Arquivo mensal: maio 2017

O desejo homossexual e a vergonha do próprio corpo 

Nas últimas décadas virou obsessão os cuidados físicos e a beleza virou religião. A liberdade sobre o próprio corpo veio com o dever de ser belo e impulsionada pela indústria da beleza advinda dos Estados Unidos.

No mundo gay o prazer supremo acima de qualquer coisa acompanhou as mudanças culturais e os padrões também mudaram a forma como os homossexuais buscam aprimoramentos corporais para assemelhar-se ao modelo americano/global, ou seja, cuidar dos músculos, definir barriga, tornear as pernas e braços para no final ficar parecido com aqueles viados machões de leather da velha são Francisco dos anos 70 e 80.

Desde a minha adolescência observo corpos masculinos e a transformação é algo surreal. Não tinha essa de peeling porque o corpo não era mercadoria de vitrine. Os jovens gays dos anos 1970, cuidavam mais da postura, para não serem identificados como pederastas. Não havia espaço para cuidados corporais, bastava um bom banho, trato nos cabelos, roupa adequada e estava pronto para conquistar parceiros.

Naqueles tempos era quase imperceptível a observação do próprio corpo, salvo, casos de exibicionismo crônico, pois isso sempre existiu.

Com ou sem exibicionismo todos os homens gays passaram a gostar e cuidar do corpo e respectivas partes íntimas, a começar por olhares e contemplação de seus cacetes grossos, compridos, finos ou curtos.

Independente das formas ou tamanhos não basta olhar é preciso apalpar, tocar, sentir o membro entre os dedos e mesmo se o sujeito é tipicamente passivo, usa as ferramentas táteis para desvendar os segredos corporais e posteriormente busca no corpo de parceiros aquilo que lhe proporciona o prazer.

As variantes corporais vão além da genitália, descobrir o próprio bumbum é algo fascinante através do toque e do visual e para isso o espelho está sempre de plantão e na falta dele, elogios do parceiro elevam o ego de seus donos. Aliás, é na frente do espelho que descobrimos o nosso corpo, cada detalhe, cada mancha e na velhice buscamos os primeiros sinais de envelhecimento, rugas, sardas e flacidez.

Há aqueles que são feios de cara e lindos de bunda ou lindos de cara e feios pra cacete. Um amigo diz que antes de qualquer coisa ele olha o cacete e se for feio nem adianta ser o mister mundo. Até os belos tem vergonha do corpo se não estiver dentro do padrão enlatado.

Observar o próprio rosto é algo comum desde a adolescência, porque em geral os gays prestam mais atenção ao rosto do outro. Ninguém em sã consciência se acha feio, porque os defeitos são compensados na observação de outro corpo igual ao seu, ou melhor, do mesmo gênero.

Tem gente que vê beleza nos pés, mãos, ombros, costas, quadril e até orelhas, tudo é corpo, tudo é desejado e o desejo começa em casa, trancado no banheiro ou no quarto observado e tocando suas partes.

O desejo por outro corpo masculino é algo natural. A maioria prefere jovens, uma parcela cobiça os maduros e a minoria deseja os idosos, mas no geral todos querem tocar o corpo alheio como se fosse seu e aí não importa padrões e rótulos.

Há de se considerar o padrão das cores e acessórios corporais: brancos, pardos e negros nessa ordem, pouco pelo, peludos ou imberbes também nessa ordem.

Foi-se o tempo das nádegas rechonchudas como atributo corporal masculino, as mulheres adoram e vice-versa, mas no meio gay isso nunca foi moda. Prevalece o padrão saradão, mas sempre há espaço para os gordinhos e gordões.

No universo corporal conta até a cor dos olhos e cabelos, dos raros azuis ao castanho popular e cabelos escuros, grisalhos e loiros nesta ordem e até os carecas.

A descoberta da sexualidade é motor propulsor para descobrir o corpo, porque desde cedo fomos educados e treinados para não tirar a roupa na frente de ninguém e assim incorporamos a vergonha ao nosso cotidiano e deixamos de lado a curiosidade sobre partes e membros. Aliás, nosso corpo é composto por pele, músculos, órgãos, ossos e nervos.

A vergonha do próprio corpo é um dos motivos mais banais para as relações sexuais entre parceiros não ir adiante e perde-se muitas oportunidades de usufruir outros corpos por medo de mostrar-se imperfeito. O medo da crítica ou comentário está lá no subconsciente.

Caro leitor, você já se sentiu envergonhado em tirar a roupa na frente do parceiro? Nos acostumamos a nos sentir mal em relação ao nosso corpo e na hora H não queremos todas as luzes acessas e corremos para fechar todas as janelas. Temos vergonha de sermos observados nus, por inteiro e praticamos o sexo até à noite ou ainda enchemos a cara de álcool e seja o que Deus quiser.

De todas as possibilidades de sentir-se envergonhado a pior é a comparação dos membros entre parceiros. Você imagina um bofe escândalo, gostoso com um cacete avantajado e quando o homem tira a roupa você percebe que o seu pau dá de dez a zero no concorrente. Você passou a vida achando o seu pênis o maior dos problemas, mas nem sempre é o tamanho do pênis que vai definir quem vai dar para quem ou mais ou menos prazer.

