Velhice gay: castigo ou redenção?

gayOutro dia um amigo disse que não imaginava que teria uma velhice sem preconceitos, pois passou toda a juventude e a fase adulta sendo discriminado pela família e sociedade.

Quem tem hoje sessenta anos ou mais nasceu antes de 1956 e viveu a infância e parte da juventude na década de 60, logo essa geração acompanhou o processo de transformação das experiências sexuais.

No aspecto geracional, destacam-se os momentos: o período que vai da ditadura até a abertura política, e o impacto da pandemia da AIDS; a transição da perspectiva de direitos no âmbito dos novos movimentos sociais; o processo de construção de um circuito de entretenimento gay nas cidades brasileiras; a evidência do evento da Parada Gay, que passou a dar visibilidade à sociabilidade, à homossexualidade; a luta por reconhecimento social e civil do emergente movimento LGBT.

Em consequência, essa geração encontra-se no auge das mudanças sociais espelhadas em novos estilos de vida gay, com o crescimento do mercado de consumo, dos espaços de entretenimento homoerótico, das formas de lazer, das manifestações públicas e da reafirmação política de direitos sociais e civis. Assim, novas questões surgem para os indivíduos velhos e envolvem aspectos que se delineiam ao longo da vida do homossexual, como a luta por afirmar a homossexualidade na trajetória de vida e sair de dentro do armário.

Caro leitor, há vinte anos sair do armário era impensável! Aliás, eu sempre digo que atualmente a sociedade não está nem ai se eu estou ou não no armário. Pense nisso.

O castigo citado no título deste artigo vem da ideia e argumentos de estudiosos sobre a velhice e a homossexualidade como duplo estigma, mas todo ser humano envelhece, logo cabe a cada um construir a sua velhice. Para alguns a velhice é castigo para outros, redenção.

O constrangimento com a própria homossexualidade, muitas vezes, suscita as dúvidas em relação a si mesmo e a obrigação de justificar a diferença. A consequência é o enfrentamento das muitas crises existenciais que aparecem na gestão da vida individual, porém não sem gerar situações paradoxais, entre as quais, o cumprimento social do casamento heterossexual se verificava como uma realidade para os homens dessa geração.

Eu sou positivista e acredito firmemente na velhice como algo bom. Minha juventude não foi nada fácil, mas no decorrer da vida colecionei as experiências boas e esqueci as ruins para não viver com traumas e neuroses. Quem chega à velhice com problemas psicológicos obviamente tem mais propensão a doenças físicas.

Em minha opinião os gays devem aproveitar a velhice para se redimir do passado e aproveitar a onda citada no terceiro parágrafo para viver uma vida boa, quebrando paradigmas e adaptando-se ao contexto social atual.

Discutindo este assunto com o amigo citado no primeiro parágrafo, a redenção significa poder fazer tudo aquilo que deixamos de fazer ao longo da vida gay, por incontáveis razões e motivos. Na velhice não precisamos dar mais satisfações a parentes e amigos, somos donos da nossa vida, nos sustentamos do nosso trabalho e fazemos aquilo que gostamos de fazer.

O comportamental não tem muita importância. Se você tem um parceiro e ele mora com você, obviamente a vizinhança inteira sabe que ele é seu amante.

Observe o quanto pessoas em geral não estão nem ai para o seu comportamento, salvo alguns casos extremos que violam preceitos morais, mas até esses preceitos estão mudando.

Meu companheiro diz que hoje faz coisas que jamais faria nos anos sessenta ou setenta, porque a sociedade era extremamente conservadora. Ele diz que o mundo era pequeno demais, todos se conheciam principalmente em cidades do interior.

Hoje as pessoas estão dispersas nos espaços públicos, o que facilita a vida e o dia a dia dos gays. Ele ainda completa: Ser gay há quarenta anos era castigo, hoje não é mais. Esta é a visão de um homem de 70 anos.

Se você já vive a velhice, faça-a de uma maneira saudável e positiva, senão vá preparando o caminho porque ninguém sabe como será o mundo em 2050

Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 16/02/2016, em Comportamento, Sexualidade, Sociedade e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 9 Comentários.

  1. Olha pessoal, gostei muito do blog e dos que frequentam o mesmo, estou indo a Sao Paulo,agora esta semana e quero ter a oportunidade de conhecer a casa e se possível desfrutar das historias e fazer alguns amigos por ae.
    Espero ser bem recebido e entendido por todos.

  2. Regis eu estou com 41 anos e tive uma vida que me impossibilitou de viver a minha homossexualidade na juventude por motivos que valem a pena serem esquecidos. Vivi na clausura total e não me casei com mulher porque isso é o cúmulo. Nesse ano que faço 42 anos, posso garantir que valeu a pena ter lutado contra o medo e ter me imposto quando fiz 30 anos. Adoro seus posts e queria saber como te acho no facebook?

  3. Zed Falicus

    Acho que fui na contramão do texto. Me considerava bissexual e tive a oportunidade de experimentar muita coisa na década de 80. Casei-me com mulher e vivi bem por mais de 15 anos, mas de alguns anos pra cá me assumi homossexual e não tenho medo de dizer que prefiro ser passivo com homens. Já fui ativo suficiente com mulher, agora quero aproveitar o outro lado. Não quer dizer que não possa também ser ativo, mas como você citou em outro texto, tenho uma preferência. E tudo isso aconteceu após os 50 anos. Pra mim é uma redenção.

  4. Perfeito, adorei o propósito dessa publicação, hoje podemos viver mais livres e sempre digo que devemos tudo a gerações passadas, principalmente os afeminados dos quais muitos tem preconceitos, eles vão a luta e clamaram por nossos direitos. Parabéns Regis!

  5. getuliosilva2004

    nao tenho este problema com a familia todos sabem e vivo de boa.

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