Publicado em Política, Sociedade

Parada gay São Paulo – 20 anos

parada gay 2016Caramba! Vinte Anos?

A memória já não é tão boa quanto antes, mas bastou um pequeno esforço e as imagens fragmentadas, flashes picotados em branco e preto apareceram numa névoa espessa. Das imagens distorcidas formaram-se cenas e lembranças há tanto esquecidas, como daquele mês de junho de 1997. Lá estava eu completando trinta e oito anos, quanta jovialidade!  Depois de viver quatro ou cinco relacionamentos, eu estava numa relação estável há mais de nove anos.

Uma lembrança desgarrada trouxe a imagem de quatro meses antes, quando eu retornei à faculdade, daquela vez para um curso na área de tecnologia. Ótima escolha!

Não tenho muitas lembranças da primeira parada de São Paulo, mas ela ocorreu em junho daquele ano com pouco mais de duas mil pessoas. Aliás, as lembranças me cobram uma justificativa histórica: A primeira parada gay brasileira não aconteceu em São Paulo, mas no Rio de Janeiro dois anos antes, em 1995, exatamente vinte e cinco anos depois da primeira parada gay do mundo, realizada em Nova York.

Opa! Nova York? Que lembrança boa! Talvez por isso não me recordo da parada de Sampa, pois naquele junho, as lembranças me embarcaram de férias para a América do Norte, passando por Manhattan, não por mera casualidade, conheci o famoso Bar Stonewall.

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Parada Gay de Nova York em 1997

Hoje essa memória me parece tão recente, pois para mim o bar era referência da resistência dos gays contra os abusos policiais, justamente, por ser um gueto gay. De quebra naquela semana retornando do Canadá pude ver de perto a parada na ilha de Manhattan.

Minha memória crítica indica que aquela parada não foi o que eu esperava. Imagens estranhas e bizarras de gays com pênis e bundas à mostra. Que coisa mais decadente! Ou a decadência estava no meu conservadorismo latino americano? Hoje essas lembranças assemelham-se às cenas dos filmes do mestre Pasolini.

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RuPaul em 1997

Lentamente alguns flashes coloridos se descortinaram. Um final de tarde, sol ardente, um palco e lá estava ela, a diva: RuPaul fervendo e cantando no East Village ladeada por Drag Queens montadas de todas as cores, brilhos, perucas e saltos, muitos saltos altos.

Infelizmente as memórias não são táteis, aquela realidade ficou no passado e a realidade do presente amanhã será memória. Ah! Vinte anos depois, o que mudou?

Pois é, mudou muita coisa, principalmente, os direitos civis. Talvez você não perceba, mas as mudanças estão na raiz da família e da união estável entre gays. Crianças adotadas por casais de mesmo gênero são o que mais me impressiona, enquanto isso, a parada gay de São Paulo me parece o mais do mesmo, ou as minhas memórias são injustas com a história?

Ela cresceu e se tornou uma jovem de vinte anos. Ela é um dos principais eventos da cidade e está no calendário oficial desde 2015, pois atrai turistas de todo o país e de países vizinhos. Os hotéis chegam a mais de 90% de ocupação e o comércio e serviços faturam alto.

Ontem na Avenida Paulista tudo foi muito lindo, muitas cores, personalidades e políticos aparecendo na TV, mas no chão caminhando rumo ao centro da cidade a estrutura era precária, tanto na segurança quanto no acesso a banheiros químicos.

No meio da multidão, gente de todas as cores, tipos e muitas drogas e bebida barata circulavam de mão em mão, nas esquinas das ruas, num cantinho escondido atrás de árvores, jovens gays e lésbicas dominavam a cena. Sim, os jovens predominam nas paradas brasileiras. Isso é bom, porque eles serão os maduros e idosos de um futuro melhor.

A parada anual continua valendo com temas diversos. Após vinte anos, vinte anos? Sim, vinte anos mais velho, mais experiente, muitos cabelos brancos, algumas perdas, novos amores. Assim é a vida, nada é eterno!

