Paradigma sócio-histórico da homossexualidade

4Caro leitor dos Grisalhos estou de volta para mais um ano de blog e antes de mais nada eu desejo um excelente ano.

Você achou curioso o título deste primeiro post do ano? Pois então vamos às explicações:

No último dezembro eu assisti a um programa do Canal Brasil sobre travestis, transexuais e Drag Queens, daí eu pensei em escrever um artigo sobre o tema, mas acabei mudando o foco e fazendo uma releitura sobre a discriminação/aceitação dos gays masculinos das classes média e de baixa renda.

Pense no seguinte: Independente da sua classe social, qual é o nível de preconceito que afeta a sua vida e por quê? Qual o grau de aceitação da homossexualidade no seu estrato social?

Bem, o preconceito contra homossexuais atinge todas as camadas sociais. Hoje menos do que ontem e possivelmente menos do que amanhã. Pela lógica, sempre das classes mais baixas para as mais altas, mas na realidade não é assim que acontece,

Ai você pensa: eu não tenho jeito nem trejeitos de gay, não sou efeminado, logo não serei discriminado. Ops! Engana-se quem pensa que a discriminação ocorre apenas ao comportamento do tipo bichinha afetada.

Os gays, principalmente da classe média são os que mais sofrem discriminação, justamente por estarem num estrato social onde valores como família, tradição e religião influenciam no comportamento dos gays.

Quem em sã consciência diria a seus pais ou familiares que é homossexual? Poucos!

A maioria se revela quando há enfrentamento decorrente de situações do cotidiano, tipo da situação: pegaram no flagra e agora? Tenha certeza que a notícia sempre chega por vizinhos ou estranhos. A formação familiar contribui para minimizar os dramas decorrentes da descoberta da homossexualidade dos filhos. Qual mãe aceita? conforma-se e sofre calada.

No passado quando uma família descobria que o filho ou filha era gay, internava em clínicas ou manicômios.  Os mais abastados pagavam dotes para a igreja católica e internavam seus filhos em conventos e mosteiros para esconderem da sociedade os filhos desviantes.

Qualquer dia contarei aos leitores a história de uma amiga minha que é freira.

4aA partir dos anos 1960, os próprios homossexuais passaram a se esconder na religião, buscando os seminários para fugir do enfrentamento familiar e social.

A partir dos anos 1990, foi o período de inserção dos gays em vários campos da sociedade, gerando consumo e iniciando o que conhecemos como Mercado Mundo Mix.

Esse evento veio acompanhado da crescente onda de evangélicos e neopentecostais que passaram a dominar as classes sociais mais baixas, logo, os homossexuais desses estratos sofreram fortes rejeições familiares, com a exclusão familiar e jogados no olho da rua, porque para as famílias evangélicas gay era ou ainda é coisa do diabo.

O interessante nesse cenário foi e é a coragem dos gays para enfrentar a família e muitos saíram de casa para construir uma vida, uma identidade longe da discriminação dos pais, irmãos e parentes.

Enquanto isso neste mesmo período os gays da classe média continuaram submissos aos pais, forçados a casamentos indesejados e relações de fachada para provar a masculinidade.

Hoje vinte e cinco anos desde os primeiros sinais de enfrentamento das adversidades familiares e sociais, os gays de classes mais baixas levam vantagem sobre os da classe média. Por quê?

Nos dias atuais os gays mais pobres tem menos medo de enfrentar a discriminação, porque desde cedo aprenderam a se defender das porradas, inclusive físicas, enquanto os da classe média foram protegidos até a adolescência, logo ficaram mais vulneráveis.

Caro leitor, lembre-se: os mais fortes sobrevivem!

Você torna-se forte indo à luta, apanhando, levando bordoadas. Quem não brigou na escola e se ralou todo não vai entrar numa briga e ficará passivo diante de situações adversas. Aprende-se desde cedo a se defender dos confrontos rotineiros

Durante o recesso de final de ano eu conversei com um amigo sobre este assunto e durante nosso diálogo evidenciamos as distorções de visões nestes dois mundos – É um paradigma sócio-histórico.

Ops! Isso está muito acadêmico.

Por um lado, o gay da classe média imagina que o gay pobre só se ferra, porque além de morar nos bairros pobres das periferias das cidades, tem baixa escolaridade e baixa renda. Imaginam-se estupros e violência constante, ou o sexo barato e sujo no beco da favela.

