Arquivo mensal: junho 2016

A homossexualidade no Brasil no século XIX

Largo-do-Rocio-atual-Praca-TiradentesReproducao

Largo do Rocio no fim do século XIX

Caro leitor, eu sei que este artigo talvez não cative a sua atenção, mas é sempre bom conhecer um pouco sobre a homossexualidade em tempos passados para entendê-la no tempo presente.

Escrever sobre a homossexualidade de épocas muito distantes é um tanto quanto complicado. É necessário pesquisar, ler, abstrair, etc. Também o tema é amplo e tentei resumir os principais tópicos.

Enfim, sobre o século XIX no Brasil e mais especificamente nas capitais, sabe-se que marcou de forma profunda a sociedade brasileira devido às mudanças estruturais em grandes centros como Rio de Janeiro e São Paulo.

Os hábitos sociais foram objetos de atenção das ciências, que se voltaram com o propósito de compreendê-los, estudá-los e controlá-los, fazendo surgir as categorias de normalidade ou anormalidade, principalmente no campo sexual.

A homossexualidade ganhou destaque quando surgiram pesquisas científicas procurando nomear e classificar as variações sexuais, logo marcadas e rotuladas como desvios ou patologias.

Contudo, essas mudanças que ocorreram no século XIX não se referiam a todas as práticas sexuais e vários segmentos sociais foram arrolados como pervertidos, degenerados e desviantes, já que ameaçavam a normalização médica, cujo período higienista estava em curso.

A homossexualidade passou a ser vista como sinal de degeneração, surgindo um julgamento moral, dos discursos religiosos, jurídicos e médicos. Todos esses discursos serviram para criar o estereótipo homossexual..

Embora o discurso fosse rude e pouco encorajador, face às reações e consequências sociais e legais, a prática homossexual era algo amplamente difundido naquele período como ações marginalizadas, já que o que não é aceito é reservado ao silêncio, à obscuridade e ao anonimato.

Em vários locais públicos, como parques e praças, os homens que buscavam relações sexuais com outros homens encontravam-se para fazer sexo. No Rio de Janeiro, o largo do Rocio, atual Praça Tiradentes(foto) foi célebre por ser o lugar onde à noite reuniam-se os pederastas passivos à espera de quem os desejasse e os possuísse.

Existiam lugares que eram bastante frequentados por homossexuais, tais como portas dos teatros, cafés, restaurantes, bilhares, botequins, portarias de conventos, escadarias de igrejas, casas de banho, além dos já citados parques e praças, o que dá ao leitor uma ideia da ampla rede de relações homossexuais que existia naquele período.

A situação ficou tão comum e isso causava  aversão às classes médica, jurídica e religiosa, que foi necessário importar prostitutas da Europa, na intenção de conter as práticas homossexuais..

As relações homossexuais na Marinha eram generalizadas e chamadas de amor de marinheiro. Essa relação não se dava entre iguais, envolvia relação de hierarquia funcional, hierarquia de idade, hierarquia de experiência, apesar de serem consideradas faltas graves e punidas com chibatadas.

Além da Marinha, no Exército as práticas homossexuais também eram muito difundidas. Embora as práticas acontecessem com mais frequência em comunidades fechadas, como o Exército, a Marinha, conventos e colégios internos, devido ao distanciamento social e da reclusão de pessoas do mesmo sexo, sua ocorrência não era restrita a esse ambientes.

A prática da homossexualidade, também acontecia em ambientes refinados e intelectuais, como o corpo diplomático, o magistério, o funcionalismo público e o meio dos literatos e poetas.

Já entre as classes mais baixas, os encontros casuais ocorriam nos bairros pobres das cidades e o sexo era praticado em lugares ermos, matagais e longe dos olhos das comunidades. Há relatos orais de praticas sexuais em quintais, matadouros, sítios e chácaras distantes. Algumas vezes os pederastas eram flagrados em pleno ato sexual. Imagine a cena!