RuPaul ainda é memória e lembrança colorida daquele verão escaldante nova iorquino de 1997, tantas alegrias e descobertas, uma saudade efêmera!

Ontem numa das esquinas da parada, fui mero observador perdido na multidão, com a certeza de muitas conquistas coletivas para a população LGBT da cidade.

Para este blogueiro os melhores temas desses vinte anos foram:

  • 1998 – “Os direitos de gays, lésbicas e travestis são direitos humanos”
  • 2000 – “Celebrando o Orgulho de Viver a Diversidade”
  • 2002 – “Educando para a Diversidade”
  • 2003 – “Construindo Políticas Homossexuais”
  • 2005 – “Parceria civil, já. Direitos iguais! Nem mais nem menos”

Quase uma década, entre 2006 até 2014 os temas só trataram da homofobia. Falta de criatividade! Em 2016 o tema foi justo e legal. Olhá só, já estou falando no passado, aliás, é passado, mas está registrado neste blog.

Enfim, aos poucos as memórias desses vinte anos vão se dissipando e cá estou de volta à realidade brasileira, com mil defeitos e muitas coisas boas, ainda assim, a minha verdadeira realidade.

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Da leitura aos filmes gays e às ONGs

211524191vf4a6a0Caro leitor dos grisalhos, você sempre me pergunta através de Email como eu adquiri tanta experiência e como tenho tantas histórias para contar, além da minha compreensão e aceitação da homossexualidade.

Para entender quem eu sou ou porque sou gay, não bastou apenas crescer, amadurecer e adquirir experiência de vida. Uma das melhores maneiras de entender a minha homossexualidade foi buscar na leitura, as razões de ser diferente.

Os gays  tem à sua disposição uma gama de opções de literatura, seja ficção, romance, fatos reais, trabalhos acadêmicos e a Internet com uma diversidade de informações, inclusive, este blog.

Quem tem hoje acima dos cinquenta anos, nasceu até meados dos anos 1960 e naquela época, além da repressão da ditadura militar, o mercado editorial brasileiro era restrito e praticamente não existia literatura específica, salvo obras clássicas da Europa e Estados Unidos..

Muitas histórias da literatura gay, por exemplo, foram transformadas em filmes. Tem gente que não gosta de ler, mas gosta de assistir filmes. Eu gosto dos dois, mas sempre gostei de assistir filmes de todos os gêneros e os temáticos sempre foram meus preferidos, daí derivou uma coleção que hoje tem mais de trezentos títulos, além de muitos títulos duplicados.

Na minha estante tem de tudo um pouco e abrange praticamente todo o universo homossexual e bissexual: lésbicas, travestis, transexual, gay masculino jovem, maduro ou idoso.

Cada filme sempre ocupou um espaço na minha vida para a reflexão, seja no drama, na comédia ou tragédia e mesmo um filme sobre lésbicas sempre tirei lições para a minha vida, porque a única diferença é o gênero.

O primeiro filme que assisti no cinema foi Morte em Veneza em 1974 e de lá para cá eu viajei por incontáveis histórias do universo homossexual, masculino e feminino.

Hoje tem sempre um filme temático em cartaz e muitas produções brasileiras, o que me aproxima ainda mais da minha realidade.

Eu gosto de assistir filmes do Festival Mix Brasil e outros que não passam em circuito comercial ou alternativo e são lançados diretamente em DVD.

Como o leitor pode observar, desde os meus quinze anos, eu cai de cabeça neste universo para entender quem eu sou e posso afirmar que valeu muito a pena, porque além do entretenimento eu adquiri conhecimento.

Quem acompanha meus escritos sabe que é lá na chácara que eu tenho tempo para reflexões sobre a minha vida e também para pensar em temas para escrever aos leitores.

Recentemente, lá estava eu sentado na varanda, observando a natureza, olhando e ouvindo os pássaros e veio um insight.

Regis, quando você partir desta vida, o que vai ser da sua coleção de filmes temáticos?

Algumas hipóteses: Minha família vai queimar tudo ou destruir, talvez venda para qualquer sebo e por qualquer preço.

