Arquivo mensal: julho 2017

As paqueras gay de antigamente

Gay maduro e a vida sexual recheada de novos parceirosQuando o assunto é paquera, posso afirmar que muita coisa mudou e os tempos atuais proporcionam rápidos encontros para sexo ou algo mais. Basta registrar o número do telefone no WhatsApp e um mundo se abre ao alcance das suas mãos.

Obviamente, a paquera depende das preferências, principalmente quanto à idade, pois há um leque diverso de possibilidades.

Recordo-me de outros tempos onde a paquera era muito difícil e restrita. Não havia nem telefone e os poucos aparelhos privados eram privilégio de poucos. Depois vieram os telefones públicos, sim, aqueles que se punha uma moeda e se comunicava com o interlocutor por alguns minutos.

Na minha juventude a forma mais comum de paquera, era procurar homens nas ruas, praças e alguns poucos locais de socialização de homossexuais. Era um tiro no escuro e eu nunca sabia se daria certo ou não.

Caramba! Como me dei mal em muitas situações. Uma vez olhei para o bofe e encarei, ele deu corda até o momento que me aproximei. Dali para a frente foi baixaria, agressões verbais, enfim, uma vergonha!

Eu nunca apanhei de bofe e aprendi cedo a me defender.

Situações constrangedoras sempre existiram, mas buscar parceiros nos espaços da cidade era coisa do tempo das cavernas. Os raros olhares nas ruas e praças eram indícios de que existiam alguns poucos homens iguais a você.

Quando havia o contato, os desencontros eram infinitos. Não havia afinidade, tipo: Sou ativo e só como ou sou apenas passivo, ou gosto de homens mais velhos ou de mais novos. Ainda, prefiro gordos ou magros. Tem que ter pelos e cabelos castanhos. Não gosto de careca, nem de efeminados.

Às vezes você tinha que mostrar o pau antes de sair para uma transa – Vamos até um banheiro pois eu preciso conferir se você tem o cacete que me agrada.

Eis aí o motivo para eu definir como tempos das cavernas. Talvez, hoje ainda exista esse tipo de situação, mas mostrar o cacete para arrumar um parceiro é no mínimo degradante ou não? Pois sempre tive a sensação de ser mercadoria num mercado de peixes.

Esse tipo de exposição ainda é comum nos banheiros públicos das cidades. É o local ideal para olhar um belo cacete, obviamente, para aqueles que são fissurados por gebas monstruosas, grandes e desengonçadas.

Mas falando em paquera, a primeira condição adversa era encontrar o par ideal, coisa quase impossível porque os homossexuais viviam escondidos nos guetos. Chegar até lá era uma maratona de adversidades e enfrentamentos para não ser descoberto, além dos conflitos de aceitação.

Até você criar coragem decorriam meses, às veze anos. Quando finalmente você decidia enfrentar a situação, se deparava com um mundo estranho, de pessoas estranhas, bizarras, caladas e até mau encaradas. Não era o circo dos horrores, mas era um mundo enigmático e quase indecifrável de pessoas simples até as mais excêntricas.

A paquera comum ocorria nos bares frequentados exclusivamente por homens. Um ambiente onde os gays chegavam ao cair da noite e por lá ficavam até a madrugada ou ao raiar do dia.

À noite todos os gatos eram pardos e as mariposas faziam a alegria do lugar. As afinidades eram quase nulas porque ou você se dava bem ou virava carne de vaca.

A comunicação ocorria entre garrafas e mais garrafas de cerveja ou cachaça, bebidas comuns dos bares. Os mais esnobes tomavam Whisky e bebidas adocicadas, aliás os mais esnobes eram mais mariposas do que gatos, dada a delicadeza como seguravam seus drinks e a forma como verbalizavam seus discursos.

Enfim, não sei se consegui montar o cenário daqueles bares neste último parágrafo, mas assim eram os seus personagens.

Aí, você fazia uma amizade, o cara contava os seus problemas e você os seus. Passavam-se semanas e as conversas não evoluíam porque não havia afinidade para algo mais.

Quando você menos esperava já estava noutro canto do bar conversando com outro homem e jogando conversa fora. Às vezes acontecia de você se entregar para saciar os seus desejos, mas na semana seguinte lá estava você, novamente sozinho e livre para novas paqueras.

O círculo era vicioso e não levava a lugar algum. Era apenas para passar o tempo e socializar, mas era a melhor escola da vida para qualquer gay.

Dificilmente você arranjava um parceiro para além de uma noite. Era um puteiro disfarçado de bar, aliás, todo puteiro tem um bar e não é no puteiro que você encontra o príncipe encantado, mas existiam alguns poucos casais afirmando-se em relações mais estáveis.

É preciso registrar algo importante sobre aquelas paqueras. Independente da inconstância, das neuroses e do hedonismo, os homens eram mais educados e gentis.

Recordo-me de ocasiões onde fui cortejado por outros homens em disputas saudáveis, sempre com muito respeito e educação. Coisa rara nos dias atuais. Já este que vos escreve sempre foi atirado e decidido nas paqueras. Era oito ou oitenta, mas sempre respeitando o semelhante.

