Arquivo mensal: abril 2016

Nostalgias e Melancolias dos gays

gay_idoso_em_crise2Carlos Heitor Cony escreveu: Nostalgia é saudade do que vivi, melancolia é saudade do que não vivi.

Com o passar do tempo temos propensão de lembrarmos-nos do passado com nostalgia, dos bons momentos vividos, de coisas, situações e pessoas, mas também dos maus momentos ou momentos não vividos da forma como gostaríamos de vivê-los.

E porque isso acontece? Vou tentar explicar

A nostalgia é a sensação de saudade e a melancolia é um estado de grande tristeza e muitas vezes associada à depressão.

As lembranças que temos do passado, sejam elas boas ou ruins, invariavelmente, são de caráter emocional, pois a noção de identidade pessoal pressupõe a relação entre experiência e memória. Subentende, ainda, o estabelecimento de vínculos, sejam eles ligados à natureza, de caráter étnico, religiosos, de classe ou afetivo.

Para os gays esses vínculos, balizam, bem ou mal, a inserção na sociedade.  Por isso temos a noção de quem somos e como é o mundo, porque independente da nossa sexualidade sentimos a necessidade de nos inserir numa ordem sociopolítica, cultural e cognitiva, em uma ordem de valores, que possam nortear nossa visão de mundo e nossa relação com os outros.

Quando eu era jovem sentia a necessidade de inserção social, mas sempre vinha à minha cabeça: o que pode acontecer se descobrirem que sou gay? Hoje a necessidade de inserção não é tão importante porque o meu círculo social já está consolidado.

Igual a mim, penso que os gays acabam restringindo a inserção social por medo do confronto, ai passa-se a viver num mundo com limitações e isso também vai limitar a interação social.

Isso é fato, mas somos capazes de adaptações porque nossa vida não é apenas sexo e no decorrer da vida vamos interagir com o mundo, mesmo sendo ele predominantemente heterossexual.

crazy loucos de amor 2A nostalgia e a melancolia não ocorrem apenas na velhice, elas ocorrem em qualquer momento da nossa vida.

Podemos ter saudade de colegas, amigos e amantes, mas também sentimos saudade dos nossos familiares e de coisas que fazíamos noutros tempos que nos davam prazer e felicidade.

Eu por exemplo tenho nostalgia dos tempos da faculdade e não há uma razão específica para isso. É recorrente na minha vida. Talvez ocorra porque estudar me dava prazer e a homossexualidade nunca atrapalhou minha relação com professores e colegas de classe. Também não tenho saudades de ex-parceiros e olha que não foram poucos, pelo menos uns cinco relacionamentos mais estáveis. Hoje todos são falecidos e não me vem sentimentos nostálgicos. Já da família vez ou outra tenho nostalgia dos tempos vividos com a minha mãe.

Não é regra, mas os gays têm saudades da juventude porque eram belos, formosos e estavam sempre no centro das atenções. Eram cobiçados e disputados a tapas por amantes, ou porque os gays em sua maioria preferem os jovens – O hedonismo do mundo gay.

Às vezes nos frustramos, principalmente, nas relações humanas e com o tempo isso vai gerar tristeza e melancolia decorrentes das perdas ou de coisas que deixamos de fazer.

Sobre os gays mais velhos, um dos motivos da nostalgia é porque se tornam seletivos, a velhice em si traz a saudade e isso não significa dizer que a formação da identidade individual e coletiva dos gays se constitua de maneira imutável. O termo formação já carrega em si o sentido de algo em percurso, em vir a ser.

Essa noção de identidade e de história de vida pressupõe, ainda, uma relação efetiva e durável com o mundo exterior, o mundo dos seres e das coisas e ao nos tornarmos seletivos, nossas relações sociais são mais efêmeras porque vivemos numa sociedade que além de discriminar os homossexuais também discrimina o velho.

Portanto, eu digo: Viva intensamente toda a sua juventude, porque para envelhecer você tem toda a eternidade – isso é uma referência aos escritos do poeta persa Omar Khayyam.

Há gays maduros e idosos que tem espírito e mente jovem, abertos às transformações sociais e culturais e adaptam-se facilmente ao tempo presente. Isso é facilitador para inserção social e vai somar para sentimentos de nostalgia positiva.