Eu fiquei triste com essa constatação, mas estou numa fase de desapego de coisas materiais, então eu decidi:

Ou faço doação desse acervo para alguma ONG ou videoteca, consciente de que pode servir ou não aos propósitos de terceiros, ou eu mesmo posso dar o encaminhamento para cada um desses títulos.

Enfim, desapeguei e decidi vendê-los eu mesmo em vida, pois quem comprá-los vai aprender através das histórias algo sobre a homossexualidade, assim como eu aprendi.

Também decidi que de todo o valor arrecadado com cada venda, descontadas todas as despesas de comissão, custo da loja virtual, taxas etc. será revertido para uma ou duas ONGs que atua com gays, preferencialmente, soropositivos. O pagamento das doações será feitos às entidades ao final de um mês ou dois meses e dependendo das movimentações das vendas.

Parte do meu acervo já está disponível no Eshops e tem muitos dvds e blu-ray nacionais e importados, novos, lacrados, usados e todos em excelente estado de conservação. Não se assuste com os preços, afinal é para fins sociais.

Eu sei que isso vai tomar um tempo, mas o meu companheiro vai ajudar, principalmente, para fazer as postagens.

Breve, também estarei aposentado e fora do mercado de trabalho e como até lá eu não venderei tudo, talvez use o tempo livre para dar continuidade neste projeto, que para o leitor pode parecer simples, mas para mim tem um grande significado.

Enfim, caso você tenha interesse poderá ver o acervo e fazer compras, no link a seguir:

http://eshops.mercadolivre.com.br/GRISALHOSGLS

Caro leitor, neste projeto pirataria não tem vez. Não tenho cópias, não faço cópias, eu odeio cópias.

Uma das ONGs escolhidas para receber doação é a GPV-RJ – Conheça clicando aqui

Outra ONG será de São Paulo.

 

 

Publicado em Sexo, Sexualidade

Da infância à maturidade gay

casal_passarosOutro dia lá na chácara eu observei um casal de pássaros e imediatamente me veio à mente: É um macho e uma fêmea. Será?

Como não sou especialista em pássaros não pude confirmar o gênero daquelas aves, mas sobre seres humanos e especificamente os homossexuais eu tenho uma coleção de experiências de vida e dá para arriscar escrever algumas coisas interessantes sobre eles, ou melhor, nós os gays.

Algumas ideias para despertar o interesse 

A busca por parceiros não é algo sobrenatural. Obviamente, ninguém nasce sabendo e o sexo é feito de descobertas, inclusive, quando descobrimos que gostamos do mesmo gênero. É muito gostoso gostar de homens!

No início é um choque não estar no grupo da maioria, mas desde cedo temos a tendência natural de observar aqueles seres que nos atraem fisicamente. Pode ser um colega na escola, um professor ou diretor, um colega de rua, o irmão do colega, o tio, o pai do amigo e por ai vai – Todos gostosões!

Não é regra, mas a iniciação sexual dos gays não ocorre naquele troca-troca entre coleguinhas durante a infância. Não é ali que se define quem é homem ou não, são brincadeiras sexuais. Talvez isso ainda ocorra, mas é um processo normal do ser humano e tudo vai depender do contexto social e das circunstâncias dessa ocorrência e da orientação sexual que vem do útero materno. Delícia ser gay desde o DNA!

Sabe-se que podem ocorrer vários tipos de abordagens. Parece que os mais velhos identificam suas presas através do comportamento e atitudes dos mais novos ou mais fracos. É a lei da sobrevivência das espécies. Ai acontece de tudo, desde uma simples brincadeira sexual, como mostrar o pênis para o outro, masturbar e até estupros praticados por homens mais velhos.São os pedófilos de plantão. Tirando os ófilos todos os outros são bem-vindos!

Infância e pré-adolescência

Sobre a iniciação sexual dos homossexuais não existe um padrão, mas penso não ser regra e invariavelmente, não ocorre na infância, explico:

Eu comecei a perceber que gostava do mesmo gênero, lá pelos dez anos. Até então eu não tinha insights sobre sexualidade, apesar de sentir algo diferente eu não sabia bem o que estava acontecendo e o que estava por vir.

