As paqueras gay de antigamente

Gay maduro e a vida sexual recheada de novos parceirosQuando o assunto é paquera, posso afirmar que muita coisa mudou e os tempos atuais proporcionam rápidos encontros para sexo ou algo mais. Basta registrar o número do telefone no WhatsApp e um mundo se abre ao alcance das suas mãos.

Obviamente, a paquera depende das preferências, principalmente quanto à idade, pois há um leque diverso de possibilidades.

Recordo-me de outros tempos onde a paquera era muito difícil e restrita. Não havia nem telefone e os poucos aparelhos privados eram privilégio de poucos. Depois vieram os telefones públicos, sim, aqueles que se punha uma moeda e se comunicava com o interlocutor por alguns minutos.

Na minha juventude a forma mais comum de paquera, era procurar homens nas ruas, praças e alguns poucos locais de socialização de homossexuais. Era um tiro no escuro e eu nunca sabia se daria certo ou não.

Caramba! Como me dei mal em muitas situações. Uma vez olhei para o bofe e encarei, ele deu corda até o momento que me aproximei. Dali para a frente foi baixaria, agressões verbais, enfim, uma vergonha!

Eu nunca apanhei de bofe e aprendi cedo a me defender.

Situações constrangedoras sempre existiram, mas buscar parceiros nos espaços da cidade era coisa do tempo das cavernas. Os raros olhares nas ruas e praças eram indícios de que existiam alguns poucos homens iguais a você.

Quando havia o contato, os desencontros eram infinitos. Não havia afinidade, tipo: Sou ativo e só como ou sou apenas passivo, ou gosto de homens mais velhos ou de mais novos. Ainda, prefiro gordos ou magros. Tem que ter pelos e cabelos castanhos. Não gosto de careca, nem de efeminados.

Às vezes você tinha que mostrar o pau antes de sair para uma transa – Vamos até um banheiro pois eu preciso conferir se você tem o cacete que me agrada.

Eis aí o motivo para eu definir como tempos das cavernas. Talvez, hoje ainda exista esse tipo de situação, mas mostrar o cacete para arrumar um parceiro é no mínimo degradante ou não? Pois sempre tive a sensação de ser mercadoria num mercado de peixes.

Esse tipo de exposição ainda é comum nos banheiros públicos das cidades. É o local ideal para olhar um belo cacete, obviamente, para aqueles que são fissurados por gebas monstruosas, grandes e desengonçadas.

Mas falando em paquera, a primeira condição adversa era encontrar o par ideal, coisa quase impossível porque os homossexuais viviam escondidos nos guetos. Chegar até lá era uma maratona de adversidades e enfrentamentos para não ser descoberto, além dos conflitos de aceitação.

Até você criar coragem decorriam meses, às veze anos. Quando finalmente você decidia enfrentar a situação, se deparava com um mundo estranho, de pessoas estranhas, bizarras, caladas e até mau encaradas. Não era o circo dos horrores, mas era um mundo enigmático e quase indecifrável de pessoas simples até as mais excêntricas.

A paquera comum ocorria nos bares frequentados exclusivamente por homens. Um ambiente onde os gays chegavam ao cair da noite e por lá ficavam até a madrugada ou ao raiar do dia.

À noite todos os gatos eram pardos e as mariposas faziam a alegria do lugar. As afinidades eram quase nulas porque ou você se dava bem ou virava carne de vaca.

A comunicação ocorria entre garrafas e mais garrafas de cerveja ou cachaça, bebidas comuns dos bares. Os mais esnobes tomavam Whisky e bebidas adocicadas, aliás os mais esnobes eram mais mariposas do que gatos, dada a delicadeza como seguravam seus drinks e a forma como verbalizavam seus discursos.

Enfim, não sei se consegui montar o cenário daqueles bares neste último parágrafo, mas assim eram os seus personagens.

Aí, você fazia uma amizade, o cara contava os seus problemas e você os seus. Passavam-se semanas e as conversas não evoluíam porque não havia afinidade para algo mais.

Quando você menos esperava já estava noutro canto do bar conversando com outro homem e jogando conversa fora. Às vezes acontecia de você se entregar para saciar os seus desejos, mas na semana seguinte lá estava você, novamente sozinho e livre para novas paqueras.

O círculo era vicioso e não levava a lugar algum. Era apenas para passar o tempo e socializar, mas era a melhor escola da vida para qualquer gay.

Dificilmente você arranjava um parceiro para além de uma noite. Era um puteiro disfarçado de bar, aliás, todo puteiro tem um bar e não é no puteiro que você encontra o príncipe encantado, mas existiam alguns poucos casais afirmando-se em relações mais estáveis.

É preciso registrar algo importante sobre aquelas paqueras. Independente da inconstância, das neuroses e do hedonismo, os homens eram mais educados e gentis.

Recordo-me de ocasiões onde fui cortejado por outros homens em disputas saudáveis, sempre com muito respeito e educação. Coisa rara nos dias atuais. Já este que vos escreve sempre foi atirado e decidido nas paqueras. Era oito ou oitenta, mas sempre respeitando o semelhante.

Fora das grandes cidades, na praça da cidadezinha do interior, os rapazes gays, nas noites de sábados e domingos, enfileiram-se em volta do coreto, com o fito de paquerar aqueles que desfilam por ali.

Como as tecnologias eram raras, outra forma corriqueira de paquera eram as correspondências escritas, através da seleção de anúncios de revistas. Aqueles que buscavam parceiros para algo além do sexo, submetiam-se às longas esperas das correspondências que demoravam séculos para chegar, principalmente, se fosse de outra cidade ou estado.

O que sobravam das paqueras? Alguns bons e verdadeiros amigos.

Bons tempos que não voltam mais

Nota: a paquera é uma gíria que se incorporou ao vernáculo

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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 13/07/2017, em Comportamento, cotidiano, Memória e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. PIERO ESCOBAR

    As paqueras naqueles anos 70 ate o final 1985 eram otimas, discretas. Paquerava aos sábados nos cinemas, calçadão da Vieira, Pingão, Caneca de Prata e outros. Ficou muita amizade e posso dizer que eu meti e foi muita foda gostosa e sadia nesse período que não volta mais.

  2. É meu caro Régis, apesar das dificuldades que era encontrar alguém para poder começar uma conversa, parece ter sido uma época muito divertida. Hoje com o advento da tecnologia e dos aplicativos de pegação (Hornet, Grindr e tantos outros), parece que agora sim viramos carne exposta em um açougue. Falta cortesia e educação para começar, sempre indo direto ao ponto e é claro, mandando uma foto da jeba rsrs. Conseguimos a facilidade de encontrar pessoas com as mesmas afinidades e gostos que os nossos, mas ultimamente parece que a pessoas tem procurado pessoas iguais a si mesmas. Ai fica complicado
    Um forte abraço

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