Nesse contexto social, a homossexualidade era praticada mais por instinto e desejo do que por amor e afeição. Da solidão e isolamento das periferias os homens de classes mais pobres passaram a migrar para o centro das cidades devido à facilidade e maior probabilidade de encontros em locais públicos, bem como, para fugir dos olhares críticos dos conhecidos e vizinhos.

Essa corrente migratória misturou as classes e o sexo homossexual quebrou barreiras sociais e colocou os homossexuais no mesmo balaio, frequentando os mesmos lugares. Este modelo se espalhou para as demais capitais brasileiras e a interação entre os pederastas colocou frente a frente, a burguesia e a plebe, os fidalgos e os escravos, uma mistura tipicamente brasileira, ou universal?

Já nas primeiras décadas do século XX esses locais centrais das cidades demarcaram territórios e que hoje conhecemos como guetos, mas isso é outra história.

Coisas que a vida ensina depois dos 57 anos

Coisas que a vida ensina depois dos 50 anosO que dizer quando se chega nessa idade, sendo gay?

Bem, todo ano faço um balanço do que mudou ou como estou, penso e vivo.

Meu momento atual é de muitas reflexões, porque o mundo está em constante transformação, principalmente social.

Sendo gay é cada vez mais difícil inserir-se socialmente num mundo de heteronormatividades. Percebo muito individualismo e falta daquele papo olho no olho. Hoje todos estão por trás de um smartphone mantendo relações virtuais, textos desconexos, abreviações quase indecifráveis.

Vejo os gays polarizando suas ideologias. Vasculhe as redes sociais e você encontra até gays de direita apoiando ideologias arcaicas e ultrapassadas. Mas isso não vai mudar a minha vida, os gays não precisam de mais nada, exceto algumas leis mais específicas, principalmente, para travestis e transexuais.

A velhice está ai batendo à porta e imagino outros iguais a mim e como estão vivenciando sua homossexualidade, muitas vezes ainda reprimida por décadas de não aceitação. Não precisa soltar a franga, mas não precisa fingir que não gosta de homem.Vive-se bem aceitando e não rejeitando o que se é, sem neuras ou traumas.

O mundo está muito intolerante e cada dia mais, os gays estão expostos a atos homofóbicos como os recentes acontecimentos de Miami. Na semana passada eu vi pessoalmente um gay sendo agredido verbalmente na rua e essas agressões são cada dia mais frequentes.

Aos 57 anos, é preciso uma dose de sorte para ter um companheiro que compartilhe os momentos da vida rumo à terceira idade. Sexo é ótimo, mas na medida certa.

Um amigo diz que essa é a fase definitiva, onde o isolamento começa a fazer-se presente e ficamos vulneráveis e sozinhos, mas digo a ele que é preciso mudar isso de uma forma até criativa, porque cada ser é único e não é a homossexualidade o empecilho para ter uma vida, senão plena, pelo menos digna. Bastam alguns poucos amigos para preencher o meu dia.

Também, o meu momento presente é de bem estar, físico e emocional. Vivo uma fase minimalista, vida simples, sem exageros ou consumo exagerado e procuro fazer o bem, porque o que não se vê é um gay ajudando outro sem interesse, salvo raros casos de amizades de longa data.

As transformações físicas hoje são aparentes, cabelos grisalhos, alguma calvície, bigodes brancos, as primeiras sardas nas mãos, pele mais fina, algumas rugas, mas tudo bem! O envelhecimento físico é natural.

A velhice é um conjunto de fatores físicos, psíquicos e emocionais. O que importa é perceber que a vida nos ensina de tudo e é necessário tirar proveito dos ensinamentos para preparar a velhice com sabedoria. Segue a vida!

Soneto de aniversário – 1942, Vinicius de Moraes

Passem-se dias, horas, meses, anos

Amadureçam as ilusões da vida

Prossiga ela sempre dividida

Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida

Diminuam os bens, cresçam os danos

Vença o ideal de andar caminhos planos

Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura

À medida que a têmpora embranquece

E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece….

Que grande é este amor meu de criatura

Que vê envelhecer e não envelhece.

%d blogueiros gostam disto: