Arquivo mensal: fevereiro 2016

O machismo no mundo gay

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Poster de Tom of Finland

Há muito tempo eu busco entendimento do porque os gays em geral não falam sobre suas preferências sexuais. Entenda como preferências: ser ativo, passivo, nem um nem outro, apenas sexo oral sem penetração ou masturbação.

Tudo bem, ninguém é obrigado a expor sua intimidade ao mundo, mas conviver ou ter amizade com outro gay e não tocar no assunto pra mim é coisa de viado recalcado e esse silêncio acentua-se na velhice.

Há dois mundos distintos: Um é o mundo da busca por parceiros onde se expõe abertamente as preferências em anúncios classificados, salas de bate papo, nas redes sociais, etc. Outro é o mundo do cotidiano, das relações pessoais e sociais.

Digo isso porque fico puto quando pergunto para algum gay que conheço qual a preferência sexual e ele se esquiva ou diz que isso não é pergunta que se faça. Tudo bem depende da relação que você tem com a pessoa, mas a maioria faz cu doce – É o armário do armário sexual!

Sempre tenho a impressão de que o mundo gay é machista quando o assunto é sexo, pois mesmo os efeminados não são necessariamente passivos, bem como, aquele com cara e tipo de homem na cama é uma menina moça sedenta por uma vara dura e grossa.

Se você tem intimidade com outro gay qual o problema de abrir as preferências? Eu nunca escondi, apenas selecionei a quem contar, vai da confiança e da maturidade.

Conheço um casal há mais de dez anos e até hoje nunca se falou de sexo. O que vi e vejo nesses anos são apenas pequenas e poucas demonstrações de carinho e olha que ambos têm o tipo comum de homens. Nenhum deles nunca abriu pra mim o que gosta de fazer na cama. Quem sabe para não comprometer o outro.

No último final de semana estive no litoral e passei no QiButeco do Laerte em São Vicente. Por ser um point gay, revi muitos conhecidos e durante mais de duas horas apenas observei os gays em suas conversas só de amenidades e não percebi ou ouvi nada sobre sexo.

Certa vez fui à sauna e encontrei um conhecido. Além da surpresa por não saber que ele era gay, vi o dito cujo dando o rabo no Dark room, não para um, mas para dois ao mesmo tempo. Algum tempo depois me procurou e veio com desculpas de que estava bêbado e que tinha sido drogado na sauna e pedindo para não contar para ninguém. Esse tipo de situação é muito comum. Obviamente, não abri o bico, mas foi uma tremenda forra porque o cidadão era pra lá de convencido e machão.

Esse machismo exacerbado é cultural e está no DNA dos gays, mas na hora da conversa para acertar uma trepada, a maioria diz do que gosta antes de carregar o bofe para o hotel, justamente para não quebrar loucas.

Esse termo quebrar louça era uma gíria antiga dos gays. Quando dois homens passivos se relacionavam, sendo que as outras pessoas não entendiam quem era o ativo na relação.

Exemplo: Fulano e fulano são muito pintosos! O que eles estão fazendo juntos? Devem estar quebrando louças.

Outra situação comum são casais em relações estáveis, principalmente, entre jovens e homens maduros. A sociedade homossexual olha esta relação sempre dando ao mais jovem o papel do ativo e ao mais velho o papel de passivo. Mesmo que o jovem goste de ser passivo ele não expõe isso a ninguém por razões óbvias, quanto ao maduro nem se fala, se for passivo pode dizer que é ativo, também por razões mais que óbvias.

O gay jovem é assimilado desde cedo a manter comportamento másculo e não abrir suas preferências sexuais. Isso é ruim porque a descoberta da homossexualidade passa necessariamente por uma relação com outro corpo, consequentemente, a relação física é entre dois corpos masculinos e ambos com pintos.

Aliás, falando em pintos quem no mundo gay não gosta de um? Eu adoro mesmo que não seja para ser penetrado, mas pode ser chupado, masturbado, acariciado e por ai vai, assim como sei que o meu parceiro também gosta pois conversamos sobre isso naturalmente. Ah! Regis assim não vale, ele é seu parceiro. Acredite até entre parceiros não se conversa sobre preferências ou mesmo fantasias.

O machismo do mundo gay está condicionado não ao fato de manter relação sexual com outro homem, mas ao fato de não ser permitido encarar uma possível passividade, porque ser passivo significa ser submisso e está relacionado ao feminino, ser inferior – Pura bobagem!

Recordo-me de um coroa que conheci lá pelos idos de 1980. Nosso primeiro encontro foi sem sabor porque ele tinha um cacete respeitável e bem maior que o meu. Eu desejava usá-lo de todas as formas, mas o homem não deixou claro do que gostava, ficou calado e impassível. Enfim, gozamos na punheta.

No segundo encontro fui objetivo: Ou você me diz do que gosta ou nada feito. O homem se abriu dizendo que tinha desejos de ser penetrado, mas não tinha coragem de dizer. A partir daquele diálogo tudo fluiu naturalmente.

Então essa coisa de abrir as preferências sexuais com colegas e amigos tem a ver com confiança? Sim , porque a confiança de certa forma garante que a notícia não vaze e você vire motivo de chacota.

Nos ambientes gay fala-se muito em beleza e corpo, seja ele jovem ou maduro, mas o pensamento de cada um está idealizando e imaginando como será o pênis e nem se ventila a possibilidade de dizer que gostaria de sentir a vara do macho, nem que seja apenas por uma noite.

Também, fica a impressão que essa coisa de sexo se resolve na hora e não é bem assim. O gay deve estar bem resolvido nessa questão para vivenciar a sua homossexualidade numa boa.

Nota: O machismo no mundo gay é a primeira parte de um assunto amplo e que será explorado no próximo artigo onde escreverei sobre os gays heteronormativos.

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Velhice gay: castigo ou redenção?

gayOutro dia um amigo disse que não imaginava que teria uma velhice sem preconceitos, pois passou toda a juventude e a fase adulta sendo discriminado pela família e sociedade.

Quem tem hoje sessenta anos ou mais nasceu antes de 1956 e viveu a infância e parte da juventude na década de 60, logo essa geração acompanhou o processo de transformação das experiências sexuais.

No aspecto geracional, destacam-se os momentos: o período que vai da ditadura até a abertura política, e o impacto da pandemia da AIDS; a transição da perspectiva de direitos no âmbito dos novos movimentos sociais; o processo de construção de um circuito de entretenimento gay nas cidades brasileiras; a evidência do evento da Parada Gay, que passou a dar visibilidade à sociabilidade, à homossexualidade; a luta por reconhecimento social e civil do emergente movimento LGBT.

Em consequência, essa geração encontra-se no auge das mudanças sociais espelhadas em novos estilos de vida gay, com o crescimento do mercado de consumo, dos espaços de entretenimento homoerótico, das formas de lazer, das manifestações públicas e da reafirmação política de direitos sociais e civis. Assim, novas questões surgem para os indivíduos velhos e envolvem aspectos que se delineiam ao longo da vida do homossexual, como a luta por afirmar a homossexualidade na trajetória de vida e sair de dentro do armário.

Caro leitor, há vinte anos sair do armário era impensável! Aliás, eu sempre digo que atualmente a sociedade não está nem ai se eu estou ou não no armário. Pense nisso.

O castigo citado no título deste artigo vem da ideia e argumentos de estudiosos sobre a velhice e a homossexualidade como duplo estigma, mas todo ser humano envelhece, logo cabe a cada um construir a sua velhice. Para alguns a velhice é castigo para outros, redenção.

O constrangimento com a própria homossexualidade, muitas vezes, suscita as dúvidas em relação a si mesmo e a obrigação de justificar a diferença. A consequência é o enfrentamento das muitas crises existenciais que aparecem na gestão da vida individual, porém não sem gerar situações paradoxais, entre as quais, o cumprimento social do casamento heterossexual se verificava como uma realidade para os homens dessa geração.

Eu sou positivista e acredito firmemente na velhice como algo bom. Minha juventude não foi nada fácil, mas no decorrer da vida colecionei as experiências boas e esqueci as ruins para não viver com traumas e neuroses. Quem chega à velhice com problemas psicológicos obviamente tem mais propensão a doenças físicas.

Em minha opinião os gays devem aproveitar a velhice para se redimir do passado e aproveitar a onda citada no terceiro parágrafo para viver uma vida boa, quebrando paradigmas e adaptando-se ao contexto social atual.

Discutindo este assunto com o amigo citado no primeiro parágrafo, a redenção significa poder fazer tudo aquilo que deixamos de fazer ao longo da vida gay, por incontáveis razões e motivos. Na velhice não precisamos dar mais satisfações a parentes e amigos, somos donos da nossa vida, nos sustentamos do nosso trabalho e fazemos aquilo que gostamos de fazer.

O comportamental não tem muita importância. Se você tem um parceiro e ele mora com você, obviamente a vizinhança inteira sabe que ele é seu amante.

Observe o quanto pessoas em geral não estão nem ai para o seu comportamento, salvo alguns casos extremos que violam preceitos morais, mas até esses preceitos estão mudando.

Meu companheiro diz que hoje faz coisas que jamais faria nos anos sessenta ou setenta, porque a sociedade era extremamente conservadora. Ele diz que o mundo era pequeno demais, todos se conheciam principalmente em cidades do interior.

Hoje as pessoas estão dispersas nos espaços públicos, o que facilita a vida e o dia a dia dos gays. Ele ainda completa: Ser gay há quarenta anos era castigo, hoje não é mais. Esta é a visão de um homem de 70 anos.

Se você já vive a velhice, faça-a de uma maneira saudável e positiva, senão vá preparando o caminho porque ninguém sabe como será o mundo em 2050

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