Coisas que a vida ensina depois dos 56 anos

sendak_headshotAqui estou eu, apagando um monte de velinhas que nem cabem no bolo.

No balanço de mais um ano, várias realizações foram concluídas, muitas ainda virão e com certeza sem o estigma da velhice precoce, da solidão ou isolamento social que invariavelmente, pega os gays de surpresa, ou não?

Ao fazer reflexões da minha vida, eu me conscientizo do quanto sou privilegiado, mesmo com tantos obstáculos, posso afirmar que sou vencedor.

Outro dia revendo o filme C.R.A.Z.Y – Loucos de Paixão, recordei  a minha juventude e os dilemas íntimos de ser diferente.

Naquela São Paulo dos anos 1970, vivi momentos de pânico ao me descobrir homossexual. Numa época de ditadura militar, justamente eu, fui convocado para servir ao exército, mas por sorte eu pude viver numa época de grandes transformações sociais. Recordo-me das aventuras na Boate Nostromondo ao som de Donna Summer e até os pegas com maconha nas esquinas da Praça Roosevelt.

A minha geração viveu um tempo onde o clima de sedução entre iguais era muito excitante, ou ainda é assim e não percebi?

Os porres de álcool nos finais de semana eram fugas para combater os conflitos interiores. Eu não me aceitava como gay, aliás, quem se aceita? – Incontáveis noites mal dormidas, pesadelos, choros e caminhadas solitárias nas noites de Sampa.

Os anos 80 foram de muitas perdas, mãe, amigos vitimados pela AIDS e a revolta por viver num mundo louco e insensível.

Mas tudo na vida é assim mesmo! Perdas e ganhos.

A partir dos anos 90 a minha vida mudou, entrei de cabeça numa relação estável que durou vinte anos e me dediquei à conclusão do meu curso superior e ao trabalho.

A vida me ensinou tantas coisas que se eu fosse escrever daria um livro, aliás, tudo o que escrevo neste blog são escritos da minha vivência pessoal.

Hoje tenho percepções claras de todas as fases da minha vida. Ser gay não é fácil, mas com o tempo nos acostumamos e ser homossexual passa a ser apenas um detalhe. Não tem jeito, é aceitar ou aceitar, senão vai envelhecer com muitas neuroses e problemas psicológicos.

A vida também ensinou a enfrentar a família sem subjuga-la, a ficar quieto no meu canto nas salas de aula desde a adolescência até concluir a faculdade e ser tolerante com os intolerantes. A inteligência é uma arma poderosa contra a sociedade, no ambiente de trabalho, nas relações sociais e nas situações mais esquisitas que se apresentam diariamente.

Aos cinquenta e seis anos sou um aprendiz, com mente jovem e um corpo em processo de declínio, mas isso é o curso natural da vida.

Já escrevi sobre o planejamento do futuro, para não depender de ninguém, ser independente e autossuficiente e viver uma vida confortável, para poder realizar sonhos, porque o que nos move e impulsa para a vida são os sonhos – Quem não sonha não vive, vegeta.

Aprendi vivendo cada momento com intensidade, o presente é o que me impulsiona para o amanhã, o passado serve apenas como referência nas escolhas atuais e o futuro será consequência do que faço e realizo hoje – Pra mim, Viver é ser livre!

Aquela angústia de não ter ninguém para compartilhar uma cama, um final de semana ou viagem passou. Não é necessário ter um amante, um caso, um namorado. Se acontecer tudo bem! O amor romântico entre gays até existe, mas nunca foi pra mim, porque jamais sonhei amor eterno. Como diz o poeta: Que seja eterno enquanto dure.

Quem escolhe demais fica sem ninguém. É preciso olhar para o outro e descobrir virtudes, não defeitos. A vida ensina tudo o que é necessário para um relacionamento maduro, sem neuroses, ciúmes ou vinganças.