Os seres humanos são frágeis e  nossa sexualidade contribui para mais fragilidade, logo, colecionamos uma dezena, talvez, centenas de situações ao longo da vida que nos trarão sentimentos de nostalgia ou melancolia. A balança vai pesar mais para o lado que você escolheu ou optou viver, ou não.

Você pode ter nostalgia dos momentos da juventude, das baladas, dos bares, das boates, viagens, mas principalmente de momentos vividos com outras pessoas.

A melancolia traz sensação de grande tristeza e é mais comum aos gays do que imaginamos porque se privam de viver a vida com plenitude devido a não aceitação da homossexualidade. Outro fator que acentua a melancolia são as perdas, principalmente, de parceiros queridos e amados por longos períodos ou anos.

A própria velhice e a finitude da vida traz momentos melancólicos.

Eu recomendo ao leitor fazer um exercício: Tente ficar um final de semana sem contato com outras pessoas, sem conversar com ninguém e completamente isolado e desligado do mundo exterior.

A primeira coisa que vem à mente são as situações vividas ontem, na semana passada e assim vai. Isso ocorre porque as coisas do mundo tem a função de estabilizar a nossa vida. Os seres humanos estão em contínua mutação, portanto estamos sempre renovando nossa relação com objetos, situações e pessoas.

Essa faculdade de as coisas do mundo terem o poder de estabilizar a vida humana, bem como, as relações entre os seres humanos, por mais conflituosas que venham a ser, é o que gera infindáveis modos de integração, percepção e enraizamento.

Implica, portanto, a criação de quadros de referências e de valores, com os quais toda e qualquer experiência humana entrará em contato, seja negando, transformando ou endossando-os como vetores para a estabilização, sempre relativa, às vezes contraditória e ambígua, da trajetória de vida dos seres humanos.

Hoje vivendo entre a maturidade e a velhice eu consigo perceber que o mundo comum está retirando-se para as sombras e posso perceber mais claramente o quanto necessito dele.

Por um longo tempo, essa necessidade foi esquecida pela satisfação que acompanhou a minha descoberta de uma vida interior plenamente desenvolvida, liberada ao menos dos olhares curiosos dos vizinhos, dos preconceitos do bairro, da desconfiança dos colegas de trabalho e da presença inquisitorial dos mais velhos, de tudo que fosse acanhado, asfixiante, insignificante e convencional.

Mas, agora, é possível ver que o colapso da minha vida comum empobreceu também a minha vida privada; libertou a minha imaginação dos constrangimentos externos, mas, ao mesmo tempo, expôs mais diretamente à tirania das compulsões e ansiedades internas.

Assim, nostalgia e melancolia estão ai esperando o momento de aflorar e vai depender exclusivamente de cada um permitir o que deve ou não fazer parte das suas emoções presentes. Hoje eu vivo momentos nostálgicos e se a melancolia bater à porta eu deixarei entrar sem arrependimentos ou traumas.

Caro leitor dos Grisalhos, desejo a você um ótimo feriado e aproveite esses dias para viver momentos felizes e prazerosos, pois esses momentos serão figurinhas do seu álbum de nostalgias no futuro.

Homens gays cisgênero

 

gay_cisgeneroCaro leitor dos Grisalhos, este artigo complementa o artigo publicado em fevereiro sobre o machismo no mundo gay. O que escrevo não é verdade absoluta, logo você pode discordar do meu ponto de vista. Relato aqui diversas situações reais vividas por mim e por outros gays porque é importante a discussão desses temas e que isso contribua para o entendimento de quem somos, portanto, boa leitura.

Você deve estar pensando: Caramba Regis! que termo mais acadêmico para o título deste artigo.

Pois bem, vamos às explicações:  Em estudos de gênero, cissexual ou cisgênero são termos utilizados para se referir às pessoas cujo gênero é o mesmo que o designado em seu nascimento.

Simplificando: Sou gay mas sou do gênero masculino, tenho pinto e comportamentos masculinos,ou seja, apesar da minha orientação sexual, continuo a me identificar como homem.

Ao longo da minha vida isso sempre me confundiu, pois eu não entendia porque eu era homem e gostava de homens.

Hoje aos 57 anos sei perfeitamente quem eu sou e essa coisa de gênero passa longe e de uns tempos para cá eu simplesmente digo: Sou um homem gay.

gay_cisgenero1Eu gosto de homem, amo os homens, invariavelmente, mais velhos e não troco uma relação homossexual por relação heterossexual nenhuma, mas devido às circunstâncias adaptei-me como homem e sou quase um camaleão de tanto que me transformei em incontáveis situações do cotidiano, porque são as atitudes que mostram quem você é, e não suas preferência sexuais.

