Mundo gay: Tempos Modernos

bwakaw_filmeQuem tem hoje sessenta anos ou mais, viveu numa época completamente diferente, sem Internet, Smartphone ou redes sociais. As negociações sexuais ocorriam frente a frente, nas ruas, praças, bares, boates, saunas e banheiros, portanto, muito diferente dos jovens da atualidade, que muitas vezes nem sabem o que é negociação de sexo.

Os gays tem um leque de possibilidades e variados espaços de socialização e suas formas de abordagem são, invariavelmente, via Internet e através de aplicativos, os chamados App

Também, seria legal se todo gay idoso conseguisse lidar com as tecnologias, mas não tem jeito, para muitos é difícil assimilar tanta novidade. Alguns tentam, mas desistem frente à primeira dificuldade. Até o meu companheiro aos setenta anos não aprendeu a usar o Smartphone e quando quer saber alguma coisa me pede para pesquisar na Internet.

A tecnologia trouxe facilidades, mas as formas de abordagem são as mesmas desde sempre. Os jovens da geração Y querem que tudo aconteça rapidamente e não é assim que ocorre no mundo real. Se por um lado são mais saudáveis por outro são vulneráveis porque a homossexualidade fica adormecida. O sexo tem que ser experimentado ao vivo e em cores e sem tecnologia. Quando um jovem não consegue o que quer, principalmente nos relacionamentos ele se frustra e fica amargurado.

Tem tanto jovem gay com depressão! Por quê?

Nas relações humanas tudo acontece no tempo certo e isso pode demorar meses ou até anos. Vejo os jovens buscando coisas imediatas e não é assim que funciona. Sua comunicação é pobre, não tem vocabulário e postura adequada e quando perguntado sobre preferencias sexuais as respostas são vagas.

A modernidade trouxe facilidades, mas também, muitas coisas superficiais. Os gays mais jovens têm dificuldades de assimilar cultura, porque o popular é descartável. Vivemos numa época do consumo, da supervalorização das roupas de marca, comida fast-food, música eletrônica descartável, bugigangas eletrônicas e pisantes Nike.

Todo gay que encontro na rua ou no transporte público está com fone de ouvidos, possivelmente ouvindo música, teclando alucinadamente no seu Smartphone e poucos são aqueles que se dão ao trabalho de olhar para o lado e contemplar um homem bonito e gostoso ou tentar uma paquera.

Parece-me que essa geração de gays tem muita deficiência cultural quando deveria ser o contrário, porque toda a informação está ai. Infelizmente a maioria desses jovens é da geração Control C, Control V.

Os gays tem de estudar, ler, ouvir boa música, ver filmes de conteúdo humano, aprender a gostar de teatro e ler jornais, mesmo os digitais. Todo gay deve concluir uma faculdade e fazer no mínimo um curso de pós-graduação. Isso fará a diferença, especialmente num país como o Brasil.

Fico feliz quando recebo e-mail de jovens buscando conhecimento através do blog, porque a maioria dos gays não quer saber de ler e se o fazem é por obrigação.

As tecnologias proporcionam facilidades no nosso cotidiano. Quer um filme vai no Youtube, quer saber de uma balada, basta pesquisar e lá está o site, quer ir ao cinema, futebol, teatro ou shows, compra-se ingressos via Internet.

Travestis e Drag Queens estão formando legiões de admiradores via Instagram, porque o que vende é visibilidade. Todos querem seu minuto de fama!

Eu particularmente me dou bem com tecnologia, sou consumidor de filmes e outros penduricalhos e encontro tudo o que procuro com apenas alguns cliques. Ontem queria comer uma pizza e ela chegou rápida via Ifood.

Mesmo com tantas facilidades não se consegue mudar comportamentos inerentes às relações humanas. Vejo nos gays destes tempos modernos muitas coisas vazias, claro há exceções! Tem jovem que não sabe se expressar, escreve mal, excesso de gírias indecifráveis, comportamentos femininos, mentes vazias, vícios comportamentais, além de não saber cuidar da aparência, roupas exageradas sem nenhum critério, cabelos desgrenhados, piercing, tatoo à mostra por todo o corpo e muito plástico.

Tudo isso é fruto dos tempos modernos, globalização que interfere na cultura dos povos e na juventude. Todos querem mostrar aquilo que não são, porque é impossível que todos estejam realmente bem, bonitos, sorridentes e felizes. É o que encontramos nas redes sociais – Tudo é válido mas com moderação!

Caro leitor, você pode me julgar conservador, talvez eu seja, afinal já tenho cinquenta e seis anos e caminhando para a terceira idade, mas estou sempre plugado em tudo que acontece no mundo e assimilando apenas as coisas boas e sem jamais deixar de dar atenção às pessoas ou trocar um bom papo por conversas virtuais.

