O machismo no mundo gay

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Poster de Tom of Finland

Há muito tempo eu busco entendimento do porque os gays em geral não falam sobre suas preferências sexuais. Entenda como preferências: ser ativo, passivo, nem um nem outro, apenas sexo oral sem penetração ou masturbação.

Tudo bem, ninguém é obrigado a expor sua intimidade ao mundo, mas conviver ou ter amizade com outro gay e não tocar no assunto pra mim é coisa de viado recalcado e esse silêncio acentua-se na velhice.

Há dois mundos distintos: Um é o mundo da busca por parceiros onde se expõe abertamente as preferências em anúncios classificados, salas de bate papo, nas redes sociais, etc. Outro é o mundo do cotidiano, das relações pessoais e sociais.

Digo isso porque fico puto quando pergunto para algum gay que conheço qual a preferência sexual e ele se esquiva ou diz que isso não é pergunta que se faça. Tudo bem depende da relação que você tem com a pessoa, mas a maioria faz cu doce – É o armário do armário sexual!

Sempre tenho a impressão de que o mundo gay é machista quando o assunto é sexo, pois mesmo os efeminados não são necessariamente passivos, bem como, aquele com cara e tipo de homem na cama é uma menina moça sedenta por uma vara dura e grossa.

Se você tem intimidade com outro gay qual o problema de abrir as preferências? Eu nunca escondi, apenas selecionei a quem contar, vai da confiança e da maturidade.

Conheço um casal há mais de dez anos e até hoje nunca se falou de sexo. O que vi e vejo nesses anos são apenas pequenas e poucas demonstrações de carinho e olha que ambos têm o tipo comum de homens. Nenhum deles nunca abriu pra mim o que gosta de fazer na cama. Quem sabe para não comprometer o outro.

No último final de semana estive no litoral e passei no QiButeco do Laerte em São Vicente. Por ser um point gay, revi muitos conhecidos e durante mais de duas horas apenas observei os gays em suas conversas só de amenidades e não percebi ou ouvi nada sobre sexo.

Certa vez fui à sauna e encontrei um conhecido. Além da surpresa por não saber que ele era gay, vi o dito cujo dando o rabo no Dark room, não para um, mas para dois ao mesmo tempo. Algum tempo depois me procurou e veio com desculpas de que estava bêbado e que tinha sido drogado na sauna e pedindo para não contar para ninguém. Esse tipo de situação é muito comum. Obviamente, não abri o bico, mas foi uma tremenda forra porque o cidadão era pra lá de convencido e machão.

Esse machismo exacerbado é cultural e está no DNA dos gays, mas na hora da conversa para acertar uma trepada, a maioria diz do que gosta antes de carregar o bofe para o hotel, justamente para não quebrar loucas.

Esse termo quebrar louça era uma gíria antiga dos gays. Quando dois homens passivos se relacionavam, sendo que as outras pessoas não entendiam quem era o ativo na relação.

Exemplo: Fulano e fulano são muito pintosos! O que eles estão fazendo juntos? Devem estar quebrando louças.

Outra situação comum são casais em relações estáveis, principalmente, entre jovens e homens maduros. A sociedade homossexual olha esta relação sempre dando ao mais jovem o papel do ativo e ao mais velho o papel de passivo. Mesmo que o jovem goste de ser passivo ele não expõe isso a ninguém por razões óbvias, quanto ao maduro nem se fala, se for passivo pode dizer que é ativo, também por razões mais que óbvias.

O gay jovem é assimilado desde cedo a manter comportamento másculo e não abrir suas preferências sexuais. Isso é ruim porque a descoberta da homossexualidade passa necessariamente por uma relação com outro corpo, consequentemente, a relação física é entre dois corpos masculinos e ambos com pintos.

Aliás, falando em pintos quem no mundo gay não gosta de um? Eu adoro mesmo que não seja para ser penetrado, mas pode ser chupado, masturbado, acariciado e por ai vai, assim como sei que o meu parceiro também gosta pois conversamos sobre isso naturalmente. Ah! Regis assim não vale, ele é seu parceiro. Acredite até entre parceiros não se conversa sobre preferências ou mesmo fantasias.