A sociedade nos identifica por genero, comportamentos e atitudes e a sexualidade complementa o ser humano

Um amigo dizia: Olhe-se no espelho e tente identificar se você tem características femininas, trejeitos ou tente sentir se você é uma mulher aprisionada num corpo masculino, se a resposta for negativa você está no grupo da maioria dos gays. Isso é normal e faz parte da natureza humana, você não é aberração e isso não vai mudar, também, não existe cura da homossexualidade e esquece a ideia de querer reverter o que a natureza fez.

Fui buscar na minha adolescência os motivos do porque eu sou assim pois nasci gay e vivi a infância e a juventude, inserido num contexto social familiar e religioso heterossexual. Fazia tudo dentro da normalidade mesmo sendo diferente.

Frequentei salas de aula na periferia de São Paulo e sem nunca sofrer bullying, vivi em ambientes tipicamente heterossexuais, servi ao exército sendo soldado raso, frequentei campos de futebol na várzea paulistana e ia aos bailes semanais para me divertir, mas quanto me vi diferente e atraído por homens mais velhos foi um choque e dali pra frente eu sempre procurei parceiros com comportamento dito “normal”. Isso não tem nada a ver com traumas ou ausência paterna, porque sempre tive tesão por homem, aliás, prefiro os peludos, nunca gostei dos imberbes, talvez porque remeta ao feminino.

Sabe aquela coisa gostosa de dois machos se tocando, roçando e entrelaçando as pernas, beijando e fazendo amor? É disso que eu gosto. Eu sempre gostei de homens gays, também, nada contra, mas passei longe dos bissexuais.

Após a descoberta, ao me inserir em diversos contextos sociais eu me sentia excluído e todos os gays se excluem por ser diferente. Aí eu ia às boates e principalmente aos bares gays porque lá eu estava inserido num grupo de pessoas iguais a mim. Eu não precisava engrossar a voz ou estar em constante vigília sobre os meus gestos, comportamentos e olhares.

Nos guetos eu aprendi quase tudo sobre os gays. Eu sempre observava os homens buscando cacetes e ávidos por uma foda, os mais tímidos buscavam parceiros para algo além do sexo e a maioria chegava sozinha e assim saia. Alguns se contentavam com uma trepada eventual ou um bate papo para passar o tempo. Em bares gays fala-se sobre tudo e é claro, sobre as preferências sexuais. Também tem muito gay maluco, com muitos problemas psicológicos e taras inenarráveis + os alcoólatras de plantão.

Lembro-me que nos bares, os gays eram em sua maioria semelhantes, alguns mais soltos e a maioria mais retraída e comportada. Todos batendo papo, fazendo piadas, paquerando e vivendo a homossexualidade reprimida. Era uma terapia!

Os bares da atualidade não são diferentes daqueles dos anos 70. Vez ou outra eu passo num bar perto de casa e o ambiente me lembra do clássico boteco heterossexual, cuja sobriedade às vezes é quebrada quando uma bicha tresloucada aparece e agita o local.Isso é ótimo!

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Num mundo onde predomina o individualismo, ainda assim os gays sentem-se acuados porque o padrão é heterossexual e por mais que a minoria tente inserir-se socialmente acabam confinados ou dentro de casa ou nos guetos. O que vejo em São Paulo e o que vi durante minhas férias no sul do Brasil e em Minas Gerais confirmam isso – São poucas andorinhas buscando um verão pleno!

Ser gay com tipo e comportamento de homem não tem nada demais, exceto os radicais, aqueles que abominam outros gays efeminados e viadinhos, quando na verdade todos são viados.

Um dos meus casos dizia: Na rua sou homem e faço questão de demonstrar isso para não perder o respeito e na cama sou uma fêmea sedenta por um macho e não preciso ficar por ai “dando bandeira”, para não levar porrada ou ser discriminado e não serei eu a próxima vítima.

Eu nunca tirei a sua razão, afinal ele nasceu em 1936 e viveu a plenitude da juventude nos anos 1950. Se hoje ainda é difícil para os gays, imagine há mais de sessenta anos?

Bem, já adulto a minha vida seguiu adiante e não mudei meu comportamento e descobri que os gays machos em geral não gostam de gays delicados ou efeminados e preferem relacionar-se com os seus pares com as mesmas características, macho com macho, exceção daqueles que preferem travestis ou garotos de programa com características femininas.

