Desejos homossexuais reprimidos 

Caro leitor, estou de volta e para começar o ano, aqui vai um artigo leve e sem compromisso sobre as escolhas que fazemos na vida.

Primeiro dia útil de 2017, ali numa rua do meu trajeto para o trabalho, às 7 horas da manhã me deparei com um senhor e seu cãozinho fazendo a caminhada matinal.

Para a minha surpresa ele me olhou e puxou conversa sobre amenidades. Fiquei ainda mais surpreso ao ser indagado sobre minha vida pessoal. Perguntas do tipo: você é casado? Tem filhos?

Após negativas às suas perguntas, eu também parti para cima para saber mais sobre aquele senhor simpático e de boa saúde.

Após breve conversa fiquei sabendo que ele era viúvo, tinha dois filhos casados e residentes noutra cidade. Morava sozinho num apartamento ali perto e há três anos buscava o que fazer para se ocupar na ociosidade da aposentadoria como servidor público federal.

Me confidenciou sentir-se só e um estranho vivendo isolado, pois seu círculo de amigos e parentes desapareceram deste a morte da esposa. Literalmente esquecido! Ou melhor, deixado de lado.

Qual não foi a minha outra surpresa quando me relatou que estava pensando em buscar um amigo gay na mesma faixa de idade e mesmo nível social, para um relacionamento sem compromisso.

Aliás, ele sempre sentiu vontade de ter relações com homens, mas nunca se aventurou para esse lado da força por conta das cobranças da família. Suas vontades passavam além do arco-íris, tinha vontade de beijar, roçar, brincar e gozar. Sexo anal não estava no seu dicionário. Nem ativo e nem passivo. Sentia vontade de tocar um corpo masculino e nada mais.

Percebi nos seus relatos a carência afetiva enraizada no seu subconsciente, dos sonhos juvenis sempre presentes, como descansar a cabeça no colo de um homem. Tudo isso é lindo quando se tem o colo e quem não tem lambe com a testa.

Quando eu disse que era gay os seus olhos brilharam e um sorriso acanhado abriu-se na sua face. Mas, eu já estava atrasado e combinei de encontra-lo naquele mesmo dia para o almoço.

Enfim, o homem não era o meu tipo, sim, porque o biótipo é o que nos impulsiona à traição. Corpo franzino, não mais do que um metro e sessenta, cabelos grisalhos, pele clara, bem vestido e um peso galo nos esportes.

Durante o almoço ele estava ansioso e atento a tudo o que eu falava. Assumi ter um companheiro há quase nove anos e gostar de relações monogâmicas, porque sexo a gente encontra em qualquer lugar, mas um homem nota mil era como ganhar na loteria.

Ele sorriu quando eu disse ser rico, dessa coisa de loteria nunca esperei nada, pois não gasto o meu dinheiro com probabilidades infinitas. Jogo certo é trabalho e remuneração e de preferência sem ostentar, sem consumismo ou acumular tralhas desnecessárias.

Ficou curioso quando falei da chácara, da rede na varanda, do pomar e do canto dos pássaros. Da vida simples do campo e longe da correria das cidades. Me questionou como os vizinhos do lugar observavam meu comportamento chegando sempre com outro homem e quase nunca com mulheres. Disse-lhe não me importar com que os outros vão pensar.

Também, ouvi atentamente suas frustrações, a tristeza de ser esquecido pelos filhos e netos e a constatação que ele estava cercado de pessoas indiferentes. Seus sonhos esmaeceram com a viuvez e como disse Raul Seixas: estava com a boca cheia de dentes esperando a morte chegar.

Ao final do almoço suas intenções eram claras. Ele buscava um companheiro para ocupar os seus dias. Tomar café, almoçar, jantar, sair, beber, viajar e aproveitar a vida que lhe resta. Mas o tempo passou e ele não tem coragem de se jogar no mundo por simples questão de insegurança, pois os desejos homossexuais ficaram reprimidos por mais de cinquenta anos.

Disse-lhe que nunca é tarde. Enquanto há vida, há esperança. Clichê para encerrar o papo.

Caro leitor, situações dessa natureza são comuns. Quantos homens maduros e idosos, gays ou não, estão em situação semelhante?