No meu caso, a descoberta da homossexualidade foi um processo que se iniciou na virada para a pré-adolescência, entre os dez e treze anos. Lembro-me que naquele período ocorreu o que eu chamo de “nascer de novo”, pois foi quando a homossexualidade aflorou na minha vida e deixei de ser anjo ou inocente.

Num período de três a quatro anos tudo aconteceu muito rápido. Os primeiros olhares para professores mais velhos e gostosos, a observação mais detalhada de vizinhos mais velhos e até um tio irmão da minha mãe, mas, ele não tinha os atributos físicos que eu já delineava como ideal. Sim, porque é na pré-adolescência que começamos a definir o nosso padrão de parceiro e isso vai mudando com o decorrer dos anos.

Adolescência

Foi com quatorze anos quando finalmente comecei as brincadeiras com um homem, também gay. Fui eu que procurou, provocou, insinuou e me permiti, não fui seduzido, violentado ou estuprado  e desde cedo eu era atirado e ávido por descobertas. Incontáveis sessões de punhetas, sexo oral e anal.

No universo de bissexuais e homossexuais eles existem para cumprir o seu papel de iniciar os mais novos nas práticas homossexuais. Os mais velhos não vivem sem os novos e vice-versa. É algo natural!

Eu creio que este ciclo é igual no universo heterossexual com diferenças no contexto social, porque eu não namorei um homem no portão da casa, seria ridículo naquela época ou com a presença de familiares, ainda mais sendo ele mais velho.

Minhas paqueras e investidas ocorriam num mundo secreto, onde os encontros aconteciam num matagal perto de casa, longe dos olhares de qualquer ser humano e eu nunca medi os riscos daqueles encontros.São lembranças inesquecíveis, talvez seja recorrente, pois adoro a natureza e transar no mato ainda dá muito tesão, pois está associado à aventura.

Os riscos estão inseridos no nosso cotidiano e é preciso cautela nessa fase da vida, pois não temos as manhas e experiências para enfrentar adversidades. Isso vale para todos os gays de qualquer lugar do mundo, porque o matagal da minha adolescência pode ser o terreno baldio do seu bairro, uma construção abandonada, praias desertas, lugares ermos ou um passeio de carro por lugares afastados da vila ou cidade.

Juventude

Bem, antes mesmo de completar dezoito anos, eu migrei os meus encontros para locais menos perigosos e mais seguros, entre paredes de hotéis e motéis da cidade. Naquela época os meus parceiros mais velhos pagavam para eu ter acesso, principalmente, aos motéis. Acho que é assim até hoje porque gays entre dezesseis e dezoito anos frequentam motel.

Obviamente, muitos homossexuais não têm esse tipo de experiência, mas essa iniciação é necessária, é o ensino fundamental do sexo, o curso básico para entender a complexidade das relações sexuais que são matérias essenciais à formação do cidadão gay.

A partir da maioridade, tudo é permito, por lei e por vontade própria, pois se assume atitudes próprias, tipo: Sou dono do meu nariz! Alguns ficam enclausurados nas suas neuroses de não aceitação, mas o desejo é mais forte e os conflitos interiores vão permear suas vidas. Outros se sentem livres para vivenciar a homossexualidade em sua plenitude.

Nesta fase os jovens são o centro do universo gay, por sua beleza e dotes físicos, estão com a testosterona à flor da pele. Busca-se nesta etapa parceiros para sexo, o sexo é o motor propulsor das nossas vontades. As formas de abordagem transformam-se do surreal em algo natural e é natural, ou não?

Aqueles que gostam de parceiros da mesma faixa etária saem para o mundo de mãos dadas, livres das amarras da repressão social; outra parcela busca parceiros mais velhos com idade entre os quarenta e o infinito, e se depara com as dificuldades de relacionamento, fato natural neste grupo por motivos já sabidos e armazenados na memória. Restou uma pequena parcela que busca parceiros pré-adolescentes e mais jovens. É onde o ciclo de completa. Claro, tem também maduro com maduro e idoso com idoso e a minha situação atual é maduro com idoso.