Numa das minhas aventuras sexuais conheci um homem maduro e corremos para o motel. Eu queria dar ou comer aquela gostosura e não é que ele me fez bolinar seus mamilos até gozar? Aliás, aqueles mamilos eram lindos, avantajados e pontudos, uma delícia! Ele nunca gostou dos mamilos, achava-os feios, mas depois que elogiei a autoestima foi nas alturas. Portanto, antes de ter vergonha do seu corpo ou de qualquer parte dele, busque uma segunda opinião, porque em matéria de corpo tem gosto para tudo e para todos.

Há quem goste de corpos tatuados ou orelhas, nariz e boca com piercing, um tribal primitivo e não estranhe ao se deparar com argolas nos mamilos, nos bagos e até na glande do pinto de parceiros como prova de masculinidade.

Outro dia morri de rir ao ouvir de um colega que ficou chocado ao ver uma argola de metal na cabeça do cacete do parceiro. Na hora ele desistiu de ser passivo e como o seu bilau não dava conta do recado, a aventura terminou sem final feliz e cada um seguiu o seu caminho.

Enfim, os tempos mudaram e hoje existem até academias inclusivas que ajudam pessoas a não sentirem vergonha do próprio corpo. Vale tudo para modelar músculos e destruir camadas superficiais da pele em cirurgias estéticas pelo simples motivo de nos sentir belos e desejados.

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A violência entre casais gays 

Recentemente li uma matéria da BBC Brasil que tratava das questões da violência entre casais do mesmo sexo em países como Argentina, Espanha e do Reino Unido.

Os gays costumam associar as brigas e porradas aos travestis, garotos de programa e frequentadores dos guetos, mas o universo é mais amplo e ultrapassa os limites dos guetos e segue porta adentro dos lares de casais do mesmo sexo.

Caro leitor, ninguém imagina parceiros em relações estáveis se agredindo, mas isso existe e é mais comum do que imaginamos. É o que se chama de violência de gênero.

Não existem estudos sobre o tema, mas as vivencias e as experiências de vida evidenciam haver mais agressões físicas entre lésbicas do que entre gays masculinos.

Eu, particularmente nunca agredi ou fui agredido, mas tomei conhecimento de situações de amigos que viveram verdadeiro inferno nas mãos dos companheiros.

Os conflitos físicos ocorrem porque a disputa por comando é acirrada entre dois machos e manter o controle sobre parceiros e situações leva a comportamentos violentos. Neste cenário encontramos gays submissos ou dominadores.

É comum ocorrer briga verbal e se não há controle emocional uma simples discussão acaba em pancadaria. Se dominador, não há negociação e não aceita situações de contradição, muito menos de separação e não estou nem falando de ciúmes, sabidamente o fator preponderante na geração de conflitos entre os casais.

Nas relações entre jovens e maduros ou idosos a violência se manifesta devido à ausência de diálogos. A insegurança dos jovens também é vetor de conflitos e os idosos ficam à mercê do parceiro porque são vulneráveis fisicamente. As agressões do homem maduro são mais psicológicas e gera um efeito reverso transformando ações psicológicas em ações físicas.

Na sociedade brasileira este assunto é tratado como tabu, uma violência invisível, porque é o famoso drama do duplo armário, ou não?

Quem em sã consciência tem coragem de denunciar que sofreu violência física? Para fazê-lo é necessário assumir-se gay e a maioria prefere o silêncio, logo, ficarão além das marcas os traumas e ninguém que sofreu agressões compartilha os acontecimentos com parentes ou amigos.

O ato do silêncio desencadeia outros processos internos, como isolamento, medo de interagir com os coletivos LGBT e até abstinência de sexo.

De uma forma genérica a violência é oriunda do estresse por pertencer à uma minoria sexual e quando acontece os homens dificilmente se identificam como vítimas.

Outro fator relevante neste tema é o medo do agredido em ser ameaçado na divulgação da orientação sexual para amigos e familiares e os agressores usam a chantagem como mecanismo de controle.

Eu conheci um vizinho idoso que adorava um garoto com quem teve relacionamento por mais de cinco anos. No começo suas reações eram de passividade para não desagradar o bofe. Com o tempo o descontentamento do garoto passou a ser rotineiro e as brigas verbais transformaram-se em violência física.

Moral da história: depois de apanhar calado decidiu romper o relacionamento e quando foi ameaçado de morte, tomou coragem e denunciou o agressor à polícia.

Por mais que os neurocientistas defendam a não existência do livre-arbítrio, ninguém é dono de ninguém, quando um não quer, dois não brigam. Brigas sempre vão existir, mas chegar ao ponto de agredir o companheiro é porque não há amor ou qualquer sentimento de querer bem, aí o melhor é cada um seguir seu caminho.

Nem sempre é tão fácil assim, mas é preciso insistir no convívio pacífico, mesmo em situações de stress, porque já é difícil encontrar um parceiro com afinidades para um relacionamento e a violência deveria passar longe dos casais, mas infelizmente essa é a realidade; além do mais não existem leis de proteção contra agressões físicas entre os indivíduos do mesmo sexo, onde essas ocorrências são tratadas como casuais.

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