Os antigos carnavais de São Paulo

O folião, fantasiado de palhaço, descansa durante o carnaval

O folião, fantasiado de palhaço, descansa durante o carnaval

Todo ano aqui no blog rola um artigo sobre o tema. Todo ano, arrisco sociologias, antropologias e até profundidades psicológicas sobre a cultura do carnaval, principalmente, para os LGBT.

Lá estava eu preparando este artigo quando viajei nas minhas memórias de antigos carnavais.

Noutras épocas em terras tupiniquins, os bailes de salão eram válvulas de escape para os gays vivenciarem sua homossexualidade e tudo dentro de normas comportamentais até puritanas se comparadas aos bailes atuais.

As festas de rua também despertavam o interesse dos enrustidos e a partir dos anos sessenta os desfiles das escolas de samba massificaram a presenta de homossexuais entre carros alegóricos, passistas e alegorias.

Hoje os velhos carnavais são vistos como coisa de saudosistas, românticos demais para os jovens, pois o mundo virou do avesso nas últimas décadas.

Blocos pelas ruas de São Paulo em  1973

Blocos pelas ruas de São Paulo em 1973

Relembrando antigos carnavais, principalmente em São Paulo onde passei minha juventude, hoje aquelas situações e circunstâncias parecem banais. O lança-perfume que ejetava o éter perfumado no lenço mais parece experimento juvenil – A cabeça começava a rodar, as músicas ficavam longínquas, os gritos se abafavam e eu desmaiava no chão.

Ainda sinto o tremor dos porres homéricos, os homens musculosos passeando nos meios-fios da Avenida Ipiranga, os vômitos salpicados de confete, bichas e travestis esfaqueados com sangue no asfalto, as manchetes nos jornais: “Rasgou à faca o coração do amante”. Era crime passional!

E os beijos no banheiro da Boate Medieval, os chupões e sarros no calor infernal que jorrava suor, com gosto de cerveja, os “amassos” no beco escuro, porque dar o cu nem pensar, os beijos sem destino, os céus de purpurina, as teias de serpentinas coloridas.

Naqueles tempos havia muito menos gente, sem sexo esfregado na cara; eram carnavais com esperança de se encontrar um grande amor na esquina, um carnaval sem camisinha e nem AIDS.

Um amontoado de veados se esfregando no cordão de isolamento entre a passarela do samba e a Avenida Tiradentes, mãos bobas apalpando cacetes duros e outras mãos esfregando a bunda dos passivos.

Baile de Carnaval do Clube Pinheiros 1961

Baile de Carnaval do Clube Pinheiros 1961

Lembro-me também, dos bailes dos heterossexuais e grã-finos no Teatro Municipal e nos clubes: Militar, Monte Líbano, Juventus, Palmeiras, Corinthians e tantos outros, pulava-se carnaval até em galpões improvisados nos bairros da cidade.

Nessas memórias lembrei-me de Tula, o anjo gay caído, das noites mal dormidas, dos passeios pelo gueto gay, do carnaval nos inferninhos do baixo meretrício da Rua Aurora, dos boquetes anônimos na Praça Roosevelt, dos bacanais do carnaval das Boate Homo Sapiens e Nostro Mondo, da busca frenética por um corpo antes da quarta-feira de cinzas.

Transformista chegando à Boate Medieval no capô de um Opala 1971

Transformista chegando à Boate Medieval no capô de um Opala 1971

Para aqueles que não curtiam a folia, tinham as sessões noturnas nos cinemas do centro. Os mais concorridos eram Cine Ipiranga e o Art Palácio. O máximo que rolava era a mão na coxa de um estranho no escuro, uma punheta mal batida que terminava no lenço do parceiro, e com o cu na mão com medo do lanterninha.

Ainda vejo o André, uma bicha louca correndo e gritando, mendigos rebolando, confundidos com foliões, os primeiros veados assumidos desfilando, às vezes levavam porrada, pois era duro ser gay naqueles tempos.

Os primeiros travestis de São Paulo, as roupas de luxo do Clóvis Bornay vistas em preto e branco, porque não tinha TV em cores, a bicha com um escravo negro abanando-a. Até memórias mais remotas de Madame Satã, precursor das drag queens, negro bom de briga, saindo na porrada com os policiais de cassetete, ele vestido de bailarina, peruca loura, dando-lhes rasteira de salto alto.

Muito hilário, até parece filme pastelão, mas essas são algumas das cenas dos meus antigos carnavais, lembranças de muitos baús, ou simplesmente cinzas de um carnaval que já não temos mais.

Como escreveu Manuel Bandeira: o carnaval é um bacanal que se impregna da relação dionisíaca com a vida, dessa cambalhota, dessa máscara dos avessos que é oficialmente permitida nos tempos de carnaval.

É isso ai! Bom carnaval a todos os leitores dos GRISALHOS.

Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 13/02/2015, em História e marcado como . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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