O machismo do mundo gay está condicionado não ao fato de manter relação sexual com outro homem, mas ao fato de não ser permitido encarar uma possível passividade, porque ser passivo significa ser submisso e está relacionado ao feminino, ser inferior – Pura bobagem!

Recordo-me de um coroa que conheci lá pelos idos de 1980. Nosso primeiro encontro foi sem sabor porque ele tinha um cacete respeitável e bem maior que o meu. Eu desejava usá-lo de todas as formas, mas o homem não deixou claro do que gostava, ficou calado e impassível. Enfim, gozamos na punheta.

No segundo encontro fui objetivo: Ou você me diz do que gosta ou nada feito. O homem se abriu dizendo que tinha desejos de ser penetrado, mas não tinha coragem de dizer. A partir daquele diálogo tudo fluiu naturalmente.

Então essa coisa de abrir as preferências sexuais com colegas e amigos tem a ver com confiança? Sim , porque a confiança de certa forma garante que a notícia não vaze e você vire motivo de chacota.

Nos ambientes gay fala-se muito em beleza e corpo, seja ele jovem ou maduro, mas o pensamento de cada um está idealizando e imaginando como será o pênis e nem se ventila a possibilidade de dizer que gostaria de sentir a vara do macho, nem que seja apenas por uma noite.

Também, fica a impressão que essa coisa de sexo se resolve na hora e não é bem assim. O gay deve estar bem resolvido nessa questão para vivenciar a sua homossexualidade numa boa.

Nota: O machismo no mundo gay é a primeira parte de um assunto amplo e que será explorado no próximo artigo onde escreverei sobre os gays heteronormativos.

Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 24/02/2016, em Comportamento e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 12 Comentários.

  1. Olá Regis, sempre recebo seus emails e acompanho seu blog.Gostaria de saber se voce conhece algum canal gay no youtube, feito por homens gays maduros para o publico de homens gays maduros.

    Um forte abraço Luiz

    Date: Wed, 24 Feb 2016 16:39:32 +0000 To: luizcarlos_sa57@hotmail.com

  2. Isso não é machismo, é discrição! É não arreganhar suas preferências sexuais para o mundo.

  3. Regis esta mas que certo meu caro, eu sou casado a um bom tempo ja e nunca falamos necessariamente sobre nossas preferencias, quando flui o assunto geralmente vem a seguinte frase: “o seu e do tamanho que gosto… do jeito que fizer esta gostoso” e por ai vai. Muito bom texto e obrigado pelo alerta, vamos discutir isso abertamente logo. Abraços!

  4. Nem ativos nem passivos, ‘gouines’ são gays que não curtem penetração.
    É um termo francês que era usado para as lésbicas, mas hoje também é referente a homens gays que não curtem penetração. Abraço

  5. Tenho pouca vivência com o mundo gay. Coisa de viado bissexual casado… Mas os amigos e conhecidos que tenho encontrado falam sim, e bastante, de suas preferências, se são passivos ou não, se preferem oral, se gostam de rapazes ou tanto faz.

    Mas noto mesmo este machismo. Vejo muito o cara que vem me comer e faz questão de mostrar que eu sou o viado e ele o macho. Não ligo, faz parte, mas o que ele está sentido é diferente. Se, para mim, ser chamado de “viado” e chamar o outro de “meu macho” é um jogo que reafirma para mim ser assumido e gostar de ser, vejo que para o outro trata-se de ter uma posição de superioridade, “sou muito macho, enrabo estes viados que adoram me dar a bunda”, e por aí vai.

    Interessante,Regis pegou bem o espírito da coisa.

    • Pois é, se na transa o parceiro reafirma o machismo imagine socialmente. Será tema do próximo post a heteronormatividade dos gays

  6. exelente texto sou que da uma polemica interminable muitos pontos de vista

  7. Olá, muito bom texto, excelente reflexão, outra questão é quando o casal é um negro e outro branco tipo machões, as vistas da comunidade gay, sempre o branco é passivo e o negro ativo, outro armário dentro do armário machão gay.

  1. Pingback: Homens gays cisgêneros | Grisalhos

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