Coisas que a vida ensina depois dos 57 anos

Coisas que a vida ensina depois dos 50 anosO que dizer quando se chega nessa idade, sendo gay?

Bem, todo ano faço um balanço do que mudou ou como estou, penso e vivo.

Meu momento atual é de muitas reflexões, porque o mundo está em constante transformação, principalmente social.

Sendo gay é cada vez mais difícil inserir-se socialmente num mundo de heteronormatividades. Percebo muito individualismo e falta daquele papo olho no olho. Hoje todos estão por trás de um smartphone mantendo relações virtuais, textos desconexos, abreviações quase indecifráveis.

Vejo os gays polarizando suas ideologias. Vasculhe as redes sociais e você encontra até gays de direita apoiando ideologias arcaicas e ultrapassadas. Mas isso não vai mudar a minha vida, os gays não precisam de mais nada, exceto algumas leis mais específicas, principalmente, para travestis e transexuais.

A velhice está ai batendo à porta e imagino outros iguais a mim e como estão vivenciando sua homossexualidade, muitas vezes ainda reprimida por décadas de não aceitação. Não precisa soltar a franga, mas não precisa fingir que não gosta de homem.Vive-se bem aceitando e não rejeitando o que se é, sem neuras ou traumas.

O mundo está muito intolerante e cada dia mais, os gays estão expostos a atos homofóbicos como os recentes acontecimentos de Miami. Na semana passada eu vi pessoalmente um gay sendo agredido verbalmente na rua e essas agressões são cada dia mais frequentes.

Aos 57 anos, é preciso uma dose de sorte para ter um companheiro que compartilhe os momentos da vida rumo à terceira idade. Sexo é ótimo, mas na medida certa.

Um amigo diz que essa é a fase definitiva, onde o isolamento começa a fazer-se presente e ficamos vulneráveis e sozinhos, mas digo a ele que é preciso mudar isso de uma forma até criativa, porque cada ser é único e não é a homossexualidade o empecilho para ter uma vida, senão plena, pelo menos digna. Bastam alguns poucos amigos para preencher o meu dia.

Também, o meu momento presente é de bem estar, físico e emocional. Vivo uma fase minimalista, vida simples, sem exageros ou consumo exagerado e procuro fazer o bem, porque o que não se vê é um gay ajudando outro sem interesse, salvo raros casos de amizades de longa data.

As transformações físicas hoje são aparentes, cabelos grisalhos, alguma calvície, bigodes brancos, as primeiras sardas nas mãos, pele mais fina, algumas rugas, mas tudo bem! O envelhecimento físico é natural.

A velhice é um conjunto de fatores físicos, psíquicos e emocionais. O que importa é perceber que a vida nos ensina de tudo e é necessário tirar proveito dos ensinamentos para preparar a velhice com sabedoria. Segue a vida!

Soneto de aniversário – 1942, Vinicius de Moraes

Passem-se dias, horas, meses, anos

Amadureçam as ilusões da vida

Prossiga ela sempre dividida

Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida

Diminuam os bens, cresçam os danos

Vença o ideal de andar caminhos planos

Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura

À medida que a têmpora embranquece

E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece….

Que grande é este amor meu de criatura

Que vê envelhecer e não envelhece.

Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 18/06/2016, em Comportamento, cotidiano e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. É triste ver que a aceitação da variedade está sob cerrado ataque. Não apenas sexual, mas a cada dia vemos mais intolerância. Contra homossexuais, bissexuais, negros, pardos, árabes, judeus, não judeus, enfim, muitos frente a crise econômica, política e, por que não dizer, moral que o mundo globalizado impôs globalmente, é fácil correr para um grupo e considerar que os que não pensam ou agem como você não são pessoas humanas e podem ser vilipendiadas, atacadas, mortas.

    Nosso país não está num caminho diferente, ataques agora começam a se comuns, logo teremos mortos, uma situação hobbesiana, a luta de todos contra todos, a barbárie, o horror!

    Uma coisa que nós muitas vezes demoramos foi a de aceitar o que somos. E o fato de que o mundo parecia nos aceitar, nos ajudou, e muito, nesta trajetória de assumirmos ser o que somos. E agora estamos entrando numa era de temor.

    Parece que teremos, queiramos ou não, que fazer política. Ou não sobreviveremos!

  2. Julio Sousa

    Olá Regis:
    Boa tarde aqui de Portugal.
    Aprecio imenso os seus artigos a que subjaz aos mesmos a idade, uma maturidade bem passada e pensada e diga-se com uma escrita ortograficamente correcta, mais parece português que brasileiro….sem ofensa….
    Meus respeitosos cumprimentos e continue na sua senda de divulgar o seu “mundo”.

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