Obviamente, os seres humanos buscam no outro o amparo e a segurança porque na velhice é assim mesmo. Deixamos o livre arbítrio de lado e nos submetemos ao outro. Isso não é ruim, mas é um beco sem saída.

Ainda ontem me pus a pensar o que será de mim daqui a cinco ou dez anos. Não é o fim do mundo, aliás o mundo está aí para ser descoberto, solidão é estado de espírito. Todos nós passaremos por esta vida. É legal lembrar de pessoas que passaram na nossa vida, porque um dia nós também passaremos e seremos as lembranças de outros.

O que ficou desse encontro com o sr. Claudemir foi a constatação da dimensão do mundo de cada um. Quando jovens somos imortais, tudo é infinito, o mundo é vasto e uma nova amizade aparece em cada esquina. Ao envelhecer constatamos sermos simples mortais, tudo é finito e o mundo fica cada dia menor e as amizades sumiram das esquinas e é necessário um esforço enorme para tocar a vida, boa ou não.

Um psicólogo uma vez me falou que é preciso descobrir a beleza da vida em cada pétala de flor, nos aromas e cheiros da natureza e na imperfeição dos seres humanos.

Vida que segue…Ótimo ano para você

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Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 06/01/2017, em Contos da cidade, cotidiano, Sociedade e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 15 Comentários.

  1. Eu tenho 35 anos, só sinto desejo por homens maduros acima de 55 anos, mas sempre fui enrustido e nunca fiquei com nenhum homem, sempre com mulher, mas eh muito difícil, viver uma vida que não eh minha, as vezes dar vontade de me arrastar para baixo de uma pedra e me esconder de tudo e de todos. sinto um desejo enorme de ficar com eles, mas como moro no interior e cidade pequena, tenho medo de me arriscar, isso é muito difícil. Uma coisa que me ajuda muito eh esse blog, aqui vejo que nao estou só nessa vida, isso me deixa um pouco mais feliz por saber que tem varias outras historias como a minha.
    abraço a todos!!!

    • Olá Roberto.
      Poxa cara que situação complicada, te entendo muito bem
      Vive assim por um bom tempo, é difícil sentir tudo isso.
      Hoje sou casado com um homem de 51 anos, eu tenho 23.
      Foi muito difícil,até mesmo loucura, mas me sinto muito bem assim, perdi muitos “amigos” parentes se afastaram, hoje minha mãe fala comigo, fiquei um tempo sem falar com ela, e posso dizer que valeu a pena, pq é muito bom estar ao lado de alguém que amamos, sentimos atração, achamos bonito. etc.
      Acho que vc deveria perder esse medo e tentar encontrar alguém, pq quando vc estiver com alguém que te atrai vc vai ver o quanto é bom, gostoso, vai sair um peso da suas costas.
      Pena eu não ter muito tempo para escrever melhor agora.
      Assim que puder escreve mais.
      Abraço e felicidades a vc amigo

  2. Olá Regis,

    Primeiro que ideia boa em publicar sobre os homossexuais maduros e sobre diversos assuntos que muitas vezes achamos que somos únicos mas na verdade muitas pessoas estão passando pelas mesmas situações porém reprimidas e sozinhas. Sou novo no blog e continuarei acompanhando pois muito de suas experiências me ocorreram também e vem ocorrendo. Apesar de 28 anos, posso dizer que aprendi muito por ser um homem gay e gostar de homens maduros. Hoje tenho um relacionamento com um homem de 54 anos e moramos juntos há 3 anos, estamos felizes, viajamos bastante e temos um pequeno ciclo de amizade. Mas até aqui não foi fácil, o preconceito existe e ainda é maior quando há esse diferença de idade. Porém é preciso aprender a dar o “foda-se” pois o mundo não nos conhece e gosta de nos julgar por meio de lições de moral. O fato é que sofri muito até ter um relacionamento por temer, por desejos reprimidos, pela família, pela sociedade, pelo meio de trabalho conservador… E minha solução foi dar o foda-se e viver minha vida. Parece que tirei um peso das costas…

    Bom acabei escrevendo um pouco da minha vida pelas próprias influências do blog. Obrigado pelos textos. Continuarei por aqui lendo..