Hoje entendo porque o envelhecimento incomoda, mas estou aprendendo a lidar com as limitações físicas, o importante é manter a mente arejada e aproveitar ao máximo os prazeres que se apresentam diariamente. Nem precisa ser prazer sexual, pode ser uma comida saborosa, um bom filme, um jardim florido, uma mata virgem, uma revoada de pássaros no fim de tarde ou a coisa que eu mais gosto de fazer: Pegar uma estrada e dirigir por horas, ouvindo boa música e contemplando a natureza – Se o namorado estiver ao lado, melhor ainda.

Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 18/06/2015, em Opinião e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 24 Comentários.

  1. Olá Regis, não sou coroa ainda, tenho 30 anos, mas gostei muito de tudo que escreveu, eu não vivi nada perto do que vocês já viveram, mas tenho minhas experiências, nasci numa cidade pequena no interior da Bahia, família sem instrução, família de origem humilde, e me orgulho muito deles, pois lutaram muito para me da educação e caráter.Bom minha família não sabe de mim, e só me assumir homossexual aos 18 anos de idade, e aos 20 tive minha primeira paixão e meu primeiro amor, larguei tudo, e fui viver com ele em Salvador, ele morava com amigos, e eu fui morar com eles, arrumei um emprego, e decidimos morar juntos só os 2 e assim fizemos, fui muito feliz mas infelizmente nada é eterno, ele tinha uma vida promiscua, e claro isso mino a relação. Apenas um relato sobre minha vida amorosa, mas confesso, que a vida homossexual não é mesmo fácil, e dela herdei alguns traumas com os quais não consigo lidar, o principal deles, não consigo olhar nos olhos, mesmo sabendo que o coroa está me paquerando eu baixo a cabeça e saiu de mansinho, isso porque uma vez olhei nos olhos de alguns homens e eles me chamaram de bichinha, viadinho, coisa de cidade pequena. Gostei muito do que escreveu, embora eu não tenha comentado muito, e falado mais a meu respeito. De qualquer forma, obrigado!

    Fernando. Niteroi- RJ

  2. Married Daddy

    Lendo esse texto, monto alguns quadros na minha cabeça… Nesse último fim de semana, levei a minha filha modelo para fazer umas fotos em Sampa (sou de BH) e aproveitei a Virada Cultural…A cada vez me apaixono mais por essa cidade…O Centro, as pessoas, os ursos e coroas lindos da República, a Praça Roosevelt, a região dos Satyros, Galeria do Rock, fora os incontáveis shows da Virada…Tenho poucas (mas belas) histórias nessa efervescente cidade…Regis, vai ter algum post sobre a Virada Cultural de 2015? Você
    esteve lá?

  3. Porque você responde todos os comentários, menos os meus?:/ chateado.

    • Tai, respondi
      Cris você não faz ideia da quantidade de Email e correspondências que tenho que dar conta.
      Além do blog que gera muitos correios eletrônicos, tenho ainda, as respostas da página do Facebook e todos os comentários dos posts.
      Não se chateie não, pois tento ser imparcial e atencioso com todos
      abraço, Regis

      • Ok, me desculpe, e quanto a questão da sua foto, vc poderia fazer um post sobre vc, e já coloca uma foto sua, o que vc acha?

  4. Parabéns! Régis, me identifico muito com seus textos. Sempre tive a curiosidade de ver uma foto sua, tem como?

  5. Parabéns, parabéns, felicidades, grande abraço Regis
    Como sempre seus comentários vão direto aos nossos corações e nos fazem sempre refletir o nosso dia-a-dia, seja feliz sempre

  6. Bartolomeu

    Adoro seus comentários é bom se identificar com outros com mais experiência e verificar que a maioria das coisas que acontecem em nossas vidas não passa de uma fase. Sempre me vejo em muitas situações que você relata aqui no blog. Parabéns por essa iniciativa maravilhosa que faz muitos de nós ver que não estamos sozinhos nesse mundão que parece tão excludente e assustador.