Então tá, eu não sou tão conservador assim, mas quem procura alguém mais novo para relacionamento percebe as limitações desses jovens e ai o bofe não sabe por que não arruma namorado ou porque foi usado e descartado.

No último sábado fiquei em São Paulo e fui passear na Avenida Paulista. Passei na Livraria Cultura para pegar um livro. Observei casais gays de várias idades e cada qual com seu Smartphone à mão e nem prestando atenção no companheiro ao seu lado.

Mais tarde no Fran’s Café um casal, o mais velho aparentando cinquenta anos e o mais jovem uns vinte e cinco, não se olhavam e quase não conversavam. De cabeça baixa, ambos manipulavam seus aparelhos celulares como quem bate uma punheta.

Já no CineSesc fui assistir ao filme Bwakaw, leia a sinopse aqui – Observei os poucos gays esperando o inicio da sessão  e todos sem exceção munidos de Smartphone. Até dentro da sala do cinema um telefone tocou e olha que não tinha nem trinta pessoas.

As tecnologias tornam tudo mais fácil, mas também mecânico e digital e as relações entre gays estão frias e robotizadas.

E quando a noite cai, nas boates e bares LGBT das cidades, gays de todas as raças, idades e classes sociais circulam entre as pessoas e munidos, alguns com seus companheiros e todos com os seus Smartphones.

Nesse admirável mundo novo, os gays idosos seguem suas vidinhas, confinados em apartamentos ou no conforto da sua casa e sem interação com o mundo atual, porque sem tecnologia eles mofam nas prateleiras das cidades.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, um relacionamento entre dois gays chegou ao fim, mas tudo bem, porque basta um clique e logo aparece outro.

Nota: A foto deste post, foi tirada com meu celular diretamente da tela do cinema.

Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 21/10/2015, em Comportamento, Consumo, cotidiano, Opinião, Sociedade e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 13 Comentários.

  1. Married Daddy

    Relendo esse texto, muito bom como todos que você escreve, tive uma idéia para, quem sabe, sair algo nesse sentido…Eu adoro música, sou uma pessoa musical, não imagino minha vida sem uma trilha sonora. Eu gosto muito de Rock e MPB, sou bem conhecido na cena musical da minha cidade e percebi que os rockeiros em geral tendem para o perfil hétero, são pouquíssimos os gays que curtem esse estilo. Eu parei para me lembrar de algum gay rockeiro famoso e só me lembrei do Rob Halford, do Judas Priest, e do André Pomba, paulista da banda heavy Vodu. Aí, fiquei pensando sobre o perfil musical dos gays, numa visão mais abrangente. É claro que depende do estilo da pessoa, mas os padrões de gosto musical são bem definidos no caso dos gays. Arriscaria classificar, levando em consideração o jeito da pessoa. Os mais jovens, baladeiros, tendem para a Música Eletrônica e para o Pop, curtem os magos da eletrônica e os DJ’s famosos, como Chemical Brothers, David Guetta, Fat Boy Slim e ícones gays como Scissors Sisters, Elton John, George Michael, Culture Club, dependendo da idade, claro. Os mais vividinhos, que estão no armário ou fazem a linha, tendem a curtir mais MPB, ou um bom Pop setentista/oitentista, aí rola algo como Chico Buarque, Elis, MPB4, etc. Há a velha guarda, que curte Cauby Peixoto, Samba da Velha Guarda, até Chorinho e Serestas. Enfim, há uma miscelânea de estilos, combinando com cada um. Mas eu prefiro que você faça esse texto, querido Régis, você é o cara das palavras. Abraços musicais!!

  2. Os coroas olham principalmente para os jovens bombados e de corpo ” dito perfeito”. Se você está fora desse esquadro, como estou, pouco é observado. Infelizmente, prefiro malhar a mente com cultura, leitura, artes, música, estudar, enfim, criar outras realidades pra aguentar esse nefasto. Não obstante, paga-se o preço por não estar nos padrões construídos socialmente. Assim, os coroas meio jovem no inconsciente coletivo, compram a ideia do corpo e descarta os “outsider”. Tempos de liquidez em que ser um pedaço de carne somente para sexo é mais importante que construir um relacionamento com alguém com respeito às idiossincrasias. Tenho 30 anos e não acredito que possa encontrar alguém para um relacionamento. Já até achei que o problema era comigo, mas como diria Sartre: o inferno são os outros. Não estou penalizando minha feiura, porque não sou tão horrendo assim, mas o karma paira sobre o mundo. Enquanto isso vou escorando no desespero e na angústia até o momento que a coragem pra dar um fim seja posta em prática. Por tempo, vivo igual o escritor Emil Cioran viveu: odiando a existência, todavia, sem coragem pra dar um fim. Sofrência. Já não sei mais em qual mentira acreditar…

    • Por experiência própria, eu sei que existe outro mundo diferente do padrão homonormativo e que poucos homossexuais conhecem.
      Abraço

      • Poderia explanar sobre, Regis? Quem sabe encontro uma luz no fim do túnel – ou não.