    Abraços, Paes

  3. Tenho 51 anos , mas me sinto com 40, sou casado com mulher , tenho filhos, porem de uns anos para cá sinto uma enorme necessidade de me relacionar com outro homem , mas sem abrir mão de minha condição.é complicado.

  4. Texto ótimo. A vida é curta, mas tem muita gente que não percebe isto.

  5. Jônatas Lira

    Sempre acompanho seus textos. Amo cada palavra. Feliz ano novo 🙂

  6. Josué Martisns

    Eu tenho 23 anos, estou morando em Peruibe a mais ou menos 8 meses.
    Não tenho nenhum amigo aqui, é muito difícil fazer amizades, sou casado com um coroa de 51 anos, quando as pessoas ficam sabendo do meu relacionamento, sempre acabam falando alguma bobeira.
    Estamos praticamente sozinhos, os 4 filhos dele moram longe, ligam de vez em quando e só falam com ele, logíco !!!
    Tive que sair de perto da minha família pra não envergonha-los, então raramente falo com eles.
    Acho que estar sozinho não é coisa só de velho kkkk
    Isso acontece com muitos gays.
    Mas, enfim, também fica difícil arrumar amigos já que não saímos, ficamos enfiados no serviço.
    Tenho esperança que da qui a uns anos as coisas melhorem e possamos viver mais, curtir um pouco a vida, com amigos ou só nos dois mesmo.
    abraço a todos.

    Obs: ótimo texto

    • Eu também gosto de coroas. Ser apenas gay já é difícil o bastante de lidar socialmente devido a rejeição da família e da sociedade. Mas ser gay e gostar de coroas é ainda mais complicado. Além de ter o choque cultural das gerações, tem ainda mais preconceito da família e da sociedade.

      • Sim, verdade o preconceito é ainda maior.
        Mas, fazer o que neh, gostaria de entender o pq gosto de coroas mas não entendo.
        Sei que gosto, gosto muuito kkkk
        São charmosos, cheirosos, inteligentes, alguns são divertidos, etc. (alguns são outros não)
        Vou vivendo tentando não ligar muito para o preconceito !

  7. Acompanho o blog há anos. Calado a maior parte do tempo. Acho que se comentei foi pouco e nem lembro qual identidade virtual usei. Bem, tenho 38 e me sinto velho… ainda mais por ser gay isso realmente deve fazer de mim um velho. Mas o velho tem amplos significados. Serei direto: para os outros eu sou passado mas ainda tenho muito a fazer no tabuleiro desse jogo jogado por todos chamado vida. E para mim é ótimo ser velho, saber de coisas que os novos não sabem. Isso é o que me interessa e que sempre me interessou.
    Quanto ao biotipo e pulada de cerca… parece que isso tem começado a me afetar agora. Antes eu tinha menos amarras quanto a essa questão. Bastava ver nos olhos do outro tesao direcionado a mim e eu cedia. Hoje estou muito mais “seletivo”.
    Abraço. Tentarei comentar mais.

  8. Olá Regis, boa tarde:
    Por cá em Portugal é quase noite.
    Só para lhe dizer que me delicia a sua escrita e profundidade de vida.
    Pois, eu sou também uma pessoa com 66 anos, viúvo, há cerca de oito anos, mas vivo com os meus dois filhos, um solteiro e outro casado; vivo numa quinta(chácara) e estou aposentado de várias actividades que desenvolvi. Começo a ficar farto de mulheres, porque estas não tem sabido assumir-se como pessoas femininas no seu conceito mais amplo; então pensei fazer o mesmo que o seu interlocutor que encontrou, incrível como as coisas acontecem, quer na vida prática, quer a nível psicológico, no que me diz respeito.
    Mas é bom viver, com a presença de Deus no nosso coração, procurando fazer o bem sem olhar a quem, junto com o tratamento do jardim, hortas e convívio com os animais,
    Desejo-lhe um melhor ano de 2017 e continue a escrever, porque aprecio muito a sua escrita.
    Cumprimentos respeitosos.

  1. Pingback: O caleidoscópio da homossexualidade masculina  | Grisalhos

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