Eu não sou homossexual – Negação

nao_sou_homossexual_2Caro leitor, aqui esta a segunda parte do texto publicado em agosto.

Pois é, não adianta fugir. Mais cedo ou mais tarde alguém vai perguntar se você é homossexual. Para quem assumiu tanto faz se perguntam ou não, portanto, a regra não se aplica, mas vale para a maioria e o resultado é óbvio, negação.

Você começa a negar verbalmente a homossexualidade a partir da adolescência, porque durante a infância diversas situações te condicionam a pensar que é errado.

As primeiras situações constrangedoras ocorrem no período escolar. Você nem sempre fica sabendo, pois são os professores, observadores por natureza, os primeiros a desconfiar que você é diferente. Já os colegas fazem chacotas e cochicham uns para os outros, até virar piada coletiva. É o que hoje chamam de bullying.

Desde a infância quase todos os homossexuais sofrem atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos causando dor e angústia. Você já começa a vida em desvantagem, não é mesmo?

Na família os pais não questionam os filhos e tentam decifrar através do comportamento ou atitudes suspeitas e ai de você se cometer um deslize ou ser pego em flagrante.

Tem os vizinhos, ah, os vizinhos! Esses são a própria encarnação do diabo. Normalmente as notícias chegam aos pais através deles. Tem muita gente boa, mas há muita maldade e nunca olham para o próprio rabo, pois sempre tem um desviante na família.

A juventude é o período mais crítico. Um colega pergunta se você gosta de homem? Sua resposta é negativa. Às vezes sua resposta vem acompanhada de revolta e você se afasta do colega ou parte para a briga.

Quando você entra no mercado de trabalho, todos os olhos do mundo passam a vigiá-lo e persegui-lo. Se você olha para um homem na rua ou no transporte público a reação imediata vem com ameaça ou pergunta inquisidora. A resposta é sempre negativa ou você retorna outra pergunta como forma de defesa: Está me chamando de viado? Está pensando o que? Mas a maioria prefere o silencio para evitar confusão ou exposição pública.

No final da adolescência você já sabe quem pode questioná-lo e isso te leva a recolher-se num mundo estranho de questionamentos, até você descobrir que esse mundo bizarro da heteronormatividade te empurra para outro mundo de homens iguais a você e até ali um dia você vai negar o que é, ou não?

Você busca inserção social no meio para interagir com os seus iguais e abrir o leque de opções sexuais com parceiros. Ir para a balada nos bares e points é comum, mas você se traveste de heterossexual e nunca abre o jogo com a turma, aliás, quase ninguém abre o jogo sobre a sexualidade. As conversas nem sempre sinceras ocorrem apenas nas negociações sexuais.

A vida segue seu curso e aquele homem lindo por quem você é apaixonado, um dia se aproxima e pergunta o que você gosta de fazer. A resposta nem sempre é esclarecedora, então ele pergunta: Você é gay? Instintivamente você diz não. O saldo dessa negativa é a perda de oportunidades de relacionamento, alguns até reconsideram a resposta e tentam desfazer o mal-entendido, principalmente, se você deseja o homem, custe o que custar.

Há situações hilárias de negação até dentro das saunas. O macho pergunta: Você é passivo? Mesmo que você seja, a negativa é automática. Nosso cérebro foi condicionado para responder à homossexualidade como algo ruim, uma aberração da natureza. Nós mesmos associamos o gay como um ser, exclusivamente, passivo e inferior.

A abordagem de parceiros é o melhor aprendizado porque se você abordar o cara errado vai negar mais do que Judas e apenas desculpas não resolvem o impasse.

A negação cria situações inusitadas como não deixar claro qual é o seu papel na relação sexual. Você gosta de chupar? Você gosta de ser penetrado? Você gosta de fazer brincadeiras? Mais recentemente isso foi resolvido e você diz ser versátil, mas nem sempre foi tão fácil assim.

Tem viado que jura de pés juntos que nunca deu o rabo. Você acredita? Pode até ser verdade, mas é negação atrás de negação. Você assume o papel do ativo mesmo com a maior vontade de dar o rabo e na hora do sexo é aquele fiasco.

Se você mora na cidade grande ou na metrópole é fácil desaparecer na multidão e fugir de questionamentos pessoais. Agora imagina aqueles que residem nos confins deste país, em cidades pequenas e culturalmente conservadoras.

A negação vai além das palavras e pensamentos, nega-se o corpo, os gestos e até o modo de vida. Esse é o principal motivo das correntes migratórias dos homossexuais de cidades do interior para os grandes centros urbanos.