      • Simples. A maioria dos homossexuais maduros e idosos procuram parceiros para relações estáveis e vivem no mundo heterossexual, logo não vão aos guetos e não buscam homens perfeitos. Há que se considerar os preconceitos existentes, principalmente quanto à cor de pele e local de origem.
        Para encontrá-los é preciso um pouco de sorte e um feeling apurado. Busque homens do mesmo nível social e cultural.

    • Realmente a maioria dos gays vão perseguir castelos de fumaça. Eu tenho minha preferência pessoal: curto baixos. Se for alto, pode ser um Apolo que nem ligo. Minha sorte é que na minha região os nanicos são abundantes. Oba! Fico fascinado. Eu nem ligo pra estética, já cobicei gordinho e até um deficiente físico está na mira. Mas tem que ter aquela coisa do olhar. E do papo. Boa conversa me pega mais do que uma escultura grega acéfala. Tem que rolar química, não tesão somente. Conheci um rapaz que não é um padrão de beleza, mas me atrai demais. Eh baixinho, usa uma barba, até aqueles alargadores na orelha, tem sobrepeso. Acha que refuguei ele? Que nada. Lambi os beiços. Nem notei se tinha defeito. Achei o máximo e já estou demonstrando interesse. Existe aquele ditado: quem não arrisca, não petisca. Um grande abraço e não te preocupa. O teu cara pode estar fora do gueto gay. Uma hora vocês se cruzam. Espera e verás.

  3. Muito bem colocado Régis. Eu vivo de olho nos novinhos pela rua, no ônibus, metrô, etc. Não raro dou de cara com aquele tipo de rapaz que me chama a atenção. Eu tenho cara de sério mas é só na fachada. Fico louco pra puxar papo, mas sempre estão de olhar grudado no smartphone ou plugados no fone de ouvido. Aí, por educação nem interrompo. E eu ali parado, doido pra querer conversar e nada. Me dão um olhada, se interessam por um milésimo de segundo e acho que pensam que não vai rolar. E eu doido pra que role. Doido por um sinal que me permita avançar e tentar algo. Mas aí devem pensar que não curto a coisa, talvez pelo uniforme de segurança, sei lá. Parecem ter medo de me abordar ou ficam pensando que sou heterossexual. Mal sabem que é só dar um pequeno espaço que o resto é por minha conta, boto pra quebrar. Não sei o que fazer, pois ficam perdendo uma oportunidade atrás da outra. Abraço.

    • Gaúcho,
      Ao ler seus comentário imaginei a cena e creia é isso mesmo!
      abraço.

    • Os maduros e coroas que não tem coragem de abordar um jovem ou adolescente só porque ele está usando Smartphone e fones, digo uma coisa: Não deixem de ir falar com eles! Porque eles não irão falar com vocês. A maioria é tímida demais pra puxar assunto. O máximo que fazem é olhar, pois a vida que eles tem é virtual, só usam redes sociais e são sozinhas. Sempre desejando a atenção de alguém. Digo por experiência própria.

      • Então vou ter que ficar perguntando as horas ou outra pergunta qualquer. A galera digital precisa entender que quando uma pessoa está com dois fones no ouvido é como se dissessem : Não me perturbem. Já com apenas um sinalizam: estou ouvindo música, mas falo com vc. Trata – se de linguagem corporal. Quem procura alguém deve sinalizar isso. Dois fones: sinal vermelho. Um fone: sinal verde. Não precisa deixar a música. É só ficar com um ouvido livre para alguém. E dar aquela olhada insistente. Aí a coisa anda. Nesse ponto sou bem cara de pau de chegar chegando.

  4. Você está correto em tudo que está escrito. Música eletrônica é muito boa viu rsrs
    Mas sobre nós jovens não sabermos nos expressar, é muito comum. Eu por exemplo não tenho coragem de paquerar um homem, tanto na rua ou em qualquer outro lugar, só pelo Whatsapp ou Facebook.
    Por outro lado, amo literatura e pretendo cursar uma faculdade de letras.
    Mas sobre a paquera, eu particularmente acho os homens maduros um tanto frios; sempre tão sérios que chega dar impressão que se eu for falar com eles eles vão me xingar! Então só olho mesmo.
    Mas como sempre, é um ótimo texto. Parabéns

    • Wellex
      Sucesso nos seus empreendimentos pessoais.
      Gays maduros e idosos são assim mesmo, sérios demais, mas não mordem.
      Por trás de fisionomias circunspectas existem homens sensíveis e amáveis
      abraço

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