Arquivo mensal: novembro 2015

O romantismo gay

raphael_perezSer romântico pressupõe uma qualidade que nem todos os seres humanos possuem porque o romantismo está vinculado às emoções. É uma característica que aflora ao longo da vida, nas relações pessoais e nos seres que se apaixonam por outro.

Atualmente no meio gay esta é uma característica que está um pouco adormecida, mas não esquecida, talvez por conta de todas as mudanças sociais das últimas décadas, ou porque é próprio do século que vivemos. Dizem até que ser romântico é brega e está ultrapassado, será?

Eu, particularmente, acredito que não, pois ser romântico é pertencer à arte do sonho e fantasia, é ter fé, paixão, intuição, saudade.

Um leitor do blog me escreveu sobre as dificuldades em manter uma relação com um homem maduro e até acredita que nasceu na época errada. Diz que os homens são frios, mal educados e nada românticos.

Suas principais queixas são relativas à falta de interesse dos parceiros que querem apenas sexo e depois caem fora. Relatou a sua frustração com o mundo atual, tudo descartável, falta de respeito, cuidados, atenção e principalmente diálogo.

Recordo-me uma vez andando pela rua eu cruzei com um coroa bonitão, cabelos grisalhos, vestindo paletó e gravata. Ele olhou e veio na minha direção com galanteios e dizendo que eu era um tesão e queria transar comigo.

Eu apenas ouvi o que o homem dizia, ele até tentou ser romântico, com um convite para um jantar à luz de velas, um passeio ao luar e apenas nós dois juntinhos na sua casa na praia do Guarujá. Ao final daquela cantada me entregou um cartão e seguiu seu caminho. Nunca telefonei ou procurei o gostosão porque tudo o que ele me disse foi para impressionar, talvez ele fosse romântico e galanteador, mas queria sexo urgente. Ninguém é romântico no primeiro encontro

Foi-se o tempo das paqueras, das longas conversas onde se conhecia o parceiro, as intenções, as afinidades, tanto sexuais quanto pessoais. Não sou saudosista, mas até os últimos anos do século passado, as relações, inclusive heterossexuais eram mais românticas.

Outro caso ocorreu em 1977. Eu trabalhava numa empresa e todo dia passava no bar da esquina para tomar café. Eu sempre observava um senhor português que todo dia estava no balcão. Ele era o meu homem ideal e fiz de tudo para me aproximar.

Finalmente após três meses conversamos e rolou uma química. Dali para a sua casa levou mais dois meses e foi apenas para conversar e tomar uma cerveja. O sexo aconteceu no sétimo mês no seu apartamento na Ilha Porchat, litoral de São Paulo.

Naqueles meses nos encontramos diversas vezes, saíamos para passear nos finais de semana, íamos ao cinema, jantares em cantinas da cidade, inclusive, numa delas à luz de velas por conta de um blecaute em São Paulo. Ele era romântico, carinhoso e tinha todo o cuidado comigo.

Naquele período nos conhecemos bem, cada qual com seus desejos, frustrações, medos e sonhos. Ele por ser mais velho tinha receio de ser usado e depois descartado, porque buscava o amor romântico. Foi uma relação legal e nos tornamos amigos.

Enfim, fui servir o exército e mantivemos nosso relacionamento por um ano.  Uma vez por mês ele ia ao quartel me levar cigarros, até que por circunstâncias da vida cada qual seguiu seu caminho e sem mágoas.

Se você é do tipo romântico não mude sua maneira de ser, mas controle o tesão, conheça o parceiro, análise, veja as variáveis, porque cada ser humano é único, com mil defeitos e muitas virtudes. Também, seja quem você é e não o que os outros esperam de você.

Mesmo sendo romântico não dá para sair por ai se entregando ao primeiro que aparece. Essa coisa de se apaixonar no primeiro encontro é coisa de adolescente. Os gays têm tantas carências afetivas que ficam fragilizados, tanto na juventude quanto na velhice.

Não porque o homem é um deus grego que você vai se humilhar e rastejar aos seus pés. Em geral os gays se deixam levar por falsas promessas. O corpo e a aparência prevalecem e a razão fica em segundo plano. Mesmo os românticos devem equilibrar a racionalidade com as emoções.

É preciso identificar quando alguém quer apenas sexo, pois ninguém consegue mentir sem cair em contradições. Há gays que mesmo buscando apenas o sexo, são românticos, porque romantismo não é sinônimo de relação estável. O romantismo acontece principalmente quando há envolvimento emocional entre os parceiros. Aos apaixonados ficam as lições de vida!

Não podemos esquecer dos gays que são excelentes atores na arte de dissimular uma paixão, aí não tem jeito, você vai cair no conto do príncipe encantado.