Eu particularmente não gosto de gays delicados, mas faço uma ressalva: Não tenho preconceito e nunca tive e sempre me relacionei socialmente com eles numa boa. É apenas uma questão de gosto pessoal para relacionamento. Agora se o cara é assim, eu não vejo com olhos críticos.

Muitas bibas e bichas passaram na minha vida e ajudaram a moldar quem eu sou – Um homem vivido e bem resolvido, porque antes de ser gay eu sou homem. As bonecas fizeram parte da minha adolescência e foi uma fase de aprendizado e isso não alterou ou influenciou o meu comportamento.

Recentemente conversei com alguns gays  e observei rejeição do tipo: não sou e não gosto de gays efeminados. Não gostar é uma coisa, não tolerar e não querer ver por perto é outra, mas quem frequenta guetos sabe que todos os tipos estão lá pelo mesmo motivo e a exclusão social dos efeminados no meio gay é evidente.

Existe um grupo de gays que não se mistura e vive no mundo heterossexual como se não existisse homossexualidade e passa longe de Parada Gay ou movimentos LGBT.

Eu tenho um conhecido que é completamente pirado. Ele é solteiro e mora com a família e diz ser homem 24 horas e apenas uma vez por semana e durante duas horas é gay e viado. Diz ainda que é excitante e fantasioso e que dá tesão quando encontra o amante.

Muitos também não aceitam gays demonstrando afeto em público por considerarem falta de respeito – Isso é padrão e olhar heterossexual. Eu e meu companheiro não fazemos demonstrações públicas e somos reservados, mas não criticamos quem o faça porque sabemos que existem gays que dão a cara para bater e não estão nem ai para a sociedade.

Demonstração de afeto em locais públicos vai da cabeça de cada um e nos dias atuais é o que se vê diariamente pelos espaços públicos das grandes cidades e porque não das pequenas também.

Outros gays até odeiam pessoas assumidas, visíveis ou ligadas a movimentos homossexuais. Eu penso que sem gays assumidos não teríamos conquistas sociais e políticas e esse ódio é reflexo da não aceitação individual da homossexualidade. Ou não existem gays com cara de macho nos movimentos sociais?

blog_grisalhos_relacoes_gaysOutro fator recorrente é a promiscuidade. Outro conhecido diz que os gays são promíscuos. Ele generaliza porque acredita que a promiscuidade é própria dos gays e não é bem assim porque o mundo heterossexual está cheio de promiscuidade. A promiscuidade é própria dos seres humanos.

Lembro-me dos anos oitenta e noventa quando amigos gays diziam nos bares que a AIDS era coisa exclusiva de gay e a história tratou de mostrar que eles estavam errados.

Para esses gays os homossexuais devem ser comportados, educados e principalmente discretos. Para eles ter comportamento heterossexual é fácil porque além das características físicas estão assimilados nesta postura.

Você pode ser um gay cisgênero e viver a sua vida tranquilamente, com aceitação pessoal da homossexualidade e não olhar para o mundo gay como se você não fizesse parte dele.

Não dá para excluir-se, você pode optar por não frequentar locais de frequência dos gays, não se misturar, mas a sua homossexualidade está ai.

Recentemente eu assisti ao filme Big Eden e o enredo é exatamente o padrão comportamental dos gays.

Um gay de Nova York vai ao Alabama local da sua infância e juventude para cuidar do avô e tenta viver à parte da sociedade interiorana, mas uma amiga interpretada pela excelente atriz Louise Fletcher diz: Harry você precisa parar de fugir, nós estamos cansados de tentar te amparar e te acolher. Você tem que parar de se esconder para podermos estar juntos.

O diálogo no filme é emocionante e mostra que nem sempre as pessoas estão interessadas na nossa sexualidade, mas no ser humano frágil, querido, respeitado e amado.

Quando eu era adolescente meu pai dizia que eu era o machinho da família, coitado do sr. Antonio! Ele ainda vive e nossa relação é muito legal, aliás nas férias reservei uma semana para festejar o aniversário de 80 anos. Foi maravilhoso! Hoje ele diz que tem orgulho do filho que tem e não precisei dizer que sou gay ou sair do armário. Obviamente ele sabe e me respeita do jeito que sou. Isto é o que importa!

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