  7. Amigo Regis, parabéns pelo aniversário e pela dicas, também estou diante da mesma situação, com apenas dois anos a menos, tudo igualzinho, fazendo planos, tentando mudar algumas coisas, vasculhando nas gavetas, para não transbordarem e também abrirem espaço para algo mais.
    O que sempre me incomodou não foi o fato de ser gay, mas sim de nunca ter encontrado alguém que se deixasse querer, claro que encontrei vários, mas nunca se permitiram e isso foi me deixando meio que sem expectativas com relação ao fato, ao ponto de hoje ser indiferente, estou mais envolvido naquilo que posso ter, conforto, algumas amizades e tenho buscado conforto espiritual, através da leitura, e o temos de ficar só, não têm jeito mesmo, nascemos sozinhos, ou melhor fomos amparados por nossos pais, e isso tudo faz parte do que chamamos de vida.
    Louvado seja, por essa oportunidade que nos foi concedida, e quanto melhor aceitarmos e nos prepararmos, a espiritualidade nos chama, nem tem como fugir, seja só ou acompanhado, aliás nunca estamos sozinhos, somos todos filhos do mesmo Pai, e com certeza jamais seremos excluídos, se nessa vida passamos por ela nessas condições, e estivemos parcialmente sem um companheiro que julguemos ideal, por algum motivo deve ter sido, e numa próxima oportunidade com certeza o quadro será outro diante de nosso merecimento, pelo menos com certeza daremos mais valor quando alguém realmente cruzar o nosso caminho, e isso é para todo mundo independente de nossa sexualidade, a todas essas somos é muito privilegiados, pois pode ter a certeza que muitos héteros gostariam de estar no nosso lugar, pois temos muito mais compreensão da vida, é como diz o ditado: a dor nos ensina a gemer, e por aí vai.
    Hoje em dia podemos compartilhar as nossas experiências com pessoas que nem conhecemos, como estou agora fazendo com quem entrar neste blog. Um abraço e bola pra frente.

  8. José Elizeu Leal

    Você diz: quem escolhe demais fica sem ninguém.
    Você acha justo uma pessoa ir para a cama no dia a dia com alguém sem a pessoa ter um minimo de tesão? pois é.
    Prefiro ficar eternamente só na minha vida,jamais iria ter um relacionamento só para satisfazer o meu parceiro.
    Tenho 58 anos de idade e gosto demais de me relacionar com pessoas acima de 60 anos de cabelos grisalhos e maduro e responsáveis que tenham caráter e honestidade.
    Sei que seria impossível encontrar a pessoa perfeita, estou lutando ate hoje, há anos acredito que este seja um dos maiores motivos de estar só. Prefiro que seja assim.
    Abraços Elizeu leal, desde Feira de Santana, Bahia.

    • Elizeu
      Obrigado por seus comentários. Quando digo que quem escolhe demais fica sem ninguém, refere-se às exigências que fazemos nas relações.
      É preciso deixar de enxergar os defeitos e ver virtudes nos parceiros com quem nos relacionamos.
      Abraço, Regis

  9. Parabéns Regis! Temos a mesma idade, e sou alguns meses mais velho. Nascemos em 59, uma ótima safra!
    Identifico-me bastante com seus textos. Passamos por experiências muito semelhantes, como todos nós que somos minoria.
    Como todos, no início eu também não me aceitava gay, principalmente por não sentir nenhuma atração por homens da minha idade. Sempre me achei estranho por gostar de homens mais velhos. Passei a maior parte da vida casado com mulheres.
    Mas cansei, amadureci e depois dos 45 fui ao encontro das minhas paixões, até que encontrei o homem da minha vida. Estou casado com ele há 5 anos. Nunca na vida me senti tão completo e feliz. Minha “alma gêmea” faz 71 anos também nesta semana.
    A você, desejo muita saúde, prosperidade, alegrias e felicidade. Que continue escrevendo seus textos, pois através das suas experiências e a dos demais, tenha certeza de que está ajudando e inspirando muita gente a ser mais feliz!
    Um abraço caloroso!