Observe ao seu redor e perceberá a falta de diálogo entre as pessoas, todos querem resultados imediatos, inclusive para relações mais estáveis. As pessoas não mudaram o que mudou foram os costumes, porque o individualismo é marca registrada deste século, logo os interesses não são comuns e sim pessoais.

Vivemos no século da comunicação, tudo online e ainda assim há problemas de diálogo e há carência de afetos. Isso não quer dizer que não existem relações românticas, porque os românticos estão perdidos na multidão.

Romantismo pressupõe compartilhar momentos e ninguém consegue ser romântico para si mesmo, mas idealiza encontrar um homem para praticar o romantismo e viver uma história de amor.

Identifica-se os românticos  nas relações estáveis e duradouras, por questões óbvias. Quem ama sabe ou aprende a ser romântico com a pessoa amada.

Se você está apaixonado ou ama outro homem e é correspondido, você é um privilegiado!

Mais um leitor escreveu: sou simpático, romântico, sincero, amigo e carinhoso, mas ninguém quer um gay extraterrestre.

Eu disse a esse leitor que esse discurso é padrão no meio gay, principalmente, aos que gostam de homens mais velhos e aos que estão com autoestima baixa e até parece anúncio classificado pessoal comum na Internet.

Outro leitor me escreveu: Regis é tão confuso ser gay! Imagine ser gay romântico?

Eu respondi: que nada! Ser gay é natural e ser romântico demonstra que você não faz parte da maioria deles.

Ser romântico é uma arte! Eu me considero romântico e não espero reciprocidade do meu companheiro, porque nem todos são iguais e e lá se vão quase oito anos de relacionamento.

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Em memória de um amigo morto

lauHá coisas na vida que não se explicam, bem como, pessoas que cruzam nosso caminho com propósitos indecifráveis.

Lau como era chamado pelos amigos, nasceu em Ibiúna em 1934 e foi para São Paulo em 1959, coincidentemente no ano que eu nasci e também o ano do falecimento da sua mãe.

Viveu sua vida com plenitude, teve uma rede social intensa, esteve com a Rainha Elizabeth quando ela esteve em São Paulo em 1968. Naquela época ele trabalhava na divisão da Gessy Lever, hoje Unilever.

Ele era inquieto, extrovertido comunicativo e alegre, características próprias dos geminianos e após aposentadoria no final dos anos 1970, foi trabalhar como guia de turismo. Foi assim, que ele entrou na minha vida em 1988.

Recordo-me daquele dia de dezembro, numa rua da região central da cidade. Nosso primeiro encontro foi rápido, pois ele estava saindo para mais uma das incontáveis viagens que fez ao longo da vida.

Encontramos-nos quinze dias depois e ali começou nosso relacionamento. Após dois meses eu já estava morando no seu apartamento. Durante os vinte anos seguintes eu amadureci, conclui faculdade e me empreguei na empresa onde trabalho até hoje. Viajamos juntos por este imenso Brasil, Europa e América.

Aprendi muito com ele, peguei gosto por literatura, teatro e cinema e descobri com ele que viajar é a melhor coisa da vida. Ele dizia: a vida é uma viagem.

Durante vinte anos nunca tivemos nenhuma briga, relacionamento franco e cada qual com total liberdade. Nossa união sempre foi embasada na confiança. Aprendi com ele a ser tolerante e como escolher os amigos no meio gay. Assim, como tudo na vida, a nossa relação chegou ao fim em abril de 2008, quando conheci o meu atual companheiro.

Após o rompimento ele ficou chateado porque eu me afastei mesmo morando ao lado do seu apartamento. Da parte dele ficaram muitas mágoas, porque evitei muito contato e optei por manter uma vida social e diária longe dele.

So far so close – Tão longe e tão perto. Eu sempre tive um carinho especial, mas devido aos longos anos de convivência, principalmente, com inserção dos seus familiares, eu optei por cortar os vínculos, para viver a minha relação atual com privacidade. Poucos amigos entenderam minhas decisões, mas é assim que eu sou.

Nosso último encontro foi há duas semanas quando fomos juntos ao teatro assistir um espetáculo de um amigo. Na última terça-feira este mesmo amigo me procurou para saber o paradeiro do Lau. Eu tinha as chaves do apartamento e ao abrir a porta me deparei com o seu corpo na cama.

Morreu aos 81 anos, um amigo da vida que soube compartilhar ensinamentos adquiridos numa época onde ser gay era doença e onde tudo acontecia às escondidas. Qualquer deslize era motivo de constrangimentos e ele soube driblar as adversidades sociais do seu tempo, marcou seu espaço e colecionou histórias inesquecíveis.

Descanse em Paz!

 

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