A vida de um gay idoso no Asilo

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Seu José, sentado ao lado de uma interna

Numa das minhas viagens às cidades do interior do Estado de São Paulo, eu fui parar numa festa para arrecadar dinheiro para um asilo de idosos. A festa chamada de “Pamonhada” ocorreu no próprio asilo, no último sábado, dia 17 de maio.

Após comer um milho cozido eu observei que o Lar dos Idosos estava em festa e os idosos estavam nas portas de seus alojamentos, recepcionando os visitantes.

Após tirar algumas fotografias eu fui conversar com um idoso sentado ao lado de uma mulher idosa e  também moradora do local, porque de certa forma, eu percebi que ele era gay – Os gays se percebem com facilidade.

Seu José tem 83 anos e vive há quinze anos no asilo, ou seja, desde os 68 anos, após sofrer um AVC e ter parte do lado esquerdo do corpo paralisado. Homossexual assumido ele disse: pior do que viver no asilo é viver “lá fora” e sem nenhum apoio de parentes ou amigos. O mais triste é perceber quando a velhice chega e as doenças aparecem, as pessoas somem da sua vida. Ninguém quer cuidar de velho, ainda mais um velho homossexual, concluiu.

Para ele viver no asilo não é um problema, pois, sempre se manteve no seu lugar. No começo é meio estranho, mas após um ou dois anos, você se acostuma. Os vizinhos de alojamento aos poucos vão descobrindo quem você é, e quando descobrem que você é homossexual, eles te deixam de lado nas conversas durante o café da manhã, ou nas refeições e ai você percebe o que é estar realmente sozinho e num lugar estranho à sua casa, onde você viveu quase a vida inteira.

Com o passar do tempo os colegas se aproximam e gradativamente passam a te aceitar, porque a única diferença entre você e eles é a sexualidade. A velhice é igual para todos, as doenças e o abandono afastam parentes e amigos de anos de convivência e ai entram em cena pessoas desconhecidas e idosas como você.

160A rotina do seu José é igual desde que chegou ao local em 1999. Levanta-se por volta das 6h30, toma banho e café. A parte da manhã é livre e depende das condições físicas de cada um. Os mais saudáveis fazem caminhada na área interna. Alguns fazem trabalhos leves, como cuidar das plantas e da horta. Aqueles com problemas físicos ficam sentados em cadeiras colocadas na varanda. Alguns não se locomovem e precisam de cadeira de rodas.

Após o almoço a maioria prefere tirar uma soneca e à tarde alguns assistem televisão. O jantar é servido às 18h30 e após 21h poucos ainda circulam nas áreas externas aos dormitórios. No asilo tem uma capela de Nossa Senhora Aparecida.

Essa rotina muda nos finais de semana, quando alguns internos recebem visitas de familiares e amigos e quem não tem ninguém, passa o dia sem nada para fazer, a não ser ler algum livro ou revista e ver TV. No caso do seu José ele passa a maior parte do tempo lembrando-se da vida, da adolescência, da fase adulta e dos bons momentos que passou ao lado de alguns companheiros que teve.

Seu José diz que a vida é uma viagem e apenas nos damos conta de que foi boa depois que passou. Nem tudo são flores, mas chegar aos 83 anos é uma dádiva da natureza, mas lamenta a falta de humanidade das pessoas. Envelhecer é um fardo e quanto mais velho fica, mais difícil é seguir vivendo isolado da sociedade. Ele reza todos os dias para o seu estado de saúde não piorar, porque não gosta de ficar entravado numa cama.

Perguntado sobre como ele é tratado por funcionários e voluntários, ele sorri e com voz mansa disse: Sou bem tratado pelos funcionários, apesar de perceber a falta de privilégios dados aos homens mais machões que vivem contando suas histórias de conquistas e sexo com as mulheres. Já os voluntários são neutros e gostam de ouvir histórias da minha vida e a curiosidade sobre os meus dias de glória quando paquerava rapazes lá na minha idade. Alguns até se espantam quando eu digo que tive um namorado que eu amei muito, lá pelos idos de 1951.

Os voluntários jovens são mais abertos a esse tipo de conversa e seu José não tem nenhum receio de conversar sobre este assunto.

Sobre a morte ele disse: Meu filho, nesses quinze anos aqui, eu vi homens e mulheres morrerem e a morte me parece ser o presente mais digno que um ser humano pode receber.

A minha vida foi boa, não tenho do que reclamar, aliás, não adianta reclamar, porque a morte é certa. Aqui é um local que eu chamo de “preparação”. É preciso saber que sua hora vai chegar e quando chegar tem que aceitar, pra mim, o sofrimento psicológico é pior do que o sofrimento físico, mas quero morrer sem dor.

Eu não resisti. Dei um beijo na sua face, afaguei os seus cabelos brancos e quase chorei. Na despedida ele abriu um leve sorriso e disse: Volte logo hein!, quem sabe na sua próxima visita eu já não esteja mais aqui.

Fotos: Regis – Asilo São Vicente de Paulo.

Sobre Regis

57 anos de idade, residente na cidade de São Paulo

Publicado em 19/05/2014, em Saúde, Sociedade e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 11 Comentários.

  1. Douglas Fabiano

    Que texto maravilhoso, emocionante, porém uma realidade triste, que muitos hoje vivem em diversos locais espalhados pelo mundo.

  2. Por isso gay tem que ser chefe, milionário, poderoso. Não pode se curvar a ninguém. Se possível, ser dono até do asilo durante a velhice. Temos que parar de aceitar este tratamento desumano da sociedade. Não quero morrer sem sentir o gosto da vingança, transformar todos esta humanidade monstruosa em minha mão-de-obra vassala.

  3. Mateus Gonçalves

    Que relato lindo, ao mesmo tempo que descreve uma triste realidade, a do idoso, que já é um fardo diante das atrocidades que vemos diariamente relacionados a eles, e gay, que acentua essa situação devido a estigmatização social, onde juntas enfrentam outros problemas de ordem estrutural da sociedade, como a negação infundada da sexualidade dos idosos.
    Triste ver e saber que essas pessoas são abandonadas, negligenciadas e afetivamente esquecidas por seus familiares. Muito emocionante!
    Compartilharei hoje, dia internacional de combate a violência ao idoso. Um forte abraço!

  4. Lindo e verdadeiro seu texto. Infelizmente esta é a realidade em nosso país e, principalmente, para gays maduros/idosos. Abraços e foi um enorme prazer descobrir seu blog!

  5. Gostei da história, mas achei contraditória. O quinto parágrafo começa dizendo que ele e homossexual NÃO assumido, depois fala até dos relacionamentos homossexuais dele. Deixou-me confuso. Aí, pra fazer sentido resolvi suprimir por conta própria o NÃO do texto.

  6. Parabéns Regis, lindo demais esse post, nos faz refletir sobre a importância da vida!
    Abração.

  7. Sempre desejei conhecer um asilo, ou mesmo trabalhar como voluntario. Pena que atualmente tenha de enfrentar a fobia social, que me priva dessas experiências. Por sorte o pessoal do local onde estudo combinou hoje (no dia em que li esse post) uma ação social ligada à um asilo ou creche. Quem sabe me encante, e eu perca o medo. Depoimento maravilhoso, obrigado por compartilhar. Parabéns pelo blog!

  8. Parabéns!
    Continue sempre assim…

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