Em memória de um amigo morto

lauHá coisas na vida que não se explicam, bem como, pessoas que cruzam nosso caminho com propósitos indecifráveis.

Lau como era chamado pelos amigos, nasceu em Ibiúna em 1934 e foi para São Paulo em 1959, coincidentemente no ano que eu nasci e também o ano do falecimento da sua mãe.

Viveu sua vida com plenitude, teve uma rede social intensa, esteve com a Rainha Elizabeth quando ela esteve em São Paulo em 1968. Naquela época ele trabalhava na divisão da Gessy Lever, hoje Unilever.

Ele era inquieto, extrovertido comunicativo e alegre, características próprias dos geminianos e após aposentadoria no final dos anos 1970, foi trabalhar como guia de turismo. Foi assim, que ele entrou na minha vida em 1988.

Recordo-me daquele dia de dezembro, numa rua da região central da cidade. Nosso primeiro encontro foi rápido, pois ele estava saindo para mais uma das incontáveis viagens que fez ao longo da vida.

Encontramos-nos quinze dias depois e ali começou nosso relacionamento. Após dois meses eu já estava morando no seu apartamento. Durante os vinte anos seguintes eu amadureci, conclui faculdade e me empreguei na empresa onde trabalho até hoje. Viajamos juntos por este imenso Brasil, Europa e América.

Aprendi muito com ele, peguei gosto por literatura, teatro e cinema e descobri com ele que viajar é a melhor coisa da vida. Ele dizia: a vida é uma viagem.

Durante vinte anos nunca tivemos nenhuma briga, relacionamento franco e cada qual com total liberdade. Nossa união sempre foi embasada na confiança. Aprendi com ele a ser tolerante e como escolher os amigos no meio gay. Assim, como tudo na vida, a nossa relação chegou ao fim em abril de 2008, quando conheci o meu atual companheiro.

Após o rompimento ele ficou chateado porque eu me afastei mesmo morando ao lado do seu apartamento. Da parte dele ficaram muitas mágoas, porque evitei muito contato e optei por manter uma vida social e diária longe dele.

So far so close – Tão longe e tão perto. Eu sempre tive um carinho especial, mas devido aos longos anos de convivência, principalmente, com inserção dos seus familiares, eu optei por cortar os vínculos, para viver a minha relação atual com privacidade. Poucos amigos entenderam minhas decisões, mas é assim que eu sou.

Nosso último encontro foi há duas semanas quando fomos juntos ao teatro assistir um espetáculo de um amigo. Na última terça-feira este mesmo amigo me procurou para saber o paradeiro do Lau. Eu tinha as chaves do apartamento e ao abrir a porta me deparei com o seu corpo na cama.

Morreu aos 81 anos, um amigo da vida que soube compartilhar ensinamentos adquiridos numa época onde ser gay era doença e onde tudo acontecia às escondidas. Qualquer deslize era motivo de constrangimentos e ele soube driblar as adversidades sociais do seu tempo, marcou seu espaço e colecionou histórias inesquecíveis.

Descanse em Paz!

 

Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 19/11/2015, em Contos da cidade, Relacionamento. Adicione o link aos favoritos. 7 Comentários.

  1. Olá a todos, Eu tb me emocionei com esse post sobre a Galeria Alaska ! Me evocou várias memórias da década de 70, quando ainda era apenas um adolescente deslumbrado com a possibilidade de viver algo proibido, porém fascinante ! Eu e alguns amigos saímos dali para comer ao lado, na Av. Atlántica, aquele sanduíche de filé mignon… No Sotão, conheci o meu primeiro namorado, um suiço … O Posto 6 era um lugar muito tranquilo, praticamente deserto de madrugada, e a Vieira Souto, uma avenida escura até o fim da Delfim Moreira! Ah, são tantas lembranças … Lamento o fato de que todos os meus amigos da Bolsa e da Farme já se tenham ido. Não sobrou ninguém próximo, só conhecidos… O que não é o mesmo…. Obrigado pelo seu blog. Me inscrevi nele! Sou um grisalho lindo, hahaha, e quero acompanhar suas novidades! Abraços

  2. Regis eu simplesmente não sei o que dizer, apenas sinto muito pela sua perda

  3. tardelli10

    O mais interessante que vi nesta linda história é que ao separarem você quis se manter em seu canto. Isto demonstra que você quis viver o seu novo amor sem recorrer ao seu ex. Você mostrou fidelidade com o seu atual, talvez seja este um dos motivos de você ter relacionamentos duradouros. O que está cada dia mais difícil nos tempos atuais.

  4. Boa noite
    Me emocionei lendo esse maravilhoso post em memória do seu amigo. Graças a Deus vocês dois tiveram um relacionamento de 20 anos sem brigas ou transtornos. Como diz a minha mãe: “Algumas pessoas são enviadas em nossa vida por Deus”, ela tem razão. Você é um homen de sorte. Espero também um dia ter um amigo como você teve.
    Abraço

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