Já o gay das classes baixas imagina o gay da classe média vivendo em mar de rosas e morando em casas bonitas ou apartamentos confortáveis, estudando em colégios pagos e frequentando Shopping Center, festas e baladas. Imaginam-se romances homossexuais ou o sexo seguro numa cama confortável.

Essa distorção de visões eu chamo de paradigma sócio-histórico da homossexualidade, pois a construção social da sexualidade envolve as relações com a família, os amigos e pessoas estranhas.

Esse paradigma é constante desde o final dos anos 60 até os dias atuais, principalmente entre os jovens gays que sofrem mais discriminação, por conta da própria condição, pois não tem autonomia.

O amadurecimento e a autonomia nos liberta dos preconceitos, mas somente isso não basta, é preciso aceitar-se gay, para viver a maturidade sem neuroses ou doenças psicológicas e construir a vida adulta com mais dignidade.

Nota: As imagens que ilustram este artigo são de autoria do Artista homoerótico Raphael Perez.

Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 06/01/2016, em Comportamento, cotidiano, Sociedade e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. Foi engraçado quando resolvi contar pra minha mãe que sou gay, eu tinha absoluta certeza que ela iria chorar muito, já que é uma senhora de 64 anos e muito emotiva. Mas eu estava muito errado, chamei ela pra conversar e perguntei a ela se ela sabia o que era uma pessoa homossexual, ela disse que não sabia, eu expliquei a ela tudo sobre sexualidade. Então eu disse que sou gay, dai ela me olhou e perguntou na maior franqueza e calma se eu gostava de homens, eu disse que sim. Ela simplesmente sorriu e falou “Tudo bem, isso é normal hoje em dia”, eu me senti MUITO aliviado. Sempre achei que ela sendo super religiosa iria fazer escândalo com relação a isso, mas deu tudo certo. Me aceitei gay e realmente sou feliz, as vezes penso que eu não seria tão feliz se fosse heterossexual.

  2. Às vezes eu ainda me sinto um “Et” por ser gay, mesmo já me aceitando como tal… (até que enfim). Essa sensação de que estou na contra a mão do resto do mundo, persiste até hoje, quando me vejo com vontade de estar com um parceiro na intimidade… bom, daí é outro assunto.

    • Tenho o mesmo problema que você, Pedro. Eu me aceito, minha família sabe que sou gay, menos meu pai, e, ainda assim, sinto-me um estranho nesse mundão.
      Só sinto atração por coroas, tenho 30 anos. Porém, não é fácil achar alguém disposto a se relacionar. Por consequência, a minha vida acaba se resumindo a sexo casual, pessoas que transo, mal sei o nome, nem contato nem nada, que depois não verei mais, e se ver, será como se nem ela nem eu existíssemos.
      Cansa ser um pedaço de carne sexual e fazer do outro a mesma coisa. Às vezes, acho que o problema é comigo, no entanto, dou abertura para gerar uma amizade e, quem sabe, algo mais, mas acabo vendo que o outro que não dá tal abertura.
      Isso tudo vai desanimando até mesmo para fazer sexo. Cansa viver de fast-foda. E como cansa.

  3. Bom texto. Boa reflexão.

  4. Ótimo texto, mas vou falar por mim, sou classe média e nunca sofri discriminação no meu meio social por ser gay , a maioria dos meus amigos são héteros, porém não tenho “trejeitos afeminados”, quando revelo para algumas pessoas que sou gay, vejo cara de espanto.
    Adoro futebol e jogo quando posso com meus amigos, alguns dos meus amigos até dizem, vc nem parece que é viado, fala grosso, não fala de moda, decoração, não fala gesticulando, nem em macho, dou risada e digo que tudo tem momento e horário.
    Acho que as pessoas ainda fazem a ligação que o gay tem que ser afeminado, e falar em moda, coisas do tipo… O único probleminha que tive foi com meu irmão logo no início por não concordar, mas respeitava, hoje nos damos muito bem, até pergunta como tá meu namorado, o restante dos irmãos foi super tranquilo, acredito que tive uma formação muito boa, meus pais nunca tiveram preconceito com nada, acho que isso favoreceu pra mim, mas já ouvi de um amigo: vc eu chamo para minha casa, mas fulano não, ele é muito “escroto”, acho que o comportamento influencia muito na aceitação, infelizmente ainda é assim, eu acho.

    • Domingos,
      Realmente a formação familiar é importante para dar segurança ao gay e isso ajuda no enfrentamento social.
      O comportamental é peça fundamental para minimizar preconceitos.
      abraço

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