  10. Achei o título “Coisas que a vida ensina depois dos 56 anos” muito interessante, não pela idade, pois dá para se colocar qualquer idade, pois em qualquer idade, a vida tem sempre algo a nos ensinar. Portanto, mesmo que uma pessoa já tenha cem anos, que não ache que já viu tudo que podia ver da vida, pois ela sempre nos surpreende, independente da idade que tenhamos.
    Em certo trecho você coloca que “não se aceitava como gay”, e depois indaga, “aliás, quem se aceita?”. O que vou relatar aqui aproveitando esse gancho não deve ser novidade para muitos (ou nenhum), pois muitos já devem ter passado, passam e ainda outros passarão por isso: sou gay, também não aceitava isso (na verdade ainda não aceito), e por isso já me envolvi com mulher. Não é novidade mesmo, pois quantos não já passaram por isso?
    Em outro trecho você diz: “Ser gay não é fácil, mas com o tempo nos acostumamos e ser homossexual passa a ser apenas um detalhe. Não tem jeito, é aceitar ou aceitar, senão vai envelhecer com muitas neuroses e problemas psicológicos.”. O que me chama mais a atenção nesse trecho é “aceitar ou aceitar”, pois se muitos de nós mesmos temos muitas dificuldades em nos aceitarmos gays, imagine a sociedade! Falando na velhice, não sei o que me espera nela (ninguém sabe), mas independente de tantas neuroses devido à nossa homossexualidade, quero ter alguém ao meu lado, não para cuidar de mim, mas para ficar ao meu lado, independente de qualquer coisa! Falando nisso, você diz que “Se o namorado estiver ao lado, melhor ainda.”. É, amigo, essa é nossa sina (independente de opção sexual): ninguém quer ficar sozinho! Estamos sempre em busca do “companheiro ideal”. Mesmo com a vida promíscua que muitos homossexuais possam levar, mesmo eles não querem ficar sozinhos!

    • Jota
      Obrigado pelos comentários, pois são pertinentes ao texto.
      Sobre minhas viagens de carro por estradas do Brasil, eu não faço questão de companhia, pois com o tempo nos adaptamos a isso. É óbvio, se tiver um companheiro é melhor, mas isso não indica, que não quero ficar sozinho, aliás, solidão é estado de espírito.
      Abraço, Regis

    • Bom comentário. Eu achava que era uma pessoa covarde, pois para minha geração ser viado era algo tremendamente negativo. Engraçado como aceitava isto e, é claro, tinha um enorme conflito. Como também gostava de mulher, as coisas pioravam. “será que sou um pervertido” ou algo assim, pensava eu.

      Depois de velho, na verdade quando cheguei a idade que Regis chegou, tive clareza de que eu era homossexual. Ou bissexual, o nome não importava. Mas que sexo com homem não era apenas algo que eu gostasse, era importante para mim. Esta aceitação para mim mesmo foi uma libertação. No entanto, acho que mesmo assim continuo tendo problemas. Afinal nem todos os homossexuais são exclusivos, nem todos casam com mulheres para disfarçar e manter as aparências. Mas ao aceitar ser viado e continuar casado e levando uma vida formalmente hetero, novos conflitos surgem. E nem sempre são fáceis de resolver.

      Como não sou homossexual “exclusivo”, vivo minha velhice com minha companheira e nos amamos (e odiamos, como de praxe…). Reflito sobre a historia de que não há amor eterno, já falei sobre isto aqui no Grisalhos. O problema dos homens homossexuais é que continuam homens. Não se trata de querer viver até a morte com companheiro(a), mas o desejo, normal, da variedade. No entanto existem ciúmes mesmo assim que, juntando com a dificuldade de viver a dois, acabam com muitas relações até então estáveis.

      Então como fazer? Ser promíscuo, como a natureza masculina pede? E como contornar ciúmes e exigências da vida a dois? Não sei. Vamos levando…

  11. Parabéns Regis!

    Como sempre sua reflexões nos servem…

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