Maturidade

Quando se percebe a infância e a adolescência parecem apenas sonhos, a juventude que estava logo ali ficou distante. É o prenuncio da maturidade, fase de escolhas pessoais definitivas, não tem mais volta!

Hoje vale tudo! A era de ouro do romantismo ficou no passado, mas sempre existirão gays românticos – Uma parcela dos gays maduros está casada, em relação estável, outra está solteira, sem companheiro, buscando de bar em bar, nas saunas e boates, salas de bate papo, rede social, Whatsapp, dia e noite, desesperadamente alguém para preencher uma hora da vida, um corpo na cama ou a troca de parceiros, relações abertas.

Outros saem sem rumo e ocupam qualquer espaço público das cidades para serem percebidos ou observados, mas o mundo atual os transforma em seres invisíveis e mesmo cientes da baixa probabilidade de encontros ao acaso, por isso são chamados de casuais, não se desiste de buscar uma chance de encontrar alguém, pois desde cedo nos condicionamos a buscar parceiros para satisfazer nossas necessidades homossexuais.

Vive-se nessa roda vida por longos vinte ou trinta anos. Nessa longa etapa consolidam-se objetivos profissionais, estabilidade financeira, viagens e muitas, mas muitas aventuras sexuais. Um troca-troca frequente de parceiros e ai a vida prega uma peça: O mundo dos sonhos materializa o parceiro perfeito, ideal, alma gêmea. A mente trata logo de processar a situação como infinita, até a morte – Inesperadamente o parceiro morre, essa é a vida!

Quem perde um companheiro amado diz que perde um pedaço de si. Anos depois de vagar sem rumo, busca novamente parceiros, alguns tentam encontrar o substituto do amante morto. Algo insubstituível! Outros buscam a clausura da vida, algo irracional, mas humano.

A maturidade traz aos gays certezas incertas, pois tudo é complexo e surreal, ainda assim humano, como os meninos solares que não se mexem à noite e intrigam os cientistas.

Hoje estou certo, amanhã errado, muda-se o rumo, troca-se de parceiro, o tempo passa, tudo se renova, as sociedades se transformam e o que ontem era proibido hoje é legal, está amparado por leis.

Não se surpreenda com uma notícia circulando nas redes jornalísticas sobre um homem que deu a luz a uma menina, após troca de gênero. Esta é a vida que se renova a cada dia, nos surpreende,  pois tudo é possível, inclusive, aos trans!

Da varanda da minha casa na chácara, observo os pássaros soltos na natureza, beliscando um ao outro, macho e fêmea? Não sei, não importa, pois tem até a história dos pinguins gays da Inglaterra e faz parte da natureza, não humana, mas dos seres vivos.

Caro leitor, deixo para você um trecho do poema Desiderata registrado na voz de Cid Moreira que fez muito sucesso nos anos 70:

Nós somos filhos do universo, irmãos das estrelas e árvores, você merece estar aqui; e mesmo que você não possa perceber, a terra e o universo vão cumprindo o seu destino.

Publicado em História, Memória

Bar, Boate e Clube Off

off_espaçoQuem viveu os anos 70 na capital de São Paulo, participou das transformações sociais ocorridas na cena gay entre 1978 e 1990 – Do gueto gay do centro velho da cidade ao mercado LGBT das baladas que surgiram na região dos jardins.

 Eu tive o prazer de conhecer um dos lugares mais emblemáticos e chic da cena gay paulistana: O Clube Off, considerado o primeiro prive gay da cidade.

 O local foi aberto no final dos anos 70, mais especificamente em 1979 por Celso Curi, que havia sido editor da Coluna do Meio, no jornal Última Hora e que participou também do jornal Lampião da Esquina.

