Classificados gay dos anos 90

Suigeneris1Antes do advento da Internet uma das formas de correspondência entre gays era através dos anúncios classificados em revistas especializadas principalmente as masculinas e algumas para homossexuais. A coisa funcionava assim:

O sujeito escrevia uma carta de próprio punho com o anúncio desejado, muitos datilografavam a carta, colocavam pseudônimo e enviavam para a redação.

Muitas revistas cobravam a publicação do anúncio e a confirmação não era nada online e às vezes demorava alguns meses até a publicação. Algumas tinham o espaço dos classificados gratuitos pois eram chamarizes para vender a revista. A comercialização ocorria em tabacarias e bancas de jornais. Elas era penduras em cordéis e sempre com capas atrevidas e títulos sugestivos.

Uma vez eu embarquei naquele mundo dos classificados na revista Sui Generis em 1995. Naquela época eu tinha 35 anos.

Li o anúncio de um coroa de Juiz de Fora em Minas Gerais, mas como o anúncio não publicava telefone, eu escrevi uma carta para o homem que tinha como endereço uma caixa postal da cidade.

Depois de uns trinta dias chegou a resposta com um número de telefone para contato e naquele mesmo dia liguei e me apresentei como seu admirador. A voz do homem me deixou excitado, mas estranhei porque ele disse que estava sem tempo e pediu para eu retornar a ligação após as 21h daquele dia.

Bem, cumpri o prometido e retornei a chamada e para minha surpresa o homem disse ter 64 anos, viúvo e apaixonado por homens e queria dar pra mim. Morava sozinho numa fazenda da região da cidade e queria fazer sexo virtual comigo. Sim, naqueles tempos sexo via telefone era comum entre os gays.

Antes da primeira transa houve uma preparação do cenário com ambos expondo seus dotes e características físicas, tamanho do pênis, etc. e o homem queria ser enrabado ao telefone. Naquela primeira vez foram gritos de prazer, gemidos e frases sacanas e chegou ao exagero de dizer que já estava amando o seu macho. Obviamente, gozamos algumas vezes juntos outras tantas em descompasso, sem contar os calos de tantas punhetas.

Foi uma semana inteira de sexo virtual, cada dia mais tarde e sempre após 22h. Cada relação sexual durava em média 45 minutos e a conta do telefone comeu quase o salário de um mês de trabalho.

Um dia eu pedi pro coroa me enviar uma foto e como voto de confiança enviei uma foto minha na carta. No mês seguinte chegou uma foto desbotada daquelas de cor sépia e até desbotada pelo tempo. Esse namoro durou uns três meses até o momento quando eu disse que iria para Juiz de Fora nas férias para conhece-lo. Nunca mais tive notícias do fazendeiro e não atendeu mais minhas ligações.

Com muita sorte encontrei novo anúncio do mesmo homem na revista masculina que dizia o seguinte:

Tenho 65 anos, fazendeiro residente em Minas Gerais e procuro homem acima de 35 anos para relacionamento sério. Possuo dotes culinários e adoro cozinhar para homens de fino trato. Os interessados podem escrever para a caixa postal número tal. A tal caixa postal era a mesma para a qual eu escrevi alguns meses antes.

Como se vê o anúncio era um chamariz para os desavisados. Idade no limite da terceira idade, fazendeiro é sonho de qualquer gay mais jovem. Relacionamento sério é o que todos buscam para não se expor, além de pegar os interessados pelo estomago com culinárias exóticas ou regionais. Eram figuras carimbadas de norte ao sul do Brasil, sempre com as mesmas histórias e os mesmos personagens para atrair interessados.

Enfim, passam os anos, mudam as formas de comunicação, mas essência é a mesma.

Caro leitor, você percebeu que no meu relato o homem nunca me telefonou, as despesas sempre correram por minha conta. Nunca me senti usado e aquelas aventuras noturnas eram interessantes. O homem não queria nada sério, apenas sexo ao telefone, talvez fosse casado ou viúvo como relatou, mas não queria contato físico e nem era fazendeiro. Entrei na dança e aproveitei aquelas noites bem sacanas. Como bom observador percebi nos diálogos boa cultura e educação. Então comecei a divagar sobre o personagem. Seria ele um padre? Um político? Um escritor? Ou realmente um fazendeiro, talvez decadente?

Aquilo tudo valeu a pena porque na vida é preciso experimentar as situações que se apresentam e neste caso de uma forma muito bem-humorada.

Hoje os tempos são outros e o que era classificado de revista masculina banalizou. As revistas até existem, mas classificado é coisa do passado. Também eram legais as histórias e contos eróticos.

Quem viveu aqueles tempos sabe muito bem do que estou falando

Bom final de semana a todos os leitores!

Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 30/07/2016, em Memória e marcado como . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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