Nem os mais expertos escapam de negar a sexualidade. Esses buscam na educação, uma válvula de escape para entender a homossexualidade e como lidar com as negações. Ainda assim, esse não é o antídoto para curar os seus males. Que o digam os padres, professores, executivos, empresários e por aí vai.

Em qualquer lugar ou cidade onde você está, a situação comum é você negar para si mesmo. Essa negação ocorre em pensamentos. Eu não sou, não sou e não sou, pronto! O ato de negar é um mecanismo de defesa pessoal em qualquer fase da vida e independe da sexualidade.

Você está com um parceiro e a relação não evolui porque ou você ou ele vive num mundo de negações. O ato de negar condiciona você a assumir posturas rígidas e inflexíveis.

O pior dos mundos é ser traído e trocado por outro e ainda assim negar a traição. Você faz de conta que nada aconteceu e isso é normal. Sim, é normal quando se estabelece regras no relacionamento.

Durante a fase adulta você nega pelos menos umas cem vezes e o mais bizarro é a negação inconsciente, isso leva você para a masmorra do isolamento. Você sai por aí sozinho para não dar explicações sobre os seus desejos.

Negar a si mesmo faz você romper com o mundo. O isolamento começa em casa e se estende para todos os locais onde você frequenta ou precisa frequentar.

Você sai sozinho para os espaços públicos à procura do que? Alguns gostam de caminhar e olhar o entorno, as pessoas, o movimento, outros buscam algo como ponto de partido para lugar nenhum.

Nas horas vagas e finais de semana, você passa um tempo escondido, geralmente à noite em ambientes fechados para não ser questionado e nem descoberto por pessoas conhecidas, principalmente, amigos e familiares. Depois você cria coragem e sai à caça em praças e banheiros públicos, becos de prostituição e começa a se expor no mundo virtual.

Mesmo negando praticamente a vida toda, você mantém suas relações sexuais, eventuais, ocasionais, casuais. Esse excesso de sinônimos é para reforçar o quando a negação é destrutiva, principalmente na hora de buscar parceiros.

Você diz não sou, mas deseja ser penetrado, nega outra vez e quer comer o gostosão do bairro. Você não se acha gay, mas busca um homem para satisfazer seus desejos. Nega ser o que é e afirma ser o que não é.

Essa dualidade assemelha-se ao médico e o monstro, Jekyll e Mr. Hyde. É uma paranoia de conflitos que não tem fim. De dia é homem e à noite transforma-se numa vadia à procura de prazer. Você é e você não é. Um macho te pega por traz, você geme de prazer e luta contra a sua natureza e ainda jura nunca mais fazer isso. A pior coisa nisso tudo são os arrependimentos pós sexo. Arrepender-se é negar a própria natureza.

No decorrer da vida você aprende a conviver com as negações e passa a negar menos porque a maturidade traz experiência nas relações humanas e também porque o círculo se fecha e a sociedade já não te percebe, exceto se você é efeminado, mas esse povo é minoria.

Entre a maturidade e a velhice os questionamentos desaparecem porque você se tornou um senhor discreto e educado e isso gera um respeito velado, por vizinhos e até parentes.

O respeito e a prudência colocam você noutro patamar e passam a te ver como homem decente mesmo você sabendo que viveu a maior parte da vida numa deliciosa indecência.

É até cômico se não fosse indigno, mas só você compreende as suas escolhas para viver no anonimato. As negações te confinam na gaveta mais funda do armário e os maldosos de plantão, inclusive, gays não vão mais te questionar, mas com certeza comentarão: Aquele ali é enrustido.

Você observa o mundo moderno e acha que todo mundo está feliz, assumindo-se gay e dando a cara para bater, tudo fake! Essa falsa onda de felicidade gay te coloca na parede e você sente-se excluído deste cenário e pensa que você vive noutro planeta.

Ah, você não sabia? Pois é, mais de 80% dos homossexuais masculinos no Brasil são enrustidos e isso prova que a geografia da negação é ampla e quase totalitária.

Esse cenário está longe de mudar porque a negação está intrinsecamente ligada ao contexto social onde você está inserido.

Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 03/09/2016, em Sexo, Sexualidade e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Gente, que texto maravilhoso.
    Há sim uma falsa felicidade gay tirando muita gente do armário pra ser infeliz. Aí fico a imaginar, infeliz no armário ou fora dele? Qual seria melhor. Prefiro fora dele!
    E gente, vamos parar de negação, principalmente se ela vier da religiosidade… Isso já saiu de moda há séculos né? Beijos.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: