A ciência do Arco-íris

i64816Frequentemente, eu percebo os gays preocupados na busca contínua por algo que explique a causa dos seus desejos. Fui buscar numa matéria da Revista Superinteressante de julho de 2004, a inspiração para escrever sobre este assunto.

Por que há pessoas que sentem atração por outras do mesmo sexo?

Ainda não existe consenso sobre a resposta. No máximo, especialistas definiram quem é gay: não os que provaram desse relacionamento, mas os que sentem atração homossexual.

O mais provável é que gays desejem o mesmo sexo pela combinação de fatores biológicos e experiências de vida. “Todas as manifestações humanas são multicausais”, diz a psiquiatra Carmita Abdo. Veja as teorias que explicam a homossexualidade.

Freudiana – Para o pai da psicanálise, gays tiveram uma relação fragilizada com o pai por culpa de alguma interferência da mãe.

Genética – A sexualidade seria determinada exclusivamente por um gene do cromossomo X. A ideia tem pouca aceitação entre cientistas

Paternidade – Homens heterossexuais têm predomínio do lado esquerdo do cérebro. Mulheres, do direito. Entre gays, a relação seria invertida.

Primeiro prazer – A sexualidade humana seria definida pelo primeiro registro cerebral de uma experiência prazerosa.

Por mais que cientistas tentem explicar a homossexualidade, isso pouco favorece os homossexuais, porque é difícil aceitar e viver nessa condição. Tem gente que recorre aos psicólogos e outros são mais radicais e apelam até para a religião.

Desde adolescente eu queria saber por que eu era homossexual e assim com todos vocês eu me perguntava: porque eu? Que sina é essa? Porque sou diferente? Porque sou anormal? Isso não pode ter acontecido justamente comigo!

No decorrer da minha vida eu descobri que ser homossexual não era tão ruim. Algumas vezes transei com mulheres, logo eu não era gay e me definia como bissexual. Outras vezes transei com homens e me sentia da mesma maneira. Eu imaginava que aquilo era passageiro e eu retornaria à condição normal, mas a sexualidade humana é uma caixinha de surpresas.

Eu pensava que fazer sexo com homens ou com mulheres não definia se eu era heterossexual, bissexual ou homossexual. O sexo podia ser com qualquer gênero, até os animais são assim. É uma coisa primitiva.

A minha busca incessante por respostas me deixava infeliz, inseguro, triste e acuado, mas a minha vida tomou um rumo a partir do momento que eu me apaixonei por outro homem, ali sim, eu soube definitivamente quem eu era. Caramba! hoje lembrando aquela situação me vem as lembranças de quantas coisas malucas eu fiz para estar ao lado daquele homem.

Quando amei pela primeira vez eu percebi que não tinha volta. Imagine você, um jovem de dezessete anos amando um homem de quarenta anos. Naquele momento eu finalmente comecei a aceitar a homossexualidade, na minha cabeça ser homossexual não era ter atração por alguém do mesmo sexo, mas sim, gostar e amar de outro homem e o sexo era consequência dos meus sentimentos.

A partir da descoberta do amor homossexual eu parei de me culpar ou procurar respostas. Se eu amo um homem, consequentemente, sinto atração por ele e essa atração me dá prazer sexual – simples assim!

Eu respeito os gays que querem se casar, pois são pessoas que se amam e querem viver e compartilhar uma vida a dois.

Eu já escrevi aqui no blog sobre um amigo chamado Odair que estava noivo e com casamento marcado. Sem mais nem menos ele se apaixonou por outro homem. Ele largou a noiva no altar e foi viver o seu amor homossexual. Uma vez ele me falou: Cara, eu não sei o que aconteceu na minha vida, ou o que eu estou fazendo neste mundo gay, mas eu amo o meu companheiro e jamais passou na minha cabeça que eu fosse homossexual.

O Odair não ficou em cima do muro, ele estava amando um homem, então percebeu que não amava a sua noiva. Quem ama uma mulher pode amar um homem? Ou, o amor se confunde com o sexo?

A ciência não explica, mas um homem casado que busca sexo fora do casamento, indica que ele é bissexual ou homossexual? Ou depende dos sentimentos? Na maioria dos casos, o casamento foi uma fuga para esconder a homossexualidade da família e da sociedade.

Também, no meu ponto de vista, o amor homossexual não é carência de afetividade do pai ou da mãe. O amor seja ele por homem ou mulher é um sentimento que não se explica, simplesmente acontece. Amor também não tem nada a ver com genética ou tem?

Tanto faz se um jovem ama outro jovem, ou um homem maduro, ou mesmo um idoso e vice-versa. Como explicar o amor de um idoso por um jovem? carência de filhos? e o amor do jovem por outro jovem? carência ou rejeição de irmãos? e o amor de um jovem por um maduro ou idoso? carência afetiva do pai? Somos homossexuais porque sentimos atração pelo mesmo sexo, logo nos entregamos ao amor, ao carinho e ao sexo com iguais.

Hoje aos cinquenta e seis anos eu afirmo: já amei pelo menos uns quatro homens e nenhuma mulher, portanto, sou homossexual e a ciência do arco-íris nunca me ajudou na busca por respostas que eu julgava importantes.

Estudos mais atuais indicam que o fator biológico ligado à homossexualidade não estaria na genética propriamente dita, e sim em um conceito conhecido por epigenética ou seja, a memória celular.

Enfim, para a maioria das pessoas, inclusive pra mim, o racionalismo científico representa o oposto do encanto, da poesia e dos mistérios do amor.

Em síntese: segundo Foucault, muitos homossexuais estão por demais paralisados na busca contínua por algo que explique a causa de seus desejos, no lugar de viverem estes desejos.

Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 11/05/2015, em Ciência, Comportamento, Sexualidade e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Muito bom texto.
    Sou jovem e gosto de idosos, não tem explicação, è um sentimento muito bom e que me contagia.

  2. Interessantes reflexões. Me parece que a parte final talvez seja a mais importante, não conseguimos muita coisa pelas explicações científicas. Um motivo é que a variedade do comportamento sexual é muito grande.

    Dizer que amar a um homem nos faz homossexual, bem, é verdade. Mas e se nunca nos apaixonamos “de verdade” por homens, mas queremos sexo com eles, as vezes mais do que com mulheres?
    Eu já me apaixonei por muitas mulheres. Com algumas tive sexo ou uma relação que perdurou. Com outras, poucas, tive relações por algum tempo, mas sem paixões, carinho, um certo amor, mas não paixão e amor prolongados. Por homens tive paixonites curtas, nada parecidas com as que tive com mulheres.

    No entanto sempre tive o problema de minha sexualidade, a vontade desde muito pequeno de fazer sexo com homens. Minha primeira, e muito precoce, experiência de prazer sexual foi com outros meninos. Nem sabia o que acontecia, mas gostei muito. Depois ao descobrir que “homem não faz isto com homem”, só viados, por muito tempo busquei sexo hetero, não por nada, mas porque me atraia, e muito. Ao mesmo tempo reprimi meus desejos sexuais até adulto. Só aos poucos, e bem mais velho, vi que eu era viado, quer dizer, tinha uma enorme atração por homens ativos e que, sem fazer sexo com eles, faltava alguma coisa fundamental em minha sexualidade.

    Por muito tempo, mais até do que Regis, fiquei querendo explicações. Nem sei as busco mais. Sinto-me feliz por ter assumido ser como sou. E acho que para todo gay o mais importante é se aceitar.

    Se vier a me apaixonar novamente, não importa por quem, não preciso de explicações.

    E indo para a cama com homens sempre que posso, também não busco razões além do desejo…

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