Fora das grandes cidades, na praça da cidadezinha do interior, os rapazes gays, nas noites de sábados e domingos, enfileiram-se em volta do coreto, com o fito de paquerar aqueles que desfilam por ali.

Como as tecnologias eram raras, outra forma corriqueira de paquera eram as correspondências escritas, através da seleção de anúncios de revistas. Aqueles que buscavam parceiros para algo além do sexo, submetiam-se às longas esperas das correspondências que demoravam séculos para chegar, principalmente, se fosse de outra cidade ou estado.

O que sobravam das paqueras? Alguns bons e verdadeiros amigos.

Bons tempos que não voltam mais

Nota: a paquera é uma gíria que se incorporou ao vernáculo

Um Cruel Gosto de Sangue

gosto-de-sangueNuma conversa, um correspondente me disse que ainda existe muita homofobia em diversos segmentos sociais brasileiros. Eu perguntei: ainda existe? Desculpe-me, mas sempre vai existir, talvez melhore daqui a cinquenta anos.

Na troca de mensagens eu tive uma leve percepção de que a homofobia era coisa do passado, mas após reflexão constatei que não era. Hoje existe mais homofobia do que em outras épocas, talvez por causa da exposição instantânea. Tudo acontece online, a violência está generalizada.

Além da homofobia, tem a transfobia, a lesbofobia e outras fobias sociais, pois as pessoas ficam apavoradas quando esbarram em seres humanos porque sofrem de ansiedade e se acham os donos do mundo e da verdade.

O preconceito não vai acabar tão cedo. Viado será sempre tratado como anormal, mesmo que você ache tudo muito lindo nas séries de TV com viés cômico, ainda assim, é uma verdadeira burrice acreditar que não existe, porque os gays vivem no mundo da lua, num mundo cor-de-rosa, de paz e amor, principalmente, os jovens.

Caro leitor, abra os seus olhos para o mundo à sua volta e deixe de pensar que você é aceito em qualquer extrato social, porque não é assim que acontece, é tudo fake! Há exceções, mas isso não vale para a maioria.

Vivemos numa sociedade machista, individualista, preconceituosa e cheia de vilões e super-heróis, aliás, quais são os seus heróis LGBT? Não estou falando de super-heróis da Marvel Comics ou DC comics – Não existem heróis!

Nós cidadãos LGBT, temos a falsa sensação de tolerância, de que somos aceitos, mas não é nada disso e assim vamos vivendo, cada qual no seu mundo particular como se o coletivo estivesse distante da realidade, mas o perigo está logo ali na esquina.

Inserir-se nos contextos sociais da atualidade é mais difícil do que se imagina.  Se é difícil para os pobres, imagine então, para as minorias?

A verdade nua e crua é que vivemos um faz-de-contas eterno onde as mídias eletrônicas mostram a realidade que não faz parte da nossa vida, até acontecer conosco. Tudo acontece instantaneamente.

Para nós simples mortais nem percebemos o quanto somos manipulados por informações plantadas nas redes sociais e nos canais de comunicação online e quando tiramos a venda que nos tapa os olhos não há nada a fazer a não ser resignar-se ao sistema.

A intolerância é marca registrada deste século e as pessoas perderam a habilidade de respeitar diferenças em crenças e opiniões, porque o seu ponto-de-vista jamais será considerado para qualquer fim.

Em qualquer lugar onde você está, existe uma nuvem negra que povoa o seu cotidiano. Se você ainda não sofreu qualquer violência física fique atento porque pode acontecer a qualquer momento, basta um deslize.

Numa sociedade de autômatos, somos robôs controlados pelo sistema e semelhantes aos personagens dos filmes: Laranja Mecânica ou Brazil de Terry Gilliam. A ficção nunca foi tão real!

Caro leitor, vivemos num Estado totalitário, onde nossos governantes são corruptos. Somos controlados por computadores e pela burocracia e somos identificados por fichas, números e cartões de crédito.

Neste cenário futurista vivemos confinados em caixas e obedientes a um sistema podre, se achando o rei da comédia, da mortadela, enfim, o rei de tudo e acreditamos que estamos seguros e imunes à violência.

Mas uma notícia na TV chama a nossa atenção e observamos atônitos números recorde de suicídio entre jovens gays, aliás são os jovens que mais sofrem violência física e psicológica, seja numa estação de trem do subúrbio, do metrô ou num terminal de ônibus.

A violência urbana está nas ruas, nos bares, nas baladas, na escola, na faculdade, na praia e principalmente, dentro de casa.

A violência rural está dentro de casa, nas ruas e praças das pacatas cidades do interior, ironia, não? Pois é, não existem lugares seguros.

Os idosos são extorquidos, espancados e mortos diariamente, pelo simples fato de serem gays.

Os travestis são cruelmente assassinados pelo fato de viverem na corda bamba da clandestinidade.

Os brutamontes e gangues apavoram os mais vulneráveis e os homossexuais.

Gays de todas as idades são assassinados pelo simples fato de estarem no lugar errado e na hora errada.

Tudo isso por um simples e banal gosto de sangue

Ótimo final de semana!

Nota: A imagem que ilustra este artigo faz parte da capa do filme Gosto de Sangue dos irmãos Ethan e Joel Coen

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