 Localizado na Rua Romilda Margarida Gabriel, 142, perto da esquina da Avenida 9 de Julho com Rua São Gabriel no Itaim Bibi, o clube fez história na cidade, mesmo localizado fora do circuito do centro velho onde ocorria a afluência de homossexuais naquele período.

 Originalmente era simplesmente um bar com uma pista de dança, conforme palavras do próprio Celso era um local onde não se pedia atestado de sexualidade, mas acabou se transformando num bar gay, porém muito frequentado também por não gays.

 Era um lugar legal e eclético, o Off fez parte da vida de muita gente importante e também de anônimos como eu.

 Eu estive lá pelo menos umas três vezes com amigos que vinham do Rio de Janeiro, única e exclusivamente, para ir ao bar.

 Lembro-me da primeira vez e foi mágico!

 Eu entrei naquele lugar no verão de 1980, por intermédio de um amigo que tinha convites prives. Na hora em que aquilo se abriu fiquei deslumbrado, era uma boate pequena e tudo era forrado de veludo vermelho, era pequeno e amontoado de gente, um monte de mulheres, homens jovens e maduros, bonitos, todos perfumados, bem vestidos, era uma espécie de esconderijo da burguesia gay.

 Quando finalmente achei o bar foi um abre-te sésamo. Porque naquele lugar descobri que tinha centenas de pessoas como eu. Até hoje recordo das duas letras “ces” em neon, imitando os da Coca-Cola numa das paredes do bar.

 Naquela noite foi tudo hipnótico, durante horas eu só olhava, não fiz nada, não falei com ninguém, fiquei catatônico, observando o local e as pessoas. Homens se relacionando afetivamente da maneira que eu achava totalmente proibida. Eu fiquei literalmente hipnotizado durante horas, só olhando, percebendo que aquilo existia.

 O Clube Off foi mais um acontecimento na minha vida, pois comecei a sentir que ser gay era pertencer a uma sociedade secreta, era ter passe livre para um universo muito mais interessante, mais colorido do que todo mundo via.  Aos vinte e um anos de idade eu confirmei que existia um mundo gay além de tudo o que eu conhecia dos guetos do centro velho da cidade, mesmo tendo conhecido a Boate Medieval na Rua Augusta pertinho da Avenida Paulista.

 No turbilhão dos anos 70 e 80, eu ia às festas, experimentava coisas, olhava gays dançando de maneira extravagante e ninguém que eu conhecia fazia coisas divertidas quanto eu, então foi muito interessante fazer parte daquele clube fechado.

 No auge da casa, a procura era tanta que o dono da Off chegou a desenvolver artifícios para restringir o seu público. Para entrar, as pessoas faziam uma carteirinha, pagavam uma taxa por ano, tinham de ser indicadas por outras cinco pessoas. Assim, selecionava um pouco a frequência. Claro que tinha gente que chegava de fora da cidade e entrava e se você fosse bonitinho era mais fácil. Esse foi o mote para o lugar ser chamado de Clube Off, uma coisa particular e privada.

 O fechamento da boate Off ocorreu devido à expansão da cena gay em São Paulo e à virada do mercado de consumo LGBT. Aliás, teve tantas boates gays que surgiram e desapareceram que nem dá para detalhar e quando lembro de alguma eu trago aqui no blog.

 Off deixou saudades, pois era algo com conotação de secreto, ou prive aos quais poucas pessoas tinham acesso, seja por limitações econômicas ou por não integrar redes sociais em que as informações a respeito de lugares como o Off circulasse.

 Era um lugar protegido, onde se desenvolvia um universo paralelo, cuja condição de existência era justamente o fato de ser fechado ao mundo exterior.

 O Clube Off conseguiu reunir durante sete anos todos os públicos, até que,em 1986, Celso Curi transformou a casa noturna num teatro, com o nome de Teatro Espaço Off, embrião de seu maravilhoso guia teatral de mesmo nome, que existe até hoje em SP e RJ, inclusive, no Facebook, cuja logomarca é a imagem que ilustra este post.

Off é mais um fragmento da minha existência! Obrigado Celso!