repórter me perguntou: Você é contra a cura gay?

respondi com outra pergunta: Você acredita que alguém deixará de ser gay com tratamento psicológico?

Homofobia – ontem e hoje

O termo homofobia foi empregado pela primeira vez em 1971, pelo psicólogo George Weinberg – eu tinha 12 anos e estava no colégio vivendo à sombra do AI5.

Esta palavra esta associada a um medo irracional do homossexualismo, com uma conotação profunda de repulsa, total aversão, mesmo sem motivo aparente.

A homofobia define o ódio, o preconceito, a repugnância que algumas pessoas nutrem contra os homossexuais. Aqueles que abrigam em sua mente esta fobia ainda não definiram completamente sua identidade sexual, o que gera dúvidas, angústias e certa revolta, que são transferidas para os que têm essa preferência sexual. Muitas vezes isso ocorre no inconsciente destes indivíduos.

Eu não me lembro de ouvir esta palavra na minha juventude. Naqueles tempos os homossexuais eram hostilizados se tivessem trejeitos efeminados ou se fossem pegos em atitudes suspeitas nos locais públicos, em situações que os denunciassem como homossexuais. Era mais caso de polícia do que da população civil.
Hoje qualquer agressão contra gays é motivo para se falar em homofobia e eu posso até estar errado, mas a homofobia começa dentro de cada um de nós homossexuais, principalmente, os não assumidos ou com problemas de aceitação da sexualidade e se estende aos demais grupos sociais.

O que acontece com a maioria dos gays é que eles não gostam de gays afetados e quando observam dois jovens de mãos dadas na rua, mesmo que eles tenham a mente aberta, no fundo eles se incomodam porque esse tipo de comportamento não lhes agrada ou não está dentro dos valores que eles julgam normais, também, porque esses valores são individuais e cada um tem valores diferentes para o que é “normal“.

Eu não condeno e nem defendo nenhum comportamento dos gays quanto a essa questão, mas deve-se levar em conta que num universo gay, predominantemente masculinizado, é de se esperar posições contrárias aos comportamentos pessoais que incitem violência e preconceito.

Para a população gay de homens maduros ou idosos a homofobia está longe da sua realidade porque reputação e respeito foram os seus conceitos para enfrentar várias discriminações ao longo da vida. A discriminação que essa população está exposta é a homofobia dos próprios gays que discriminam os mais velhos e isso não consta em nenhuma estatística.

Casos recentes mostram que a violência física decorrente da homofobia está mais presente na vida dos jovens do que dos maduros. A razão dessa crescente onda de violência é a mudança comportamental dos jovens que estão se assumindo mais cedo, levando para as ruas a sua liberdade e expressão da sua sexualidade, muito diferente dos jovens dos anos 60 e 70 que viviam confinados em guetos e mesmo assim eram acuados e extorquidos por autoridades, até dentro de ambientes fechados. Eis que um dia eles decidiram enfrentar a situação e então surgiu o episódio histórico de Stonewall.

Cabe aos jovens se preparar para enfrentar a violência e a homofobia, porque só assim prevalecerá os seus direitos. Antigamente não tinha político e gente querendo aparecer para nos defender, portanto, posso concluir que hoje é muito mais fácil combater a homofobia, porque até a mídia televisiva aproveita para abocanhar alguns pontos no IBOPE.

Você não faz idéia como eu gostaria que tivesse alguém ao meu lado num dia qualquer de 1975, quando eu fui abordado por dois jovens na Avenida São Luis em São Paulo querendo me humilhar a qualquer custo por ser homossexual e eu tendo que me defender sozinho, dando e levando porrada, ou, noutro episódio quando um sujeito colocou uma arma na minha cabeça e falou que queria me matar porque achava que eu era gay!

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